{"id":28948,"date":"2007-12-21T16:28:10","date_gmt":"2007-12-21T16:28:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/21\/o-presepio-portugues\/"},"modified":"2007-12-21T16:28:10","modified_gmt":"2007-12-21T16:28:10","slug":"o-presepio-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-presepio-portugues\/","title":{"rendered":"O Pres\u00e9pio Portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><i>Antes da era crist\u00e3 ocidental, as civiliza\u00e7\u00f5es mais adiantadas (grega e romana) tinham como explica\u00e7\u00e3o para os problemas da exist\u00eancia espiritual da vida humana, as suas religi\u00f5es, baseadas em diversos deuses que, segundo pensavam, presidiam aos destinos do mundo \u201csegundo as especialidades\u201d . Eram portanto polite\u00edstas, como o tamb\u00e9m o foram os eg\u00edpcios, muito antes deles.<\/i> Nesta ordem de ideias, dizem os especialistas em hist\u00f3ria comparada das religi\u00f5es, o Natal crist\u00e3o veio a preencher involuntariamente uma festa pag\u00e3 denominada pelos romanos Natalis Solis invicti, isto \u00e9, o solst\u00edcio de Inverno (Dezembro). N\u00e3o pretendemos alargar muito o nosso discurso sobre a hist\u00f3ria comparada das religi\u00f5es, todavia sempre poderemos dizer que os antigos europeus, uma vez cristianizados, acabaram por adoptar em toda a sua ess\u00eancia os v\u00e1rias festas crist\u00e3s&#8230; O que nos importa frisar \u00e9 que foi S. Francisco de Assis, e os seus frades, quem iniciou em 1218, a partir dos seus Conventos na Proven\u00e7a (Arles e Brignoles) o culto da representa\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica do nascimento de Jesus Cristo, denominado Pres\u00e9pio. Foi desta regi\u00e3o que o Pres\u00e9pio se espalhou depois por todos os pa\u00edses do sul da Europa, a partir do s\u00e9culo XIV. A hist\u00f3ria da manufactura do Pres\u00e9pio em Portugal foi iniciada por dois italianos a que h\u00e1 a juntar algumas influ\u00eancias espanholas. Todavia, ao longo do tempo, a tradi\u00e7\u00e3o nacional conseguiu libertar-se das influ\u00eancias estrangeiras atingindo um estilo pr\u00f3prio, marcado por um gosto pelo monumental, intensa expressividade das figuras, raro e alegre sentido da cor. Sabe-se que nos finais do s\u00e9culo XV eram j\u00e1 muitos os barristas (artes\u00e3os que trabalhavam o barro) portugueses, por\u00e9m, segundo os costumes aristocr\u00e1ticos da \u00e9poca, ocupavam os \u00faltimos graus na escala das artes e of\u00edcios, n\u00e3o se lhes atribuindo qualquer talento acima do comum. O rei D. Jo\u00e3o II (cognominado pr\u00edncipe perfeito), talvez tocado pela mensagem de paz e boa vontade entre os homens que o Pres\u00e9pio inspirava, solicitou a Lorenzo de M\u00e9dicis (It\u00e1lia) a vinda para a sua Corte do escultor de m\u00e1rmore, arquitecto e modelador em terracota, Contucci Sansovino. Chegado a Portugal em 1491, Sansovino contratou os melhores barristas de v\u00e1rias povoa\u00e7\u00f5es do Pa\u00eds, aperfei\u00e7oou o seu talento nato e ensinou-lhes os \u201cmist\u00e9rios\u201d da arte. Consideram hoje os especialistas que desta forma dever\u00e1 ter nascido a primeira escola portuguesa de barristas e, com ela, a arte de moldar os Pres\u00e9pios que, embora menosprezados pelo p\u00fablico consumista de hoje, ainda perdura de Norte a Sul do territ\u00f3rio.  Ao regressaram \u00e0s suas oficinas, estes barristas populares do s\u00e9culo XVI come\u00e7aram a produzir, entre outras obras, figuras para os \u00abMist\u00e9rios\u00bb encomendadas pelas igrejas paroquiais para exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica e, naturalmente, os seus pr\u00f3prios Pres\u00e9pios, a que a influ\u00eancia do meio social e a regi\u00e3o de origem iam emprestando uma identifica\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica. Outros artistas estrangeiros trouxeram ao Pa\u00eds influ\u00eancias est\u00e9ticas e li\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que foram introduzidas paulatinamente na nossa arte de moldar o barro. O Pres\u00e9pio portugu\u00eas alcan\u00e7ou generalizada difus\u00e3o no s\u00e9culo XVII. De facto, os artistas mais requintados e melhor cotados eram objecto de encomendas de Pres\u00e9pios para pal\u00e1cios de soberanos