{"id":290235,"date":"2023-07-19T12:44:34","date_gmt":"2023-07-19T11:44:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=290235"},"modified":"2023-07-19T12:45:31","modified_gmt":"2023-07-19T11:45:31","slug":"a-humanidade-do-padre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-humanidade-do-padre\/","title":{"rendered":"A Humanidade do Padre"},"content":{"rendered":"<div><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-268285 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>N\u00e3o pude deixar de refletir, por estes dias, na condi\u00e7\u00e3o sacerdotal atual. Primeiro tolhido e abatido pelo n\u00famero de padres que t\u00eam falecido. N\u00e3o h\u00e1 semana em que a Ecclesia n\u00e3o noticie a morte de um sacerdote e h\u00e1 semanas em que temos um \u00f3bito de um padre todos os dias. H\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o de sacerdotes, que deixou uma marca indel\u00e9vel na Igreja e na sociedade, que est\u00e1 a partir. N\u00e3o podia ser mais premente o apelo do Evangelho aqui h\u00e1 uns tempos atr\u00e1s, n\u00e3o para se acordar Deus ou se dar um pux\u00e3o de orelhas ao Esp\u00edrito Santo, mas para despertar todos e cada um para a sua voca\u00e7\u00e3o e para a necessidade de dar mais: pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Em segundo, refletindo em dois apelos importantes: um vindo de D. Vitorino Soares, para que as comunidades cuidem dos seus pastores e os pastores tamb\u00e9m cuidem uns dos outros, e se rezasse pelos pastores que andam mais abatidos, desiludidos e cansados; outro vindo de D. Ant\u00f3nio Luciano, pedindo aos padres que tenham uma vida interior s\u00e9ria e com profundidade espiritual.<\/p>\n<p>Todos estes apelos s\u00e3o bem-vindos e t\u00eam raz\u00e3o de ser, h\u00e1 que rezar pela santifica\u00e7\u00e3o dos sacerdotes, mas, hoje, mais do que nunca, \u00e9 preciso primeiro cuidar da humanidade do padre. O baixo n\u00famero de voca\u00e7\u00f5es est\u00e1 a levar a que os padres assumam muitas par\u00f3quias e se multipliquem por um sem n\u00famero de atividades e a\u00e7\u00f5es. Ainda vigora o \u201cpadrocentrismo\u201d em muitas par\u00f3quias. Tudo se faz com o padre e nada se faz sem o padre. Exige-se a sua presen\u00e7a em todo o lado. Por outro lado, o estatuto do padre mudou. J\u00e1 n\u00e3o tem a autoridade de outros tempos. Ainda \u00e9 ouvido, mas depois cada um faz o quer e deixa o padre a falar sozinho. Parece que anda a pregar para surdos, salvo seja. No meio deste relativismo, o padre sente-se um pouco perdido e com um trabalho muito mais dificultado, o que n\u00e3o deixa de ser um grande desafio. Mas, por outro lado, muitas pessoas ainda procuram o padre, porque vivem num turbilh\u00e3o de d\u00favidas, incertezas, ang\u00fastias, dificuldades, vazio existencial e desnorte moral e espiritual, que a sociedade atual oferece, e a voz do padre ainda \u00e9 valorizada.<\/p>\n<p>Temos uma forma\u00e7\u00e3o vincadamente humana, intelectual, moral e espiritual, centrada na liturgia e na prega\u00e7\u00e3o, mas quando chegamos \u00e0s par\u00f3quias percebemos que temos de ter alguma plasticina, moldada pelo engenho e pela carolice de cada um: ser secret\u00e1rio, burocrata, empreiteiro, cozinheiro, dono de casa, sacrist\u00e3o, maestro, assistente disto ou daquilo.\u00a0 Como se isto n\u00e3o chegasse, ultimamente ainda lhe arranjaram o cargo chique de ser presidente de centros paroquiais. Muitos p\u00e1rocos aceitam, porque assim tamb\u00e9m mandam as regras, d\u00e1 poder e visibilidade social, mas acho que os padres n\u00e3o s\u00e3o ordenados para serem presidentes de centros paroquiais, para o qual n\u00e3o tiveram nenhuma forma\u00e7\u00e3o ou muito pouca. \u00c9 um cargo com alguma exig\u00eancia. No meio desta az\u00e1fama toda, pergunta-se: o padre ainda ter\u00e1 tempo para ser padre? \u00c9 ordenado para ser padre e depois \u00e9 quase tudo menos padre. Certamente que deve dar o seu contributo no campo social e no servi\u00e7o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o deve ser o padre a liderar. H\u00e1 leigos com forma\u00e7\u00e3o neste campo, que perfeitamente podem ocupar o cargo. O trabalho de \u00abfuncion\u00e1rio\u00bb das par\u00f3quias e da Igreja, infelizmente, traz muito preju\u00edzo para a vida espiritual e para a disponibilidade que o padre deve ter para os outros como padre. Duvido que agendas sobrecarregadas, com muitas atividades, reuni\u00f5es e a\u00e7\u00f5es, fa\u00e7am dos padres bons padres.