{"id":28863,"date":"2007-12-19T10:19:51","date_gmt":"2007-12-19T10:19:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/19\/amaro-neves\/"},"modified":"2007-12-19T10:19:51","modified_gmt":"2007-12-19T10:19:51","slug":"amaro-neves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/amaro-neves\/","title":{"rendered":"Amaro Neves"},"content":{"rendered":"<p> Natal, pelas vilas e aldeias do norte da Bairrada e Baixo Vouga, entre as d\u00e9cadas m\u00e9dias do s\u00e9culo XX, era vivido no aconchego da fam\u00edlia\u2026 <!--more--> Naquele tempo\u2026  O Natal, pelas vilas e aldeias do norte da Bairrada e Baixo Vouga, entre as d\u00e9cadas m\u00e9dias do s\u00e9culo XX, era vivido no aconchego da fam\u00edlia\u2026 com pouco de interac\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Quando muito, esta manifestava-se nas celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas da noite de Natal, em tempo restrito. Melhor explicando, globalmente, naquele tempo\u2026 era assim, conforme a mem\u00f3ria me vai recordando\u2026   Come\u00e7adas as novenas do Advento, mais ou menos mon\u00f3tonas e repetitivas \u2013 e, por isso, pouco frequentadas &#8211;  ia-se fazendo, gradualmente, por p\u00e1rocos e professores do ensino prim\u00e1rio, a sensibiliza\u00e7\u00e3o da \u201cpequenada\u201d para a \u201cfesta\u201d do Natal. Por\u00e9m, nada de novo se notava que fizesse supor que ia haver festa, salvo a lembran\u00e7a deixada pelo senhor prior, alertando para a necessidade de \u201carmar o pres\u00e9pio na igreja\u201d. Nada mais! Mas, como se calcula, esse convite, em zonas onde raramente acontecia algo de diferente, despertava alguma curiosidade. Por isso, marcado o dia e hora, formava-se um pequeno grupo para ir apanhar musgo, plantas secas e outras de tipo ornamental, pedras eventualmente musgosas, etc., de forma que, pelos primeiros dias de Dezembro, tudo estivesse colhido e devidamente guardado, pronto para a \u201carma\u00e7\u00e3o\u201d.  E, j\u00e1 com as manh\u00e3s e as noites bem frias, num s\u00e1bado \u00e0 tarde, sob coordena\u00e7\u00e3o das catequistas, o pres\u00e9pio ficava montado, com montes e vales, rebanhos e pastores, lagos e fontes e noras e patos e outras bicharadas\u2026 tudo a preceito e numa alus\u00e3o \u00e0 diversidade do mundo rural em que se vivia, tendo ao centro, uma sugestiva gruta de aspecto montanh\u00eas, na qual se enquadravam as figuras centrais da Natividade \u2013 Maria, Jos\u00e9 e o Menino &#8211; com a vaquinha e o burro, por tr\u00e1s da manjedoura, grupos de pastores, pelas encostas, e de anjos, por cima da gruta, enquanto outros grupos de figurantes, nitidamente com ar campestre, se aproximavam do centro em jeito de cantar e dan\u00e7ar, com os reis magos no horizonte do cen\u00e1rio \u2013 que se iam aproximando da gruta\u2026 Isto \u00e9, estava feito o pres\u00e9pio, inaugurado sem cerim\u00f3nia, o qual concentrava, por cerca de um m\u00eas, a ades\u00e3o dos fi\u00e9is, em particular da crian\u00e7as.    \tNa noite de Natal, ent\u00e3o, sim. Acabados os trabalhos e depois de toda a gente se ter lavado com maior cuidado, juntava-se a fam\u00edlia, em sentido mais lato, para um jantar de ambiente e sabor bem diferente do habitual e confraternizar, aguardando-se para tal a indica\u00e7\u00e3o da dona da casa que, para essa noite, mais do que nunca, se via convertida em aut\u00eantica chefe-cozinheira. Por\u00e9m, quem presidia \u00e0 mesa e ao conv\u00edvio eram os av\u00f4s ou, na falta deles, o pai de fam\u00edlia. Quanto ao jantar \u2013 invariavelmente, bacalhau cozido, batatas e hortali\u00e7a \u2013 era abundante no essencial da composi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o diversificado em ofertas. Se havia frutos secos como aperitivos (nozes, uvas, ameixas, pinh\u00f5es, figos\u2026), a do\u00e7aria era singela, quase sempre na base de ab\u00f3bora, predominando os bilharacos com canela\u2026 eventualmente acompanhados com outra variedade regional (leite creme, aletria, etc), contando com a presen\u00e7a de vinho do Porto. Por\u00e9m, relativamente ao vinho do jantar, esse era seleccionado, na tradi\u00e7\u00e3o dos gostos da regi\u00e3o da Bairrada ou, ent\u00e3o, do D\u00e3o.  