{"id":289137,"date":"2023-07-15T09:00:39","date_gmt":"2023-07-15T08:00:39","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=289137"},"modified":"2023-07-15T12:21:17","modified_gmt":"2023-07-15T11:21:17","slug":"lisboa-nao-se-pode-ficar-um-ano-a-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lisboa-nao-se-pode-ficar-um-ano-a-espera\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u00abN\u00e3o se pode ficar um ano \u00e0 espera\u00bb, afirma o cardeal-patriarca sobre nomea\u00e7\u00e3o do sucessor"},"content":{"rendered":"<p><em>D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa desde 2013, completa este domingo 75 anos de idade, na qual o Direito Can\u00f3nico exige a apresenta\u00e7\u00e3o da ren\u00fancia ao minist\u00e9rio. A nova etapa do servi\u00e7o episcopal no Patriarcado, a crise dos abusos sexuais, o processo sinodal e o impacto da Jornada Mundial da Juventude s\u00e3o alguns dos temas em destaque nesta entrevista do cardeal portugu\u00eas \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA<\/em><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_289156\" aria-describedby=\"caption-attachment-289156\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-289156 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-12.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-12.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-12-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-12-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-12-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-12-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-289156\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>O 75.\u00ba anivers\u00e1rio \u00e9 a ocasi\u00e3o em que, normalmente, se apresenta a ren\u00fancia ao Papa. Acredito que j\u00e1 realizou ou v\u00e1 realizar, faz parte do decorrer normal do governo na Igreja Cat\u00f3lica\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, est\u00e1 absolutamente nas m\u00e3os do Santo Padre. No que diz respeito \u00e0 Diocese de Lisboa tem uma circunst\u00e2ncia particular: costuma, habitualmente, ser acompanhada por quatro bispos, um diocesano e tr\u00eas auxiliares, mas acontece que agora estamos noutra situa\u00e7\u00e3o. Faleceu-nos o senhor D. Daniel [Batalha Henriques], ainda com 57 anos, em novembro passado; o senhor D. Joaquim [Mendes] fez 75 anos em mar\u00e7o, eu fa\u00e7o-os agora; o senhor D. Am\u00e9rico [Aguiar] est\u00e1 inteiramente envolvido na Jornada Mundial da Juventude h\u00e1 meses, at\u00e9 h\u00e1 anos, e agora com esta nomea\u00e7\u00e3o cardinal\u00edcia, vamos ver o que o Papa lhe vai pedir. Portanto, a Diocese de Lisboa est\u00e1 num estado em que precisa, digamos assim, de ser recomposta na sua equipa episcopal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi isso que disse no Programa Pastoral \u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. E isso ter\u00e1 de ser feito, necessariamente, por quem vier a presidir a essa equipa, n\u00e3o pode ser por mim. Se eu agora propusesse outros nomes, a resposta era \u00f3bvia: \u201cn\u00e3o, espere a\u00ed que venha o seu sucessor e ele que escolha os seus colaboradores\u201d. O que \u00e9 absolutamente natural.<\/p>\n<p>Isso significa que, num tempo em que as v\u00e9speras da Jornada Mundial da Juventude j\u00e1 c\u00e1 est\u00e3o, em que se acelera tudo o que \u00e9 preciso fazer para que ela corra da melhor maneira, depois vem um novo ano pastoral, que come\u00e7a aqui, geralmente, a 1 de setembro. Precisar\u00e1 de algu\u00e9m que reorganize a vida da diocese, em termos episcopais. E que tamb\u00e9m proponha ao Papa os seus colaboradores. Portanto, estamos nesta fase, mas como digo: est\u00e1 tudo nas m\u00e3os do Santo Padre, ele decide como entender.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua opini\u00e3o, depois da Jornada Mundial da Juventude, o in\u00edcio do ano pastoral ser\u00e1 ocasi\u00e3o dessa reconfigura\u00e7\u00e3o episcopal?<\/em><\/p>\n<p>Sim, acho que ficava bem \u201cano novo, vida nova\u201d, tamb\u00e9m em termos pastorais. Por isso, era uma boa altura de recome\u00e7ar, tamb\u00e9m sem demorar muito. O rescaldo da Jornada ser\u00e1, certamente, muito grande, em termos de envolvimento das pessoas, de projetos, de sonhos, mas \u00e9 preciso que haja um centro que fa\u00e7a isso mesmo, que centralize tudo e o leve por diante, em colabora\u00e7\u00e3o com o clero e com os fi\u00e9is que militam na nossa diocese e que, gra\u00e7as a Deus, s\u00e3o muitos. \u00c9 preciso que haja uma orienta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode ficar um ano \u00e0 espera daquilo que tem de come\u00e7ar imediatamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por vezes acontece, com muitos bispos, com o patriarca de Lisboa, o Papa pedir mais um ano, dois anos, de servi\u00e7o. Estaria dispon\u00edvel para isso?