{"id":28955,"date":"2007-12-22T00:24:43","date_gmt":"2007-12-22T00:24:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/22\/natal-na-literatura-portuguesa\/"},"modified":"2007-12-22T00:24:43","modified_gmt":"2007-12-22T00:24:43","slug":"natal-na-literatura-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/natal-na-literatura-portuguesa\/","title":{"rendered":"Natal na Literatura Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>1.Desde os cancioneiros medievais at\u00e9 nos movimentos das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, passando por Cam\u00f5es e os grandes escritores de Oitocentos, para culminar na ag\u00f3nica singularidade de Jos\u00e9 R\u00e9gio e Miguel Torga, o Natal foi tema maior da literatura portuguesa \u2013 expandindo-se da poesia l\u00edrica e do teatro para os v\u00e1rios g\u00e9neros da fic\u00e7\u00e3o narrativa (com compreens\u00edvel evidencia\u00e7\u00e3o do conto) e recebendo modula\u00e7\u00f5es muito diversas, a partir da piedade origin\u00e1ria. \tAparentemente, tal quadro de frequ\u00eancia e perspectiva n\u00e3o desapareceu na literatura contempor\u00e2nea. De facto, em contraste com a declinante atrac\u00e7\u00e3o que nos \u00faltimos dec\u00e9nios se vem manifestando em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e1scoa, e sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao seu alcance soteriol\u00f3gico e escatol\u00f3gico, \u00e9 ainda com grande frequ\u00eancia que o Natal comparece como fecundo motivo na poesia e no conto, na cr\u00f3nica memorialista ou impressionista. Por\u00e9m, s\u00e3o insofism\u00e1veis os ind\u00edcios de que muitas vezes essa tematiza\u00e7\u00e3o do Natal visa propiciar efus\u00f5es e efeitos de realiza\u00e7\u00e3o humana j\u00e1 desprendidos da religiosidade confessional, se n\u00e3o mesmo dest\u00edtuidos do sentido do sagrado. No entanto, nem sempre ocorre essa desvincula\u00e7\u00e3o espiritual. \tUma literatura de afectos, por vezes f\u00e1cil, outras vezes instrumental, mas outras tantas aprofundando a fenomenologia da condi\u00e7\u00e3o humana, desenvolve-se a\u00ed com continuidades e inflex\u00f5es em torno dos factores propiciat\u00f3rios do conforto an\u00edmicos, da compensa\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica, da reanima\u00e7\u00e3o das esperan\u00e7as \u2013 mais raramente, da refunda\u00e7\u00e3o da virtude teologal da Esperan\u00e7a. A tend\u00eancia dominante parece ser a de um esbatimento, se n\u00e3o alheamento, da quest\u00e3o salv\u00edfico-religiosa; mas em certos textos ou fulgura o reencontro esclarecido e edificante com o Redentor, ou sentimos a alma p\u00f3s-moderna vivendo numa esp\u00e9cie nova de limbo, t\u00e3o bem expressa pelo mais subtil dos actuais poetas de espiritualidade profunda, Fernando Echevarria: \u00abestar sendo\/antes ainda de haver epifania\u00bb.  2.Tal \u00e9 a for\u00e7a da tem\u00e1tica da Natividade de Jesus e dos c\u00edrculos conc\u00eantricos da Consoada que nem a ruptura revolucion\u00e1ria dos anos 70 suspendeu a sua explora\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, nem evitou que novos organismos estatais, como o F.A.O.J., promovessem novos antologias (cf. Textos para o Natal, Cadernos F.A.O.J., N\u00ba11, 1979, com textos de Agustina Bessa Lu\u00eds, Al\u00e7ada Baptista, Almeida Faria, Ana Hatherly, David Mour\u00e3o-Ferreira, Fernando Assis Pacheco, Jos\u00e9 Cardoso Pires, M\u00e1rio Cl\u00e1udio, Miguel Torga, Nuno Bragan\u00e7a, Sophia de Mello Breyner Andresen e Verg\u00edlio Ferreira), tal como p\u00f4de ocorrer com gr\u00e9mios de autores sob patroc\u00ednio de Governos regionais (cf. O Natal na voz dos poetas