{"id":288092,"date":"2023-07-09T09:31:51","date_gmt":"2023-07-09T08:31:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=288092"},"modified":"2023-07-08T16:50:54","modified_gmt":"2023-07-08T15:50:54","slug":"portugal-muitas-familias-tem-dificuldade-em-colocar-pao-na-mesa-paulo-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-muitas-familias-tem-dificuldade-em-colocar-pao-na-mesa-paulo-goncalves\/","title":{"rendered":"Portugal: Muitas fam\u00edlias t\u00eam \u00abdificuldade em colocar p\u00e3o na mesa\u00bb &#8211; Paulo Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"<p><em>Na Semana em que a C\u00e1ritas Portuguesa apresentou a sua nova campanha, \u2018Doar Com Certeza\u2019, e os resultados do Programa \u2018Vamos Inverter a Curva da Pobreza\u2019, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Paulo Gon\u00e7alves, presidente da C\u00e1ritas Diocesana do Porto<\/em><!--more--><\/p>\n<div class=\"mceTemp\"><\/div>\n<figure id=\"attachment_288096\" aria-describedby=\"caption-attachment-288096\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-288096 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1081\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Paulo-Goncalves-Caritas-do-Porto-Foto-Paulo-Teixeira-1536x865.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-288096\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, a C\u00e1ritas acompanhou mais de 31 mil pessoas e deixou apoios superiores a 700 mil euros. Era uma emerg\u00eancia refor\u00e7ar este canal de ajuda por for\u00e7a do agravamento das situa\u00e7\u00f5es sociais? <\/em><\/p>\n<p>Sim, indiscutivelmente porque n\u00f3s vivemos numa crise social em perman\u00eancia desde a pandemia. E esta campanha da C\u00e1ritas Portuguesa que tem a designa\u00e7\u00e3o vamos inverter a curva da pobreza apoiou grosso modo de 31 mil fam\u00edlias, 47% das quais em situa\u00e7\u00e3o de desemprego.\u00a0Mas depois h\u00e1 um conjunto de apoios suplementares, que confesso que me preocupam particularmente, porque estamos a falar de 20% de fam\u00edlias apoiadas neste per\u00edodo, que t\u00eam emprego, mas o sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 suficiente para suportar as suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Temos depois 9% de reformados cujas reformas s\u00e3o de tal forma baixas que, de facto, t\u00eam muita dificuldade de sobreviver at\u00e9 final do m\u00eas.\u00a0Depois temos as pessoas com baixa m\u00e9dica e outras situa\u00e7\u00f5es similares, mas objetivamente, o que acontece \u00e9 que as institui\u00e7\u00f5es, como a C\u00e1ritas est\u00e3o no seu limite, porque todos os dias s\u00e3o chegam novos pedidos de ajuda.\u00a0E a verdade \u00e9 que os apoios n\u00e3o t\u00eam aumentado, pelo contr\u00e1rio, at\u00e9 t\u00eam diminu\u00eddo e compreende-se que assim seja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s temos na comunica\u00e7\u00e3o social dado particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o. \u00c9 um problema que se acentuado? <\/em><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o problema, porventura, mais complexo de todos. Eu, procurando citar assim de cor, diz o nosso artigo 65 da Constitui\u00e7\u00e3o, que todos t\u00eam direito para si, para a sua fam\u00edlia, a uma habita\u00e7\u00e3o de dimens\u00e3o adequada, em condi\u00e7\u00f5es de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar. Julgo que, grosso modo, ser\u00e1 uma coisa mais ou menos assim.<\/p>\n<p>Ora, o Estado tem falhado a toda a toda a linha. Como \u00e9 que um jovem hoje, com os sal\u00e1rios t\u00e3o baixos existentes em Portugal ou praticados em Portugal, pode sair de casa dos pais e constituir fam\u00edlia e, objetivamente, ter uma vida digna? Os problemas come\u00e7am muitas das vezes, exatamente, aqui. N\u00f3s queixamo-nos muitas vezes que o pa\u00eds est\u00e1 a envelhecer. Ali\u00e1s est\u00e1 a envelhecer a um ritmo mais acelerado do que nos pr\u00f3prios parceiros da Uni\u00e3o europeia, porque n\u00f3s temos uma habita\u00e7\u00e3o muito cara, o que leva a que os jovens saiam cada vez mais tarde de casa dos pais e temos uma taxa de natalidade historicamente baixa. Est\u00e1 tudo cruzado. Isto \u00e9 um problema de dif\u00edcil resolu\u00e7\u00e3o e que, de uma vez por todas, deve ser atacado.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No Porto, tem crescido muito o conjunto de pedidos de ajuda, sobretudo da popula\u00e7\u00e3o imigrante. Esse problema subsiste? <\/em><\/p>\n<p>Subsiste e veio para ficar. Objetivamente n\u00f3s, no final do ano passado, j\u00e1 t\u00ednhamos mais de 750 mil imigrantes no nosso pa\u00eds. Muitos deles viviam da economia informal, o que equivale a dizer que n\u00e3o t\u00eam qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o. Em situa\u00e7\u00f5es limite, v\u00e3o bater \u00e0 porta de institui\u00e7\u00f5es com o perfil da C\u00e1ritas. Para nossa grande surpresa, muitos deles t\u00eam dificuldade de se legalizar em Portugal. T\u00eam muitas dificuldades em serem atendidos, por exemplo na Seguran\u00e7a Social. Surgem-nos todos os dias novos casos, na C\u00e1ritas, de imigrantes que naturalmente est\u00e3o completamente desprotegidos, n\u00e3o t\u00eam qualquer tipo de retaguarda.