<\/em><\/p>\n<p>Estou dispon\u00edvel para o que o Papa entender. Mas h\u00e1 esta circunst\u00e2ncia que eu relatei, que faz de Lisboa um caso com alguma urg\u00eancia, porque corre o risco de ficar suspensa e n\u00e3o pode ficar, tem de continuar, certamente com outros protagonistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A nomea\u00e7\u00e3o do bispo auxiliar D. Am\u00e9rico Aguiar, como cardeal, a escolha do Papa, pode ter alguma interfer\u00eancia neste processo de nomea\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Eu julgo que n\u00e3o, a escolha do Papa tem muito a ver com o conhecimento direto que ele tem do senhor D. Am\u00e9rico, porque nesta prepara\u00e7\u00e3o da Jornada, os contactos foram muitos, como ali\u00e1s foram muito mediatizados tamb\u00e9m, com aquelas mensagens que lhe pediu e que o Papa se prontificou a enviar, para todos os setores \u2013 padres, leigos, enfim, toda a gente, sociedade em geral. Isso deu ao Santo Padre um conhecimento muito direto das capacidades, que gra\u00e7as a Deus s\u00e3o muitas, do senhor D. Am\u00e9rico. \u00c9 natural que o tenha escolhido, para colaborador mais pr\u00f3ximo, seja em Roma, seja onde for, porque hoje em dia tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 dist\u00e2ncias em termos de colabora\u00e7\u00e3o, com este mediatismo que nos permite estar em todo o lado e fazer as mais diversas tarefas, seja onde for. Atribuo-o a isso mesmo, ao conhecimento direto, que o Papa teve ocasi\u00e3o de manter, com o senhor D. Am\u00e9rico. E, quanto a mim, escolheu muito bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua opini\u00e3o, isso pode levar a uma colabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com o Papa, nomeadamente na Santa S\u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Poder, pode. N\u00e3o sei se ser\u00e1 esse o caso, veremos. Aqui estamos tamb\u00e9m na expectativa. Para j\u00e1, estamos a trabalhar na Jornada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_289154\" aria-describedby=\"caption-attachment-289154\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-289154\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-10-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-10-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-10-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-10-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-10-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-10.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-289154\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Uma quest\u00e3o que se foi levantando, a respeito do pedido de ren\u00fancia de D. Manuel Clemente, \u00e9 se o apresentou agora, nesta circunst\u00e2ncia, ou h\u00e1 mais tempo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Foi, concretamente, depois do falecimento do senhor D. Daniel. Porque eu reparei nisto, nestas circunst\u00e2ncias: um foi para o C\u00e9u, outro est\u00e1 na terra, mas j\u00e1 fez 75 anos, outro faz 75\u2026 \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio olhar para Lisboa e esse olhar passa, com certeza, por quem tem de reorganizar o servi\u00e7o episcopal. E n\u00e3o sou eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A necessidade do combate aos casos de abusos, no ambiente da Igreja, tamb\u00e9m motivou esse pedido?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o diretamente, porque esse \u00e9 um trabalho que estamos a fazer, intensamente, j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios anos, n\u00e3o \u00e9 de agora. Houve aquela perip\u00e9cia que me tocou, h\u00e1 um ano, e que tive ocasi\u00e3o de esclarecer, para quem quis ser esclarecido. E n\u00e3o foi s\u00f3 nos \u00faltimos anos, vai ser nos pr\u00f3ximos. Espero, e n\u00e3o s\u00f3 eu, tamb\u00e9m a Comiss\u00e3o Independente, que fez aquele relat\u00f3rio, v\u00e1rios pol\u00edticos que se t\u00eam pronunciado nesse sentido, que este exemplo da Igreja sirva para que, em todas as realidades da nossa sociedade, onde h\u00e1 crian\u00e7as, adolescentes e jovens, se fa\u00e7a da mesma maneira, porque temos de ter uma enorme aten\u00e7\u00e3o a esta problem\u00e1tica, que infelizmente n\u00e3o decresce, cresce. E s\u00f3 pode ser respondida pela sociedade, no seu conjunto, n\u00e3o h\u00e1 outra hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda sobre o processo de escolha do seu sucessor, disse por ocasi\u00e3o da Missa Crismal de 2023, que seria a \u00faltima a que presidia com o presbit\u00e9rio de Lisboa. Continua nessa disposi\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Pois, porque como digo, apresentei a situa\u00e7\u00e3o de Lisboa ao Santo Padre em novembro passado, a Missa Crismal j\u00e1 foi no princ\u00edpio de abril e aproveitei a ocasi\u00e3o, de ter tanto clero junto, que \u00e9 uma ocasi\u00e3o \u00fanica, para dizer que tudo levava e leva a crer que seria a \u00faltima vez que celebrava a Missa Crismal com eles, nesta condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Entre os acontecimentos desta d\u00e9cada estiveram a celebra\u00e7\u00e3o dos 300 anos da qualifica\u00e7\u00e3o patriarcal da Diocese de Lisboa e o S\u00ednodo Diocesanos. Seriam alguns do que selecionaria como marcos?