{"id":28931,"date":"2007-12-21T12:18:05","date_gmt":"2007-12-21T12:18:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/21\/emilia-nadal\/"},"modified":"2007-12-21T12:18:05","modified_gmt":"2007-12-21T12:18:05","slug":"emilia-nadal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/emilia-nadal\/","title":{"rendered":"Em\u00edlia Nadal"},"content":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria dos natais da minha inf\u00e2ncia fixou-se nos ritos das liturgias dom\u00e9sticas que anunciavam a chegada do Menino Jesus <!--more--> Vim ao mundo em Lisboa, nas chamadas Avenidas Novas. Os meus pais, tios e av\u00f3s eram igualmente citadinos com origens diferentes. A minha fam\u00edlia paterna estava em Barcelona, enquanto em Lisboa, no ramo materno, conviviam pacificamente v\u00e1rias nacionalidades e culturas, assim como as op\u00e7\u00f5es religiosas de cada um. T\u00ednhamos um leque que ia dos cat\u00f3licos muito praticantes aos republicanos e laicos que nunca iam \u00e0 igreja, mas eram estruturalmente crist\u00e3os. A maior fatia era a dos n\u00e3o praticantes, pelo que n\u00e3o t\u00ednhamos a tradi\u00e7\u00e3o de ir \u00e0 Missa do Galo, exceptuando a fam\u00edlia restrita de uma tia, que era a mais religiosa de todas.  Embora todas as irm\u00e3s fossem \u00e0 igreja e rezassem habitualmente, era ela quem tinha mais jeito e paci\u00eancia para secundar a miss\u00e3o evangelizadora e catequ\u00e9tica da nossa av\u00f3 que raramente saia de casa e era vista como a sacerdotisa da fam\u00edlia. Sab\u00edamos que ela passava uma boa parte da noite no seu orat\u00f3rio a rezar por tudo e por todos, e o contacto com ela era pr\u00f3ximo e frequente, porque viv\u00edamos no mesmo pr\u00e9dio. Os av\u00f3s habitavam o 4\u00ba andar, seguindo-se os andares das tias e dos tios, sendo o r\/c o dos meus pais. Cada fam\u00edlia era totalmente independente, pelo que cada casa tinha os seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es. A casa dos av\u00f3s abria-se a todos, para l\u00e1 convergiam os oito netos e netas, e era l\u00e1 que se celebrava a festa de Natal. Em cada casa, por\u00e9m, havia uma viv\u00eancia particular da \u00e9poca. Na nossa, o meu pai contava-nos as alegrias e as dificuldades dos natais da sua inf\u00e2ncia durante as crises na Catalunha. Cantava-nos o al Noy de la Mara, com voz embargada e um brilho no olhar, e falava-nos dos turrones e dos panallets, que haver\u00edamos de provar, enviados pela av\u00f3 e pelos tios de Barcelona que apenas encontr\u00e1vamos no Ver\u00e3o.  N\u00e3o me lembro de ter assistido a celebra\u00e7\u00f5es do Natal na igreja. Nem em S.Sebasti\u00e3o da Pedreira, onde todos fomos baptizados, nem no Patronato onde a minha m\u00e3e nos levava \u00e0 catequese e \u00e0 Missa das crian\u00e7as. Assim, a mem\u00f3ria dos natais da minha inf\u00e2ncia fixou-se nos ritos das liturgias dom\u00e9sticas que anunciavam a chegada do Menino Jesus. Com elas chegava o tempo do sagrado at\u00e9 ao dia em que se celebrava a maior festa que existia na minha fam\u00edlia, que era a do Natal. O facto daqueles ritos se repetirem em cada ano, e por serem express\u00f5es de amor e de ternura relacionadas com o Menino Jesus, faziam de cada Natal um acontecimento transcendente. Nesses ritos integravam-se os preparativos para o dia 25 de Dezembro, os quais come\u00e7avam quando o meu av\u00f4 comunicava o respectivo programa a quem o fosse visitar. Um programa que envolvia toda a gente e que culminava na tarde daquele dia, quando as fam\u00edlias subiam ao 4\u00ba andar para jantar com os av\u00f3s. Antes de chegarmos a esse momento, era sempre em casa deles que se armava e enfeitava o Pres\u00e9pio e era l\u00e1 que decorriam os outros ritos que nos fascinavam.  