{"id":29324,"date":"2008-01-15T10:30:50","date_gmt":"2008-01-15T10:30:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/15\/coimbra-presta-homenagem-a-d-albino-cleto\/"},"modified":"2008-01-15T10:30:50","modified_gmt":"2008-01-15T10:30:50","slug":"coimbra-presta-homenagem-a-d-albino-cleto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/coimbra-presta-homenagem-a-d-albino-cleto\/","title":{"rendered":"Coimbra presta homenagem a D. Albino Cleto"},"content":{"rendered":"<p>Nos 25 anos da sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal, o bispo passa em revista as suas mem\u00f3rias e deixa desejos para o futuro <!--more--> <\/p>\n<div>A Diocese de Coimbra vai celebrar o 25 &ordm; anivers&aacute;rio da ordena&ccedil;&atilde;o episcopal de D. Albino a dia 27 de Janeiro. Nestes &uacute;ltimos anos, a responsabilidade pastoral e o governo da Diocese, confiados aos seus cuidados, mereceram-lhe o maior empenhamento e dedica&ccedil;&atilde;o, constituindo para todos um insistente convite e est&iacute;mulo ao compromisso com a Igreja. <br \/>D. Albino Mamede Cleto celebrou a 22 de Janeiro os 25 anos da sua ordena&ccedil;&atilde;o episcopal. Lisboa e Coimbra foram as dioceses que acolheram este Bispo nascido h&aacute; 72 anos em S&atilde;o Pedro, Manteigas. Em entrevista &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA, o actual Bispo de Coimbra passa em revista as suas mem&oacute;rias e deixa desejos para o futuro. <\/p>\n<p><em><strong>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA<\/strong> (AE) &ndash; Na celebra&ccedil;&atilde;o das bodas de prata episcopais &eacute; tempo de fazer balan&ccedil;o e olhar para o percurso de vida. Como foi a sua inf&acirc;ncia em Manteigas? <br \/><strong>D. Albino Cleto<\/strong> (AC) &ndash;<\/em> Nasci numa comunidade crist&atilde;. Tanto a minha fam&iacute;lia, como a par&oacute;quia transmitiram-me verdadeiros valores de f&eacute; e tamb&eacute;m de generosidade. A minha voca&ccedil;&atilde;o para o sacerd&oacute;cio &eacute; a chamada voca&ccedil;&atilde;o infantil. Desde mi&uacute;do que me senti encantado com o servi&ccedil;o de Deus. Neste percurso ajudaram-me tamb&eacute;m os pais, os catequistas e o p&aacute;roco. <br \/>Uma inf&acirc;ncia normal&#8230; mas gostava de sublinhar a import&acirc;ncia de outra escola: a serra com a sua natureza. Nos tempos de Primavera e Ver&atilde;o encanta, mas nas ocasi&otilde;es de Inverno &eacute; dura e austera. A serra ensina-nos uma coisa na vida: a estabilidade, a fidelidade e a naturalidade com que havemos de aceitar a chuva, o frio e a neve. A serra marcou o meu temperamento. <\/p>\n<p><em>AE &ndash; Bebeu esses sabores no esp&iacute;rito de S. Francisco de Assis? <br \/>AC &ndash;<\/em> Nunca me senti propriamente filho de S. Francisco, mas sempre o apreciei. <\/p>\n<p><em>AE &ndash; E o papel das suas catequistas e professores prim&aacute;rios na descoberta vocacional? <br \/>AC &ndash;<\/em> Foram fundamentais. Tive v&aacute;rios professores prim&aacute;rios, mas aquela que me acompanhou na Quarta Classe abriu-me para a vida, sobretudo para a arte de declamar e fazer teatro. Esta aprendizagem ajudou-me a enfrentar uma grande assembleia com naturalidade. Isto devo-o &agrave; minha professora da Quarta Classe. <br \/>As catequistas tamb&eacute;m foram maravilhosas. A que me preparou para a Primeira Comunh&atilde;o era uma santa velhinha. Eram mulheres admir&aacute;veis de f&eacute; e