{"id":29365,"date":"2008-01-16T11:47:30","date_gmt":"2008-01-16T11:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/16\/apresentacao-do-livro-jesus-de-nazare\/"},"modified":"2008-01-16T11:47:30","modified_gmt":"2008-01-16T11:47:30","slug":"apresentacao-do-livro-jesus-de-nazare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/apresentacao-do-livro-jesus-de-nazare\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00abJesus de Nazar\u00e9\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo <!--more--> 1. Apresentar o livro \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d, agora em vers\u00e3o portuguesa, \u00e9 para mim uma honra e uma responsabilidade. Assumo-a com confian\u00e7a e humildade, em esp\u00edrito de verdadeira comunh\u00e3o com o autor. A minha sintonia com o te\u00f3logo Joseph Ratzinger vem de velha data. Nunca tendo sido seu aluno, como outros portugueses o foram, porque nunca estudei na Alemanha, ele foi verdadeiramente o principal inspirador do percurso que fiz como docente de Teologia. Os meus alunos desse tempo lembram-se, certamente, do relevo que teve no meu ensino, sobretudo na Teologia da F\u00e9, a teologia de Ratzinger. Mas Joseph Ratzinger \u00e9 hoje Bento XVI, Sucessor de Pedro e cabe\u00e7a do Col\u00e9gio Episcopal, ao qual perten\u00e7o. E nesse quadro a palavra sintonia \u00e9 fraca para exprimir os la\u00e7os que a ele me unem, de profunda comunh\u00e3o, alicer\u00e7ada na f\u00e9 no mist\u00e9rio da Igreja e n\u00e3o apenas na sintonia intelectual. Mas senti, ao ler este livro, que ele me desafia a unificar numa s\u00f3 atitude a sintonia e a comunh\u00e3o.  2. Devo esclarecer, para que tudo seja claro nestas minhas palavras, que n\u00e3o me sinto em condi\u00e7\u00f5es de apresentar a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, porque li o livro na vers\u00e3o italiana. De facto quando a vers\u00e3o portuguesa apareceu, j\u00e1 tinha lido grande parte do livro na vers\u00e3o italiana. Devo confessar que a vers\u00e3o portuguesa, que experimentei, n\u00e3o exerceu sobre mim o fasc\u00ednio suficiente para me fazer mudar de l\u00edngua \u2013 que o tradutor me compreenda \u2013 at\u00e9 porque a unidade que \u00e9 fruto de uma primeira leitura est\u00e1 tamb\u00e9m ligada \u00e0 l\u00edngua em que se l\u00ea. No entanto, quando citar, hoje e aqui, literalmente o livro, f\u00e1-lo-ei segundo a \u201cvers\u00e3o portuguesa\u201d.  O autor 3. Quem \u00e9 o autor de \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d? O te\u00f3logo Joseph Ratzinger ou o Papa Bento XVI? Parece que ele pr\u00f3prio n\u00e3o quis dirimir esta quest\u00e3o, quer ao indicar na capa as duas refer\u00eancias \u00e0 sua pessoa, quer quando escreve no pref\u00e1cio: \u201cCertamente n\u00e3o preciso de dizer expressamente que este livro n\u00e3o \u00e9 de modo algum um acto de Magist\u00e9rio, mas unicamente express\u00e3o da minha busca pessoal do \u201crosto do Senhor\u201d (Sal. 27,8). Por isso, cada um tem a liberdade de me contradizer\u201d (pg.25). Querer\u00e1 esta frase dizer que o te\u00f3logo Joseph Ratzinger n\u00e3o compromete a autoridade de Magist\u00e9rio do Papa Bento XVI? Ele pr\u00f3prio confessa que o livro, a partir do cap\u00edtulo 5\u00ba, j\u00e1 foi escrito depois da elei\u00e7\u00e3o papal. Como pode um Papa ao escrever o que escreveu sobre Jesus Cristo, de maneira t\u00e3o bela e t\u00e3o profunda, n\u00e3o o considerar express\u00e3o do seu magist\u00e9rio ordin\u00e1rio? Eu, leitor, acolhi-o como tal. Quis apenas garantir aos estudiosos do Novo Testamento, exegetas e te\u00f3logos, que n\u00e3o pretende dirimir, com a autoridade do Papa, quest\u00f5es disputadas e justas diferen\u00e7as de opini\u00e3o cient\u00edfica, nem confirmar a sua leitura de te\u00f3logo.  