\u00a0 H\u00e1 um excesso de preocupa\u00e7\u00e3o pelo fazer e n\u00e3o pelo ser e estar, que \u00e9 o fundamental da vida de um padre. At\u00e9 o povo j\u00e1 se habituou a comentar que \u00abo senhor padre tem muito que fazer e, coitado, anda t\u00e3o cansado\u00bb. Quem me liga para o telem\u00f3vel, j\u00e1 me vai dizendo muitas vezes \u201cdesculpe incomod\u00e1-lo, que o Senhor deve ter muito que fazer\u201d. Se assim \u00e9, alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 bem na vida do padre atual.<\/p>\n<p>Ser padre exige alguma prud\u00eancia, equil\u00edbrio e humildade, para n\u00e3o se cair no vedetismo, que \u00e9 sempre uma tenta\u00e7\u00e3o. O padre indica, deve apelar sempre e ser ponte para algo muito maior do que ele: Jesus Cristo. Na Igreja, o centro das aten\u00e7\u00f5es \u00e9 Jesus Cristo e n\u00e3o o padre. Mete-me alguma confus\u00e3o e impress\u00e3o ver padres armados em vedetas e nas par\u00f3quias grupos de pessoas alinhados com certos padres e com outros n\u00e3o, ou multid\u00f5es dominicais com uns padres e desertos com outros. S\u00e3o sinais evidentes de grande superficialidade e imaturidade crist\u00e3. O padre que \u00e9 vedeta, com agenda e objetivos pessoais, \u00e9 um mau padre, e uma comunidade que se centra muito no estilo do padre, \u00e9 uma m\u00e1 comunidade. Uns t\u00eam mais talentos do que outros e alguns ser\u00e3o mais apelativos do que outros, mas uma boa comunidade crist\u00e3 e um bom crist\u00e3o centra-se em Cristo e n\u00e3o no padre que tem.<\/p>\n<p>Mas o que mais refleti, j\u00e1 embalado pela vintena de anos do meu sacerd\u00f3cio, foi o encontro com a minha pobreza e a minha fragilidade no exerc\u00edcio do sacerd\u00f3cio. Julgamos que vamos ser sempre jovens e que vamos ter sempre novidade, criatividade e frescura espiritual e pastoral para dar e vender, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. O encanto por ser padre e servir Cristo e a Igreja n\u00e3o se perdeu, mas vive-se na fragilidade da nossa humanidade. Constru\u00edmos a imagem de que o padre \u00e9 quase o senhor todo perfeito, um anjo de Deus na terra, sem defeitos, sem dificuldades, sem problemas, sem ang\u00fastias e sem d\u00favidas. N\u00e3o tem dramas, nem complexos, muito menos v\u00edcios e manias. Tem bons conselhos para tudo e todos, possivelmente viver\u00e1 sempre uma vida espiritual elevada, nunca perde o equil\u00edbrio e nunca precisa de ajuda, est\u00e1 capacitado para ter uma performance quase perfeita. O padre \u00e9 encarado como um ser extraordin\u00e1rio que vive quase inc\u00f3lume ao que os outros experimentam. Um padre sem humanidade. Lamento, mas este padre n\u00e3o existe. Aquela imagem faz at\u00e9 com o padre se sinta pressionado e passe algum tempo a esconder os seus medos, as suas fragilidades e as suas ang\u00fastias, porque o padre tem de ser sempre imperturb\u00e1vel, forte e certinho, n\u00e3o pode ser fraco ou manifestar fraqueza. Nada mais ilus\u00f3rio e desumano. O padre tamb\u00e9m falha, erra, engana-se, chora, sofre, ri, cora, irrita-se, treme e distrai-se, adoece.<\/p>\n<p>H\u00e1 que assumir a nossa humanidade. As comunidades crist\u00e3s t\u00eam se habituar a gostar do padre que t\u00eam, um ser humano com as suas virtudes e os seus defeitos, a n\u00e3o se limitarem s\u00f3 a exigir, sem olhar \u00e0 fragilidade e limita\u00e7\u00e3o do sacerdote que as serve. E o padre n\u00e3o ter medo de mostrar o que \u00e9 e o que vive, confessando-se de vez em quando \u00e0 comunidade, para tamb\u00e9m ser ajudado e n\u00e3o viver no drama de alimentar falsas imagens e recusar a sua humanidade, na unicidade e especificidade de cada um.<\/p>\n<p>E, por favor, fa\u00e7am-me um obs\u00e9quio: n\u00e3o me falem mal dos padres velhos por serem velhos. Quem n\u00e3o vai para velho? As comunidades crist\u00e3s, e a Igreja em geral, n\u00e3o podem querer s\u00f3 a parte melhor das pessoas, o seu tempo de maior vigor e criatividade, e depois quererem facilmente arrum\u00e1-las, como se j\u00e1 n\u00e3o tivessem qualquer valor. Os crit\u00e9rios da Igreja n\u00e3o s\u00e3o a produtividade e a efic\u00e1cia, mas o amor e o servi\u00e7o. As pessoas devem ser sempre amadas e respeitadas, acolhidas na sua mais pura humanidade, independente do que fazem e produzem. A igreja, primeiro que tudo, tem de ser uma casa de humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-290235","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=290235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290235\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=290235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=290235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=290235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}