dedica&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><em>AE &ndash; Depois desses passos ingressou num semin&aacute;rio da diocese de Lisboa. Porqu&ecirc; a capital e n&atilde;o a Guarda? <br \/>AC &ndash;<\/em> Por uma birra de garoto. Combin&aacute;mos &ndash; eu e dois colegas da Quarta Classe &ndash; ir para o semin&aacute;rio, mas tinha de ser o mesmo. Fizemos o exame de aptid&atilde;o. Eu fui admitido, mas os outros n&atilde;o. Fiz birra e n&atilde;o fui para o Semin&aacute;rio da Guarda. Vou para onde os outros forem. O meu prior candidatou-os para os Semin&aacute;rios do Patriarcado. Foram aceites e viemos para Santar&eacute;m. <\/p>\n<p><em>AE &ndash; Quando era mi&uacute;do fazia birras? <br \/>AC &ndash;<\/em> Muitas e n&atilde;o estou arrependido delas. Aquela mereceu-me uma bofetada do meu pai, mas respeitou a minha birra. <\/p>\n<p><em>AE &ndash; Antigamente era frequente escolher-se o semin&aacute;rio? <br \/>AC &ndash;<\/em> Sim. A Guarda tinha muitas voca&ccedil;&otilde;es e o Patriarcado acolhia os outros candidatos. <\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esse projecto de vida a tr&ecirc;s durou muito tempo? <br \/>AC &ndash;<\/em> Os outros dois acabaram por sair pouco tempo depois. Deus fez-me uma brincadeira, mas estou-Lhe agradecido. Sem desprezo pela querida diocese a que perten&ccedil;o por naturalidade &ndash; a Guarda -, sinto-me filho da Igreja de Lisboa. <\/p>\n<p><strong>Lisboa<\/strong> <br \/><em>AE &ndash; Foi ordenado em Lisboa e exerceu o seu m&uacute;nus presbiteral sempre perto da cidade. <br \/>AC &ndash;<\/em> Deus deu-me um rebu&ccedil;ado porque eu tinha o sonho de ir trabalhar com jovens. O lugar que me agradava mais era o semin&aacute;rio, mas cheguei a estar nomeado &laquo;in pectore&raquo; (em desejo) para coadjutor da par&oacute;quia de S. Mamede. No entanto recebi a nomea&ccedil;&atilde;o para o Semin&aacute;rio de Almada. Trabalhei l&aacute; 19 anos. Aquele per&iacute;odo deixou-me muitas saudades. <br \/>Um dia, o Cardeal Ribeiro colocou-me na par&oacute;quia da Estrela. Foram quatro anos e meio inesquec&iacute;veis porque foi uma experi&ecirc;ncia pastoral alargada. A par&oacute;quia deu-me um panorama mais aberto, visto que trabalhei com crian&ccedil;as, jovens e idosos. <br \/><em><br \/>AE &ndash;Nota-se que sente nostalgia dos tempos do Semin&aacute;rio de Almada? <br \/>AC &ndash;<\/em> &Eacute; verdade. Foram anos muito felizes. Ainda est&aacute; na minha mem&oacute;ria, o dia em que o Semin&aacute;rio foi invadido, nos tempos bravos do PREC. No entanto, o que mais me fez sofrer e alegrar foi a queda e subida vocacional. Comecei com 170 seminaristas, depois passou-se para os 11, e, quando sa&iacute; j&aacute; est&aacute;vamos nos 20. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Pastoralmente trabalhou sempre perto do Tejo. Conheceu tamb&eacute;m a regi&atilde;o Oeste do Patriarcado? <br \/>AC &ndash;<\/em> Foram contactos fortuitos. Visit&aacute;vamos os seminaristas e grande parte deles era das par&oacute;quias do Oeste. Nunca trabalhei estavelmente no Oeste. