{"id":29390,"date":"2008-01-17T10:36:01","date_gmt":"2008-01-17T10:36:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/17\/jesus-de-nazare-a-procura-de-um-rosto\/"},"modified":"2008-01-17T10:36:01","modified_gmt":"2008-01-17T10:36:01","slug":"jesus-de-nazare-a-procura-de-um-rosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jesus-de-nazare-a-procura-de-um-rosto\/","title":{"rendered":"Jesus de Nazar\u00e9: a procura de um rosto"},"content":{"rendered":"<p> Certamente n\u00e3o preciso de dizer expressamente que este livro n\u00e3o \u00e9 de modo algum um acto do magist\u00e9rio, mas unicamente express\u00e3o da minha busca pessoal do \u00abrosto do Senhor\u00bb (Sal 27,8). Por isso, cada um tem a liberdade de me contradizer. Pe\u00e7o apenas aos leitores aquela pressuposi\u00e7\u00e3o de simpatia, sem a qual n\u00e3o h\u00e1 qualquer compreens\u00e3o (25).  Esta j\u00e1 c\u00e9lebre afirma\u00e7\u00e3o com que Joseph Ratzinger termina o \u201cPref\u00e1cio\u201d da sua mais recente obra Jesus de Nazar\u00e9 constituiria, por si s\u00f3, uma raz\u00e3o suficiente para uma boa s\u00e9rie de debates e estudos teol\u00f3gicos. Com efeito, ela introduz uma no\u00e7\u00e3o de magist\u00e9rio que ultrapassa largamente aquela outra \u2013 redutora, mas que n\u00e3o raras vezes se v\u00ea usada em pensamento pretensamente teol\u00f3gico \u2013 de \u201cum conjunto de opini\u00f5es (ainda que respeit\u00e1veis) pronunciadas por algum membro do Col\u00e9gio Episcopal\u201d. A partir da afirma\u00e7\u00e3o atr\u00e1s referida, vemos claramente como o magist\u00e9rio est\u00e1 para al\u00e9m das opini\u00f5es daquele que as pronuncia, para al\u00e9m do resultado das investiga\u00e7\u00f5es e da formula\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses, ou mesmo de teses teol\u00f3gicas, com as suas escolas, os seus paradigmas, os diferentes m\u00e9todos no uso da raz\u00e3o crente. Esta afirma\u00e7\u00e3o de Ratzinger apresenta ainda uma novidade: ela faz uma distin\u00e7\u00e3o entre a pessoa do te\u00f3logo, com a sua obra de investiga\u00e7\u00e3o, que fez com que j\u00e1  fosse apelidado por alguns como \u201co maior te\u00f3logo cat\u00f3lico vivo\u201d, e o magist\u00e9rio papal de Bento XVI, expresso nos documentos publicados sob a sua assinatura, com os seus diferentes valores, e empenhando por isso em graus diferentes o assentimento dos fi\u00e9is. O livro \u00e9 pois uma obra do te\u00f3logo Joseph Ratzinger, que n\u00e3o hesita em conjugar diferentes autores, contempor\u00e2neos ou n\u00e3o, e em efectuar op\u00e7\u00f5es entre v\u00e1rias linhas do pensamento teol\u00f3gico.  N\u00e3o \u00e9, contudo, a partir destas perspectivas que irei apresentar o livro Jesus de Nazar\u00e9, por muito que tal seduzisse um professor de teologia fundamental. Se coloquei aquela passagem como p\u00f3rtico desta minha apresenta\u00e7\u00e3o foi antes por uma outra raz\u00e3o. Penso, com efeito, que aquela afirma\u00e7\u00e3o nos oferece uma grelha de leitura do resto do livro: Joseph Ratzinger, te\u00f3logo, sacerdote, bispo, cardeal e Papa, n\u00e3o hesita em confessar, aos 80 anos de idade, que continua a viver um caminho pessoal de crente, e que este caminho consiste numa \u201cbusca pessoal do rosto do Senhor\u201d. 2000 anos depois, o rosto de Jesus de Nazar\u00e9 continua a ser objecto de procura, e o primeiro a realizar essa busca, usando para tal todos os instrumentos teol\u00f3gicos ao seu dispor, \u00e9 o homem crente que hoje sucede ao Ap\u00f3stolo Pedro. Afinal, \u00e9 precisamente no dinamismo do encontro e na procura do rosto do Senhor que consiste a vida crist\u00e3 \u2013 e mesmo a pr\u00f3pria teologia.  