{"id":28929,"date":"2007-12-21T12:04:41","date_gmt":"2007-12-21T12:04:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/21\/levi-guerra\/"},"modified":"2007-12-21T12:04:41","modified_gmt":"2007-12-21T12:04:41","slug":"levi-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/levi-guerra\/","title":{"rendered":"Levi Guerra"},"content":{"rendered":"<p>Aproximou-se o Natal na Vila. Tornaram-se aparentes as ilumina\u00e7\u00f5es, escassas e pouco vistosas, a vida da fam\u00edlia estava num af\u00e3 maior pr\u00f3prio da \u00e9poca, e iam soando as can\u00e7\u00f5es de Natal que me encantavam <!--more--> Em \u00c1gueda nasci. L\u00e1 vivi muitos Natais no seio duma fam\u00edlia da baixa burguesia e que no com\u00e9rcio tinha a fonte do seu sustento e equil\u00edbrio. Foi feliz a minha inf\u00e2ncia. Cresci com um irm\u00e3o e uma irm\u00e3. Viv\u00edamos na casa onde todos nascemos e onde estava a loja do com\u00e9rcio, com nossos Pais e Av\u00f3s maternos. Ao tempo, ainda a II Guerra Mundial n\u00e3o terminara, havia na Terra algumas figuras notadas pelo seu exotismo de presen\u00e7a p\u00fablica tanto quanto pela realidade aparente da sua pobreza espelhada nos seus trajares. Uma delas era a Preciosa, vendedora ambulante de peixe que todos os dias ia pelas ruas da Vila a anunciar o seu pescado fresco avonde, quase sempre sardinhas e\/ou chicharros. Sentava-se, \u00e0 tarde, sob as ramadas do arvoredo de pl\u00e1tanos existentes no centro da Vila, na berma da rua, canasta do pescado no ch\u00e3o, nas apraz\u00edveis tardes quentes, quando as havia, sem deixar de ser prejudicada no seu neg\u00f3cio pelos Invernos. A Preciosa era pobre. Vivia numa casa t\u00e9rrea na Venda Nova, um bairro da Terra. Talvez tivesse tido a agenesia cong\u00e9nita da m\u00e3o esquerda e era, por isso, maneta. Sabia bem lidar com o coto de forma eficaz. De rosto afilado e nariz adunco, com rugas a sulcarem-lhe verticalmente as faces, cabelo sempre coberto por um len\u00e7o de pano de cor escura, magra, de voz roufenha, de saia lisa e blusa sempre limpa e de cores vistosas, via-me muitas vezes perto de si, a brincar, desde crian\u00e7a, e dava-me aten\u00e7\u00e3o devido \u00e0  curiosidade que eu sempre tinha para ver o pescado.  &#8211; \u201cO\u00b4Menino, v\u00e1 dizer \u00e0 M\u00e3ezinha que hoje tenho linguados frescos\u2026   E eu respondia que sim, e ia dizer \u00e0 minha M\u00e3e. E, \u00e0s vezes, Ela comprava.  O tempo passou e o neg\u00f3cio da Preciosa continuou. Eu entrei nos estudos no Col\u00e9gio e perdi o contacto frequente com ela. De vez em quando vi-a. Chegou aquele Outono, sucedido \u00e0s f\u00e9rias grandes, e deixou de se ver a Preciosa. Ouvi l\u00e1 em casa que estava com um cancro do \u00fatero e n\u00e3o tinha hip\u00f3teses de cura. Aproximou-se o Natal na Vila. Tornaram-se aparentes as ilumina\u00e7\u00f5es, escassas e pouco vistosas, a vida da fam\u00edlia estava num af\u00e3 maior pr\u00f3prio da \u00e9poca, e iam soando as can\u00e7\u00f5es de Natal que me encantavam. Chegou o dia da consoada. A tarde foi fria e de baixa luminosidade. A Preciosa e a sua doen\u00e7a, e o seu fim pr\u00f3ximo, bailavam no meu esp\u00edrito diariamente. Imaginava a sua dor, mas n\u00e3o a tinha visitado. Mas nessa tarde, depois de j\u00e1 ter conclu\u00eddo o pres\u00e9pio com os meus irm\u00e3os,  decidi-me ir visitar a Preciosa, e fui, n\u00e3o sem que antes pedisse uma mercearia a meus Pais, explicando-lhes o que decidira fazer. Sem me obstarem, arranjaram-me um cesto onde levei a\u00e7\u00facar, arroz e bolos, e ainda as moedas que tinha no mealheiro que, n\u00e3o sendo muito era o que fora juntando com os tost\u00f5es semanais que ia recebendo. Sa\u00ed de casa, subi \u00e0 Venda Nova, cheguei ao largo em que se erguia a casa, bati \u00e0 porta entreaberta e ouvi perguntar: &#8211; \u201cQuem \u00e9?