<\/em><\/p>\n<p>Como marcos, exatamente. A vida da Igreja acontece todos os dias, na vida dos crist\u00e3os e das crist\u00e3s, sejam eles quem forem e onde estiverem. Isso \u00e9 a vida normal da Igreja, aqueles que s\u00e3o padres e t\u00eam minist\u00e9rios acompanham, com a Palavra, os sacramentos, com a orienta\u00e7\u00e3o, esses outros irm\u00e3os e essa \u00e9 a vida normal da Igreja, aquilo a que n\u00f3s chamamos a\u00e7\u00e3o pastoral. Mas eu creio que, na vida da Igreja, sobretudo assim no conjunto, tem de haver, de tempos a tempos, marcos, para utilizar o termo, que re\u00fanam, congreguem, e tamb\u00e9m animem, reanimem isso mesmo que, depois, se faz no dia a dia. Ali\u00e1s, se repararmos naqueles dois, tr\u00eas anos de vida p\u00fablica de Jesus, tamb\u00e9m aconteceu: Ele ia acompanhando as pessoas, no primeiro ano, ano e meio, esteve mais ou menos estabelecido em Cafarnaum, na casa de Pedro, e andava \u00e0 volta do lago; depois teve momentos de grande ajuntamento de pessoas, lembremo-nos da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es, as bem-aventuran\u00e7as, etc. Eu creio que, na vida da Igreja, como aconteceu na pr\u00f3pria vida p\u00fablica de Jesus, isto tem de acontecer, ou seja, o estar, o acompanhar, o tentar resolver ou ajudar a resolver os problemas, e, por outro lado, ter momentos em que todos nos juntamos e, de toda a maneira, nos animamos uns aos outros, para prosseguir. Isso que aconteceu em Lisboa tamb\u00e9m fiz no Porto, fui para l\u00e1 em 2007 e rapidamente, com os outros agentes pastorais, fomos falando sobre como haver\u00edamos de fazer qualquer coisa em conjunto. Fizemos a Miss\u00e3o 2010, que durou todos os meses desse ano, procurando que as comunidades, naquilo que j\u00e1 faziam, desde as janeiras \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es quaresmais, aos santos populares, mesmo ao lugar que os defuntos t\u00eam no m\u00eas de novembro, se fizesse com um sentido mission\u00e1rio, que se fosse um pouco mais longe, que se chegasse a lugares onde habitualmente n\u00e3o se chegava, e de outra maneira. Nalguns casos, aconteceu. Depois, feita essa Miss\u00e3o 2010, come\u00e7\u00e1mos a pensar noutro horizonte, que ali\u00e1s nos foi sugerido pelo Papa Bento XVI, com o Ano da F\u00e9, e fizemos aquelas jornadas vicariais da f\u00e9. Aqui em Lisboa, quando c\u00e1 cheguei, tamb\u00e9m comecei a olhar para o calend\u00e1rio mais largo, para o que havia no horizonte, e lembrei-me: em 2016, s\u00e3o os 300 anos da qualifica\u00e7\u00e3o patriarcal de Lisboa. Isto podia ser apenas uma raz\u00e3o de festejo, mais ou menos cultural, com alguma celebra\u00e7\u00e3o, mas porque \u00e9 que havia de ser s\u00f3 isso? Se na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do Patriarcado se refere o esfor\u00e7o mission\u00e1rio, vamos fazer disto uma ocasi\u00e3o de relan\u00e7amento mission\u00e1rio\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_289146\" aria-describedby=\"caption-attachment-289146\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-289146\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manuel-clemente-julho2023-2.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-289146\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>Entretanto, o Papa Francisco, em 2013, escreveu-nos a exorta\u00e7\u00e3o inaugural, as linhas de for\u00e7a do seu pontificado, a \u2018Evangelii Gaudium\u2019, e diz que \u201cagora, cada bispo, na sua diocese, ative tudo aquilo que \u00e9 inst\u00e2ncia de colabora\u00e7\u00e3o e de programa\u00e7\u00e3o, para p\u00f4r em pr\u00e1tica este programa\u201d. E foi o que n\u00f3s fizemos, em 2014, 2015, 2016, a exorta\u00e7\u00e3o tem cinco cap\u00edtulos e reunimos v\u00e1rios grupos sinodais, foram centenas de grupos, pela diocese fora, que congregaram mais de 20 mil pessoas, ao longo desse tempo. Cada trimestre, estudavam um dos cinco cap\u00edtulos, mandavam o resumo daquilo que tinham refletido, para a equipa do S\u00ednodo, e com tudo isso fez-se o S\u00ednodo Diocesano, no final de 2016, de que saiu a Constitui\u00e7\u00e3o Sinodal de Lisboa, que s\u00e3o as linhas-mestras, em 70 n\u00fameros, daquilo que tentamos levar por diante, no que diz respeito \u00e0 Palavra, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, lit\u00fargica e n\u00e3o s\u00f3, \u00e0 a\u00e7\u00e3o sociocaritativa, ao incremento das inst\u00e2ncias de corresponsabilidade \u2013 Conselhos Pastorais, Conselhos Econ\u00f3micos, enfim, tudo aquilo que \u00e9 trabalho de conjunto, no fundo de sinodalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa foi uma ocasi\u00e3o de inclus\u00e3o, de chegar a quem poderia n\u00e3o estar j\u00e1 a participar?