N\u00e3o se trata, obviamente, da atitude t\u00e3o p\u00f3s-moderna de quem caminha pelo simples gosto de caminhar, sem norte, e sem esperan\u00e7a de chegar a qualquer meta. Trata-se antes de perceber que quem se deixa encontrar pela pessoa de Jesus, v\u00ea abrir-se diante de si um imenso, infinito, mas, ao mesmo tempo, apaixonante horizonte de verdade.  Significativamente, esta obra tem como t\u00edtulo Jesus de Nazar\u00e9 \u2013 e n\u00e3o Jesus Cristo, ou O Senhor ressuscitado\u2026 Com efeito, o rosto que d\u00e1 origem \u00e0 procura incessante que anima a vida do crente e o trabalho do te\u00f3logo \u00e9 o rosto do homem Jesus de Nazar\u00e9. N\u00e3o se trata, pois, da tentativa de, a partir de uma qualquer atitude de f\u00e9, passar para o papel um \u201cretrato robot\u201d do fundador de uma qualquer religi\u00e3o; tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de, a partir da opini\u00e3o dos v\u00e1rios crentes, procurar o denominador comum daquele que \u00e9 objecto da f\u00e9 crist\u00e3. Trata-se, isso sim, de procurar hoje a figura hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9, e de colocar a hip\u00f3tese de que este mesmo Jesus tenha em si a capacidade de oferecer sentido \u00e0 vida do homem do s\u00e9c. XXI.   A obra Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9, conscientemente, uma obra pol\u00e9mica. Em primeiro lugar porque coloca a possibilidade de, no homem Jesus encontrarmos Deus e, depois, porque conscientemente procura ultrapassar os limites estreitos da moderna exegese hist\u00f3rico-cr\u00edtica.  Toda a modernidade \u2013 e, podemos tamb\u00e9m afirm\u00e1-lo, a p\u00f3s-modernidade, ainda que numa perspectiva bem diferente \u2013 tem como princ\u00edpio dogm\u00e1tico animador de todo o seu pensamento aquele segundo o qual n\u00e3o pode existir qualquer tipo de contacto entre natural e sobrenatural: Deus n\u00e3o pode viver a hist\u00f3ria. Esta poder\u00e1 ser absolutizada e divinizada; Deus poder\u00e1 ser reduzido \u00e0 mat\u00e9ria, ou, quando muito, o divino ser considerado uma dimens\u00e3o paralela \u00e0 da hist\u00f3ria mas sempre sem qualquer possibilidade de comunica\u00e7\u00e3o com esta. Foi este dogma da modernidade que deu origem \u00e0 exegese hist\u00f3rico-cr\u00edtica. Com efeito, os 4 evangelhos, para al\u00e9m das incongru\u00eancias de ordem cronol\u00f3gica e geogr\u00e1fica, cont\u00eam, sobretudo, uma s\u00e9rie de relatos que, para os racionalistas de finais dos s\u00e9culos XVIII, e dos s\u00e9culos XIX e XX, constituem algo de verdadeiramente insuport\u00e1vel: os milagres. Deus n\u00e3o poderia intervir na hist\u00f3ria, n\u00e3o poderia modificar, por um pouco que fosse, as leis que Ele pr\u00f3prio promulgara ao criar o mundo, e que a raz\u00e3o humana, em particular \u00e0s ci\u00eancias naturais \u2013 e apenas elas \u2013 poderiam perceber. Num mundo em que as ci\u00eancias naturais e a t\u00e9cnica s\u00e3o as rainhas do saber, \u00e0 exegese caberia, assim, a tarefa de purificar os relatos evang\u00e9licos de tudo aquilo que tivesse um sabor a milagre, acantonando esses \u201cdesperd\u00edcios\u201d no arquivo dos \u201crelatos mitol\u00f3gicos\u201d. O \u201cmilagre\u201d e a sua narra\u00e7\u00e3o seriam apenas a interpreta\u00e7\u00e3o da pessoa de Jesus, realizada h\u00e1 2 mil anos por homens que n\u00e3o tinham acesso \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica. A partir do momento em que esta \u00e9 uma realidade, seria indigno para qualquer pensador a abordagem dos Evangelhos a partir de outra perspectiva que n\u00e3o a da raz\u00e3o natural. Seria pois necess\u00e1rio reescrever os evangelhos: da\u00ed que os