e grandes casas de nobres, com representa\u00e7\u00e3o das figuras do nascimento de Jesus Cristo em cera e marfim de que se perdeu completamente a pista, facto este a que n\u00e3o deve ser estranho o terramoto de Lisboa em 1755&#8230; O grande e efectivo desenvolvimento do Pres\u00e9pio portugu\u00eas deu-se no s\u00e9culo XVIII, com a estadia em Portugal, a partir de 1741, do italiano Alessandro Giusti, contratado por D. Jo\u00e3o V, para embelezar o Mosteiro de Mafra. Assim nasceu uma aut\u00eantica escola de barristas em Mafra, tendo por mestre o italiano que, com o barro resistente e gr\u00e3ofino de Estremoz, mat\u00e9ria-prima de primeira qualidade (al\u00e9m do seu m\u00e1rmore branco!), por sua vez foi mestre de Joaquim Machado de Castro, artista portugu\u00eas de raros dotes e seu natural continuador de extraordin\u00e1ria capacidade criativa, cujo exemplo do seu estilo \u00e9 o Pres\u00e9pio da S\u00e9 Catedral de Lisboa (produzido em 1766). O Pres\u00e9pio portugu\u00eas ganhou fama, popularizou-se e, de regi\u00e3o para regi\u00e3o, tomou a forma dos usos e costumes de cada uma das Prov\u00edncias, pela m\u00e3o de barristas de oficinas ainda famosas na 1\u00aa metade do s\u00e9culo XX em \u00c9vora, Estremoz, Barcelos, Mafra, etc.  \u00c9 na pequena ind\u00fastria oleira que podemos encontrar as mais vivas manifesta\u00e7\u00f5es de originalidade e catolicismo que inspira o Natal. Por tend\u00eancias (dir\u00edamos cong\u00e9nitas) ancestrais est\u00e1 bem vincada nestes modestos art\u00edfices que domam o barro, guiados pela experi\u00eancia secular, a \u00edndole inconsciente de estetas e criadores de beleza, atrav\u00e9s de figurinhas de argila, com o seu qu\u00ea de fantasia ou o seu \u201ctique\u201d de patusco. Os barristas de Estremoz, possu\u00eddos de inebriante imagina\u00e7\u00e3o, procuram colorir as pe\u00e7as fabricadas para o Pres\u00e9pio de tal forma, que o produto final resulta num festim policromo alegre e cheio de frescura. As pe\u00e7as do Pres\u00e9pio de Estremoz, descurando modelos r\u00edgidos em cioso respeito pelas reprodu\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas, libertam-se de regras e de preceitos estabelecidos, imprimindo assim \u00e0s modela\u00e7\u00f5es certo burlesco efeito pl\u00e1stico inconfund\u00edvel. O epis\u00f3dio do nascimento de Jesus Cristo, de enternecedora religiosidade, foi muito da predilec\u00e7\u00e3o dos grandes artistas de outrora que o legaram \u00e0 posteridade. Com o rodar dos tempos, esta tradi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 passado para as singelas olarias populares de vilas e aldeias portuguesas. A vulgariza\u00e7\u00e3o do Pres\u00e9pio, com os seus cen\u00e1rios r\u00fasticos, pedras musgosas, figurinhas da hist\u00f3ria religiosa e tipos do povo da regi\u00e3o, agrupamentos e acess\u00f3rios, chegou a ser um fen\u00f3meno geral, montado de Norte a Sul do Pa\u00eds em cada lar, escola, freguesia, igreja paroquial. Entretanto, os imaginosos artes\u00e3os, foram experimentando outros materiais para recortar as figuras tradicionais de que se destacou no Alentejo, embora com alguma raridade, a corti\u00e7a. Tal \u00e9 o exemplo do sr. Isidro Manuel Verdasca, antigo barbeiro na Azaruja, com as suas figuras de tal forma perfeitas e com um agudo sentido das propor\u00e7\u00f5es que se diria pequenas esculturas, rigorosamente \u00e0 escala. A divulga\u00e7\u00e3o do Pres\u00e9pio devia tornar-se mais ampla, participativa, para projec\u00e7\u00e3o de alguma luz espiritual e amor ao pr\u00f3ximo, no que respeita aos crist\u00e3os, ou de maior sentido de fraternidade e humanidade no que respeita aos n\u00e3o crentes, e ainda para enlevo amoroso do povo alentejano que, na venera\u00e7\u00e3o das suas ancestrais tradi\u00e7\u00f5es, ainda sabe cantar ao Menino trovas risonhas como estas, cantadas no anos 40 do s\u00e9culo XX, que igualam a condi\u00e7\u00e3o do nascimento de Jesus Cristo \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a dum lar de trabalhador: <i>\u00abO Menino est\u00e1 dormindo Nas palhinhas despidinho! Os anjos lhe est\u00e3o cantando: Puro amor, t\u00e3o pobrezinho.  De quem s\u00e3o os cuerinhos Que al\u00e9m est\u00e3o no estendal? S\u00e3o do Menino Jesus Que nasceu no Natal.  