{"id":29249,"date":"2008-01-11T11:14:24","date_gmt":"2008-01-11T11:14:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/11\/devocoes-populares-na-musica-judaica-arabe-e-crista\/"},"modified":"2008-01-11T11:14:24","modified_gmt":"2008-01-11T11:14:24","slug":"devocoes-populares-na-musica-judaica-arabe-e-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/devocoes-populares-na-musica-judaica-arabe-e-crista\/","title":{"rendered":"Devo\u00e7\u00f5es populares na m\u00fasica judaica, \u00e1rabe e crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>No \u00e2mbito do Festival Terras Sem Sombras, realiza-se a 12 de Janeiro, na Igreja Matriz de Santo Ildefonso, Almod\u00f4var, pelas 21h00, o segundo concerto daquele ciclo.  As m\u00fasicas, escolhidas para o tema &#8220;Oriente e Ocidente: As devo\u00e7\u00f5es populares na m\u00fasica judaica, \u00e1rabe e crist\u00e3&#8221;, ser\u00e3o interpretadas pelo Ensemble Hisp\u00e2nia (Fernando Gomes, Jos\u00e9 Manuel Tavares, Susana Dinis Moody e Victor Gaspar).  Se \u00e9 verdade que a Hist\u00f3ria regista antagonismos e conflitos entre judeus, \u00e1rabes e crist\u00e3os, n\u00e3o \u00e9 menos certo que a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica \u00e9 herdeira de cada uma dessas culturas e das suas m\u00fatuas influ\u00eancias.   Transcrevemos seguidamente um texto preparado para o Festival Terras Sem Sombras a prop\u00f3sito das composi\u00e7\u00f5es que far\u00e3o parte deste concerto, cujas obras escolhidas podem ser consultadas no fim deste artigo.     Ib\u00e9ria para os Gregos, Hisp\u00e2nia para os Romanos, Sefarad para os Hebreus, Al-\u00c2ndalus para os \u00c1rabes, muitos foram os nomes dados a uma s\u00f3 pen\u00ednsula no Sudoeste da Europa, ponto de partida e de chegada de uma babil\u00f3nia de gentes, culturas e tradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sendo por mero lirismo que, a seu tempo, Cam\u00f5es a descreveu como \u201cOnde a terra se acaba e o mar come\u00e7a\u201d. Aos Celtiberos juntaram-se Fen\u00edcios, Cartagineses, Judeus e Gregos, derrotados pelos Romanos, sucedidos pelos Visigodos, que subjugaram os Suevos e expulsaram os V\u00e2ndalos, empurrados para Norte pelos \u00c1rabes invasores, reunidos em cinco reinos da Hisp\u00e2nia e, finalmente, no dealbar do Renascimento, definidos em duas na\u00e7\u00f5es, Portugal e Espanha. E se o Mediterr\u00e2neo foi, fundamentalmente, a porta de acesso de todos estes povos, tamb\u00e9m foi por este mar que nos chegaram os tr\u00eas vectores fundamentais da cultura ib\u00e9rica, o crist\u00e3o, o \u00e1rabe e o judaico &#8211; associados, obviamente, aos contornos precisos das religi\u00f5es que escudavam.  Ao debru\u00e7armo-nos sobre o percurso de cada uma destas culturas na Pen\u00ednsula ao longo do per\u00edodo medieval, cedo verificamos que n\u00e3o s\u00f3 houve uma assump\u00e7\u00e3o de uma  cultura dita \u201cpopular\u201d, paralela a uma outra de cariz \u201cerudito\u201d, como tamb\u00e9m, facto ineg\u00e1vel, existiu uma interac\u00e7\u00e3o permanente entre elas, moldada ao sabor do tempo e das circunst\u00e2ncias. O reinado de D. Afonso Henriques (1109-1185) \u00e9 paradigm\u00e1tico no que toca a esta conviv\u00eancia de interesses. Se, por um lado, guerreou os mouros, conquistando-lhes cidades, por outro permitiu que permanecessem nos territ\u00f3rios, de forma a n\u00e3o os despovoar. E se os judeus representavam os algozes de Jesus aos olhos dos crist\u00e3os, foi a eles, e em concreto, ao seu l\u00edder, Yahia Ben Yahia, que o novo soberano entregou a responsabilidade de colectar impostos no reino, mantendo-se esta tradi\u00e7\u00e3o ao longo da dinastia borgonhesa.  