exegetas se tenham lan\u00e7ado na escrita das c\u00e9lebres \u201cVidas de Jesus\u201d, a mais conhecida das quais da autoria de Ernest Renan. Coube a Albert Schweizer, no in\u00edcio do s\u00e9c. XX, mostrar como os resultados desta investiga\u00e7\u00e3o eram mais o fruto de uma projec\u00e7\u00e3o subjectiva e imaginativa do exegeta sobre a pessoa de Jesus, do que o resultado efectivo de uma investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. \u00c0s suas conclus\u00f5es pessimistas juntou-se depois R. Bultmann, defendendo que n\u00e3o apenas seria imposs\u00edvel conhecer a figura hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9 a partir dos relatos evang\u00e9licos, como tal seria mesmo indesej\u00e1vel para a f\u00e9. Esta consistiria antes no significado que cada crente constr\u00f3i na sua exist\u00eancia a partir do an\u00fancio da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus: trata-se da conhecida e nefasta divis\u00e3o entre o Jesus da hist\u00f3ria (desconhecido e in\u00fatil) e o Cristo da f\u00e9, \u00fanico a poder animar a vida do crente. Felizmente, a exegese n\u00e3o se contentou com t\u00e3o parcos resultados. Com efeito, existem nos evangelhos relatos de afirma\u00e7\u00f5es e de gestos de Jesus que se apresentam como absolutamente originais e injustific\u00e1veis, seja a partir do juda\u00edsmo seja a partir do cristianismo dos primeiros anos. A \u00fanica possibilidade para a exist\u00eancia de tais narra\u00e7\u00f5es \u00e9 que elas tivessem na sua origem a pessoa hist\u00f3rica de Jesus. Partindo delas, seria poss\u00edvel apresentar um retrato hist\u00f3rico, absolutamente fi\u00e1vel, de Jesus de Nazar\u00e9. Em meados dos anos 80 um outro passo foi dado na procura do Jesus hist\u00f3rico. Se at\u00e9 ent\u00e3o a exegese sublinhava o contraste, a originalidade entre Jesus e o juda\u00edsmo do seu tempo, agora toma-se consci\u00eancia de que Jesus foi um judeu. Com efeito, ele nunca renegou a f\u00e9 de Israel e sempre se inseriu na vida religiosa do seu povo. Por isso, mais que sublinhar o contraste, haveria que sublinhar a integra\u00e7\u00e3o de Jesus no juda\u00edsmo de h\u00e1 2000 anos.  Mas, para que n\u00e3o restassem quaisquer possibilidades de contesta\u00e7\u00e3o, continuaria a ser essencial passar os relatos evang\u00e9licos pelo crivo de uma d\u00favida met\u00f3dica, considerando hist\u00f3rico apenas o que n\u00e3o apresentasse qualquer justifica\u00e7\u00e3o no juda\u00edsmo ou no cristianismo de h\u00e1 2000 anos, e que, ao mesmo tempo, se integrasse nos usos e costumes judaicos. Por isto mesmo, o ponto de partida n\u00e3o poderia ser a f\u00e9 e as suas afirma\u00e7\u00f5es; quando muito, seria a exegese a determinar os limites e o conte\u00fado da f\u00e9. Os acontecimentos teriam pois sempre uma explica\u00e7\u00e3o racional; desta deveria desaparecer qualquer afirma\u00e7\u00e3o de milagre. Parece que, finalmente, se teria chegado ao \u201cm\u00e9todo\u201d para ler os evangelhos e conhecer a pessoa hist\u00f3rica de Jesus. Contudo, a leitura das obras at\u00e9 agora publicadas por esta corrente n\u00e3o deixa de criar uma grande perplexidade. Jesus aparece nelas ora como um campon\u00eas judaico, ora como um mago, ora como um revolucion\u00e1rio\u2026 Ou seja, encontramo-nos, uma vez mais, perante a projec\u00e7\u00e3o da imagem que o exegeta tem de Jesus.  