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Ao longo desse trabalho teve pessoas que o marcaram? <br \/>AC &ndash;<\/em> Muitos. Primeiramente, no Semin&aacute;rio de Almada, destaco D. Jo&atilde;o Alves. Foi meu professor e, depois, acolheu-me muito bem na equipa. Aquela equipa era excelente. Quando fui chamado para bispo, tive o prazer &ndash; digo-o claramente &ndash; de ser membro de uma equipa episcopal &uacute;nica. Presidida pelo Cardeal Ant&oacute;nio Ribeiro, inclu&iacute;a o actual Patriarca, D. Jos&eacute; Policarpo; D. Ant&oacute;nio Reis Rodrigues e D. Serafim Ferreira e Silva. Foi uma escola excepcional. Foram meus professores no episcopado. <\/p>\n<p><strong>Mem&oacute;rias do Cardeal Ribeiro<\/strong> <br \/><em>AE &ndash; Ainda se recorda quando foi chamado para receber a not&iacute;cia da nomea&ccedil;&atilde;o episcopal? <br \/>AC &ndash;<\/em> Era dia de Conselho Presbiteral. Nele algu&eacute;m perguntou a D. Ant&oacute;nio Ribeiro quando vinha o novo bispo auxiliar de Lisboa. Sei que foram colocados muitos olhos em mim e isso irritou-me muito. A meio da manh&atilde;, D. Ant&oacute;nio Ribeiro disse-me para eu passar, pela tarde, pelo Patriarcado. Desde esse momento, o meu cora&ccedil;&atilde;o ficou aos pulos. Quando me sentei junto de D. Ant&oacute;nio Ribeiro, os meus joelhos tremiam. Foi uma das vezes que vi o cardeal Ribeiro a rir imenso. Ria porque me via a tremer. Depois, seriamente, disse-me que eu estava chamado para ser bispo. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Porque tremia? <br \/>AC &ndash;<\/em> Ser bispo n&atilde;o &eacute; uma brincadeira. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Sentia que n&atilde;o estava preparado para tal? <br \/>AC &ndash;<\/em> Sentia que era um chamamento que n&atilde;o merecia. Estava longe das minhas perspectivas. <br \/><em><br \/>AE &#8211; Foi recebido por D. Ant&oacute;nio Ribeiro com risos. N&atilde;o era uma faceta muito habitual nele. <br \/>AC &ndash;<\/em> Pois n&atilde;o, mas viu-o algumas vezes a rir. Numa Quinta-Feira Santa, em plena S&eacute; de Lisboa, cai da cadeira&#8230; Quando me levantei, vi que ele estava a rir-se da minha queda. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Epis&oacute;dios para recordar&#8230; Era &iacute;ntimo do Cardeal Ribeiro? <br \/>AC &ndash;<\/em> Por disponibilidade de instala&ccedil;&otilde;es, eu era o &uacute;nico bispo que residia com ele no Patriarcado. Os outros residiam noutras casas. Eu era a pessoa com quem ele estava mais tempo. Al&eacute;m de almo&ccedil;ar e jantar com ele, o meu quarto era junto do dele. Quando chegava o m&ecirc;s de P&aacute;scoa e do Ver&atilde;o, ele convidava-me para o acompanhar nas suas f&eacute;rias no estrangeiro. Tinha de fugir de Portugal para ter alguns dias de descanso e descontrac&ccedil;&atilde;o. Tenho uma mem&oacute;ria bastante saudosa das viagens que fiz com ele. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Foi seu amigo e professor? <br \/>AC &ndash;<\/em> Sim. Ensinava-me a olhar as terras por onde pass&aacute;vamos. Chamava-me a aten&ccedil;&atilde;o para os monumentos, tipo de vida e at&eacute; para a agricultura. Contou-me muitas hist&oacute;rias do seu passado ainda que ele fosse parco em conversa. Fizemos muitos quil&oacute;metros em sil&ecirc;ncio. Ele falava quando tinha que falar&#8230; <br \/><em><br \/>AE &ndash; Eram o oposto? <br \/>AC &ndash;<\/em> Nesse aspecto sim. Eu falo de mais. Ele falava apenas o suficiente. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Tamb&eacute;m passaram momentos complicados? <br \/>AC &ndash;<\/em> Sim. Uma delas foi a primeira campanha do aborto. <br \/><em><br \/>AE &ndash; E o seu relacionamento com os restantes bispos auxiliares? <br \/>AC &ndash;<\/em> &Eacute;ramos muito pr&oacute;ximos. Com D. Serafim conversava muito. Com D. Ant&oacute;nio Reis Rodrigues, eu calava-me a ouvir um s&aacute;bio. Com D. Jos&eacute; Policarpo sentia-me da mesma gera&ccedil;&atilde;o, por isso perguntava-lhe tudo e ele tamb&eacute;m confiava em mim. