{"id":28964,"date":"2007-12-22T15:29:08","date_gmt":"2007-12-22T15:29:08","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/22\/premio-de-cultura-padre-manuel-antunes-2007\/"},"modified":"2007-12-22T15:29:08","modified_gmt":"2007-12-22T15:29:08","slug":"premio-de-cultura-padre-manuel-antunes-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/premio-de-cultura-padre-manuel-antunes-2007\/","title":{"rendered":"Pr\u00e9mio de Cultura Padre Manuel Antunes 2007"},"content":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente durante o acto de entrega do Pr\u00e9mio a Manoel de Oliveira  <!--more--> Pela terceira vez se atribui o Pr\u00e9mio Padre Manuel Antunes do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Depois de ter contemplado um poeta (Fernando Echevarria) e um cientista (Lu\u00eds Archer), reconhece agora a vida e a obra de um cineasta, Manoel de Oliveira. E em todos eles sublinha-se a excel\u00eancia da humanidade que pessoalmente concretizam.  Mas n\u00e3o \u00e9 apenas nem principalmente por sucess\u00e3o de t\u00f3picos culturais. \u00c9 por inteiro cabimento e justifica\u00e7\u00e3o, evidenciando percursos e obras que nos aproximam deveras daquele horizonte \u00faltimo em que poderemos realizar a nossa humanidade comum. Para os crentes, a\u00ed nos ligamos em verdade de criaturas, na rela\u00e7\u00e3o (religi\u00e3o) com o Criador. Para os crist\u00e3os, isso mesmo se esclarece na vida de Jesus Cristo, em quem Deus se oferece e o homem se encontra, \u00e0 luz de um definitivo Natal.  Tamb\u00e9m \u00e0 luz duma filmografia. Em recente entrevista, Manoel de Oliveira diz a dado passo: \u201cPenso mais no que est\u00e1 para al\u00e9m da morte\u2026\u201d (Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 12 de Dezembro de 2007). Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 agora que tal transparece. No conjunto da sua obra, h\u00e1 tais concentra\u00e7\u00f5es ou alargamentos de planos que j\u00e1 induzem um alcance assim. E n\u00e3o temeroso, antes apetecendo o definitivo, total, realizador.  Nem com medo da vertigem. Apaixonado juvenil de velocidade, filmou o rio e a sua faina com cenas estonteantes de sugest\u00e3o e ritmo. Como depois, em hist\u00f3ria infantil de correria e jogo. Mas, j\u00e1 ent\u00e3o, sobressaindo o recorte de cada figura, a densidade de cada personagem. Ressaltava, em suma, a humanidade de cada figurante, ou melhor, cada figura da humanidade transportada.  Foi andando a vida do Autor, em pontua\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Digo andando, n\u00e3o digo correndo. Como quem saboreia e constr\u00f3i, como quem repara e se det\u00e9m, se det\u00e9m cada vez mais, andando sempre\u2026  &#8211; E \u00e9 isto poss\u00edvel, em termos cinematogr\u00e1ficos? \u2013 N\u00e3o \u00e9 o cinema, at\u00e9 por etimologia, movimento, ritmo e imagem apressada? \u2013 N\u00e3o se distingue do teatro, que, classicamente, preferia a concentra\u00e7\u00e3o cenogr\u00e1fica, a redu\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica de sentimentos e falas?  Pontos recorrentes da controv\u00e9rsia\u2026 Como t\u00e9cnica e cria\u00e7\u00e3o, o cinema \u00e9 arte, destacada do teatro. E \u00e9 cinema o que Manoel de Oliveira nos d\u00e1, quer quando corre ou desliza como os seus Douros, quer quando s\u00f3 a fala corre, como nos seus Vieiras. Mas o movimento de Oliveira foi ganhando a sua fonte, ainda mais nos olhares do que nos gestos, ainda mais em cada palavra do que na corrente delas.  N\u00e3o ficou menos \u201ccinematogr\u00e1fico\u201d, porque usa meios que o teatro n\u00e3o consegue nem pretender\u00e1. Ficou certamente mais humano, porque respeita e sonda a profundidade e o mist\u00e9rio de cada personagem, de cada um de n\u00f3s, de n\u00f3s todos.  O que \u00e9 reconhecido. Na citada entrevista de h\u00e1 dias, Manoel de Oliveira manifesta surpresa: \u201cComo \u00e9 que uma nova gera\u00e7\u00e3o [de realizadores] que aparenta ser laica escolhe O Acto de Primavera, que \u00e9 t\u00e3o religioso?\u201d. Poder\u00edamos responder: escolhe quando se escolhe a ela mesma, a \u201cnova gera\u00e7\u00e3o\u201d, como nos escolhemos todos afinal, quando nos apegamos a rostos e a personagens concretos, que, sendo t\u00e3o naturais e espont\u00e2neos, nos revelam no que temos de inultrapass\u00e1vel e, ali\u00e1s, comum.  E, acrescentado algo mais, naquele Acto de Primavera, tamb\u00e9m escolhe o que o pr\u00f3prio Deus escolheu, para se encontrar definitivamente connosco. Permita-me que lhe diga, Manoel de Oliveira: dessa Primavera n\u00e3o o tirar\u00e1 nenhum Outono, nem a si nem \u00e0 sua obra.  Todos os que tivemos a dita de ser alunos do Padre Manuel Antunes, figura cimeira da cultura portuguesa no s\u00e9culo XX e, por isso mesmo, inspirador deste pr\u00e9mio, lhe ouvimos a reprova\u00e7\u00e3o dos que se ficavam no como sem saber o porqu\u00ea. Sem zanga, que n\u00e3o tinha, achava-os \u201cpraticotes\u201d\u2026  Bem pelo contr\u00e1rio, content\u00edssimo estar\u00e1 o grande mestre, no hoje eterno em que vive, por ver o seu nome e seu pr\u00e9mio ligados a Manoel de Oliveira, em quem toda a pr\u00e1tica \u00e9 teoria, obra fundamentada e express\u00e3o preenchida. Em quem os rostos e as falas, sendo \u00fanicos e recortados, valem por si e al\u00e9m de si mesmos, num al\u00e9m em que cabemos todos.  Manoel de Oliveira, honra-nos a n\u00f3s, os promotores do Pr\u00e9mio Padre Manuel Antunes, ao aceit\u00e1-lo assim. Levar\u00e1 consigo uma \u201c\u00c1rvore da Vida\u201d, obra do escultor Alberto Carneiro, que passar\u00e1 a ilustrar cada atribui\u00e7\u00e3o. Agraciando Manoel de Oliveira, agradecemos tamb\u00e9m a Alberto Carneiro, que soube moldar excelentemente a ideia que temos, duma vida manifestada em sucessivos frutos de intelig\u00eancia e cora\u00e7\u00e3o. Da agricultura \u00e0 cultura, se quisermos, respeitando o \u00e9timo e a respectiva sem\u00e2ntica, da natureza \u00e0 humanidade.  Muito obrigado a todos. Como obrigados ficamos \u00e0 vida, \u00e0 obra e \u00e0 pessoa de Manoel de Oliveira.   Porto, 21 de Dezembro de 2007 <i>D. Manuel Clemente, Bispo do Porto e Presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunica\u00e7\u00f5es Sociais <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de D. 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