madeirenses, ed. da Associa\u00e7\u00e3o de Escritores da Madeira, org. de Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Gon\u00e7alves, com poemas de Cabral Nascimento, Herberto H\u00e9lder, Irene Luc\u00edlia, Jos\u00e9 Agostinho Baptista, Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, A.J. Vieira de Freitas, Ant\u00f3nio Arag\u00e3o, Alfredo Vieira de Freitas, Carvalho Jord\u00e3o, Carlos Nogueira Fino, Dalila Teles Veras, Florival de Passos, Jo\u00e3o Carlos Abreu, etc.). No \u00faltimo quartel do s\u00e9culo surgem, como no precedente (pela m\u00e3o de V. Nem\u00e9sio, de Azinhal Abelho, etc.), antologias globalizantes sobre Natal na Poesia Portuguesa (melhor exemplo, com esse t\u00edtulo, o floril\u00e9gio seleccionado em 1987 por Lu\u00eds Forjaz Trigueiros) ou Natal na novel\u00edstica portuguesa (melhor exemplo, com esse t\u00edtulo, a antologia publicada em 1978 pela Ed. Arc\u00e1dia, com narrativas de Afonso Botelho e Agustina, de \u00c1lvaro Manuel Machado e A. Al\u00e7ada Baptista, de David Mour\u00e3o-Ferreira e Domingos Monteiro, de Fausto Lopo de Carvalho e Fernanda Botelho, de Jo\u00e3o de Ara\u00fajo Correia e Jo\u00e3o Maia, de Jos\u00e9 Martins Garcia e Lu\u00eds Caj\u00e3o, de M\u00e1rio Braga e Miguel Torga). \tSurgem tamb\u00e9m livros consagrados, no todo ou em parte, a essa tem\u00e1tica por autores singulares \u2013 desde o Cancioneiro de Natal(1971) de David Mour\u00e3o-Ferreira e o Ret\u00e1bulo para um \u00edntimo Natal(1980) de A.M.Couto Viana at\u00e9 ao Longa Noite, Novo Dia de Ant\u00f3nio Sousa Freitas, dos Contos de Natal(1964) de Domingos Monteiro e do Natal(1966) de Jo\u00e3o Ara\u00fajo Correia, at\u00e9 \u00e0 Inf\u00e2ncia do que nasci de Nat\u00e9rcia Freire, ao Cancioneiro de Cabral Nascimento, etc.. Coma maior ou menor especificidade religiosa, o Natal inspira poemas e narrativas ainda a Tomaz Kim e Jorge Barbosa, a Daniel Filipe e a Mer\u00edcia de Lemos, a Miguel Trigueiros e Vasco Miranda, a Ant\u00f3nio Gede\u00e3o e Sophia Andresen, a Urbano Tavares Rodrigues, e Nat\u00e1lia Nunes, a Am\u00e2ndio C\u00e9sar e Manuel Boaventura, etc..   3. Talvez seja oportuno lembrar como, de meados do s\u00e9c.XX em fora, alguns dos maiores poetas das v\u00e1rias tend\u00eancias do nosso Neo-Modernismo celebraram a sua rela\u00e7\u00e3o com a Natividade de Jesus em equa\u00e7\u00e3o com os tempos e os contextos em que lhes foi dado viver e escrever. Redimensionando os temas ancestrais da morte e do amor nesse grande \u00abteatro de Deus\u00bb que \u00e9 a viv\u00eancia do mundo como rede amorosa entre os homens e as coisas, Ruy Cinatti exprime intensamente a condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (\u00abA minha fome de Deus\/\u2026\/ \u00e9 Cristo crucificado,\/ que no mundo,\/ nos aben\u00e7oa na vida\/ e nos perdoa o pecado\u00bb) e, a essa luz, sagra com o \u00abNatal\u00bb as vicissitudes da experi\u00eancia \u00edntima e interpessoal: \u00abInverno lactescente, adormecido\/Querer, noite encantada, \/ J\u00e1 n\u00e3o sinto, por\u00e9m, aquele amor, \/ Nem a vida sonhada\/ Tudo se foi, pouco nos resta, \/Ilhas n\u00e3o h\u00e1, montanhas s\u00f3 no esp\u00edrito\/ Se elevam, distantes e coroadas\/ Pela solid\u00e3o. \/ No muro da minha alma h\u00e1 uma fresta. \/ Por ela entra o vento e a multid\u00e3o\/ Das vozes e dos signos. \/Quando a certeza chega, o cora\u00e7\u00e3o\/Lan\u00e7a de si os trajes mais indignos\/ E entra, sorrindo, na festa\u00bb.  