{"id":28978,"date":"2007-12-25T21:37:30","date_gmt":"2007-12-25T21:37:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/25\/homilia-na-noite-de-natal-do-patriarca-de-lisboa\/"},"modified":"2007-12-25T21:37:30","modified_gmt":"2007-12-25T21:37:30","slug":"homilia-na-noite-de-natal-do-patriarca-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-na-noite-de-natal-do-patriarca-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Homilia na Noite de Natal do Patriarca de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;A Virgem conceber\u00e1\u2026&#8221;  (Is. 7,14; Mt. 1,23)  Homilia na Noite de Natal S\u00e9 Patriarcal, 24 de Dezembro de 2007  1. Na noite de Bel\u00e9m, no quadro descrito por Lucas, ressalta a figura de Maria, a mulher M\u00e3e, com toda a ternura que a maternidade desencadeia no cora\u00e7\u00e3o da mulher, centrada no filho rec\u00e9m-nascido, mas cuja intensidade abra\u00e7a o mundo. \u201cEnvolveu-O em paninhos e deitou-O numa manjedoura\u201d. A mod\u00e9stia dos meios dispon\u00edveis em nada compromete a ternura maternal. Segundo o Evangelista S\u00e3o Mateus (cf. Mt. 1,23), a maternidade de Maria realiza a profecia de Isa\u00edas: \u201cA Virgem conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um Filho, que chamar\u00e1 Emanuel\u201d (Is. 7,14). Segundo Isa\u00edas, este Menino \u00e9 o sinal, dado a um Rei incr\u00e9dulo, da salva\u00e7\u00e3o de Deus em rela\u00e7\u00e3o ao Seu Povo. O seu nome, Emanuel, Deus connosco, anuncia a interven\u00e7\u00e3o pessoal e amorosa de Deus na realiza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que Mateus apresenta como prova da iniciativa criadora de Deus, na maternidade de Maria, o cumprimento desta profecia de Isa\u00edas. Segundo S\u00e3o Lucas, o Anjo da anuncia\u00e7\u00e3o, ao revelar a Maria a sua maternidade, refere a origem e a qualidade divina da crian\u00e7a que vai nascer: \u201cO Esp\u00edrito Santo vir\u00e1 sobre ti e o poder do Alt\u00edssimo te envolver\u00e1 na sua sombra; \u00e9 por isso que o Filho ser\u00e1 santo e chamar-se-\u00e1 Filho de Deus\u201d (Lc. 1,35).  2. H\u00e1 um mist\u00e9rio nesta maternidade: uma virgem \u00e9 m\u00e3e. Os textos b\u00edblicos sugerem-no, a f\u00e9 subsequente da Igreja confirma-o: trata-se de uma maternidade virginal, express\u00e3o, que \u00e0 luz da realidade humana como a conhecemos, aparece contradit\u00f3ria nos termos. De facto, na ordem normal das coisas, o primeiro dom que a mulher oferece ao seu Filho, na intimidade do amor esponsal, \u00e9 a sua virgindade. O car\u00e1cter paradoxal deste mist\u00e9rio, leva uns a neg\u00e1-lo, interpretando as express\u00f5es b\u00edblicas como afirma\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da beleza daquela maternidade; outros, aceitando o mist\u00e9rio, separam-no da beleza e profundidade do amor conjugal de Maria e Jos\u00e9, um casal s\u00f3 a fazer de conta, n\u00e3o tendo nada a ver com aquele Menino que Maria deu \u00e0 luz em Bel\u00e9m. Nem uma nem outra destas atitudes respeita a profundidade do mist\u00e9rio. A luz que o pode esclarecer, brota da beleza do amor na sua fonte primeira, a comunidade divina, e da verdade profunda da uni\u00e3o esponsal do homem e da mulher, que s\u00e3o, no seu amor, a imagem do que Deus \u00e9 como Deus-amor. N\u00e3o podemos interiorizar este mist\u00e9rio s\u00f3 a partir de uma vis\u00e3o f\u00edsica da virgindade e da compreens\u00e3o que dela temos na experi\u00eancia humana da rela\u00e7\u00e3o do homem e da mulher. Virginal \u00e9, antes de mais, atributo do amor de Deus. Deus \u00e9 puro amor, totalmente dom. \u00c9 no encontro m\u00fatuo que cada uma das pessoas se encontra, se define e se esgota no acto de amor. Deus n\u00e3o \u00e9 uma realidade est\u00e1tica; est\u00e1 permanentemente a