E o fogo \u2013 bem o recordo &#8211;  crepitava na lareira, nessa noite, com umas brasas mais vivas e irradiando mais calor, pelo que a pouco e pouco, acabado o jantar, todos iam gravitando em torno dela enquanto se queixavam da friagem que, l\u00e1 fora, cortava os ossos\u2026 e aludiam \u00e0 festividade em curso.    Subitamente, a uma palavra dos mais velhos, todos se preparavam, bem agasalhados, tomando o caminho da igreja para a Missa do galo, celebrada \u00e0 meia-noite, e, ent\u00e3o, festejar, com c\u00e2nticos religiosos o nascimento de Jesus. Acabada a missa e de regresso a casa, percorriam-se as \u201cfogueiras de Natal\u201d que ardiam nos cruzamentos mais importantes das estradas da freguesia, feitas com especial carinho para \u201caquecer o Menino\u201d \u2013 embora aquecessem mas era os fi\u00e9is passeantes. Mas, agora, seguiam cantarolando ao divino e ao profano, noite dentro, com jogos e brincadeiras do tipo do \u201csaltar a fogueira\u201d, muitas vezes acabando com pequenos bailaricos de bairro, como que vivendo no real as sugest\u00f5es do pres\u00e9pio\u2026 No dia seguinte, para al\u00e9m da missa de Natal, com o \u201cbeijar do Menino\u201d \u2013 pois \u00e9 dia santo &#8211; mais nada acontecia identificado com a Natividade propriamente dita e\u2026 tinha-se cumprido a \u201cfesta\u201d. Ah! Prendas? Bem, n\u00e3o era propriamente uma tradi\u00e7\u00e3o em uso nas freguesias e vilas rurais, mas come\u00e7ou a entrar a pouco e pouco, ao longo da d\u00e9cada de 60, quando algumas fam\u00edlias viram a sua situa\u00e7\u00e3o melhorada por efeito da emigra\u00e7\u00e3o para pa\u00edses emergentes da Am\u00e9rica do Sul ou, mais ricos, os do ocidente europeu, aliando algum desafogo econ\u00f3mico e conforto \u00e0 importa\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 por a\u00ed arreigada. Assim, verdadeiramente assinal\u00e1vel, era aquela \u201cnoite santa\u201d vivida em amplo conv\u00edvio familiar e no aconchego de um jantar que, n\u00e3o sendo op\u00edparo em suas iguarias, pelo cheiro da canela e outros condimentos, se mantinha por tempos infindos na mem\u00f3ria dos sabores, enquanto os c\u00e2nticos religiosos e outras toadas de \u00e9poca perduravam na retina dos sons! E com esta m\u00edstica simples, como simples tinha sido o esp\u00edrito franciscano que desenvolveu a ideia da festa popular do pres\u00e9pio, se vivia esse Natal feliz, traduzido na m\u00fasica contagiante do \u201cAlegrem-se os c\u00e9us e a terra\u201d\u2026!  <i>Amaro Neves, historiador<\/i>  <B>Outras mem\u00f3rias<\/B> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=54004\">\u2022 D. Manuel Madureira Dias<\/a> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=54330\">\u2022 J. Pinharanda Gomes<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natal, pelas vilas e aldeias do norte da Bairrada e Baixo Vouga, entre as d\u00e9cadas m\u00e9dias do s\u00e9culo XX, era vivido no aconchego da fam\u00edlia\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[100,104,154,168,187,206,267],"class_list":["post-28863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-advento","tag-america","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28863"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28863\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}