{"id":28977,"date":"2007-12-25T21:34:21","date_gmt":"2007-12-25T21:34:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/25\/homilia-do-dia-de-natal-do-bispo-do-porto\/"},"modified":"2007-12-25T21:34:21","modified_gmt":"2007-12-25T21:34:21","slug":"homilia-do-dia-de-natal-do-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-dia-de-natal-do-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Homilia do Dia de Natal do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>Sinais do Natal de Cristo na hist\u00f3ria das sociedades contempor\u00e2neas, imposs\u00edveis de esconder <!--more--> NATAL 2007  Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, no pres\u00e9pio de Cristo e da vida: Ouvimos o Evangelho, saboreemos a boa not\u00edcia: \u201cO Verbo fez-Se carne e habitou entre n\u00f3s. N\u00f3s vimos a sua gl\u00f3ria, gl\u00f3ria que Lhe vem do Pai como Filho Unig\u00e9nito, cheio de gra\u00e7a e de verdade\u201d, Habitou entre n\u00f3s, o Verbo de Deus: com tudo o que este \u201centre n\u00f3s\u201d significava ent\u00e3o e significa hoje, na interioridade de cada um, como na vida das fam\u00edlias e em todas as articula\u00e7\u00f5es da sociabilidade humana. A\u00ed mesmo, onde se cruzam \u201cas alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos\u201d (Gaudium et spes, n\u00ba 1).  A comunica\u00e7\u00e3o social traz-nos a toda a hora farta medida de tudo isto, com que devemos alargar o cen\u00e1rio do perene pres\u00e9pio de Cristo. E muitas outras alegrias e tristezas l\u00e1 estar\u00e3o tamb\u00e9m, talvez as mais certas e profundas, que, por isso mesmo, s\u00e3o arredias \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o e \u00e0 not\u00edcia. Tamb\u00e9m l\u00e1 estavam e l\u00e1 est\u00e3o, nesse \u201centre n\u00f3s\u201d que o Verbo faz seu. No cora\u00e7\u00e3o de Deus cabemos todos e a sua miseric\u00f3rdia encontra-nos mesmo no que ainda n\u00e3o sabemos de n\u00f3s pr\u00f3prios\u2026  Mas deixai-me dizer: a esta luz do Natal custa reparar em quem n\u00e3o repara nela. Reparar certamente em n\u00f3s, os crist\u00e3os, quando nem a acolhemos nem a reflectimos bastante. E reparar tamb\u00e9m em como se reeditam cr\u00edticas gen\u00e9ricas \u00e0 religi\u00e3o e ao seu lugar na sociedade e na cultura, como se ela se opusesse \u00e0 marcha da humanidade, em termos de racionalidade e liberta\u00e7\u00e3o. Como se a afirma\u00e7\u00e3o de um Deus criador, fonte permanente do ser e da vida, contrariasse a mesma humanidade no seu desenvolvimento e progresso, pr\u00f3prios e livres. Como se a f\u00e9 num Deus \u00fanico, garantia e apelo duma humanidade por isso mesmo \u00fanica e comum, fosse causa certa de fanatismos e guerras. Como se esta mesma f\u00e9 ofuscasse um mundo m\u00e1gico, em que a imagina\u00e7\u00e3o se espraiasse mais\u2026 Custa reparar\u2026 Porque, quer hist\u00f3rica quer cultural e civilizacionalmente, foi exactamente a incarna\u00e7\u00e3o do Verbo que trouxe \u00e0 humanidade e \u00e0 hist\u00f3ria toda a solidez da origem e toda a responsabilidade pelo fim. Agora sim, a cria\u00e7\u00e3o recupera o seu escopo numa humanidade perfeita, como a realizada em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, potencia\u00e7\u00e3o infinita de tudo quanto originalmente nos foi prometido, por participa\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio Esp\u00edrito de Deus criador. Na verdade, \u201cfoi da sua plenitude que todos n\u00f3s recebemos gra\u00e7a sobre gra\u00e7a\u201d. Custa reparar que