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Qual &eacute; o seu lema episcopal? <br \/>AC &ndash;<\/em> &laquo;Mais alegria em dar que em receber&raquo; (cita&ccedil;&atilde;o de S. Paulo, no Livro dos Actos dos Ap&oacute;stolos). Este lema orienta-me desde os tempos da juventude. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Tamb&eacute;m foi secret&aacute;rio da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa? <br \/>AC &ndash;<\/em> Gostei muito de desempenhar essa tarefa. Permitiu-me contactos muito enriquecedores, sobretudo no estrangeiro. Em representa&ccedil;&atilde;o da CEP participei em muitas reuni&otilde;es nas v&aacute;rias capitais da Europa <br \/><strong><br \/>Sob o signo da Estrela<\/strong> <br \/><em>AE &ndash; Nasceu na Serra da Estrela, esteve na par&oacute;quia da Estrela e est&aacute; na cidade do rio da Estrela&#8230; <br \/>AC &ndash;<\/em> Costumo dizer que Nossa Senhora &eacute; a Estrela da minha vida. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Vai com frequ&ecirc;ncia &agrave; sua terra natal? <br \/>AC &ndash;<\/em> Passo l&aacute; uns dias no Natal e na P&aacute;scoa. No Ver&atilde;o passo l&aacute; uns tempos. Tenho l&aacute; fam&iacute;lia e considero a gente da minha terra uma verdadeira fam&iacute;lia. Nunca quis perder os la&ccedil;os e as ra&iacute;zes tel&uacute;ricas daquela serra e daquelas gentes. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Na serra retempera as for&ccedil;as para a pastoral coimbr&atilde;. Ainda se recorda da sua nomea&ccedil;&atilde;o para a diocese de Coimbra? <br \/>AC &ndash;<\/em> Foi uma surpresa para mim quando o cardeal Ribeiro me perguntou se eu tinha as malas prontas. Percebi logo a conversa porque sabia que era o bispo auxiliar que estava mais &agrave; bica de ser nomeado. No entanto julgava que ia para Beja. Fiquei muito surpreendido quando D. Ant&oacute;nio Ribeiro me disse que ia para Coimbra porque D. Jo&atilde;o Alves me queria como coadjutor. Para mim foi uma dupla alegria: vir para a Igreja de Coimbra e ser coadjutor de algu&eacute;m que me marcou muito. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Mas esteve com um p&eacute; em Beja? <br \/>AC &ndash;<\/em> Na altura a diocese de Beja procurava um sucessor para D. Manuel Falc&atilde;o. E falava-se nisso&#8230; <\/p>\n<p><strong>Coimbra<\/strong> <br \/><em>AE &ndash; Est&aacute; h&aacute; dez anos em Coimbra. Aspectos negativos e positivos nesta d&eacute;cada? <br \/>AC &ndash;<\/em> Nos pontos negativos confesso o meu pecado de n&atilde;o ter sido capaz de responder &agrave;s necessidades desta diocese, sobretudo no cap&iacute;tulo da Pastoral Juvenil. A dificuldade &eacute; grande e vem da instabilidade de resid&ecirc;ncia dos jovens universit&aacute;rios, embora estudando em Coimbra passam fora os fins de semana. Sinto talvez que n&atilde;o tenho muitos padres com apet&ecirc;ncia e capacidade para a Pastoral Juvenil. <br \/>Noto tamb&eacute;m alguma lentid&atilde;o na dinamiza&ccedil;&atilde;o de leigos para as responsabilidades nas par&oacute;quias. Neste aspecto tamb&eacute;m aponto valores conseguidos: temos um laicado muito generoso para trabalhar na e com a Igreja. <br \/>Como falha, real&ccedil;o tamb&eacute;m a pastoral da fam&iacute;lia e o