{"id":28930,"date":"2007-12-21T12:14:03","date_gmt":"2007-12-21T12:14:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/21\/acacio-catarino\/"},"modified":"2007-12-21T12:14:03","modified_gmt":"2007-12-21T12:14:03","slug":"acacio-catarino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/acacio-catarino\/","title":{"rendered":"Ac\u00e1cio Catarino"},"content":{"rendered":"<p>A noite de Natal da minha inf\u00e2ncia surge, antes de mais, como noite de trabalho prolongado&#8230;  <!--more--> \u00abNatal da inf\u00e2ncia e infantilismo da idade adulta\u00bb  Visto \u00e0 dist\u00e2ncia de cerca de setenta anos, a noite de Natal da minha inf\u00e2ncia (no Casal da Estrada, freguesia e par\u00f3quia de Benedita) surge, antes de mais, como noite de trabalho prolongado &#8211; \u00abser\u00e3o\u00bb &#8211; para os homens e rapazes das oficinas de cal\u00e7ado, enquanto as mulheres preparavam os fritos pr\u00f3prios da quadra. Surge tamb\u00e9m como noite de contraste entre as fam\u00edlias abastadas, as remediadas e as mais pobres; estas \u00faltimas n\u00e3o dispunham, nalguns anos, de condi\u00e7\u00f5es para a confec\u00e7\u00e3o dos fritos nem para outros \u00abmimos\u00bb. Todos os anos, uma fam\u00edlia abastada, residente na sede da frequesia,  expunha o  pres\u00e9pio na montra da sua loja comercial, que era visitado por elevado n\u00famero de fam\u00edlias; na contempla\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio; as crian\u00e7as sonhavam com o mundo a\u00ed simbolizado e que facilmente se projectava, no futuro, como utopia de tranquilidade e paz. Tal mundo era tamb\u00e9m simbolizado pelo modo de vida dessa fam\u00edlia.  O Natal era, assim, marcado pela presen\u00e7a da pobreza. Para agravar a situa\u00e7\u00e3o, era tamb\u00e9m marcado pelo espectro da guerra &#8211; a Grande Guerra; embora distante geograficamente, a guerra era vivida como pr\u00f3xima, atrav\u00e9s de algumas not\u00edcias que iam chegando e, sobretudo, atrav\u00e9s da recita\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o pela paz, bem como atrav\u00e9s do racionamento de produtos alimentares.  A \u00abMissa do Galo\u00bb constitu\u00eda o ponto alto da quadra natal\u00edcia, particularmente pela reuni\u00e3o comunit\u00e1ria de toda a par\u00f3quia,  pelo calor humano da noite fria, pela simbologia e sonho inerentes ao pres\u00e9pio paroquial e, ainda, pela participa\u00e7\u00e3o de jovens que cantavam o \u00abalegrem-se os c\u00e9us e a terra\u00bb com um vigor extraordin\u00e1rio; s\u00f3 nesta \u00abMissa\u00bb as vozes do fundo da igreja se sobrepunham a todas as outras.  A partir das leituras efecuadas na escola prim\u00e1ria, surgiu o contraste entre o Natal, como era vivido localmente, e o descrito pelos intelectuais. Mais verdadeiro ou mais imagin\u00e1rio, e porventura estereotipado, este situava-se noutro mundo e acabou por prevalecer mais tarde.  O Natal das car\u00eancias, das desigualdades e da guerra foi bastante atenuado ao longo dos \u00faltimos setenta anos; numa an\u00e1lise mais superficial, at\u00e9 se pode afirmar que se passou do oito para o oitenta; a verdade, por\u00e9m, \u00e9 que persistem as car\u00eancias, as desigualdades e as guerras, e n\u00e3o se vislumbra a sua erradica\u00e7\u00e3o. As comunidades crist\u00e3s desenvolveram extraordinariamente a ac\u00e7\u00e3o social, atrav\u00e9s de elevado n\u00famero de equipamentos e de outras iniciativas; acontece, por\u00e9m, que n\u00e3o ultrapassaram significativamente o modelo das miseric\u00f3rdias, contrarias e institui\u00e7\u00f5es semelhantes da Idade M\u00e9dia. Os centros sociais paroquiais vieram renovar, sem d\u00favida, aquela ac\u00e7\u00e3o e institucionaliz\u00e1-la em in\u00fameras par\u00f3quias; mas n\u00e3o trouxeram um modelo verdadeiramente novo, pois se limitaram, basicamente, a reproduzir o modelo medieval e a actualiz\u00e1-lo, nomeadamente, em termos t\u00e9cnicos.  N\u00e3o se introduziu nas par\u00f3quias, por analogia, o modelo fraternal e \u00abdemocr\u00e1tico\u00bb das antigas ordens religiosas. Tamb\u00e9m n\u00e3o se aproveitaram as potencialidades do cooperativismo e do mutualismo, recriados no s\u00e9culo XIX, nem as do \u00abdesenvolvimento comunit\u00e1rio\u00bb dos anos sessenta do s\u00e9culo passado nem t\u00e3o pouco a din\u00e2mica do \u00abdesenvolvimento local\u00bb aparecida nos anos oitenta, e que perdura continua hoje em dia sem ades\u00e3o significativa da maioria das par\u00f3quias em cujo territ\u00f3rio est\u00e1 implantado.  Que raz\u00f5es \u00abmisteriosas\u00bb impedem a consci\u00eancia solid\u00e1ria dos problemas sociais de cada par\u00f3quia, baseada no tratamento dos casos atendidos e visitados na sua ac\u00e7\u00e3o social? Que raz\u00f5es impedem a anima\u00e7\u00e3o local para a mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos em ordem \u00e0 procura das solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis? Que raz\u00f5es impedem a promo\u00e7\u00e3o de iniciativas n\u00e3o s\u00f3 de natureza social ou cultural mas tamb\u00e9m econ\u00f3mica e de \u00abdesenvolvimento integral\u00bb? Que raz\u00f5es impedem os crist\u00e3os leigos de apresentar propostas de medidas pol\u00edticas tornadas indispens\u00e1veis, face \u00e0 impossibilidade de solu\u00e7\u00e3o de problemas com os recursos dispon\u00edveis? &#8211; A experi\u00eancia de \u00abdesenvolvimento local\u00bb e a da interven\u00e7\u00e3o nas diferentes estruturas ainda se encontra fora do horizonte da generalidade das par\u00f3quias.  A pr\u00e1tica do di\u00e1logo social entre crist\u00e3os, mesmo com posicionamentos diferentes, a exist\u00eancia de grupos de ac\u00e7\u00e3o social de servi\u00e7o, a favor de pessoas mais necessitadas, e a de grupos de interven\u00e7\u00e3o nas diferentes estruturas,  profissionais e outras, apresentam-se actualmente como indispens\u00e1veis nas par\u00f3quias, nas dioceses e no plano nacional.  Hoje em dia, n\u00f3s adultos mantemo-nos \u00abinfantilizados\u00bb perante o Natal. Portanto n\u00e3o amadurecidos nem suficicentemente crist\u00e3os. Talvez d\u00e9ssemos um verdadeiro passo em frente se come\u00e7\u00e1ssemos a preparar-nos, desde j\u00e1, para que o Natal seja diferente no pr\u00f3ximo ano e nos seguintes&#8230;  <i>Ac\u00e1cio F. Catarino, soci\u00f3logo <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite de Natal da minha inf\u00e2ncia surge, antes de mais, como noite de trabalho prolongado&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[154,206,267,316],"class_list":["post-28930","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-crianca","tag-familia","tag-natal","tag-terco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28930"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28930\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}