No decurso da leitura h\u00e1 partes que s\u00f3 podem ser atribu\u00eddas a um grande te\u00f3logo, em maravilhosa s\u00edntese pessoal adquirida depois de uma longa vida de investigador e de docente; o pref\u00e1cio, ali\u00e1s essencial para a compreens\u00e3o do conjunto do livro, em que apresenta uma cr\u00edtica positiva ao m\u00e9todo exeg\u00e9tico \u201chist\u00f3rico-cr\u00edtico\u201d e \u00e0 chamada \u201cexegese can\u00f3nica\u201d; nas longas introdu\u00e7\u00f5es exeg\u00e9ticas, por exemplo \u00e0 leitura das par\u00e1bolas nos Evangelhos sin\u00f3pticos, e aos textos de S\u00e3o Jo\u00e3o; na escolha dos princ\u00edpios metodol\u00f3gicos da sua an\u00e1lise dos textos e no distanciamento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a grandes exegetas.  Mas h\u00e1 outras partes do livro claramente marcadas pela miss\u00e3o pastoral que hoje desempenha: a aplica\u00e7\u00e3o dos textos evang\u00e9licos ao mundo actual; a fundamenta\u00e7\u00e3o de uma espiritualidade encarnada; as suas implica\u00e7\u00f5es morais no existir da Igreja e dos crist\u00e3os; no convite cont\u00ednuo que nos faz a lermos os acontecimentos da nossa hist\u00f3ria \u00e0 luz de Cristo e do Evangelho. H\u00e1 uma p\u00e1gina, segundo as indica\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio autor, escrita j\u00e1 depois de ser Papa, onde \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o adivinhar uma medita\u00e7\u00e3o pessoal sobre o seu novo minist\u00e9rio de Sucessor de Pedro. Trata-se do coment\u00e1rio ao di\u00e1logo de Jesus com S\u00e3o Pedro, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o, em que Cristo confirma a miss\u00e3o de Pedro, narrado no Cap\u00edtulo XXI de S\u00e3o Jo\u00e3o. O contexto \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de Cristo \u201cEu sou o Bom Pastor\u201d, antecedida de outra que explica a primeira: \u201cEu sou a Porta\u201d. Leiamos esta p\u00e1gina onde a profundidade teol\u00f3gica exprime a medita\u00e7\u00e3o do Pastor que hoje exerce o minist\u00e9rio de Pedro: \u201cO modo como se desenrola concretamente este entrar atrav\u00e9s de Jesus visto como porta est\u00e1 patente no ap\u00eandice do Evangelho, no cap\u00edtulo 21: a introdu\u00e7\u00e3o de Pedro no pr\u00f3prio minist\u00e9rio pastoral de Jesus. Por tr\u00eas vezes, o Senhor diz a Pedro: \u00abApascenta os meus cordeiros\u00bb (ou analogamente: \u00abas minhas ovelhas\u00bb: 21,15-17). Pedro \u00e9 nomeado claramente pastor das ovelhas de Jesus, \u00e9 investido no of\u00edcio pastoral do pr\u00f3prio Jesus. Mas, para poder desempenh\u00e1-lo deve entrar pela \u00abporta\u00bb. A este entrar, ou melhor, a este deix\u00e1-lo entrar atrav\u00e9s da porta (10,3), se refere a tr\u00edplice pergunta: \u00abSim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, tu amas-Me?\u00bb Temos aqui, em primeiro lugar, a dimens\u00e3o muito pessoal da voca\u00e7\u00e3o: Sim\u00e3o \u00e9 chamado pelo nome, com o seu nome pr\u00f3prio \u00abSim\u00e3o\u00bb e com a sua ascend\u00eancia geneal\u00f3gica. E a pergunta versa sobre o amor, que lhe permite tornar-se um s\u00f3 com Jesus. Deste modo, \u00e9 \u00abatrav\u00e9s de Jesus\u00bb que chega \u00e0s ovelhas: n\u00e3o as considera como pr\u00f3prias \u2013 de Sim\u00e3o Pedro \u2013, mas como o \u00abrebanho\u00bb de Jesus. E porque chega a elas atrav\u00e9s da \u00abporta\u00bb que \u00e9 Jesus, porque chega unido no amor com Jesus, as ovelhas escutam a sua voz, a pr\u00f3pria voz de Jesus: n\u00e3o seguem Sim\u00e3o, mas Jesus que na pessoa e por meio dele vem ter com elas, de tal modo que, na sua condu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus quem guia. Depois, toda a cena da investidura termina com a palavra de Jesus a Pedro: \u00abSegue-Me\u00bb (21,19). Este epis\u00f3dio recorda a cena posterior \u00e0 primeira confiss\u00e3o de Pedro, quando este tentou desviar o Senhor do caminho da cruz e Jesus lhe disse: \u00abVai-te da minha frente\u00bb \u2013 por outras palavras: Para tr\u00e1s de Mim \u2013 exortando depois todos a tomarem a cruz e a \u00absegui-Lo\u00bb (Mc. 8,33s). Tamb\u00e9m o disc\u00edpulo, que agora como pastor vai