di&aacute;logo f&eacute;\/cultura. Na pastoral vocacional sinto um progressivo crescimento. Apesar destas falhas sinto que tenho uma boa rela&ccedil;&atilde;o com o clero, com os crist&atilde;os e a sociedade civil. <br \/><em><br \/>AE &ndash; &Eacute; um bispo mais de gabinete ou da pastoral? <br \/>AC &ndash;<\/em> Tenho fama de poisar pouco em casa, embora me d&ecirc; muito jeito &ndash; sobretudo aos ser&otilde;es &ndash; ficar no gabinete. Ando muito por fora. &Eacute; um bocado de temperamento e de desejo de responder &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es feitas. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Ent&atilde;o conhece a diocese como as palmas das m&atilde;os? <br \/>AC &ndash;<\/em> Pelo menos conhe&ccedil;o-a bem. Estou prestes a terminar o circuito das visitas pastorais &agrave;s 270 par&oacute;quias da diocese. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Uma diocese muito diversificada? <br \/>AC &ndash;<\/em> Isso &eacute; uma riqueza. Tem a parte marcadamente urbana (cidade de Coimbra); uma zona tipicamente mar&iacute;tima (da Praia de Mira &agrave; Figueira da Foz); uma zona interior e serrana (inclui os concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital e Pampilhosa da Serra) e uma zona muito caracter&iacute;stica e crist&atilde; &#8211; &eacute; tipicamente agr&iacute;cola &#8211; (de Penela a Ferreira do Zezere, onde Pombal &eacute; uma cidade not&aacute;vel) <br \/>Esta variedade agrada-me muito. Enriqueceu-me e permite-me uma pastoral bastante diferenciada. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Existe uma pastoral espec&iacute;fica para cada regi&atilde;o? <br \/>AC &ndash;<\/em> Procuro acompanhar esta variedade com os quatro vig&aacute;rios regionais. Cada vig&aacute;rio &eacute; respons&aacute;vel por cada uma das regi&otilde;es: urbana, mar&iacute;tima, nordeste serrano e agr&iacute;cola sul. <br \/>Com a ajuda deles fazemos uma pastoral unificada e, em simult&acirc;neo, diversificada. Uma pastoral de acordo com a tipologia e a tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;. As quatro regi&otilde;es n&atilde;o vivem igualmente a f&eacute;. Sublinho a zona da G&acirc;ndara, com a capital em Cantanhede, que &eacute; uma das regi&otilde;es mais crist&atilde;s e, depois, a regi&atilde;o sul (Ansi&atilde;o e Alvai&aacute;zere ) que tamb&eacute;m &eacute; marcadamente crist&atilde;. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Dialoga facilmente com o cosmopolitismo de Coimbra e a ruralidade de outras regi&otilde;es? <br \/>AC &ndash;<\/em> O que me falta &eacute; o tempo para o fazer. N&atilde;o tenho dificuldade em estabelecer contacto, di&aacute;logo e sintonia com os v&aacute;rios estratos sociais. Falta-me &eacute; tempo para pensar, reflectir e programar. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Sendo Coimbra uma cidade de estudantes, a pastoral universit&aacute;ria &eacute; a menina dos seus olhos? <br \/>AC &ndash;<\/em> &Eacute; um espinho que tenho. No entanto, existem boas rela&ccedil;&otilde;es com a reitoria e com os professores, onde um grupo cat&oacute;lico se afirma. Falta-me &eacute; tempo para estabelecer iniciativas de di&aacute;logo com a parte da cultura superior. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Antigamente, o contacto com os estudantes era mais f&aacute;cil, visto que eles passavam mais tempo na cidade do Mondego? <br \/>AC &ndash;<\/em> Actualmente est&atilde;o na cidade, de Domingo &agrave; noite a Sexta-feira &agrave; tarde. Temos desenvolvido algumas actividades, mas cheg&aacute;mos &agrave; conclus&atilde;o que o contacto dever&aacute; ser de pessoa a pessoa. Os estudantes &eacute; que t&ecirc;m de cativar os seus colegas para iniciativas de interesse. Os an&uacute;ncios p&uacute;blicos de encontros e celebra&ccedil;&otilde;es perdem-se. Os estudantes respondem sim ao convite pessoal. Iremos apostar neste caminho&#8230; <br \/>Temos o Secretariado da Pastoral do Ensino Superior (SPES) e o &laquo;velho&raquo; Centro Acad&eacute;mico de Democracia Crist&atilde; (CADC) que mobilizam a universidade e os universit&aacute;rios. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Em Latim, SPES significa esperan&ccedil;a. &Eacute; isso que sente nestes jovens universit&aacute;rios? <br \/>AC &ndash;<\/em> Tenho muita esperan&ccedil;a, mas eles deslocam-se quando terminam o curso. &Eacute; a vida&#8230; <br \/><em><br \/>AE &ndash; Outrora, Coimbra formava doutores crist&atilde;os. Hoje, forma apenas doutores? <br \/>AC &ndash;<\/em> Muitos destes elementos s&atilde;o v&aacute;lidos nas suas par&oacute;quias. Afirmo isto porque j&aacute; fizemos estat&iacute;sticas: muitos dos universit&aacute;rios s&atilde;o catequistas, fazem parte do grupo de jovens da terra e s&atilde;o membros do grupo coral da par&oacute;quia. <br \/>S&oacute; que a par&oacute;quia d&aacute;-lhes f&eacute; e alimenta-lhes a sua pr&aacute;tica, mas n&atilde;o os prepara deontologicamente. N&atilde;o prepara o futuro m&eacute;dico para responder crist&atilde;mente aos problemas que a Medicina coloca. N&atilde;o prepara o engenheiro, advogado ou gestor para a &eacute;tica deontol&oacute;gica. S&oacute; no ambiente acad&eacute;mico &eacute; que se faz essa prepara&ccedil;&atilde;o do profissional cat&oacute;lico. <br \/><em><br \/>AE &ndash; O CADC e o SPES dever&atilde;o promover actividades dessa ordem. <br \/>AC &ndash;<\/em> Temos feito algo, mas pouco para as necessidades. J&aacute; se realizaram encontros, actividades e di&aacute;logos onde foc&aacute;mos esses pontos: na &aacute;rea do cinema e bio&eacute;tica. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Coimbra aproveita o nome de grandes figuras que passaram ou residiram na cidade, tal como Miguel Torga, Pe. Am&eacute;rico, Mons. Nunes Pereira ou a Irm&atilde; L&uacute;cia? <br \/>AC &ndash;<\/em> S&atilde;o figuras que est&atilde;o presentes, mas, com pena minha, o Pe. Am&eacute;rico pouco. Isto significa que Coimbra n&atilde;o est&aacute; a reagir &agrave; pobreza como em tempos reagiu. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Recentemente, lamentou que a pobreza est&aacute; a aumentar em Coimbra. <br \/>AC &ndash;<\/em> Como em todos os lados de Portugal. Aqui deve-se, sobretudo, ao encerramento de algumas ind&uacute;strias, nomeadamente, no campo da cer&acirc;mica e t&ecirc;xtil. Deixaram centenas de pessoas no desemprego. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Para apoiar estes desprotegidos existe um sector da pastoral social? <br \/>AC &ndash;<\/em> Est&aacute; bem desenvolvido. A C&aacute;ritas diocesana &eacute; modelo, mas tem acudido mais &agrave; &aacute;rea da inf&acirc;ncia, terceira idade e toxicodepend&ecirc;ncia. Este organismo tem tido m&uacute;ltiplas respostas para a toxicodepend&ecirc;ncia. Efeitos dos lugares onde h&aacute; muita juventude. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Ent&atilde;o podemos concluir que a bo&eacute;mia e o fado ainda continuam a existir? <br \/>AC &ndash;<\/em> At&eacute; muito acentuadamente. Os professores universit&aacute;rios queixam-se que, nos dois primeiros anos, as festas ainda cativam muito os alunos. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Como lida com frequ&ecirc;ncia com a juventude est&aacute; adaptado &agrave;s novas tecnologias? <br \/>AC &ndash;<\/em> Lentamente. Acolho-as e procuro utiliz&aacute;-las, mas n&atilde;o me deixo prender muito por elas. Correm o risco de me roubar tempo. No entanto tenho computador que utilizo mais para escrever textos do que para Internet. <\/p>\n<p><strong>Cultura e desporto<\/strong> <br \/><em>AE &ndash; Prefere as artes&#8230; <br \/>AC &ndash;<\/em> Os educadores que tive abriram-me para o campo das artes. Nesse cap&iacute;tulo tenho procurado servir a Igreja e acompanhar as express&otilde;es art&iacute;sticas. Procuro que na pastoral dos bens culturais, a Igreja se actualize e continue a desempenhar o seu papel tradicional: ser sempre criadora, guardi&atilde; e boa utilizadora das artes. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Quando Coimbra foi capital da cultura, a Igreja esteve na dianteira e mostrou o seu patrim&oacute;nio. <br \/>AC &ndash;<\/em> Foi d&eacute;bil. Nem os habitantes ficaram satisfeitos com o que se fez. A Igreja tamb&eacute;m fez pouco&#8230; uma exposi&ccedil;&atilde;o e alguns concertos. <br \/><em><br \/>AE &ndash; No entanto, Coimbra &eacute; conhecida pelo seu riqu&iacute;ssimo patrim&oacute;nio. <br \/>AC &#8211; <\/em>Muito rica. Procuramos valorizar os velhos monumentos da cidade, apesar de serem propriedade do Estado. Quanto ao resto da diocese, sublinho a riqueza da estatu&aacute;ria, sobretudo da pedra de An&ccedil;&atilde; (zona de Coimbra). Nos s&eacute;culos XV e XVI, Coimbra tinha as velhas escolas dos escultores deste tipo de pedra. Tamb&eacute;m existem boas obras de pintura e ourivesaria. <br \/><em><br \/>AE &ndash; No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX muito desse patrim&oacute;nio desapareceu&#8230; <br \/>AC &ndash;<\/em> Em 1908\/09, atrav&eacute;s do grande bispo, D. Manuel Bastos Pina, a Igreja estava a fazer um grande museu &#8211; seria o primeiro museu de arte sacra &ndash;, mas perdeu tudo para o actual Museu Machado Castro. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Consequ&ecirc;ncias da implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. <br \/>AC &ndash;<\/em> &Eacute; verdade. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Para al&eacute;m da arte tamb&eacute;m acompanha a realidade desportiva? <br \/>AC &ndash;<\/em> Gosto de saber os resultados da Acad&eacute;mica e da Naval. No fim de cada jornada pergunto sempre os resultados destes dois clubes. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Sendo o Futebol um desporto de massas, tem algum padre ligado directamente &agrave; evangeliza&ccedil;&atilde;o neste campo? <br \/>AC &#8211;<\/em> Na Acad&eacute;mica existe o c&oacute;nego Aur&eacute;lio Campos &ndash; uma figura muito querida neste meio &ndash; que d&aacute; um verdadeiro testemunho. Nas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os, ele faz a sua invoca&ccedil;&atilde;o crist&atilde; do momento. <br \/><em><br \/>AE &ndash; A cidade est&aacute; com o clube? <br \/>AC &ndash;<\/em> Existe uma claque &ndash; a Mancha Negra -, mas a juventude n&atilde;o vai muito ao futebol. Quem apoia a Acad&eacute;mica s&atilde;o os velhos estudantes das d&eacute;cadas anteriores. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Suponho que apesar da vida bastante ocupada ainda tem tempo para a leitura. Que escritores aprecia? <br \/>AC &ndash;<\/em> Uma das minhas falhas &eacute; n&atilde;o ler mais, mas como escritor aprecio Miguel Torga. <br \/><em><br \/>AE &ndash; &Eacute; o lado tel&uacute;rico da Serra da Estrela. <br \/>AC &ndash;<\/em> (Risos)&#8230; Fui professor dessa arte, mas, para vergonha minha, tive de deixar o romance para passar a ler mais literatura pastoral. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Licenciou-se na Faculdade de Letras. <br \/>AC &ndash;<\/em> &Eacute; verdade, mas est&aacute; tudo arquivado. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Sei que tamb&eacute;m gosta de apreciar boa pintura. <br \/>AC &ndash;<\/em> Gosto de Pintura Moderna. Tenho procurado abrir a sensibilidade de padres e seminaristas para que compreendam sem hostilidade essa pintura moderna. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Evangelizar atrav&eacute;s da arte. <br \/>AC &ndash;<\/em> Tenho algum di&aacute;logo com pintores de Coimbra. <br \/><em><br \/>AE &ndash; A diocese tem alguns jornais. &Eacute; colaborador ass&iacute;duo? <br \/>AC &ndash;<\/em> Sou um colaborador ocasional, acompanho os seus passos. Eles retratam muito bem a vida da diocese, sobretudo o &laquo;Correio de Coimbra&raquo;, devido &agrave; cobertura que fazemos e a interliga&ccedil;&atilde;o existente entre a Casa Episcopal e a Redac&ccedil;&atilde;o do jornal. Esta colabora&ccedil;&atilde;o ir&aacute;, brevemente, traduzir-se na cria&ccedil;&atilde;o de um gabinete de informa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Futuro<\/strong> <br \/><em>AE &ndash; Projectos para concretizar na diocese de Coimbra? <br \/>AC &ndash;<\/em> Valorizar o laicado e relacionar o clero com este laicado, de modo que as comunidades cres&ccedil;am. Tenho o sonho e a promessa de conseguir um bom centro pastoral. S&oacute; n&atilde;o est&aacute; j&aacute; em constru&ccedil;&atilde;o &#8211; junto ao Semin&aacute;rio de Coimbra &ndash; devido a problemas de ordem burocr&aacute;tica no urbanismo da cidade. <br \/><em><br \/>AE &ndash; N&atilde;o sonha tamb&eacute;m com a beatifica&ccedil;&atilde;o da Irm&atilde; L&uacute;cia? <br \/>AC &ndash;<\/em> Sim. Sim. Se tiver essa alegria de poder abrir o processo, darei gra&ccedil;as a Deus. <br \/><em><br \/>AE &ndash; J&aacute; enviou para o Vaticano o pedido de dispensa dos cinco anos. <br \/>AC &ndash;<\/em> Continuo a aguardar a resposta. <br \/><em><br \/>AE &ndash; E um sonho para a Igreja portuguesa? <br \/>AC &ndash;<\/em> Que o nosso laicado aprofunde as suas convic&ccedil;&otilde;es de f&eacute;, de modo que se se verificar uma diminui&ccedil;&atilde;o num&eacute;rica de crist&atilde;os, possamos alegrar-mo-nos com o aumento da corresponsabilidade desses crist&atilde;os. <br \/>Alegrar-me-ei tamb&eacute;m se continuar a verificar o aumento de voca&ccedil;&otilde;es consagradas, nomeadamente sacerdotais. <br \/><em><br \/>AE &ndash; Esse foi tamb&eacute;m o desejo de Bento XVI aos bispos portugueses. <br \/>AC &ndash;<\/em> Sem d&uacute;vida.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos 25 anos da sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal, o bispo passa em revista as suas 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