ainda n\u00e3o apare\u00e7a suficientemente clara e convincente a verdade natal\u00edcia de que \u00e9 \u201centre n\u00f3s\u201d e n\u00e3o de fora que Deus se exprime e entrega, como no menino do pres\u00e9pio, feito homem de todas as dores na cruz, para ser agora vida das nossas vidas, realizando todas as esperan\u00e7as. O Cristianismo \u2013 muito para al\u00e9m de todas as contrafac\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que tenha sofrido, ou da lenta assimila\u00e7\u00e3o da sua verdade pelos crentes que fomos e somos &#8211; liberta a pr\u00f3pria religi\u00e3o do que nela haja de menos humano, porque traz a cada um de n\u00f3s a certeza da realidade divina. E \u00e9 exactamente por ser Cristianismo que respeita a realidade humana e natural, como campo pr\u00f3prio de responsabilidade e escolha, investiga\u00e7\u00e3o e compromisso.  \u2013 Alguma vez se dissera antes que Deus podia ser menino pobre e fugitivo, jovem aprendiz e carpinteiro, homem entre os homens, comprometido at\u00e9 ao fim na caridade e na justi\u00e7a, morrendo mesmo por elas? \u2013 Alguma vez se admitira poder estar Deus no mundo, com tanto respeito e activa\u00e7\u00e3o da \u201cautonomia das realidades temporais\u201d (cf. Gaudium et spes, n\u00ba 36)? \u2013 Alguma vez se respeitara tanto a cria\u00e7\u00e3o e os seus dinamismos, ao ponto de lhe sofrer todas as consequ\u00eancias, do crescimento \u00e0 morte, e trazendo-lhe pela autenticidade da vida, que inteiramente viveu, a recupera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria autenticidade das coisas: mais vista aos cegos, mais firmeza aos fracos, mais serenidade \u00e0s \u00e1guas e mais luz aos c\u00e9us?  E tudo isto e sempre \u201centre n\u00f3s\u201d e nunca fora de n\u00f3s, nem da dramaticidade da vida e do mundo; dramaticidade que, do pres\u00e9pio \u00e0 cruz, \u00e9 salva pela caridade com que o mesmo Cristo a assume, pelo amor restaurador com que viveu tais transes e pela companhia que oferece aos nossos. Por isso acorreram os pastores ao pres\u00e9pio, pressentindo j\u00e1 o seu pr\u00f3prio pastor; por isso nos juntamos hoje em seu redor: d\u2019Ele, que se juntou para sempre \u00e0 nossa vida e destino. Preciosamente nos escreve a prop\u00f3sito o Papa Bento XVI na sua recente enc\u00edclica: \u201c \u2018O Senhor \u00e9 meu pastor, nada me falta [\u2026]. Mesmo que atravesse vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo\u2019 (Sal 23 [22], 1.4). O verdadeiro pastor \u00e9 Aquele que conhece tamb\u00e9m o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solid\u00e3o, onde ningu\u00e9m me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao atravess\u00e1-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a n\u00f3s agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem\u201d (Spe salvi, n\u00ba 6).  A quem ainda n\u00e3o tenha descoberto no Natal de Cristo a porta estreita e segura para entrever a Deus e em Deus se entrever a si mesmo; a quem ainda n\u00e3o compreenda que a mente humana apenas se abeira da realidade divina quando se mant\u00e9m aberta e dispon\u00edvel para ir mais longe do que a \u201cconta, peso e medida\u201d, pr\u00f3prios e necess\u00e1rios das coisas temporais, mas n\u00e3o se alheando destas, antes respeitando-as e desenvolvendo-as com intelig\u00eancia e vontade; a quem resista ainda a considerar o \u00f3bvio, ou seja, que a partir do Natal de Cristo a terra ganhou consist\u00eancia e a ci\u00eancia e o progresso se enraizaram, n\u00e3o fora mas bem