Do ponto de vista estritamente musical, todas as considera\u00e7\u00f5es tecidas sobre o per\u00edodo que analisamos redundam em aproxima\u00e7\u00f5es, por for\u00e7a de uma escassez de fontes. Contudo, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar, tenuemente, o percurso do repert\u00f3rio sacro, atrav\u00e9s de alguns c\u00f3dices, bem como de um g\u00e9nero po\u00e9tico-musical, de cariz aristocr\u00e1tico, a poesia trovadoresca galaico-portuguesa, assente, exclusivamente, nos Pergaminhos Vindel e Sharrer. Quanto \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es musicais associadas a uma cultura de cariz popular, onde pontificavam os jograis, m\u00fasicos e poetas de origem plebeia, apenas subsistem descri\u00e7\u00f5es muito pontuais em fontes liter\u00e1rias de natureza diversa. Imp\u00f5em-se, contudo, algumas excep\u00e7\u00f5es neste panorama. E se tal acontece, ficamos a dev\u00ea-lo a alguns eruditos que, por raz\u00f5es diversas, registaram os contornos peculiares de que a devo\u00e7\u00e3o popular medieval se revestia, sendo exemplos do que anteriormente se afirmou as Cantigas de Santa Maria e o Llibre Vermell de Montserrat.  Digno representante de um incipiente, mas primeiro, Renascimento que floresceu pela Europa do s\u00e9culo XIII, Afonso X, o S\u00e1bio (1221-1284), notabilizou-se ao longo do seu reinado pelo fomento da actividade cultural. A ele se deve, por exemplo, a adop\u00e7\u00e3o do castelhano como idioma oficial dos reinos de Castela e Le\u00e3o, em detrimento do latim, ou a revitaliza\u00e7\u00e3o da Escuela de Traductores de Toledo, onde eruditos crist\u00e3o, judeus e mu\u00e7ulmanos vertiam para latim e castelhano obras fundamentais da cultura \u00e1rabe e hebraica, constituindo-se como um dos pilares essenciais do Renascimento cient\u00edfico europeu. Mas, da sua extensa e diversificada obra ao n\u00edvel das Leis, Libro de las Leyes [conhecido desde o s\u00e9culo XIV como Siete Partidas], da Hist\u00f3ria, General Estoria, ou at\u00e9 da Astronomia, Tablas Alfons\u00edes, Afonso X ficou indelevelmente associado ao monumental cancioneiro da literatura galaico-portuguesa que mandou coligir, as Cantigas de Santa Maria.  Descrevendo milagres ocorridos gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da \u201cSanta Dama\u201d, ou enaltecendo o Seu papel de M\u00e3e dos crentes, as Cantigas de Santa Maria integram, ainda, as Cantigas das Cinco Festas de Santa Maria, as Cinco Cantigas das Cinco Festas de Nostro Se\u00f1or, o Cantar dos Sete Pesares que viu Santa Maria de seu fillo e uma Maia, curiosa alus\u00e3o \u00e0s culturas grega (Maya era a maior das Pl\u00eaiades) e romana (Maia Maiestas ou Bona Dea, a boa deusa), totalizando 427 poemas.  A cantiga Santa Maria amar [n.\u00ba 7] narra-nos o curioso epis\u00f3dio de uma abadessa que, tendo engravidado do seu escudeiro bolonh\u00eas, \u00e9 chamada \u00e0 presen\u00e7a do bispo de Col\u00f3nia. Ciente do grave castigo que a espera, a jovem abadessa cai em devota e pia ora\u00e7\u00e3o aos p\u00e9s da Virgem Maria, a qual, como num sonho, aparece acompanhada de dois anjos, que lhe tiram o filho do ventre e o entregam a um eremita, salvando a abadessa da puni\u00e7\u00e3o eminente.  A cantiga Non sofre Santa Maria [n.