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que muito mais gente teve a consci\u00eancia de que isto era importante, ou seja, de que na Igreja n\u00f3s somos participantes, n\u00e3o somos espectadores. N\u00e3o vamos \u00e0 Missa como se vai ao teatro, como se vai ao cinema, enfim, muito dependentes da m\u00fasica que se cante ou do ator que esteja l\u00e1 \u00e0 frente a fazer a homilia, n\u00e3o \u00e9? Claro que todos esses elementos s\u00e3o importantes, para que tudo corra bem, mas a Missa somos n\u00f3s em celebra\u00e7\u00e3o. E no que diz respeito aos outros aspetos, tamb\u00e9m: por exemplo, se uma par\u00f3quia tem uma atividade sociocaritativa, como muitas t\u00eam, \u00e9 muito grande esta rede de a\u00e7\u00e3o sociocaritativa de base paroquial, e n\u00e3o s\u00f3, que as pessoas sintam isso, cada vez mais, como uma coisa sua e n\u00e3o apenas algo que est\u00e1 ali ao lado e nem se d\u00e1 por isso\u2026 a mesma coisa no que diz respeito a todos os aspetos da vida da Igreja, que as comunidades incentivem este trabalhar em conjunto, que tenham realmente Conselhos Pastorais a funcionar. Sen\u00e3o, claro, podemos ter muito boas inten\u00e7\u00f5es, fazer grandes discursos sinodais, mas se isso n\u00e3o acontece no concreto, na pr\u00e1tica das comunidades, se as pessoas n\u00e3o s\u00e3o constantemente estimuladas a participar, vejam l\u00e1\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que avalia\u00e7\u00e3o faz da aplica\u00e7\u00e3o das propostas?<\/em><\/p>\n<p>Julgo que, em termos de consci\u00eancia, se cresceu. Foi muita a insist\u00eancia, quer minha, quer dos meus colegas, de todos os outros respons\u00e1veis diocesanos pela pastoral, foi tanta a insist\u00eancia e \u00e9, continua a ser, que se tem andado nesse sentido. Em qualquer um destes sentidos. Agora, no concreto h\u00e1 sempre muito trabalho a fazer, porque hoje em dia h\u00e1 outro fator que n\u00e3o ajuda muito: antigamente, as comunidades rurais, e n\u00e3o s\u00f3, como eram muito est\u00e1veis, as pessoas viviam grande parte da sua vida, sen\u00e3o a sua vida toda, no mesmo s\u00edtio, sentiam tudo aquilo como muito seu: a sua Igreja, at\u00e9 no aspeto material, de conserva\u00e7\u00e3o; as suas festas, as suas atividades normais, a catequese. Hoje em dia, com toda a gente a andar para um lado e para outro, \u00e9 muito mais dif\u00edcil estabelecer esta composi\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, que \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria para a vida da Igreja. Se n\u00e3o h\u00e1 esta vida comunit\u00e1ria, muito dificilmente depois h\u00e1 aperfei\u00e7oamento crist\u00e3o, porque Jesus prometeu que estaria no meio de n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 no meio de mim. No meio de n\u00f3s. Qual \u00e9 o n\u00f3s, hoje, t\u00e3o disperso, t\u00e3o fugitivo? \u00c9 uma Diocese de Lisboa que ter\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o residente de cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas, e que depois tem muito mais gente na sua popula\u00e7\u00e3o flutuante, que pode ir at\u00e9 aos 2,5 milh\u00f5es \u2013 pessoas que v\u00eam c\u00e1 trabalhar, mas n\u00e3o moram aqui, ou que hoje est\u00e3o c\u00e1 e amanh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o estar\u00e3o. Tudo isto \u00e9 movedi\u00e7o, portanto, fazer a tal sinodalidade, caminhar em conjunto, implicar conhecermo-nos, hoje, e voltar-nos a conhecer amanh\u00e3, para o ano tamb\u00e9m, e acompanharmos. As fam\u00edlias conhecem-se, os filhos, os idosos, se est\u00e3o doentes\u2026 mas isso requer estabilidade. \u00c9 um grande problema, n\u00e3o s\u00f3 para a Igreja mas tamb\u00e9m para a sociedade, e \u00e9 um grande desafio para a Igreja em fun\u00e7\u00e3o da sociedade. N\u00e3o podemos esquecer que, num pa\u00eds como Portugal, a primeira agrega\u00e7\u00e3o da sociedade foram as chamadas freguesias, isto at\u00e9 antes da constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Freguesias significa \u201cfilhos da Igreja\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 da Igreja em geral, \u00e9 daquela Igreja, onde eram batizados e depois tamb\u00e9m sepultados, entretanto o resto\u2026<\/p>\n<p>Havia uma base territorial e social que permitia essa conviv\u00eancia, fazia com que as pessoas sentissem aquilo como seu. Ainda hoje, mesmo com toda esta mobilidade, pessoas que moram durante d\u00e9cadas, por exemplo, aqui em Lisboa, no Natal e na P\u00e1scoa v\u00e3o \u201c\u00e0 terra\u201d, \u00e0 terra onde j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o h\u00e1 meio s\u00e9culo, porque ainda h\u00e1 resqu\u00edcios dessa perten\u00e7a. Refazer estas perten\u00e7as, estas vizinhan\u00e7as, \u00e9 um enorme desafio para a sociedade em geral, e se a Igreja puder contribuir tamb\u00e9m, com esta sua revitaliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, certamente intercomunit\u00e1ria, hoje n\u00e3o ser\u00e1 de outra forma, para que a sociedade se reencontre, ser\u00e1 um bom contributo, outra vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que expectativa tem para a Assembleia do S\u00ednodo, em Roma, no m\u00eas de outubro, e para novas perspetivas que da\u00ed possam surgir sobre essa reconfigura\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da Igreja, a inclus\u00e3o de diferentes periferias?