O meu Menino Jesus Chora, chora at\u00e9 mais n\u00e3o; Fizeram-lhe a cama curta Tem os p\u00e9zinhos no ch\u00e3o.  \u00d3 meu Menino Jesus Quem vos pudera valer! Com sopinhas da panela Sem vossa M\u00e3e saber.  \u00d3 meu Menino Jesus Tomai l\u00e1 castanhas quentes: Abri a vossa boquinha Quero ver se tendes dentes.\u00bb <\/i>  O Natal, o Pres\u00e9pio montado num canto da sala de jantar pelas crian\u00e7as da casa, recheado de figurinhas de barro colorido em volta da gruta da Natividade, compradas e coleccionadas anos ap\u00f3s ano, a Missa do Galo (para os cat\u00f3licos), a consoada para todos, o Ano Novo, o Dia de Reis&#8230; que mundo de evoca\u00e7\u00f5es v\u00e3o envelhecendo connosco na companhia dos que hoje s\u00e3o crian\u00e7as e jovens, e ainda dos que o futuro h\u00e1-de trazer a ocupar o s\u00edtio que lhes havemos de deixar vazio&#8230; Reviver estas festas, estes h\u00e1bitos e costumeiras tradicionais, cimentadas atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es e bafejadas de poesia uns, de F\u00e9 e ternura outros, \u00e9 acordar neste nosso Alentejo, suado por s\u00e9culos de trabalho e fraternidade, o que a alma transtagana tem de nacional e, especialmente, de mais enternecedor, o seu ancestral cristianismo. A festa de Natal, empolgante de amor e poesia evocadora, tem sido deturpada ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. O fluxo constante da vida de estreito materialismo e consumismo desenfreado, levaram os portugueses a trocar as usan\u00e7as nacionais e regionais pelas imita\u00e7\u00f5es estrangeiras. O lento desaparecimento de tudo o que nos individualizava (a nossa maneira de ser e estar no mundo), \u00e9 um dos mais aterradores sintomas da desnacionaliza\u00e7\u00e3o dos nossos costumes, da perda consciente do nosso car\u00e1cter pr\u00f3prio, da nossa fisionomia e fei\u00e7\u00e3o especiais, atrav\u00e9s da sofisticada m\u00e1quina de interesses econ\u00f3micos que nos ultrapassa e envolve na mediocridade da globaliza\u00e7\u00e3o. Perdemos quase por completo o esp\u00edrito cr\u00edtico e, petulantemente, aceitamos tudo o que vem de fora: modas, distrac\u00e7\u00f5es, produtos, h\u00e1bitos e formas de vida&#8230; Tudo, mas tudo mesmo, sem distin\u00e7\u00e3o nem selec\u00e7\u00e3o, \u00e9 maravilhoso e surpreendente, desde que venha do estrangeiro. E assim, at\u00e9 a festa do Natal, de um idealismo amor\u00e1vel, viu o seu Pres\u00e9pio ser substitu\u00eddo pelo pinheiro (a \u00e1rvore de Natal), imitando o abeto da tradi\u00e7\u00e3o do Norte da Europa, que se carrega de brinquedos mais ou menos caros, despertando na crian\u00e7a ambi\u00e7\u00f5es e interesses mesquinhos, sem idealismo algum e que n\u00e3o fala, como o Pres\u00e9pio, \u00e0 sensibilidade dos cora\u00e7\u00f5es infantis. E em vez do cen\u00e1rio do epis\u00f3dio da Natividade, simulado em figurinhas de barro policromado que \u201cfalam\u201d directamente aos sentidos dos mais pequeninos, aceitamos introduzir a tradi\u00e7\u00e3o n\u00f3rdica do denominado \u201cpai natal\u201d, velha figura de botifarras que a multinacional norte-americana \u201ccoca-cola\u201d popularizou pelo mundo h\u00e1 muitas d\u00e9cadas atr\u00e1s, vestindo-o de vermelho no decurso de uma campanha de \u201cmarketing\u201d&#8230; Vem isto para dizer que \u00e9 chegada a altura de devolvermos o Natal portugu\u00eas e crist\u00e3o \u00e0s nossas crian\u00e7as e, porque n\u00e3o, a n\u00f3s mesmos adultos, se queremos de forma inconfund\u00edvel recordar nos nossos filhos e crian\u00e7as que nos s\u00e3o pr\u00f3ximas a nossa pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, aquele tempo enternecedor dos sonhos e da inoc\u00eancia, onde pairavam la\u00e7os invis\u00edveis de simpatia e fraternidade entre os esp\u00edritos.  <i>Joaquim Palminha Silva, In \u00abA Defesa\u00bb<\/i>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes da era crist\u00e3 ocidental, as civiliza\u00e7\u00f5es mais adiantadas (grega e romana) tinham como explica\u00e7\u00e3o para os problemas da exist\u00eancia espiritual da vida humana, as suas religi\u00f5es, baseadas em diversos deuses que, segundo pensavam, presidiam aos destinos do mundo \u201csegundo as especialidades\u201d . 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