{"id":28849,"date":"2007-12-18T12:20:13","date_gmt":"2007-12-18T12:20:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/18\/j-pinharanda-gomes\/"},"modified":"2007-12-18T12:20:13","modified_gmt":"2007-12-18T12:20:13","slug":"j-pinharanda-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/j-pinharanda-gomes\/","title":{"rendered":"J. Pinharanda Gomes"},"content":{"rendered":"<p>Na aridez inverni\u00e7a, um tempo de alegria e de comunh\u00e3o. De boa vontade e, sobretudo de paz campestre ao som do correr dos sinos <!--more--> Ac\u00e7\u00e3o, lugar e tempo. Trilogia, muito conhecida na arte do teatro, serve para esta evocativa mem\u00f3ria. Quanto \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, pois equivale \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o natal\u00edcia, em que um Menino nos foi dado para se constituir redentor da Humanidade. O lugar era uma aldeola sita na raia beiroa, na margem do alto C\u00f4a, r\u00e9s-v\u00e9s na Espanha. O tempo deveras complexo: ainda se faziam sentir os efeitos sociais da Guerra Civil espanhola, que deveras afectar\u00e3o tradicional com\u00e9rcio fronteiri\u00e7o e popular, e logo se come\u00e7aram a viver as dificuldades resultantes da II Grande Guerra, na qual o nosso pa\u00eds se n\u00e3o envolveu, mas que houve de sofrer as consequ\u00eancias econ\u00f3micas, mediante a carestia e vida e o necess\u00e1rio racionamento de muitos produtos que escasseavam no mercado. Como o a\u00e7\u00facar. As filh\u00f3s s\u00e3o boas com ou sem a\u00e7\u00facar, mas um pouco polvilhadas do branco man\u00e1 sabem muito melhor. Faltava por\u00e9m, o a\u00e7\u00facar. E tamb\u00e9m o azeite para fritar a massa. As sopas podiam ser temperadas com um peda\u00e7o de toucinho, mas para fritar s\u00f3 com azeite, pois na \u00e9poca outros tipos de \u00f3leo n\u00e3o tinham expans\u00e3o.  Tempo, ainda, frio. Por vezes, os campos nevados. Fazia sentido as loas &#8220;\u00f3 meu Menino Jesus\/\u00f3 meu Menino t\u00e3o belo,\/ Logo viestes nascer\/ Na noite do caramelo&#8221;.  Arrecadados os frutos estivais da terra, sobretudo o p\u00e3o e as batatas, j\u00e1 nos campos germinavam novas searas, ainda em marfolho. O Natal abria uma clareira nos trabalhos e nos dias. A garotada, e \u00e9ramos mais de uma dezena, ansiava por receber ordem das catequistas para ir ao musgo e aos ramos de hera, para se erguer o pres\u00e9pio, no altar d N\u00aa Sr\u00aa do Ros\u00e1rio, do lado do Evangelho. Descomedida, por falta de estimativa, trazia musgo e hera que chegavam para mais do que um pres\u00e9pio, que as senhoras montavam, portas da igreja fechadas, para s\u00f3 se ver na missa do galo. Era a magia das imagens. Para as crian\u00e7as, mais do que as imagens &#8211; santinhos, incluindo os pastores e outras figuras e, talvez, at\u00e9 o galo e o c\u00e3o do pastor, todos enfim, filhos do mesmo Criador, ali presente a imagem do Filho ainda beb\u00e9, na caminha de espigas de centeio deitado, sob o olhar dos pais e do bafo da vaquinha e do burrinho. Por outros caminhos, a mocidade (quer dizer: os solteiros, vint\u00f5es) j\u00e1 identificado o tronco ou madeiro e o lugar onde se iria buscar, tratava do madeiro, da fogueira de Natal, que arderia toda a noite, at\u00e9 o fogo se extinguir durante o dia seguinte. O madeiro afastava alguma mocidade da missa do galo, mas a generalidade do povo participava (ao tempo dizia-se: assistia) na missa da vig\u00edlia. Rezada, pois era em latim, sendo poucos os c\u00e2nticos de ilustra\u00e7\u00e3o vern\u00e1cula da liturgia. Rompiam estes, com o &#8220;Entrai, Pastores, entrai&#8221; ou o &#8220;Concebido no ventre\/ nove meses\/ no ventre da Virgem M\u00e3e&#8221; e outros, quando o p\u00e1roco, tomando o ber\u00e7o e o Menino, percorria a igreja, levando-o ao \u00f3sculo de todos e de cada um. Ningu\u00e9m sa\u00eda do lugar. Era o Menino que vinha ao encontro dos fi\u00e9is. Para ele, se os mais velhos ofereciam um \u00f3bolo (naquele tempo o \u00f3bolo mais modesto era o de meio tost\u00e3o, que dava, todavia, para comprar meia d\u00fazia de rebu\u00e7ados com retratos dos jogadores de futebol) as crian\u00e7as levavam laranjas, e figos secos, castanhas piladas e, sobretudo, as rosquinhas, uma esp\u00e9cie de donut, mas de maior per\u00edmetro, que lev\u00e1vamos enfiadas o pulso e destinadas ao Menino. Crian\u00e7as, acredit\u00e1vamos que Maria, Jos\u00e9 e o Menino comeriam aquelas coisas boas porque, na missa solene do dia 25, j\u00e1 todas as ofertas haviam sido retiradas. A prop\u00f3sito dos c\u00e2nticos, entoavam-se principalmente durante a cerim\u00f3nia do beijo, os c\u00e2nticos tradicionais, mas, com o aparecimento de grupos da Juventude Agr\u00e1ria, que recebiam forma\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram eles a introduzir melodias mais concordes com a liturgia. Foi o tempo, l\u00e1 na aldeia, da introdu\u00e7\u00e3o do c\u00e2ntico &#8220;Gloria in excelsis&#8221;. Introdu\u00e7\u00e3o que levou algum tempo a fixarem porque, no in\u00edcio a assembleia dividia-se. Uns cantavam uma coisa, enquanto outros cantavam a nova em geral desconcerto. Ceava-se antes da meia noite, e antes para que, no dia seguinte e dadas as normas do jejum eucar\u00edstico ao tempo, se pudesse comungar. Por isso, a missa do galo celebrava-se por volta das 11 da noite e quem n\u00e3o fosse comungar no dia seguinte, podia estender a ceia por mais tempo. Feitas as filh\u00f3s e as rosquinhas, por vezes tamb\u00e9m o caldudo (uma sopa de castanhas piladas e cozidas em leite) era o ensejo para os garotos serem mandados pelas m\u00e3es a levar duas ou tr\u00eas filh\u00f3s a cada de alguma vi\u00fava, homem s\u00f3 ou indigente. Pouco, mas partilha. No dia da festa quem primeiro come\u00e7ava a trabalhar era o p\u00e1roco, pois tinha de celebrar missa numa localidade anexa. Ia de mula, por caminhos sendeiros, e regressava a tempo da missa paroquial. Com esta, em boa verdade se conclu\u00eda a festa do Natal propriamente dito, na expectativa de novos dias santos: o primeiro do ano e, na \u00e9poca, o dia 6 de Janeiro, feriado e dia dos Reis Magos, com novas do\u00e7arias.  Na aridez inverni\u00e7a, um tempo de alegria e de comunh\u00e3o. De boa vontade e, sobretudo de paz campestre ao som do correr dos sinos.  <i>Jesu\u00e9 Pinharanda Gomes, fil\u00f3sofo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na aridez inverni\u00e7a, um tempo de alegria e de comunh\u00e3o. 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