acontecer na surpresa do amor. O amor virginal de Deus \u00e9 um amor envolvente, que se expande, criando, e atrai para si, porque encerra o segredo e o sentido da cria\u00e7\u00e3o. O ser humano \u00e9 criado com a possibilidade de amar e ser amado; ele foi criado \u00e0 imagem de Deus. \u00c9 chamado a participar no amor virginal de Deus e amar o seu pr\u00f3ximo em Deus. Segundo a narrativa da cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 na comunh\u00e3o homem-mulher que se realiza e exprime esta \u201cimagem de Deus\u201d, esta capacidade de amar como Deus ama: \u201cDeus criou o homem \u00e0 Sua imagem, \u00e0 imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou\u201d (Gen. 1,27).  O texto do G\u00e9nesis \u00e9 rico em detalhes carregados de significado. S\u00f3 com a cria\u00e7\u00e3o da mulher o homem atinge a plenitude humana, a sua qualidade de sujeito de amor. Antes da cria\u00e7\u00e3o da mulher, o ser humano \u00e9 chamado \u201cAdama\u201d, que quer dizer terr\u00e1queo, vindo do p\u00f3 da terra. Com a cria\u00e7\u00e3o da mulher, o homem passa a chamar-se \u201cish\u201d, e \u00e0 mulher, que ele sa\u00fada como \u201cosso dos meus ossos e carne da minha carne\u201d (G\u00e9n. 2,23) \u00e9 dado o mesmo nome no feminino, o que permite o autor afirmar que eles n\u00e3o ser\u00e3o dois, mas um s\u00f3. Em hebraico este nome do ser humano, masculino e feminino, unidos no amor e para o amor, cont\u00e9m as duas primeiras letras do tetragrama divino, do nome de Deus, revelado por Ele pr\u00f3prio a Mois\u00e9s. Na sua uni\u00e3o eles t\u00eam algo de divino, participam da realidade de Deus. Como Deus, s\u00f3 se podem reconhecer no amor, s\u00e3o chamados a participar no amor virginal de Deus. Trazem impresso no seu ser o primeiro mandamento da Lei: amar a Deus, amar-se um ao outro. \u00c9 na for\u00e7a desta uni\u00e3o que o homem encontra a sua for\u00e7a e o seu poder: de ser fecundo, de se multiplicar e encher a terra e de dominar sobre todos os seres criados (cf. Gen. 1,28ss). Este mandamento, impresso na sua carne, n\u00e3o se reduz \u00e0 capacidade de procriar. \u201cNeste texto, a finalidade do amor \u00e9 o amor: separar-se do seu pai e da sua m\u00e3e e ser, com a sua mulher, uma s\u00f3 carne\u201d . Depois da queda, o ser humano volta a ser chamado \u201cAdama\u201d. Quebrada a comunh\u00e3o de amor entre o homem e a mulher, o homem perdeu a sua capacidade de dominar a cria\u00e7\u00e3o, que se lhe torna hostil. A salva\u00e7\u00e3o futura consistir\u00e1 na recondu\u00e7\u00e3o do homem e da mulher \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no amor de Deus. A vit\u00f3ria sobre o mal ser\u00e1 vit\u00f3ria da mulher e da sua descend\u00eancia. Esta passar\u00e1 a designar-se, n\u00e3o pela sua uni\u00e3o ao homem, mas pela sua maternidade. A \u201cAdama\u201d \u00e9 dito: voltar\u00e1s a ser terra; a mulher \u00e9 chamada \u201cEva\u201d, por ser a m\u00e3e de todos os seres vivos (cf. G\u00e9n. 3,19-20).  3. \u00c9, pois, claro no mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o, que o homem, que \u00e9 homem e mulher, \u00e9 chamado a participar no amor virginal de Deus, voca\u00e7\u00e3o que o pecado comprometeu. O homem voltou a ser \u201cp\u00f3 da terra\u201d e a mulher, em vista daquela que h\u00e1-de ser m\u00e3e \u2013 a virgem que conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho \u2013 chamar-se-\u00e1 \u201cEva\u201d, M\u00e3e. Deus \u00e9 Esp\u00edrito; o homem \u00e9 mat\u00e9ria, elevado \u00e0 dignidade de amar espiritualmente como Deus ama. Na tradi\u00e7\u00e3o subsequente, foi-se acentuando a oposi\u00e7\u00e3o entre a mat\u00e9ria e o esp\u00edrito, a carne e o esp\u00edrito, atribuindo \u00e0 natureza carnal do ser humano o grande obst\u00e1culo ao amor