- Sou eu, disse, o seu amigo, neto do Sr. Afonso, lembra-se?\u201d \u2013\u201c \u00d3 menino! \u00d3 meu menino! Entre, entre! Veio ver-me?! \u00d3 que alegria eu tenho em v\u00ea-lo!\u201d \u2013\u201c\u00d3 Preciosa, pois vim visit\u00e1-la, saber como est\u00e1 e como se sente e trazer-lhe esta pequenina prenda para si!\u201d-\u201c\u00d3 meu menino! Obrigado, muito obrigado! E chorava. Pois eu estou muito mal, mas o menino trouxe-me uma alegria como nunca senti, acredita?\u201d \u2013 Pois sim, disse. Que bom ser assim! Sabe, Preciosa, os meus Pais e Av\u00f3s, e a doutrina que me foi ensinada, diz que o Menino-Deus est\u00e1 presente de modo especial nas pessoas doentes e que sofrem, e que no rosto das pessoas revela-se mais viva a imagem de Jesus que hoje festejamos! Por isso entendi que vir v\u00ea-la foi verdadeiramente como ir a Bel\u00e9m h\u00e1 quase dois mil anos&#8230;Veja l\u00e1 , heim! Ajoelhei-me para a beijar, e beijei-a. Envolviam-na s\u00f3 andrajos e uma coberta tapava-a ali estendida sobre um colch\u00e3o aplicado no ch\u00e3o t\u00e9rreo e h\u00famido. E aquele cheiro acre e pestilento desprendido das suas entranhas adulteradas, senti-o como o melhor perfume\u2026Sa\u00ed a chorar. Na rua, passava um b\u00eabado a cambalear, e havia um magote de rapazolas \u00e0s rizadas\u2026Escapei-me, receoso, pois fora sozinho. E quando, mais \u00e0 frente, descia a rua principal da Vila, recordo, ia animado duma irresist\u00edvel alegria, e dei de novo comigo a pensar que ser m\u00e9dico era o que eu queria ser, e fui.  Ningu\u00e9m como o m\u00e9dico para penetrar a grandeza da alma humana nestes seus inevit\u00e1veis transes. Apaixonante \u00e9 viver com compaix\u00e3o que \u00e9 partilhar as dores dos doentes, e lhes levar a consola\u00e7\u00e3o. A compaix\u00e3o  partilha a dor, e a consola\u00e7\u00e3o mata a solid\u00e3o. Que pobreza maior h\u00e1 que a falta de sa\u00fade? Sim, eu hoje associo, com justi\u00e7a, os enfermeiros, os capel\u00e3es hospitalares, e todo o pessoal das institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade a estas viv\u00eancias, e proclamo o dever que tem de as viver, cada um no plano das suas atribui\u00e7\u00f5es.  Natal da minha inf\u00e2ncia! Aquele foi, naturalmente, o mais marcante e inesquec\u00edvel que vivi em pequeno.  <i>Levi Guerra, m\u00e9dico e professor universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproximou-se o Natal na Vila. Tornaram-se aparentes as ilumina\u00e7\u00f5es, escassas e pouco vistosas, a vida da fam\u00edlia estava num af\u00e3 maior pr\u00f3prio da \u00e9poca, e iam soando as can\u00e7\u00f5es de Natal que me encantavam<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[154,206,211,267],"class_list":["post-28929","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-crianca","tag-familia","tag-ferias","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28929"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28929\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}