<\/em><\/p>\n<p>Eu posso alargar, agora, ao \u00e2mbito da Igreja aquilo que estava a dizer em rela\u00e7\u00e3o a Lisboa: esta movimenta\u00e7\u00e3o constante das pessoas, de um lado para o outro, e hoje em dia em termos at\u00e9 de migra\u00e7\u00f5es, de refugiados \u2013 n\u00e3o s\u00f3 de uma maneira normal, porque se quer ir para ali, porque tem mais condi\u00e7\u00f5es, mas porque se tem de sair porque aqui j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver. Com todos estes fatores que notamos, uns positivos e outros muito negativos, at\u00e9, torna-se muito dif\u00edcil refazer a sociabilidade. Muito dif\u00edcil. Estarmos a falar de sinodalidade sem haver uma perten\u00e7a social \u00e9 muito complicado.<\/p>\n<p>Claro que uma assembleia como o S\u00ednodo ser\u00e1 uma ocasi\u00e3o para se refletir, a n\u00edvel global, aquilo que fizemos em Lisboa e noutras dioceses, com iniciativas semelhantes, com contribui\u00e7\u00f5es de todo o mundo, quer de eclesi\u00e1sticos, quer de leigos, pessoas que est\u00e3o especialmente ligadas a todos estes dinamismos sociais, especialistas, outros que vivem estas realidades. Certamente, alguma coisa resultar\u00e1, mas eu devo dizer que resultar\u00e1 se n\u00f3s, antes, durante e depois, n\u00e3o s\u00f3 como Igreja mas tamb\u00e9m como sociedade, nos reencontrarmos tamb\u00e9m. Porque n\u00e3o h\u00e1 sinodalidade sem nos encontrarmos. S\u00ednodo significa um caminho que se faz em conjunto, mas qual conjunto? Estarmos ali um m\u00eas a falar, os que l\u00e1 estiverem, ou encontrar-se, eventualmente, onde estivermos? N\u00e3o d\u00e1, a prioridade pastoral da Igreja do nosso tempo \u00e9 refazer a sua dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, em termos que n\u00f3s hoje n\u00e3o sabemos como v\u00e3o ser, porque as pessoas, do ponto de vista das comunica\u00e7\u00f5es, est\u00e3o muitas vezes mais na virtualidade do que na presen\u00e7a. A presen\u00e7a n\u00e3o se liga e desliga com um bot\u00e3o. \u00c9 outra coisa, \u00e9 um enorme desafio, uma enorme complica\u00e7\u00e3o que est\u00e1 por diante e que se tem de descomplicar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A respeito dos casos de abusos sexuais na Igreja, foram divulgados processos e afastamento de fun\u00e7\u00f5es pastorais de alguns sacerdotes, no Patriarcado de Lisboa. Como est\u00e3o esses processos?<\/em><\/p>\n<p>Os processos que decorreram em Lisboa, de acordo com aquilo que nos foi indicado pela Comiss\u00e3o Diocesana de Prote\u00e7\u00e3o de Menores, que eu tenho seguido estritamente, andaram para diante, no que diz respeito \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, e s\u00f3 n\u00e3o est\u00e3o conclu\u00eddos porque tudo isto agora tem de ir para Roma. Tem de ser entregue ao Dicast\u00e9rio [para a Doutrina da F\u00e9], como j\u00e1 est\u00e1 a ser, e depois h\u00e1 que esperar pela decis\u00e3o final. Tanto quanto sei das investiga\u00e7\u00f5es e das conclus\u00f5es, em rela\u00e7\u00e3o aos quatro processos, em tr\u00eas h\u00e1 indica\u00e7\u00e3o para que as pessoas assumam plenamente as fun\u00e7\u00f5es que tinham; no outro caso, talvez que assuma parcialmente as fun\u00e7\u00f5es que tinha. Mas, como digo, isto tem de ir tudo a Roma, e esperamos a conclus\u00e3o, porque n\u00e3o pode ser nossa, \u00e9 do Dicast\u00e9rio, dos servi\u00e7os do Papa, que chama a si essa decis\u00e3o final. Da nossa parte, cumprimos tudo o que est\u00e1 previsto e andamos para a frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acha que a Confer\u00eancia Episcopal deveria levar por diante aquele gesto de fazer um memorial, de prestar homenagem p\u00fablica \u00e0s v\u00edtimas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, isso foi decidido numa Assembleia Plen\u00e1ria e, com certeza, ser\u00e1 levado por diante. Agora, a melhor maneira de o fazer, n\u00e3o s\u00f3 esteticamente mas tamb\u00e9m com proje\u00e7\u00e3o para as pessoas que estejam, como momento de reflex\u00e3o, de decis\u00e3o, at\u00e9, para que as coisas n\u00e3o se repitam, no que t\u00eam de negativo, isso a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o sei. N\u00e3o ficar\u00e1 para as calendas gregas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E na Jornada Mundial da Juventude?