Depondo da mesma matriz de inquieta\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica latente nos escritores dos Cadernos de Poesia, a l\u00edrica de Tomaz Kim contempla os embates dos acenos da f\u00e9 com a amargura agn\u00f3stica na pondera\u00e7\u00e3o, entre sibilina e augustiniana, do segredo do Tempo. Mas, justamente nos seus extraordin\u00e1rios Exerc\u00edcios Temporais, o esp\u00edrito n\u00e3o se exime, em signo de Natal, de reagir \u00e0 desencaminhada concretude das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e dos poderes conjunturais em nome do advento do Menino que \u00e9 afinal o Senhor da Vida e o Senhor da Hist\u00f3ria: \u00abEis aqui a estalagem:\/Escassa a palha na manjedoira\/E morno o bafo dos animais. \/\/Brilhante a estrela\/Brilhante o brocado\/Dos Reis. \/\/Oh, o fulgor, at\u00e9, dos farrapos\/Dos Pastores! \/Claro o sil\u00eancio:\/Um murm\u00fario a prece\/Na noite clara\/De Gra\u00e7a plena. \/\/Mas longe, longe\u2026.t\u00e3o perto, \/ Afinal, \/Que uivo de mau agoiro\/A prometer o estupro do Sol\/E a sombra da carne viva\/No ch\u00e3o\/ Gravada? \/\/T\u00e3o negra a noite, \/ Agora, \/\u00d3, Senhores do Mundo, \/T\u00e3o nua de Gra\u00e7a, \/Agora, \/A noite \u2013 a noite e os dias\u2026\u00bb   Se, como sumularmente disse Fernando J.B. Martinho, a poesia de Sebasti\u00e3o da Gama, vencidas as \u00abd\u00favidas\u00bb e \u00abdescren\u00e7as\u00bb, esquecido o \u00abazedume\u00bb, conhece em \u00abMar\u00e9 Alta\u00bb a \u00abLuz\u00bb de Deus e a ela se entrega no j\u00fabilo da sua \u00abcarne feliz\u00bb, nessa poesia de di\u00e1logo a Virgem e o Menino surgem naturalmente como destinat\u00e1rios intratextuais da fala franciscana. Assim \u00e9, por exemplo, nos poemas \u00abL\u00e1 fora \u00e9 que sim\u00bb ou \u00abPres\u00e9pio\u00bb de Pelo sonho \u00e9 que vamos.  \u00c9 sobretudo em torno do Natal que emerge um dial\u00e9ctica de incerteza e Esperan\u00e7a entre os \u00abContrapontos\u00bb fundacionais da obra po\u00e9tica de David Mour\u00e3o-Ferreira. N\u00e3o \u00e9 gratuita, nem f\u00e1cil a predisposi\u00e7\u00e3o para a virtude da Esperan\u00e7a que ascende nessa Obra Po\u00e9tica; nem o seu reino \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 iman\u00eancia social ou psicossens\u00edvel. Ela pressup\u00f5e a catarse da desvalia no Humano e o despojamento propiciat\u00f3rio do Encontro salv\u00edfico \u2013 para que \u00abo fogo nas\u00e7a\u00bb e \u00abseja Natal e n\u00e3o Dezembro\u00bb. Nesse combate vale, com a piedade enxuta de um entendimento n\u00e3o-devocional da comunica\u00e7\u00e3o dos santos, a interfer\u00eancia dos que j\u00e1 venceram a morte \u2013 mormente da \u00abfilha que n\u00e3o morreu\u00bb e que, a caminho da Parusia, \u00abVem ilibar[-nos] de toda a culpa\u00bb, refazer os la\u00e7os amorosos e \u00abvelar-nos no alto c\u00e9u\u00bb (\u00abSegunda Elegia de Natal\u00bb). Mas o Mediador, e por isso o sustentador dessa comunica\u00e7\u00e3o dos santos, s\u00f3 pode ser o Jesus Cristo cujas \u00abm\u00e3os aladas\u00bb marcam as t\u00e1buas da cadeira a que se senta, na mesa da espiritual e human\u00edssima consoada, essa \u00abfilha que nasceu morta\u00bb. E o Natal, iluminado pelo memorial do nascimento de Jesus Cristo, \u00e9 o tempo por excel\u00eancia da refunda\u00e7\u00e3o do ser na supera\u00e7\u00e3o sagrada do mal e do nada.Sempre imune \u00e0 dessacraliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o pitoresca, sempre actuante como religiosa refontaliza\u00e7\u00e3o e, por isso, como recoloca\u00e7\u00e3o para o exame de consci\u00eancia pessoal e para o implac\u00e1vel exerc\u00edcio da consci\u00eancia cr\u00edtica perante a circunst\u00e2ncia hist\u00f3rico-social, a celebra\u00e7\u00e3o da Natividade de Jesus constitui-se em carisma que sela a peri\u00f3dica revis\u00e3o da vida (\u00abBlasf\u00e9mia de Natal\u00bb ,1973). Na Obra Po\u00e9tica de David-Mour\u00e3o-Ferreira \u00e9 decisivo que periodicamente, com a exig\u00eancia de \u00abNatal na Alma\u00bb, o discurso de rela\u00e7\u00e3o com o Mundo e com o Tempo se recentra em e por Jesus. Reconhecendo que tudo se reconverte em Cristo, e que, por isso, as sociedades contempor\u00e2neas sofrem \u00aba grande pausa\/ de recearmos\u00bb assumir a Sua exist\u00eancia (\u00abCoro de Natal\u00bb 1973), a poesia de David Mour\u00e3o-Ferreira desloca, por 1967, a inspira\u00e7\u00e3o da Natividade de um ciclo da nostalgia para outro ciclo da instrumentaliza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, mas mantendo Jesus como crit\u00e9rio e inst\u00e2ncia de ju\u00edzo e apelo perante a inautenticidade e a ignom\u00ednia (basta ver o remate de \u00abNatal up-to-date\u00bb). Al\u00e9m disso, desde 1970 essa inspira\u00e7\u00e3o aprofunda-se num ciclo de reconvers\u00e3o, problem\u00e1tica em mais de um aspecto e por mais de uma vez, mas inilud\u00edvel, porque na \u00edntima celebra\u00e7\u00e3o do Natal de Jesus \u00ablogo o nada\/deixa de estar em tudo como estava\u00bb (\u00abNada\/Natal\u00bb). Poesia que parece distrair-se e alhear-se espa\u00e7adamente do enlace entre o humano e o divino (abandonando a viv\u00eancia desse enlace como alian\u00e7a), o lirismo de David Mour\u00e3o-Ferreira retorna periodicamente dessa divers\u00e3o e recentra(-se) na identifica\u00e7\u00e3o com o Verbo(que em Cristo \u00e9 Pessoa e rela\u00e7\u00e3o vivificante). Assim, uma Obra Po\u00e9tica que, ao despojar-se de refer\u00eancioas cultuais e confessionais, de alardes devocionais e de pesadumes doutrinais, p\u00f4de arrastar leituras autorizadas para a generaliza\u00e7\u00e3o de um esp\u00edrito de iman\u00eancia, polariza-se num dos mais aut\u00eanticos textos de F\u00e9 da l\u00edrica portuguesa: o poema t\u00e3o bem intitulado \u00abConfiss\u00e3o de Natal\u00bb(1985), onde a divina Transcend\u00eancia \u00e9 vivida como Presen\u00e7a a um tempo \u00edntima e remota e onde a experi\u00eancia religiosa se consuma na rela\u00e7\u00e3o profunda e intransmiss\u00edvel da pessoa humana com a Pessoa de Jesus Cristo, numa identifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o fundacional quanto a compreens\u00e3o (em sentido etimol\u00f3gico e gadameriano) do Nome no nome:  Vive o Teu Nome no meu nome Eu sou David mas de Jesus Da\u00ed a sede mais a fome  Da tua Luz Vive o Teu Nome no meu nome N\u00e3o por acaso \u00f3 meu Jesus \u00c9 no que a todos mais escondo Que vives Tu    A viv\u00eancia religiosa \u00e9 decisiva na poesia de Ant\u00f3nio Manuel Couto Viana, mas como lirismo de espiritualidade anti-farisaica, que se eleva a custo sob o impulso do arrependimento, \u00e0s m\u00e3os com o peso do desejo libidinoso ou do cepticismo (traduzido por vezes, na ironia de adjectivos e verbos, de par\u00eanteses e exclama\u00e7\u00f5es). Desde os poemas de encontro e desencontro com o Anjo Cust\u00f3dio de Mancha Solar, essa luta iluminada pela cren\u00e7a reconforta-se periodicamente no mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e recolhe-se em Ret\u00e1bulo para um \u00edntimo Natal: \u00ab-Quem \u00e9, que tem, esta crian\u00e7a? \/\/Sei o seu nome, o seu desgosto, \/Uma s\u00f3 vez em cada ano. \/E, cada vez, lhe enxugo o rosto; \/E, com m\u00e3o tr\u00e9mula, o encosto\/ Ao meu, j\u00e1 h\u00famido de l\u00e1grimas. \/\/Mas, ao sentir, como uma prece, \/ O meu chorar de arrependido, \/Ela sorri, logo adormece.\u00bb (\u00abNocturno de Natal\u00bb), \u00abJ\u00e1 nada sou. J\u00e1 nada importa. \/Quem renascer chama-se Deus. \/(L\u00e1 fora, o frio, fino, corta!)