adiante dos outros, deve \u00abseguir\u00bb Jesus. Isto inclui, como o Senhor anuncia a Pedro depois da entrega do of\u00edcio pastoral, a aceita\u00e7\u00e3o da cruz, a disponibilidade para dar a pr\u00f3pria vida. Deste modo se concretiza a palavra: \u00abEu sou a porta\u00bb. \u00c9 precisamente assim que o pr\u00f3prio Jesus continua a ser o pastor\u201d (pg. 346-347). No fundo, este livro ajuda-nos a interiorizar a maneira como Deus conduz a Sua Igreja: deu-nos um Papa que \u00e9 um grande te\u00f3logo. Cada um de n\u00f3s, quando recebe uma miss\u00e3o, \u00e9 chamado a p\u00f4r ao servi\u00e7o dela tudo o que somos e temos, o nosso passado e o nosso presente. A vasta informa\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o teol\u00f3gica de Joseph Ratzinger \u00e9 hoje posta ao servi\u00e7o da sua miss\u00e3o de Sucessor de Pedro. E ele consegue, na clareza do seu pensamento, na beleza da sua express\u00e3o e no testemunho da sua vida interior, exprimir de forma bela e acess\u00edvel para o Povo de Deus, a profundidade do seu pensamento, a variedade da sua informa\u00e7\u00e3o, a vastid\u00e3o da sua cultura. Mas n\u00e3o separemos o Papa e Joseph Ratzinger: tamb\u00e9m neste livro, \u00e9 o mestre que nos ensina, o pastor que nos conduz.  O objectivo do livro 4. Podemos defini-lo com as pr\u00f3prias palavras do autor: \u201cquis fazer a tentativa de apresentar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, como o Jesus hist\u00f3rico em sentido verdadeiro e pr\u00f3prio\u201d (pg. 23). V\u00e1rias vezes relembra este objectivo: \u201cescutar Jesus, para assim O conhecermos\u201d (pg. 279); \u201ceste livro, sendo uma obra sobre Jesus, enfrenta primeiramente a quest\u00e3o a respeito do Senhor, tratando o tema eclesiol\u00f3gico apenas na medida necess\u00e1ria para a correcta compreens\u00e3o da figura de Jesus\u201d (pg. 369); \u201ceste livro procura compreender o caminho de Jesus sobre a Terra e a Sua prega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica na f\u00e9 e no pensamento da Igreja primitiva\u201d (pg. 397). O autor confessa, logo no in\u00edcio do pref\u00e1cio: \u201cCheguei a este livro sobre Jesus ap\u00f3s um longo caminho interior\u201d (pg. 11), o que faz dele um testemunho pessoal: \u201cunicamente a express\u00e3o da minha busca pessoal do \u00abrosto do Senhor\u00bb\u201d (pg. 25).  Testemunho de um crente que percorreu um longo caminho em busca do \u00abrosto do Senhor\u00bb, situa essa busca no contexto de uma viragem na leitura exeg\u00e9tica dos Evangelhos, a partir da d\u00e9cada de 50. Depois do tempo das muitas e belas \u00abvidas de Cristo\u00bb, que apresentavam uma imagem de Cristo a partir dos Evangelhos, as correntes exeg\u00e9ticas &#8211; \u00e9 citado o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico &#8211; acentuam a ruptura entre o Jesus hist\u00f3rico e o Jesus da f\u00e9, que se afastam cada vez mais um do outro e a figura de Jesus Cristo, em que acreditamos, apresenta-se com contornos vagos, pouco definidos, uma esp\u00e9cie de nebulosa que acaba por confundir os crentes. \u201cComo resultado comum de todas estas tentativas ficou a impress\u00e3o de que, em todo o caso, de seguro sabemos muito pouco sobre Jesus e de que a sua imagem s\u00f3 posteriormente foi plasmada pela f\u00e9 na sua divindade. Entretanto, esta impress\u00e3o penetrou profundamente na consci\u00eancia comum do cristianismo. Uma tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica para a f\u00e9, porque torna incerto o seu verdadeiro ponto de refer\u00eancia: a amizade \u00edntima com Jesus, da qual tudo depende, corre o perigo de cair no vazio\u201d (pg. 12-13). Da\u00ed o objectivo claramente expresso: p\u00f4r a claro a imagem de Cristo que nos d\u00e3o os Evangelhos, mostrando que o Cristo em que acredito \u00e9 o Cristo hist\u00f3rico. Isto sup\u00f5e uma an\u00e1lise das vantagens e dos limites do m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico, do seu confronto