<\/em><\/p>\n<p>Estamos t\u00e3o perto, eu ainda n\u00e3o vi projeto nem programa, mas as coisas n\u00e3o est\u00e3o esquecidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O gesto e o acolhimento, a homenagem que se possa fazer \u00e0s v\u00edtimas, de proximidade e de ajuda, acontece com o que o Papa decidir fazer na Jornada?<\/em><\/p>\n<p>Sim, como tem acontecido noutros s\u00edtios, mas o Papa faz isso sempre muito discretamente e s\u00f3 se sabe depois como foi e onde. Isso por causa das pr\u00f3prias pessoas, que j\u00e1 foram vitimadas e agora n\u00e3o querem ser publicitadas, naturalmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falemos da Jornada Mundial da Juventude. Acredito que se recorde do momento em que pensou apresentar a candidatura de Lisboa, para esta Jornada. Alguma vez se arrependeu?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, nunca me arrependi. Ali\u00e1s, devo dizer que estou na Confer\u00eancia Episcopal desde o final de 1999, ainda como bispo eleito, e v\u00e1rias vezes isto vinha \u00e0 tona, quando ouv\u00edamos falar numa Jornada ou quando n\u00f3s pr\u00f3prios particip\u00e1vamos em Jornadas, como bispos, etc. Depois reflet\u00edamos, \u201cisto era t\u00e3o bom que existisse em Portugal\u201d\u2026 chegou-se a pensar, por exemplo, em 2017, no centen\u00e1rio de F\u00e1tima, mas claro que F\u00e1tima n\u00e3o teria possibilidade disso, porque n\u00e3o cabem no recinto um milh\u00e3o e tal de pessoas, n\u00e3o h\u00e1 capacidade sequer, ali \u00e0 volta, de acolher tanta gente, n\u00e3o h\u00e1 vias de comunica\u00e7\u00e3o, o comboio fica longe, h\u00e1 uma autoestrada com duas faixas que entupia ao fim de um quarto de hora. Enfim, estas coisas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Depois pensava, quando estava no Porto, olhando para a geografia da cidade e arredores, mas quando regressei a Lisboa e se come\u00e7ou a falar na Jornada do Panam\u00e1, em 2019, mas ainda antes disso, a ideia come\u00e7ou a germinar, olhando aqui para estes arredores, \u00e0 volta, talvez, talvez seja poss\u00edvel\u2026 tamb\u00e9m fui falando, claro est\u00e1, com os meus colegas das outras dioceses, porque isto tem de se fazer em conjunto. Todos eles foram muito favor\u00e1veis, o que j\u00e1 vinha de tr\u00e1s, ali\u00e1s; depois tamb\u00e9m falei com todas as autoridades do Estado, desde a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u00e0s C\u00e2maras Municipais mais diretamente envolvidas, em todo o lado encontrei muito entusiasmo, muito boa vontade, n\u00e3o s\u00f3 pela marca Portugal ficar, assim, uma semana em evid\u00eancia, nos ecr\u00e3s mundiais, mas pelo que isto significa de mobiliza\u00e7\u00e3o juvenil, de refrescamento at\u00e9 da pr\u00f3pria sociedade portuguesa. Apresentei a candidatura ao Papa, o Papa aceitou-a at\u00e9 com gosto, rapidamente.<\/p>\n<p>D\u00e1-me a ideia de que h\u00e1 outro fator que contribuiu: h\u00e1 muito que, em Roma, porque estas Jornadas s\u00e3o iniciativa romana, se pensa fazer uma Jornada em \u00c1frica, que ainda n\u00e3o se conseguiu fazer, porque, como estamos a ver em Portugal, isto envolve custos e grandes organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis \u2013 ali\u00e1s, com o crescimento das Jornadas, estou para ver se no futuro ser\u00e1 assim t\u00e3o f\u00e1cil continuar a faz\u00ea-las com esta dimens\u00e3o. Espero que sim, pelos bons frutos que resultam.<\/p>\n<p>Olhando aqui para a geografia, reparamos que Portugal est\u00e1 aqui nesta ponta sudoeste da Europa, a olhar para o Atl\u00e2ntico, em frente a Am\u00e9rica, logo aqui em baixo tem a \u00c1frica, as nossas rela\u00e7\u00f5es multisseculares, a presen\u00e7a de muita popula\u00e7\u00e3o africana em Portugal, em crescimento mesmo entre o clero, entre os fi\u00e9is \u2013 temos aqui par\u00f3quias onde a maior parte dos que l\u00e1 est\u00e3o s\u00e3o oriundos de \u00c1frica, em primeira, segunda ou terceira gera\u00e7\u00e3o. Creio que todos estes fatores contribu\u00edram para que a escolha do Santo Padre fosse Lisboa. Havia mais candidaturas, creio que mais duas da Europa, pelo menos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso vai traduzir-se numa presen\u00e7a africana na Jornada, com elementos concretos?<\/em><\/p>\n<p>Sim, muito. E, como digo, nem precisavam de vir de \u00c1frica, porque j\u00e1 aqui est\u00e3o muitos, gra\u00e7as a Deus, em Lisboa e em Portugal inteiro. Ali\u00e1s, veem peregrinos de quase todos os pa\u00edses do mundo, segundo me dizem os que est\u00e3o mais ligados a este aspeto da organiza\u00e7\u00e3o, por isso ser\u00e1 uma Jornada verdadeiramente mundial, tamb\u00e9m neste aspeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ser\u00e1, para a Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, uma ocasi\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o aos jovens e entre a Igreja e a sociedade?