\u00ba 159] faz parte de um conjunto de pe\u00e7as que relatam os milagres de Nossa Senhora de Rocamadour, local de peregrina\u00e7\u00e3o no Sudoeste franc\u00eas. Ao verificarem que um peda\u00e7o de carne da sua ceia havia sido roubado, os peregrinos, famintos, imploram \u00e0 Virgem que o ladr\u00e3o seja encontrado. Quando uma criada se denuncia, os peregrinos apressam-se a ir rezar ao santu\u00e1rio em ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela intercess\u00e3o mariana.  Outro exemplo da devo\u00e7\u00e3o popular \u2013 e da m\u00fasica a esta associada \u2013 \u00e9 o Llibre Vermell do santu\u00e1rio da Virgem Maria de Montserrat, mosteiro beneditino catal\u00e3o e local de peregrina\u00e7\u00f5es frequentes ao longo da Hist\u00f3ria. Escrito entre os finais do s\u00e9culo XIV e os princ\u00edpios do XV, o Llibre Vermell cont\u00e9m dez melodias associadas ao culto mariano: uma balada (Los set gotxs), um motete (Imperayritz), tr\u00eas can\u00e7\u00f5es (O virgo splendens, Laudemus Virginem e Splendens ceptigera) e cinco virelai (Stella splendens, Mariam matrem, Polorum Regina, Cuncti simus e Ad mortem festinamus).  De car\u00e1cter dan\u00e7ante (est\u00e1 indicada como sendo uma dan\u00e7a de roda), a balada Los setgotxs [fl. 23 v.\u00ba] \u00e9 constitu\u00edda por duas frases musicais em tudo id\u00eanticas, e um refr\u00e3o (na terminologia da \u00e9poca, envoi), estrutura sintetizada pela f\u00f3rmula aaB.  O virelai Cuncti simus [fl. 24 r.\u00ba] \u00e9 constitu\u00eddo por um refr\u00e3o (estribillo) seguido de duas frases musicais id\u00eanticas (mudanzas) e, de novo, o refr\u00e3o (vuelta), correspondendo \u00e0 estrutura musical AbbA. De notar, ainda, o jogo elegante que resulta da altern\u00e2ncia entre os modos r\u00edtmicos troqueu e j\u00e2mbico, recurso, tamb\u00e9m ele, utilizado no virelai Polorum Regina.  Em oposi\u00e7\u00e3o a estas obras, devo\u00e7\u00f5es populares registadas por eruditos, est\u00e1 um dos fen\u00f3menos mais interessantes de todas as culturas, do Oriente ao Ocidente, das Am\u00e9ricas \u00e0 Oce\u00e2nia, que \u00e9 o fen\u00f3meno da tradi\u00e7\u00e3o oral. Antes de mais, \u00e9 importante desfazer a ideia, tantas vezes aplicada \u00e0 m\u00fasica (e tamb\u00e9m aos rimances, contos populares, etc.), da cria\u00e7\u00e3o colectiva. Nunca se viu o povo a compor todo junto; pelo contr\u00e1rio, numa dada \u00e9poca, um autor necessariamente individual, comp\u00f4s e recriou a partir de um substrato musical e po\u00e9tico que lhe foi fornecido pela tradi\u00e7\u00e3o. Assim, este fen\u00f3meno dever\u00e1 ser entendido \u00e0 luz das premissas de permanente muta\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o. Neste sentido, verificamos que as influ\u00eancias musicais que estiveram na origem do riqu\u00edssimo cancioneiro tradicional portugu\u00eas s\u00e3o v\u00e1rias, n\u00e3o esquecendo as condicionantes geogr\u00e1ficas e s\u00f3cio-politicas, percepcionando-se tr\u00eas linhas principais, a do cantoch\u00e3o (hispano-aquit\u00e2nico), a da m\u00fasica do Al-\u00c2ndalus e a da m\u00fasica judaica.  \u00c9, em particular, em zonas da raia, que encontramos uma interac\u00e7\u00e3o profunda entre estas culturas musicais. O Canto da Ver\u00f3nica, da regi\u00e3o de Redondo (\u00c9vora) mistura reminisc\u00eancias do cantoch\u00e3o com melismas da m\u00fasica do Al-\u00c2ndalus, resultando numa das obras mais fascinantes do repert\u00f3rio tradicional portugu\u00eas.  