com novas correntes de exegese e com os mais recentes documentos do Magist\u00e9rio sobre a interpreta\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura. A realidade hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9 foi sempre um desafio de f\u00e9, aquela atitude de abandono ao mist\u00e9rio que permitiu penetrar no conhecimento da realidade humana de Cristo: foi assim que Maria O acolheu no seu seio, que guardou em sil\u00eancio no seu cora\u00e7\u00e3o o Seu crescimento em estatura, em sabedoria e em gra\u00e7a; foi por isso que Ele atraiu os disc\u00edpulos que O seguiram; foi na f\u00e9 que os miraculados acolheram o dom da vida; s\u00f3 na f\u00e9 se pode mergulhar no sofrimento da paix\u00e3o e reconhec\u00ea-lo, como o Mesmo e completamente outro, na ressurrei\u00e7\u00e3o. O Jesus hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 deslig\u00e1vel da f\u00e9, nem o Cristo da f\u00e9 \u00e9 deslig\u00e1vel do realismo hist\u00f3rico da Sua exist\u00eancia. Hist\u00f3ria e f\u00e9 interpenetram-se na leitura dos textos evang\u00e9licos.  5. Como todos os testemunhos aut\u00eanticos, este arrasta-nos para o centro da cena, torna-nos, com o autor, protagonistas da caminhada. O autor procura este envolvimento dos leitores, centrando-os, n\u00e3o em si mesmo, como \u00e9 natural em qualquer escritor, mas em Jesus Cristo, e essa \u00e9 uma atitude pastoral. Termina assim o pref\u00e1cio que, como j\u00e1 disse, \u00e9 introdu\u00e7\u00e3o essencial \u00e0 leitura: \u201cpareceu-me urgente sobretudo apresentar a figura e a mensagem de Jesus na Sua actividade p\u00fablica, para favorecer no leitor o crescimento de uma rela\u00e7\u00e3o viva com Ele\u201d (pg. 26). E \u00e9 impressionante como o conseguiu. Damos por n\u00f3s a percorrer a aventura de descobrir Jesus Cristo, a ser interpelados por Ele, a desejar segui-l\u2019O, a sentir a exig\u00eancia de O seguir at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Quero terminar esta apresenta\u00e7\u00e3o enunciando aspectos concretos deste seguimento de Jesus que o livro provoca em n\u00f3s e que s\u00e3o j\u00e1 da ordem da espiritualidade e da vis\u00e3o crist\u00e3 de todas as coisas. Este livro sugere um ritmo de leitura: o ritmo da caminhada de cada um de n\u00f3s, com Jesus dos Evangelhos, at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa na nossa vida.   Aprender a ler a Sagrada Escritura 6. J\u00e1 os Padres da Igreja afirmaram que toda a Escritura nos fala de Jesus Cristo. Partindo da escola chamada da \u201cexegese can\u00f3nica\u201d, a que ele chama \u201cexegese teol\u00f3gica\u201d, o autor prop\u00f5e-nos uma leitura de toda a Escritura a partir de Cristo, da Sua pessoa, do Seu ensinamento, sobretudo da Sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Esta unidade entre Cristo e a Escritura \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da unidade entre a Escritura e o Povo de Deus, o seu verdadeiro autor, e, portanto, tamb\u00e9m da unidade entre Cristo e a Igreja. S\u00f3 ao ritmo do Povo de Deus, conduzido pelo Esp\u00edrito, os diversos autores e livros se tornam a Escritura. O processo da constitui\u00e7\u00e3o da Escritura, no di\u00e1logo de alian\u00e7a de um Povo crente com Deus que lhe fala e de quem compreende progressivamente a mensagem, \u00e9 da mesma natureza da aventura da Escritura na Igreja, onde o Povo crente l\u00ea e rel\u00ea e compreende sempre de novo. Mas digamo-lo com as palavras do autor: \u201cA exegese moderna mostrou como as palavras transmitidas na B\u00edblia se tornam Escritura atrav\u00e9s de um processo de incessantes releituras: os textos antigos, numa situa\u00e7\u00e3o nova, s\u00e3o retomados, compreendidos e lidos de modo novo\u201d. A forma\u00e7\u00e3o da Escritura \u201c\u00e9 um processo da Palavra, que revela, a pouco e pouco, as suas potencialidades interiores; estas de certo modo estavam presentes como sementes que se abrem apenas perante o desafio de novas situa\u00e7\u00f5es, novas