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim, sobretudo de uma presen\u00e7a muito cativante e motivadora como \u00e9 sempre a presen\u00e7a juvenil. J\u00e1 \u00e9: se come\u00e7armos a fazer umas contas por alto, a organiza\u00e7\u00e3o da Jornada n\u00e3o se faz apenas nem sobretudo nesta equipa centrada, chamada COL. Ela come\u00e7a na base, com os Comit\u00e9s Organizadores Paroquiais, e nas tantas par\u00f3quias que h\u00e1 no pa\u00eds, quase todas t\u00eam o seu Comit\u00e9 Organizador, envolvendo jovens, diretamente. Alguns j\u00e1 est\u00e3o a trabalhar h\u00e1 tr\u00eas anos, com tarefas concretas e constantes, at\u00e9 porque a Jornada decorrer\u00e1 aqui em Lisboa, mas \u00e9 precedida por essa semana nas dioceses. Em cada diocese. Portanto, isto envolve milhares de jovens, dezenas de milhares de jovens, n\u00e3o apenas como participantes, mas como organizadores.<\/p>\n<p>Depois h\u00e1 os Comit\u00e9s Vicariais, que re\u00fanem conjuntos de par\u00f3quias, e os diocesanos. Se os juntarmos, s\u00e3o dezenas de milhares de jovens que, h\u00e1 tr\u00eas anos, est\u00e3o a trabalhar nisto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 o risco de desmobilizarem, no dia 7 de agosto?<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Jornada, obviamente, acabou o trabalho. Mas tenho a certeza de que esta experi\u00eancia militante fica e ser\u00e1 uma nova gera\u00e7\u00e3o para a sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio tra\u00e7ar novas metas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, que n\u00e3o ser\u00e3o estas, de qualquer maneira. Voltamos ao in\u00edcio da nossa conversa, quando disse que a vida da Igreja decorre nestes dois \u00e2mbitos: o \u00e2mbito da vida de todos os dias e naqueles momentos mais fortes, que nos motivam para trabalharmos melhor. Este \u00e9 um momento mais forte, mas esta experi\u00eancia de milit\u00e2ncia, de tantos milhares de jovens, certamente vai criar uma gera\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o 2023, e isso vai-se notar nas d\u00e9cadas seguintes. N\u00e3o tenho d\u00favida nenhuma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vai notar-se tamb\u00e9m na participa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza, porque quem participou tanto, quem mobilizou tanto, depois n\u00e3o fica a ver. Ganhou o h\u00e1bito de participar, de estar, de sentir isto como coisa sua, quer na Igreja quer na pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um estudo da Universidade Cat\u00f3lica apontava para 50% de jovens que se afirmam cat\u00f3licos, muitos deles praticantes. Estes n\u00fameros surpreenderam-no?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreendeu muito ou, se quiser, at\u00e9 digo de outra maneira: olho para tr\u00e1s, para os long\u00ednquos tempos da minha juventude, na minha terra, e quando eu vejo, fa\u00e7o contas, de todos os meninos e meninas que andavam na instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, da altura, quais os que estavam na catequese; e quando olho depois, mesmo os que estavam na catequese, quando chegaram \u00e0 juventude, e continuaram a participar na vida da Igreja, estes n\u00fameros de quase 50% dizerem-se cat\u00f3licos e desses tantos se assumirem praticantes, n\u00e3o ficam atr\u00e1s. Mais: naquela altura, ainda havia assim uma cobertura institucional, era tudo cat\u00f3lico, quase que se confundia o ser portugu\u00eas com o ser cat\u00f3lico. Hoje, n\u00e3o: hoje estamos numa sociedade muito polarizada, de muitas perten\u00e7as, de muitas conex\u00f5es. Haver esse n\u00famero, em rela\u00e7\u00e3o ao que era no meu tempo e com esta altera\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias, \u00e9 muito positivo. Se me surpreendeu, foi pela positiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No Plano Pastoral para o pr\u00f3ximo ano, diz que a JMJ constitui algo marcante e criador de futuro. \u00c9 a tal gera\u00e7\u00e3o 2023?<\/em><\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o 2023, n\u00e3o tenho d\u00favidas nenhumas. Todos estes que participaram mais diretamente, e s\u00e3o dezenas de milhares, contando toda esta malha que h\u00e1 bocadinho referi, das par\u00f3quias \u00e0s dioceses e o n\u00edvel nacional, todos eles, t\u00e3o vinculados \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de um acontecimento assim, marcar\u00e3o isso mesmo na sociedade e na Igreja. N\u00e3o tenho d\u00favidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que expectativas deposita nessa gera\u00e7\u00e3o 2023, em termos concretos de participa\u00e7\u00e3o e de reconfigura\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a capacidade de sonhar, a capacidade de realizar, de ter a experi\u00eancia de fazer uma coisa que parecia absolutamente extraordin\u00e1ria, al\u00e9m das suas capacidades, e que a conseguiram fazer. Isto fica, isto \u00e9 uma enorme revela\u00e7\u00e3o para eles pr\u00f3prios, quer no que respeita \u00e0 sociedade, quer no que respeita \u00e0 Igreja. Ali\u00e1s, eu propus aqui aos meus colegas das Vigararias da diocese, que quando chegar a outubro, re\u00fanam os que participaram nestas equipas vicariais, e n\u00e3o s\u00f3, partilhem a experi\u00eancia que fizeram e, de certa forma, pensem como \u00e9 que agora v\u00e3o canalizar isso, nas suas par\u00f3quias \u2013 e posso alargar isso aos Institutos, aos movimentos \u2013 para o futuro. Certamente teremos surpresas, boas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Poderemos ter surpresas a respeito da organiza\u00e7\u00e3o das Jornadas Mundiais da Juventude, estes encontros com milh\u00f5es de jovens, podem ter uma nova configura\u00e7\u00e3o no futuro?