A partir destas considera\u00e7\u00f5es, aqui necessariamente superficiais, e com a ajuda de uma afirma\u00e7\u00e3o de Bento XVI em 7 de Maio de 2005, podemos compreender o m\u00e9todo com que o livro Jesus de Nazar\u00e9 foi redigido. Dizia o Papa:    Onde a Sagrada Escritura \u00e9 separada da voz viva da Igreja, torna-se v\u00edtima das controv\u00e9rsias dos peritos. Sem d\u00favida, tudo o que eles t\u00eam para nos dizer \u00e9 importante e precioso; o trabalho dos s\u00e1bios \u00e9 para n\u00f3s uma ajuda not\u00e1vel para poder compreender aquele processo vivo com o qual a Escritura cresceu e, assim, compreender a sua riqueza hist\u00f3rica. Mas a ci\u00eancia, por si, n\u00e3o nos pode fornecer uma interpreta\u00e7\u00e3o definitiva e vinculante; n\u00e3o \u00e9 capaz de nos oferecer, na interpreta\u00e7\u00e3o, aquela certeza com a qual podemos viver e pela qual podemos at\u00e9 morrer. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio um mandato maior, que n\u00e3o pode surgir unicamente das capacidades humanas. Para isso \u00e9 necess\u00e1ria a voz da Igreja viva, daquela Igreja confiada a Pedro e ao col\u00e9gio dos ap\u00f3stolos at\u00e9 ao fim dos tempos.  Significar\u00e1 isto que, de novo, regress\u00e1mos ao cepticismo sobre a possibilidade de conhecer a pessoa de Jesus de Nazar\u00e9? A resposta de Ratzinger n\u00e3o poderia ser mais negativa: podemos e devemos conhecer a pessoa hist\u00f3rica de Jesus. Mas, ao mesmo tempo, ela afirma que, para conhecer esta pessoa em toda a sua riqueza, n\u00e3o bastam os resultados, mesmo que \u201cimportantes e preciosos\u201d, dos peritos em Sagrada Escritura.  Se \u00e9 certo que \u201co m\u00e9todo hist\u00f3rico \u00e9 e permanece uma dimens\u00e3o irrenunci\u00e1vel do trabalho exeg\u00e9tico\u201d (15), n\u00e3o \u00e9 de menor import\u00e2ncia que este deve ser realizado n\u00e3o num pretenso \u201cambiente neutral\u201d \u2013 perante a pessoa de Jesus n\u00e3o existe neutralidade poss\u00edvel \u2013 mas claramente no seio de uma decis\u00e3o de f\u00e9. Mais: em cada narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica ressoa constantemente a m\u00fatua interpreta\u00e7\u00e3o entre Antigo e Novo Testamento, pelo que se deve reafirmar o princ\u00edpio segundo o qual a Escritura \u00e9 a primeira exegeta de si pr\u00f3pria. E devemos ainda ir mais longe, e ter em conta todas as leituras e interpreta\u00e7\u00f5es realizadas ao longo de 2000 anos de teologia e de vida eclesial. Nestes vinte s\u00e9culos, a riqueza de Jesus de Nazar\u00e9 deu origem a uma pluralidade de leituras, a um enorme conjunto de interpreta\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e existenciais: se queremos perceber hoje a riqueza da pessoa de Jesus n\u00e3o as podemos, sobranceiramente, ignorar.  \u00c9 com o conhecimento de toda esta riqueza que Joseph Ratzinger ousa apresentar o resultado da sua busca crente do rosto de Jesus de Nazar\u00e9. Com ela, Ratzinger procura mostrar como os quatro evangelhos, lidos com uma abordagem que tenha em conta todo o patrim\u00f3nio eclesial (e, portanto, tamb\u00e9m o exeg\u00e9tico), constituem o melhor retrato hist\u00f3rico de Jesus: o retrato coerente de Algu\u00e9m que, ultrapassando os limites culturais e temporais, continua a interrogar o homem contempor\u00e2neo como outrora interrogou os disc\u00edpulos: \u201cQuem \u00e9 este homem?\u201d Mas a obra Jesus de Nazar\u00e9 vai mais longe. Ela mostra, com efeito, que a afirma\u00e7\u00e3o de Jesus como Deus constitui a \u00fanica hip\u00f3tese que permite perceber coerentemente a pessoa hist\u00f3rica do Nazareno. A f\u00e9 crist\u00e3, que v\u00ea em Jesus o \u201cFilho\u201d de Deus, n\u00e3o come\u00e7a apenas na manh\u00e3 da ressurrei\u00e7\u00e3o, ignorando ou modificando a pessoa e o minist\u00e9rio de Jesus de Nazar\u00e9. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 precisamente na pessoa e no minist\u00e9rio do Nazareno, \u00e9 neste homem concreto, que Deus se diz \u00e0 humanidade. Deus n\u00e3o se revela numa qualquer doutrina ou num qualquer acontecimento esmagador e extraordin\u00e1rio: Deus revela-se na vida concreta, hist\u00f3rica, na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9 \u2013 e nisto consiste \u201co milagre\u201d por excel\u00eancia. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a pessoa do Nazareno \u00e9 t\u00e3o sedutora. \u00c9 a raz\u00e3o que impele o crente a procurar sempre o seu rosto. Ao faz\u00ea-lo, o crente encontra o homem Jesus de Nazar\u00e9 \u2013 e, a um dado momento, percebe que, afinal, foi este Jesus quem o encontrou e lhe mostrou Deus em 1.\u00aa pessoa. O que seduz em Jesus n\u00e3o \u00e9 apenas a realidade do homem mas o mist\u00e9rio de Deus que se diz e se faz encontrar neste homem de Nazar\u00e9. Por isso, o livro Jesus de Nazar\u00e9 n\u00e3o se limita ao enunciado de umas quantas conclus\u00f5es arqueol\u00f3gicas acerca do Nazareno, antes mostra, passo a passo, como Ele continua a oferecer hoje o sentido pleno da vida humana. A obra Jesus de Nazar\u00e9 mostra como \u00e9 razo\u00e1vel considerar que em Jesus, Deus e o homem se encontraram definitivamente. Com Jesus, o tempo passa a trazer consigo a marca da eternidade, de tal forma que n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel serem conjugados separadamente: o Deus verdadeiro \u00e9 o homem Jesus de Nazar\u00e9; e o homem verdadeiro \u00e9 o Deus Jesus de Nazar\u00e9. N\u00e3o se diviniza a criatura, n\u00e3o se reduz o Criador e, muito menos, n\u00e3o se consideram os dois paralelamente, sem qualquer hip\u00f3tese de comunica\u00e7\u00e3o: no centro da hist\u00f3ria, em Jesus de Nazar\u00e9, Deus encontra o homem e, ao faz\u00ea-lo, descobre-lhe o sentido, a raz\u00e3o plena da sua exist\u00eancia. Fica assim tamb\u00e9m claro aquilo que J. Ratzinger considera como o centro caracterizador do cristianismo, e que n\u00e3o cessa de sublinhar na conclus\u00e3o de cada cap\u00edtulo: o cristianismo n\u00e3o faz sentido e n\u00e3o prop\u00f5e o sentido da vida numa doutrina, numa ideologia, numa moral, num sentimento; o \u201cpr\u00f3prio\u201d do cristianismo \u00e9 a pessoa de Jesus de Nazar\u00e9. Isto mesmo \u00e9 afirmado numa das \u00faltimas p\u00e1ginas da obra, que levanta tamb\u00e9m o v\u00e9u sobre o pr\u00f3ximo volume, que sabemos j\u00e1 estar em elabora\u00e7\u00e3o, acerca dos acontecimentos pascais. Diz Ratzinger:  No fundo, o homem tem necessidade de uma \u00fanica coisa que tudo cont\u00e9m; mas primeiro deve aprender a reconhecer, atrav\u00e9s dos seus desejos e anseios superficiais, aquilo de que precisa verdadeiramente e o que realmente quer. Tem necessidade de Deus. Deste modo, fica claro o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, se encontra por detr\u00e1s de todas as express\u00f5es figurativas: Jesus d\u00e1-nos a \u201cvida\u201d, porque nos d\u00e1 Deus. E pode-no-Lo dar, porque Ele mesmo \u00e9 um s\u00f3 com Deus; porque \u00e9 o Filho de Deus. Ele mesmo \u00e9 o dom: Ele \u00e9 \u201ca vida\u201d. Por isso mesmo, Ele \u00e9, por natureza, comunica\u00e7\u00e3o, \u201cpr\u00f3-exist\u00eancia\u201d. \u00c9 isto mesmo que aparece, na cruz, como a sua verdadeira exalta\u00e7\u00e3o (434).    <i>Nuno Br\u00e1s da Silva Martins <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certamente n\u00e3o preciso de dizer expressamente que este livro n\u00e3o \u00e9 de modo algum um acto do magist\u00e9rio, mas unicamente express\u00e3o da minha busca pessoal do \u00abrosto do Senhor\u00bb (Sal 27,8). Por isso, cada um tem a liberdade de me contradizer. 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