experi\u00eancias e novos sofrimentos. Quem observa este processo a partir de Jesus Cristo pode reconhecer uma direc\u00e7\u00e3o no todo: que o Antigo e o Novo Testamento pertencem um ao outro\u201d (pg. 19-20). Na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s par\u00e1bolas afirma: \u201cAssim, a estranha explica\u00e7\u00e3o de Jesus sobre o sentido das suas par\u00e1bolas conduz-nos precisamente \u00e0 compreens\u00e3o do seu significado mais profundo, com uma \u00fanica condi\u00e7\u00e3o, como o exige a natureza da Palavra de Deus escrita: lermos a B\u00edblia e sobretudo os Evangelhos como uma unidade e um todo, que, em todas as suas estratifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, exprime uma mensagem intrinsecamente concatenada\u201d (pg. 246).  Esta leitura cristoc\u00eantrica da Sagrada Escritura ensina-nos a acolher toda a Palavra da Escritura como um caminho para Jesus Cristo. \u00c9 Ele, a Palavra eterna, que faz daquele conjunto de escritos uma \u00fanica Escritura, a Palavra de Deus para o Seu Povo.  Cristo torna-se, assim, o sentido da vida e da Hist\u00f3ria 7. Que os acontecimentos narrados pelos Evangelhos encontram em Jesus Cristo a sua fonte de sentido \u00e9 \u00f3bvio. Mas na converg\u00eancia de toda a Escritura para Cristo, \u00e9 toda a hist\u00f3ria da humanidade que encontra em Cristo o seu sentido \u00faltimo. E continua a ser assim na Igreja, Povo de Deus, que continua a reler, sempre de novo, as Escrituras e a escut\u00e1-las como Palavra de Deus. Nelas, o crist\u00e3o percebe que o homem e a sua hist\u00f3ria s\u00f3 se decifram verdadeiramente em Jesus Cristo. Continuamente o autor passa do texto evang\u00e9lico para as situa\u00e7\u00f5es concretas da humanidade actual, redimida e a precisar de ser redimida. A prop\u00f3sito das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus no deserto (pg. 57), a prop\u00f3sito do \u201cvenha a n\u00f3s o Vosso Reino\u201d (pg. 193s), e do \u201clivrai-nos do mal\u201d (pg. 217; 228); a prop\u00f3sito da par\u00e1bola dos vinhateiros, que matam o pr\u00f3prio filho do propriet\u00e1rio da vinha (pg. 324), etc. Fica claro que a doutrina social da Igreja brota do pr\u00f3prio Evangelho.  Toda a espiritualidade crist\u00e3 s\u00f3 pode estar centrada em Jesus Cristo 8. Neste percurso \u00e0 procura do rosto de Jesus, v\u00e3o-nos sendo sugeridos os caminhos e as atitudes espirituais dos disc\u00edpulos de Cristo e fica claro que toda a espiritualidade crist\u00e3 brota de Jesus Cristo e leva a Jesus Cristo. Antes de mais, o respeito pela santidade e transcend\u00eancia de Deus, expressa na s\u00faplica \u201co Teu nome seja santificado\u201d. Apoderar-se de Deus reduzindo-O \u00e0 nossa dimens\u00e3o \u00e9 afastar-se do Deus verdadeiro, torn\u00e1-l\u2019O irreconhec\u00edvel (pg. 192-193). O sentido do sofrimento como caminho de purifica\u00e7\u00e3o (pg. 216-217), o sentido da pobreza e do abandono, o contentar-se com o necess\u00e1rio, a ren\u00fancia \u00e0s seguran\u00e7as garantidas pelo acumular de bens (pg. 199s).  9. O itiner\u00e1rio que percorremos com o autor n\u00e3o \u00e9 individual, mas comunit\u00e1rio. Pai \u201cNosso\u201d, o \u201cnosso\u201d p\u00e3o. \u00c9 o \u201cn\u00f3s\u201d da Igreja, a nova fam\u00edlia dos disc\u00edpulos (pg. 221s), que encontra coes\u00e3o nesta busca comunit\u00e1ria do rosto de Jesus. Como o autor mostra continuamente, a caminhada de Jesus \u00e9 uma caminhada para Jerusal\u00e9m, para a P\u00e1scoa, onde a vontade do Pai ser\u00e1 cumprida na terra como no C\u00e9u. A leitura deste livro pode transformar-se na nossa caminhada para a P\u00e1scoa, pois s\u00f3 no rosto do Crucificado, transformado com a luz da ressurrei\u00e7\u00e3o, identificaremos verdadeiramente o rosto de Cristo.  Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa Lisboa, 15 de Janeiro de 2008 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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