{"id":28895,"date":"2007-12-20T09:39:54","date_gmt":"2007-12-20T09:39:54","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/20\/daniel-serrao\/"},"modified":"2007-12-20T09:39:54","modified_gmt":"2007-12-20T09:39:54","slug":"daniel-serrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/daniel-serrao\/","title":{"rendered":"Daniel Serr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Para mim o Natal era a viagem. Se n\u00e3o ia haver viagem, n\u00e3o iria haver Natal&#8230; <!--more--> Passei muitos anos sem que esta recorda\u00e7\u00e3o de um certo Natal aflorasse \u00e0 minha autoconsci\u00eancia. Mas agora tornou-se t\u00e3o presente como se outra vez estivesse a viver esse Natal de 1943, tinha eu 15 anos.  O costume era irmos todos a Vila Real, onde ficava a casa da fam\u00edlia. As viagens nessa \u00e9poca eram dif\u00edceis e perigosas porque subir o Mar\u00e3o com neve e estradas estreitas e com curvas constantes no dorso da montanha era uma fa\u00e7anha para recordar. Sa\u00edamos de manh\u00e3, de Viana do Castelo, onde o meu Pai trabalhava como Engenheiro na Junta Aut\u00f3noma de Estradas e cheg\u00e1vamos a Vila Real ao cair da noite, mesmo a tempo de participar na ceia do Natal. A fam\u00edlia era cat\u00f3lica tradicional mas a mem\u00f3ria que tenho desses natais era de uma festa laica. E foi assim durante os anos da minha inf\u00e2ncia.  No ano de 1943, meu Pai fora transferido pouco tempo antes para a Direc\u00e7\u00e3o de Estradas de Coimbra. minha Av\u00f3, a patriarca da fam\u00edlia, tinha morrido e foi decidido que passar\u00edamos as \u201cfestas\u201d, como se dizia, sem sair de Coimbra.  Para mim e para os meus dois irm\u00e3os foi um desgosto. Apesar das dificuldades a viagem at\u00e9 Vila Real era uma altera\u00e7\u00e3o numa vida muito rotineira, como era a nossa naqueles tempos. N\u00e3o havia televis\u00e3o nem telem\u00f3vel; os dias eram sempre iguais, ir e vir do Liceu, estudar, dormir. N\u00e3o havia est\u00e1dios de futebol e as aulas de gin\u00e1stica eram assim: deitados em bancos de madeira e o professor (?) passeando-se de um lado para o outro e comandando a respira\u00e7\u00e3o com um inspirar\/expirar mon\u00f3tono; era o que chamavam \u201cgin\u00e1stica respirat\u00f3ria\u201d. Viajar, em carro de aluguer, at\u00e9 Vila Real, com paragem no caminho para almo\u00e7ar, era uma aventura que estimulava a imagina\u00e7\u00e3o da nossa inf\u00e2ncia e como que nos fazia viver as perip\u00e9cias que l\u00edamos nos livros. Nesse ano n\u00e3o ia haver viagem e eu antecipava o Natal mais triste de todos os que j\u00e1 tinha vivido. Veio a ser o mais rico e o mais significativo da minha vida pessoal, como vou contar.  Por esse tempo eu vivia uma adolesc\u00eancia complicada. Fechado sobre mim pr\u00f3prio, lia como um danado tudo o que conseguia encontrar, desde fic\u00e7\u00e3o a obras mais \u201cpesadas\u201d de pensadores europeus traduzidos para a l\u00edngua portuguesa; e de autores franceses que j\u00e1 ia sabendo ler e compreender. Era um positivista (ing\u00e9nuo, direi hoje) com uma certeza: Deus n\u00e3o existe, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o inventada pelos padres para dominarem as pessoas, tolhidas pelo medo do pecado e pelas chamas do inferno.  Para mim o Natal era a viagem. Se n\u00e3o ia haver viagem, n\u00e3o iria haver Natal.  Minha M\u00e3e, que era uma pessoa simples, criada numa aldeia duriense, Cimbres-Armamar e depois em Vila Real, onde estudou para professora prim\u00e1ria, mas que nunca exerceu por ter casado, decidiu que faria a festa do Natal, como era costume na sua aldeia: refei\u00e7\u00e3o simples com bacalhau cosido e couves e depois ir\u00edamos \u00e0 missa da meia-noite. Torci o nariz a semelhante programa. Em Vila Real a mesa era farta e variada, a casa grande, um dos meus Tios tocava guitarra e as Tias cantavam, a Av\u00f3 dava uma libra em ouro a cada neto (libra que logo passava para as m\u00e3os do Pai, claro est\u00e1 e nunca mais lhe v\u00edamos o rasto) \u2013 e ningu\u00e9m falava em missa.  Mas aconteceu como a M\u00e3e decidiu. Meu Pai, que era agn\u00f3stico, ficou em casa, mas n\u00f3s os tr\u00eas fomos, com a M\u00e3e, a uma grande Igreja que julgo ter\u00e1 sido a S\u00e9 Nova. Eu ia de cara fechada para semelhante lugar em dia de festa, para mim festa profana. E foi um deslumbramento. Afinal, havia outra religi\u00e3o. Havia uma religi\u00e3o que celebrava a alegria e n\u00e3o o medo, que recordava o nascimento de uma pessoa concreta que passara nesta terra concreta para ensinar os homens a amarem-se uns aos outros e a fazerem o bem. N\u00e3o a odiarem-se e a matarem-se uns aos outros As luzes, os c\u00e2nticos, os sorrisos de todos os que n\u00e3o se conheciam mas estavam ali como irm\u00e3os, produziram-me uma profunda altera\u00e7\u00e3o e perturba\u00e7\u00e3o interior e tive de perguntar a mim mesmo: ser\u00e1 que eu estou certo, que n\u00e3o h\u00e1 Deus nenhum ou ser\u00e1 que h\u00e1 uma outra realidade que n\u00e3o conhe\u00e7o?  Regressei com esta d\u00favida e aqui come\u00e7ou um trabalho dif\u00edcil de aprendizagem pessoal da natureza da atitude religiosa at\u00e9 \u00e0 revela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima e pessoal de que Deus n\u00e3o existe como coisa vis\u00edvel ou palp\u00e1vel mas se revelou por meio de um Homem concreto, que nasceu de Mulher, como todos n\u00f3s, no seio de um povo que o aguardava. E porque se revelou nesse Homem, Jesus Cristo, esse Homem \u00e9 a visibilidade poss\u00edvel de Deus.  Esta aprendizagem que come\u00e7a nesse Natal de h\u00e1 65 anos, ainda n\u00e3o terminou. Prossegue diariamente, porque como disse o nosso grande Gil Vicente \u201ca hist\u00f3ria de Deus tem tais profundezas\u2026\u201d Por estas profundezas viajo, num ir e vir constante entre a postura do adolescente sorumb\u00e1tico e tristonho, que fui, e a serena e aberta confian\u00e7a, que diariamente tenho de conquistar, numa presen\u00e7a real e verdadeira de Deus na minha vida pessoal e no meu desempenho social.  Foi um Natal poderoso, mas n\u00e3o o suficiente para que eu me instale numa religiosidade aburguesada e formal, burocr\u00e1tica e vazia, onde Deus, finalmente, n\u00e3o est\u00e1 presente.  <i>Daniel  Serr\u00e3o<\/i>  <B>Outras mem\u00f3rias<\/B> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=54004\">\u2022 D. Manuel Madureira Dias<\/a> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=54330\">\u2022 J. Pinharanda Gomes<\/a> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=54347\">\u2022 Amaro Neves<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para mim o Natal era a viagem. 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