virginal, participa\u00e7\u00e3o no amor de Deus. Mas a possibilidade desse amor virginal continua a ser desejo e promessa. Deus anuncia que desposa Israel e Cristo amar\u00e1 a Igreja como uma esposa. A uni\u00e3o esponsal, que sup\u00f5e a reden\u00e7\u00e3o e a vit\u00f3ria sobre o pecado, continua a ser express\u00e3o dessa participa\u00e7\u00e3o, pelos humanos, do amor virginal e esponsal de Deus. S\u00e3o Paulo na segunda leitura desta celebra\u00e7\u00e3o, referindo-se a Jesus Cristo, diz que a gra\u00e7a de Deus voltou a manifestar-se; ela \u00e9 vit\u00f3ria sobre a impiedade e os desejos mundanos (cf. Tit. 2,12). A descoberta da possibilidade do amor virginal pelos crist\u00e3os, concretiza-se, n\u00e3o na materialidade das n\u00fapcias terrenas, mas nas n\u00fapcias entre Deus e o Seu Povo, entre Cristo esposo e a Igreja esposa, dando realismo presente aos bens eternos que se esperam. Os crist\u00e3os, quando se unem em casamento, fazem-no participando das n\u00fapcias de Cristo com a Igreja, desejando, com a for\u00e7a do Esp\u00edrito, fazer do seu amor participa\u00e7\u00e3o no amor virginal de Deus, dimens\u00e3o que s\u00f3 ser\u00e1 perfeita e definitiva na eternidade.  4. \u201cE a Virgem conceber\u00e1!&#8230;\u201d. Que o amor virginal de Deus \u00e9 fecundo, tinha-no-lo Ele mostrado na cria\u00e7\u00e3o e em toda a fecundidade da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus no cora\u00e7\u00e3o dos crentes. Em Maria e Jos\u00e9 exprime-se o primeiro encontro, an\u00fancio do definitivo, entre a fecundidade do amor virginal de Deus e o amor esponsal do homem e da mulher. Que o amor esponsal de Maria e Jos\u00e9 era virginal, \u00e9 claramente sugerido pelos textos evang\u00e9licos, que n\u00e3o evitam a humana contradi\u00e7\u00e3o entre casamento fecundo e virgindade. Maria \u00e9 apresentada como esposa de Jos\u00e9; mas quando lhe \u00e9 dito que vai ter um filho, responde: \u201cComo ser\u00e1 isso, se eu n\u00e3o conhe\u00e7o homem?\u201d (Lc. 1,34). Esta qualidade do seu amor, que parece incluir uma forma futura de se exprimir, dramatiza o choque de Jos\u00e9 quando se d\u00e1 conta da gravidez de Maria. S\u00f3 Deus o pode tranquilizar, revelando mais profundamente a natureza do seu amor virginal, participa\u00e7\u00e3o no amor virginal e fecundo de Deus. \u201cJos\u00e9, n\u00e3o temas receber Maria como tua esposa porque o que foi gerado nela vem do Esp\u00edrito Santo\u201d (Mt. 1,20). A Maria o Anjo tinha revelado o segredo da sua fecundidade: \u201cO Esp\u00edrito Santo vir\u00e1 sobre ti e envolver-te-\u00e1 com a sua sombra\u201d (Lc. 1,35). O nascimento de Jesus n\u00e3o marginaliza a uni\u00e3o esponsal de Maria e Jos\u00e9. Pela primeira vez, a fecundidade do amor de Deus pode exprimir-se na fecundidade de um casal, cujo amor \u00e9 participa\u00e7\u00e3o no amor virginal de Deus. A \u201cVirgem concebeu\u201d; afinal o amor virginal n\u00e3o impede, nem o amor esponsal, nem a fecundidade maternal. Jesus gosta de chamar a Maria \u201cIsha\u201d, mulher (cf. Jo. 19,26). Na gruta de Bel\u00e9m, a mulher, de novo \u201cIsha\u201d, porque capaz do amor esponsal e virginal definitivo, aparece-nos como \u201cM\u00e3e, \u201cEva\u201d, \u201cNova Eva\u201d, porque a sua maternidade anuncia a paternidade de Deus,  e abre novos horizontes \u00e0 fecundidade da mulher, no contexto da reden\u00e7\u00e3o, em esponsais misteriosos com o seu pr\u00f3prio Filho Jesus Cristo, o que esmagou a cabe\u00e7a da serpente e abriu para a humanidade a esperan\u00e7a das n\u00fapcias eternas.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A Virgem conceber\u00e1\u2026&#8221; (Is. 7,14; Mt. 1,23) Homilia na Noite de Natal S\u00e9 Patriarcal, 24 de Dezembro de 2007 1. 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