por dentro do di\u00e1logo e do debate que o pr\u00f3prio Cristianismo originou entre os crentes; a quem queira ainda criticar a religi\u00e3o a partir do modo como pr\u00e9via e arbitrariamente a define, sem se deixar surpreender por ela\u2026 A quem se encontre em tal estado de esp\u00edrito \u2013 tenta\u00e7\u00e3o de que nem n\u00f3s estaremos sempre isentos \u2013 responde ainda o Evangelho que escut\u00e1mos: \u201cA Deus, nunca ningu\u00e9m O viu. O Filho Unig\u00e9nito, que est\u00e1 no seio do Pai, \u00e9 que O deu a conhecer\u201d, Demos ent\u00e3o, demos deveras a Cristo, neste Natal de 2007, uma oportunidade sincera de nos surpreender, com a luz aut\u00eantica sobre Deus, sobre a humanidade inteira e sobre a humanidade de cada um de n\u00f3s, na actual circunst\u00e2ncia em que viva, sofrendo mesmo, por si ou por outrem, esperando sempre&#8230; Diante do pres\u00e9pio como diante da cruz, estejamos essencialmente como Maria: presentes de corpo e esp\u00edrito, atentos de intelig\u00eancia e acolhedores de cora\u00e7\u00e3o. E o fruto de tal atitude ser\u00e1 o seu Natal continuado. Receberemos d\u2019Ele a miseric\u00f3rdia divina, que no-Lo deu como companhia para, atrav\u00e9s de n\u00f3s, chegar a todos. Perceberemos at\u00e9 que a maior \u201cdemonstra\u00e7\u00e3o\u201d da verdade da religi\u00e3o de Cristo a recolhemos na partilha dos seus sentimentos e atitudes concretas. Lembrou-o luminosamente o Papa Bento XVI, logo a abrir a sua primeira enc\u00edclica: \u201c \u2018Deus \u00e9 amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele\u2019 (1 Jo 4, 16). Estas palavras da 1 Carta de Jo\u00e3o exprimem, com singular clareza, o centro da f\u00e9 crist\u00e3: a imagem de Deus e tamb\u00e9m a consequente imagem do homem e do seu caminho. Al\u00e9m disso, no mesmo vers\u00edculo, Jo\u00e3o oferece-nos, por assim dizer, uma f\u00f3rmula sint\u00e9tica da exist\u00eancia crist\u00e3: \u2018N\u00f3s conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem\u2019\u201d (Deus caritas est, n\u00ba 1). Ganhemos agora aqui, irm\u00e3os e irm\u00e3s, nesta celebra\u00e7\u00e3o em que o mist\u00e9rio do Natal se celebra vivo, renovada convic\u00e7\u00e3o e refor\u00e7ado \u00e2nimo. Ganhemo-los para n\u00f3s e para todos, em compromisso solid\u00e1rio e, a esta luz, absolutamente religioso. Liga\u00e7\u00e3o teremos a Deus, como Deus a quis ter connosco, na verdadeira \u201cescada\u201d entre o C\u00e9u e a terra que \u00e9 a incarna\u00e7\u00e3o do Verbo, o \u201cFilho do Homem\u201d (cf. Jo 1, 51). Ele a\u00ed est\u00e1: em cada alegria ou tristeza a compartilhar; ele a\u00ed est\u00e1 em toda a conviv\u00eancia a construir ou a reconstruir, na fam\u00edlia, na sociedade e entre as na\u00e7\u00f5es: ele a\u00ed est\u00e1, no mundo que sustenta e pelo qual nos responsabiliza, como malha temporal dum destino eterno. Em tudo isto O encontramos a Ele e nos encontramos a n\u00f3s, neste concret\u00edssimo hoje: Bendito Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem!       S\u00e9 do Porto, 25 de Dezembro de 2007  + Manuel Clemente, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sinais do Natal de Cristo na hist\u00f3ria das sociedades contempor\u00e2neas, imposs\u00edveis de esconder<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,187,206,267],"class_list":["post-28977","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28977"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28977\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}