N\u00e3o podemos esquecer que a tradi\u00e7\u00e3o musical do Al-\u00c2ndalus, mais do que m\u00fasica \u00e1rabe, \u00e9 definida, por autores eruditos, entre eles Leo Plenckers, como uma tradi\u00e7\u00e3o h\u00edbrida de pendor ocidental, em termos formais, pr\u00f3xima dos c\u00e2nones peninsulares mas, em termos r\u00edtmicos, da diversidade e complexidade \u00e1rabe, tendo atingido o seu grau mais alto de integra\u00e7\u00e3o em pleno s\u00e9culo XII. Tal \u00e9 percept\u00edvel na important\u00edssima transcri\u00e7\u00e3o feita por Benjamin Liu e James Monroe, em 1989, de dez can\u00e7\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o oral.  Por \u00faltimo, os romances que narram as desventuras daqueles que, pela sua F\u00e9, foram postos a ferros e condenados ao cativeiro, com m\u00fasica e texto de caracter\u00edsticas estr\u00f3ficas, com redund\u00e2ncias e mnem\u00f3nicas t\u00edpicas dos romances de tradi\u00e7\u00e3o oral.  O Romance do Cativo, de Aljezur (Algarve), conta a hist\u00f3ria de um cavaleiro crist\u00e3o que \u00e9 salvo das masmorras gra\u00e7as a uma moura que, perdida de amores, lhe paga o resgate. O mais interessante \u00e9 que este mesmo romance, com a mesma hist\u00f3ria, palavras e m\u00fasica foi identificado por music\u00f3logos em aldeias de Israel e vers\u00f5es semelhantes em aldeias do norte de \u00c1frica. Ou seja, sefarditas fugidos \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es manuelinas e mouros fugidos ao dom\u00ednio cat\u00f3lico, levaram consigo esta hist\u00f3ria e mantiveram-na oralmente de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.  Numa \u00e9poca em que, de novo, muitos s\u00e3o feitos cativos em nome da cren\u00e7a que professam, \u00e9 oportuno relembrar as s\u00e1bias palavras de Ibn Arab\u00ed, de M\u00farcia (s\u00e9culo XIII), pupilo de Al-Oriani, de Al-Ulya (Loul\u00e9):  \u201cO meu cora\u00e7\u00e3o abriu-se a todas as formas: \u00e9 uma pastagem para as gazelas, um claustro para os monges crist\u00e3os, um templo de \u00eddolos, Caaba de peregrinos, as t\u00e1buas de Tora e o Cor\u00e3o [\u2026]. Qualquer que seja a direc\u00e7\u00e3o em que as caravanas avancem, a religi\u00e3o do Amor ser\u00e1 sempre o meu credo e a minha f\u00e9.\u201d     <b>Programa do Concerto<\/b>  M\u00fasica Crist\u00e3 Medieval, Cantigas de Santa Maria (S\u00e9c. XIII) Cantiga de Santa Maria n.\u00ba 159 Cantiga de Santa Maria n.\u00ba 7  Romances do Cativo: Toler\u00e2ncia e F\u00e9 Romance do Cativo (Aljezur, Algarve) Ya viene el cativo (Tradicional Andaluza)  M\u00fasica Tradicional Portuguesa Canto da Ver\u00f3nica: O vos omnes (Redondo, \u00c9vora) Para o S\u00e3o Jo\u00e3o (Beira Baixa) Moda das casadas (Beira Baixa)  M\u00fasica \u00c1rabe e M\u00fasica Contrafacta Judaica Hisp \u00e2nica (Al-\u00e2ndalus) Lamma badda (tradicional andaluza) Ayyu-ha s-saqi (tradicional andaluza, s\u00e9culo XII) Gran consejo de los santos (Khlas n\u00faba reml, garnati de Arg\u00e9lia) A T\u00ed, Se\u00f1or, rogar\u00e9 (An\u00f3nimo, s\u00e9culo XIV) Dios me proteger\u00e1 (tradicional judaico-marroquina) P\u00e1jaro en vuelo (tradicional andaluza)  M\u00fasica Crist\u00e3 Medieval, Canto de Peregrinos do Llibre Vermell de Montserrat (s\u00e9cs. XIV\/XV) Cuncti Simus Concanentes (Virelai, fl. 24 r.\u00ba) Los Set Goyts (Balada, fl. 23 v.\u00ba)   <i>Jos\u00e9 Bruto da Costa www.snpcultura.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00e2mbito do Festival Terras Sem Sombras, realiza-se a 12 de Janeiro, na Igreja Matriz de Santo Ildefonso, Almod\u00f4var, pelas 21h00, o segundo concerto daquele ciclo. 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