Um deles era a rigorosa prepara\u00e7\u00e3o do peru, o qual estava vivo e era obrigado a engolir nozes e vinho do Porto antes de ser sacrificado. Era uma cerim\u00f3nia b\u00e1rbara e arrepiante que decorria ao frio, no terra\u00e7o superior do pr\u00e9dio. Outro rito indispens\u00e1vel era ver a av\u00f3, de quem raramente ouv\u00edamos a voz, a preparar as suas especialidades natal\u00edcias portuguesas e brasileiras. Sorrindo, ela tendia pacientemente bolachas fin\u00edssimas e broazinhas de cravo e canela, ou preparava a massa dos coscor\u00f5es. Isto porque, na \u00e9poca do Natal ela dedicava \u00e0 fam\u00edlia os seus afamados dotes culin\u00e1rios, utilizando temperos e receitas que s\u00f3 ela sabia, ou fazia como ningu\u00e9m.  Nesses natais eu tinha a alegria de ver chegar uma parente afastada, muito simples e muito santa, que vivia no campo e vinha passar o Natal a Lisboa. Sendo muito requestada pelas crian\u00e7as, ela embalava os mais novos a cantar os Santos Anjos e Arcanjos, o Salve Nobre Padroeira, e o Menino nas Palhas Deitado. Com ela aprendemos esses c\u00e2nticos e tanto a minha irm\u00e3 como eu, gost\u00e1vamos de adormecer vendo-a a rezar o ter\u00e7o de olhos fechados e com o rosto transfigurado pela luz da lamparina. Naquela \u00e9poca \u00e9ramos estimulados a rezar ao Menino Jesus, pedindo-lhe os presentes que desej\u00e1vamos, os quais eram entendidos como pr\u00e9mios de bom comportamento. No entanto, recordo o desconforto com que, na noite de 24 de Dezembro, colocava os meus sapatos na chamin\u00e9 da cozinha, estranhando que o Menino Jesus descesse a um s\u00edtio t\u00e3o esquisito. Assim, n\u00e3o tive desilus\u00e3o quando soube, pelos primos mais velhos, que os presentes eram comprados pelos pais em nome do Menino Jesus, um segredo que criou uma grande cumplicidade entre todos. Quando come\u00e7ava o jantar de Natal, eu gostava de ver a express\u00e3o do meu av\u00f4, feliz por nos ver todos juntos, sentados \u00e0 volta da mesa num ambiente de alegria. Ap\u00f3s a canja, chegava o famoso peru que a av\u00f3 recheara de farofa, mi\u00fados e azeitonas, o qual, no fim da refei\u00e7\u00e3o ainda chegava para ser distribu\u00eddo pelas nossas casas. Era a partilha do \u00faltimo sinal da festa, assim como do que restava dos doces e do enorme bolo-rei que era encomendado com presentes para todos. Depois das palavras emocionadas do av\u00f4 e das sa\u00fades com champanhe, passava-se ao ser\u00e3o, prolongando a boa conviv\u00eancia.  Os natais da minha inf\u00e2ncia aproximavam-se do fim quando a av\u00f3 se levantava e despedia de todos para se dirigir ao orat\u00f3rio. Pouco depois os pais tentavam arrastar os filhos para a porta, antecedendo o \u00faltimo rito que era entrar no \u201cquarto dos santinhos\u201d para \u201cdar um beijo \u00e0 av\u00f3\u201d. Era um privil\u00e9gio exclusivo dos netos que ali entravam em bicos de p\u00e9s, ficando a v\u00ea-la rezar \u00e0 luz das velas que projectavam sombras movedi\u00e7as nas imagens. Sem nunca se impacientar, a av\u00f3 sorria, respondendo baixinho \u00e0s nossas perguntas.  Quando a minha m\u00e3e me ia buscar, eu trazia na face um beijo que exalava a alfazema e a s\u00e2ndalo e, no cora\u00e7\u00e3o, a convic\u00e7\u00e3o reconfortante de que o Menino Jesus tinha vindo e que a av\u00f3 falava com Deus, Nossa Senhora e os Santos.    <i> Em\u00edlia Nadal, pintora <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria dos natais da minha inf\u00e2ncia fixou-se nos ritos das liturgias dom\u00e9sticas que anunciavam a chegada do Menino Jesus<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[122,127,154,187,206,246,267,316],"class_list":["post-28931","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-brasil","tag-catequese","tag-crianca","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-liturgia","tag-natal","tag-terco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28931\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}