\/ Natal, adeus!\u00bb (\u00abElegia de Natal\u00bb, Ret\u00e1bulo para Um \u00edntimo Natal.). Por isso, mesmo o ousio de um \u00abNatal esot\u00e9rico\u00bb se crisma com a un\u00e7\u00e3o tradicional:  No nosso cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o descansa \u00c9 um palpitar de esperan\u00e7a Aquela voz, Aquele grito informe de crian\u00e7a! \u00c9 o Mestre que vem? J\u00e1 n\u00e3o estamos s\u00f3s?  Que v\u00e3o fazer as nossas m\u00e3os em prece? Semear, amassar, o p\u00e3o que h\u00e1-de ir \u00e0 mesa, Para que tudo recomece A partir de umas palhas de pobreza. Vasto e profundo. No inv\u00f3lucro de Cristo a cruz e a coroa. Entregar novo mundo Ao ponto fundo, Com quem ajoelha e aben\u00e7oa!  4. N\u00e3o menos oportuno ser\u00e1 exemplificar, com a lembran\u00e7a de uma grande voz po\u00e9tica prematuramente desaparecida, como a literatura portuguesa continuou nos nossos dias a viver o Natal de Cristo.  O dramatismo l\u00edrico e a veem\u00eancia verbal de Rodrigo Em\u00edlio ganham sempre altura quando animados pela piedade cat\u00f3lica, que se afervora no cadinho das \u00edntimas afli\u00e7\u00f5es e das agonias de homem portugu\u00eas; e assim se manifesta tanto em \u00abPequeno altar de poemas, para depor aos p\u00e9s da Virgem de F\u00e1tima\u00bb, quanto nos poemas de Natal engastados nos livros Mote para motim e Cora\u00e7\u00e3o mal coura\u00e7ado e depois retomados na sequ\u00eancia \u00abConsoadas da mem\u00f3ria \u00e0 mesa da solid\u00e3o\u00bb, do livro A Segunda Cegueira,. Com Rodrigo Em\u00edlio se exemplifica, ali\u00e1s, como na segunda metade do s\u00e9c. XX os dados existenciais da mem\u00f3ria afectiva (e do cen\u00e1rio tradicional da celebra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e familiar do Natal) se entrela\u00e7am com a evoca\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura e com a contempla\u00e7\u00e3o do enlace do minist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e do mist\u00e9rio da Paix\u00e3o e Morte de Cristo na economia da Reden\u00e7\u00e3o (como se v\u00ea no poema \u00abM\u00fasica de neve, o sil\u00eancio branco\u00bb). Por isso tamb\u00e9m exemplifica que na poesia portuguesa contempor\u00e2nea o lirismo de Natal continua a passar pela tens\u00e3o espiritual da \u00abVig\u00edlia\u00bb edificante:   \u00abMeu Deus, aqui estou. E no mais n\u00e3o repares, Por ser esta noite a Noite que \u00e9!  Em versos Te rezo. E no mais n\u00e3o repares, Por ser esta noite a Noite mais calma!  -Conduz-me aos mais altos lugares Da minha f\u00e9!  -Conduz-me aos mais altos lugares Da minha alma!\u00bb <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1.Desde os cancioneiros medievais at\u00e9 nos movimentos das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, passando por Cam\u00f5es e os grandes escritores de Oitocentos, para culminar na ag\u00f3nica singularidade de Jos\u00e9 R\u00e9gio e Miguel Torga, o Natal foi tema maior da literatura portuguesa \u2013 expandindo-se da poesia l\u00edrica e do teatro para os v\u00e1rios g\u00e9neros da fic\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[100,295,154,172,182,191,199,207,267,275],"class_list":["post-28955","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-advento","tag-biblia","tag-crianca","tag-diocese-de-braga","tag-diocese-de-viana-do-castelo","tag-economia","tag-espiritualidade","tag-fatima","tag-natal","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28955","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28955"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28955\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}