<\/em><\/p>\n<p>Se se alargar muito, o problema \u00e9 quem ser\u00e1 capaz de as organizar. Porque n\u00f3s estamos a olhar para Portugal e vemos tudo o que foi preciso juntar, as boas vontades que se dispuseram, estamos num pa\u00eds onde h\u00e1 um bom lastro cat\u00f3lico. Mas isto \u00e9 assim em todo o mundo? N\u00e3o \u00e9. At\u00e9 em continentes inteiros, na \u00c1sia h\u00e1 algum pa\u00eds que tenha esta express\u00e3o cat\u00f3lica e capacidade econ\u00f3mica para organizar? H\u00e1, segundo me soa, parece que a pr\u00f3xima ser\u00e1 exatamente num desses pa\u00edses asi\u00e1ticos, que tem bom suporte econ\u00f3mico e social, onde o catolicismo tem crescido, mas n\u00e3o haver\u00e1 muitos. Tirando as Filipinas, onde j\u00e1 houve\u2026<\/p>\n<p>Olhamos tamb\u00e9m para a Am\u00e9rica Latina, os nossos amigos do Panam\u00e1 foram uns her\u00f3is, em conseguir organizar; mesmo na Europa, que tem 500 milh\u00f5es de habitantes, por a\u00ed\u2026 vamos ver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Umas das propostas que foram feitas para a pr\u00f3pria Jornada Mundial da Juventude era ter um car\u00e1ter ecum\u00e9nico, n\u00e3o ser s\u00f3 da juventude cat\u00f3lica, mas da juventude crist\u00e3, por exemplo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Quer no campo inter-religioso, quer no campo ecum\u00e9nico, as Jornadas estiveram sempre abertas. Isso, qualquer uma das nossas igrejas, quando vamos celebrar, a porta est\u00e1 aberta para quem quiser entrar. Muita gente entra e, \u00e0s vezes, at\u00e9 come\u00e7a uma aproxima\u00e7\u00e3o ao Cristianismo dessa maneira. As Jornadas sempre estiveram, desde o princ\u00edpio, abertas \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de quem quer vir, mas o sujeito que organiza \u00e9, obviamente, o Papa, e isso \u00e9 uma marca cat\u00f3lica indel\u00e9vel.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A dimens\u00e3o ecum\u00e9nica pode decorrer do perfil do pr\u00f3prio Papa?<\/em><\/p>\n<p>Sim, com certeza. Tudo o que tem acontecido nas Jornadas, como ali\u00e1s na vida da Igreja, est\u00e1 aberto, n\u00f3s somos uma Igreja de portas abertas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que espera para o dia 7 de agosto, de que forma vai olhar para esta etapa na hist\u00f3ria da Diocese de Lisboa, de Portugal, do seu trabalho ministerial?<\/em><\/p>\n<p>Nessa altura, s\u00f3 terei impress\u00f5es. Como \u00e9 sabido, tenho uma forma\u00e7\u00e3o do tipo hist\u00f3rico, e o olhar requer mais dist\u00e2ncia. Sou capaz de ver o impacto que tiveram coisas como o Conc\u00edlio Plen\u00e1rio Portugu\u00eas, em 1926, na base da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, na base da catequese organizada\u2026 isso sou capaz. Sou capaz de ver j\u00e1, at\u00e9, o impacto que teve o Conc\u00edlio Vaticano II, agora, a Jornada, no dia 7, terei impress\u00f5es. Daqui a uns tempos poderei dizer mais algumas coisas\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas essas impress\u00f5es ser\u00e3o motivadoras para a\u00e7\u00f5es concretas\u2026<\/em><\/p>\n<p>Com certeza. Ali\u00e1s, todos n\u00f3s raciocinamos a partir das impress\u00f5es, ningu\u00e9m raciocina no vazio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fechamos esta conversa com a ocasi\u00e3o do seu anivers\u00e1rio. Disse que espera uma nova lideran\u00e7a para o Patriarcado, que possa reconfigurar tamb\u00e9m a equipa episcopal. Como cardeal, continuar\u00e1 a servir o que o Papa pedir, seja em Roma, seja c\u00e1\u2026<\/em><\/p>\n<p>Foi isso que ele me pediu e foi isso que eu prometi. C\u00e1 estou. Que haja vida e sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o gosto pela investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, vai ter mais espa\u00e7o e tempo?<\/em><\/p>\n<p>Isso para mim vem mesmo antes de estudar Hist\u00f3ria. Desde pequenino, sempre ouvi hist\u00f3rias e contei hist\u00f3rias, sou um contador de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa desde 2013, completa este domingo 75 anos de idade, na qual o Direito Can\u00f3nico exige a apresenta\u00e7\u00e3o da ren\u00fancia ao minist\u00e9rio. 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