\u00a0E muitas vezes vivem em situa\u00e7\u00f5es perfeitamente desumanas, no nosso territ\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9? Todos n\u00f3s temos conhecimento de dezenas de imigrantes que vivem numa \u00fanica habita\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Com o pre\u00e7o do metro quadrado muito alto, n\u00e3o \u00e9?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Com pre\u00e7os completamente exorbitantes. Volto a dizer, a nossa Constitui\u00e7\u00e3o defende uma habita\u00e7\u00e3o digna e de dimens\u00e3o adequada para todos. Se em nada mais falhasse a Constitui\u00e7\u00e3o, aqui falha em toda a linha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ser\u00e1 que, tendo em conta essa situa\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia seja de aumento de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo? O apoio destas institui\u00e7\u00f5es de apoio aos sem-abrigo tamb\u00e9m est\u00e1 a sofrer com o problema da falta de dinheiro das fam\u00edlias que habitualmente ajudavam? Tem notado esse problema? Como \u00e9 que t\u00eam procurado ajudar?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que as autarquias desempenham um papel absolutamente fundamental. A C\u00e1ritas Diocesana do Porto tem a particularidade de ter interven\u00e7\u00e3o direta em 26 cidades. A Diocese do Porto \u00e9 a maior do pa\u00eds e a verdade \u00e9 que as autarquias, seja de Amarante ou de S\u00e3o Jo\u00e3o da Madeira, t\u00eam desempenhado um papel muito importante nesse dom\u00ednio. A C\u00e1ritas, no fundo, aquilo que procura fazer \u00e9 incorporar esta rede de apoio aos sem-abrigo e intervir sempre que necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos \u00faltimos anos temos concentrado muito a nossa aten\u00e7\u00e3o em tudo que tem a ver com a \u00e1rea da sa\u00fade. Parece-nos que \u00e9 uma \u00e1rea absolutamente cr\u00edtica. N\u00f3s temos um excelente Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, mas depois, nos servi\u00e7os complementares, o Estado falha, e falha em toda a linha. S\u00f3 para terem uma ideia, n\u00f3s (C\u00e1ritas) neste momento temos cerca de 700 equipamentos cedidos na diocese, porque se algu\u00e9m precisa de uma cadeira de rodas ou uma cama articulada, o Estado pode demorar 3, 4, 5 anos a responder. A C\u00e1ritas, nesse dom\u00ednio em particular, est\u00e1 completamente na linha da frente.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos estado na linha da frente do apoio, na \u00e1rea da sa\u00fade, mas naturalmente tamb\u00e9m em tudo o que tem a ver com a \u00e1rea alimentar, a \u00e1rea dos sem-abrigo: trabalhamos em rede, porque entendemos que deve ser assim. As Institui\u00e7\u00f5es devem colaborar de forma ativa para, no fundo, poder prestar um melhor servi\u00e7o \u00e0 comunidade. \u00c9 este o meu entendimento, \u00e9 este o entendimento da C\u00e1ritas e \u00e9 isso que procuramos fazer com outras Institui\u00e7\u00f5es. O que importa \u00e9 conseguirmos assegurar uma resposta de qualidade \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A C\u00e1ritas tem dito que vivemos uma emerg\u00eancia desde a pandemia e que n\u00e3o sa\u00edmos dela. Estamos ainda perante momentos tormentosos, como dizia, h\u00e1 pouco mais de tr\u00eas meses?<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque n\u00f3s podemos olhar para os n\u00fameros de duas formas distintas. O Governo anunciou por estes dias que, desde 2020, 170 mil pessoas sa\u00edram da situa\u00e7\u00e3o de pobreza e que o objetivo \u00e9 que, at\u00e9 2030, 700 mil portugueses saiam tamb\u00e9m eles da situa\u00e7\u00e3o de pobreza. Contudo, a verdade \u00e9 que um em cada quatro portugueses vive com menos de 700 euros por m\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos dois anos de pandemia que afetaram a nossa sociedade, e o mundo em geral, de uma forma muito particular. Depois disso, tivemos ou temos tido taxas de infla\u00e7\u00e3o historicamente altas. Felizmente, come\u00e7am a normalizar.\u00a0 As taxas de juro dispararam o que equivale por dizer que o cr\u00e9dito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, todos os cr\u00e9ditos que as fam\u00edlias tinham dispararam, e, portanto, aumentaram de forma muito expressiva nos \u00faltimos meses. A \u00fanica boa not\u00edcia \u00e9 que n\u00f3s temos neste momento em que temos uma taxa de desemprego historicamente baixa na ordem dos 6%, porque todo o resto&#8230; Temos fam\u00edlias endividadas, grandes dificuldades do ponto de vista da habita\u00e7\u00e3o, e depois, naturalmente, o dinheiro n\u00e3o chega at\u00e9 ao final do m\u00eas. Temos muitas fam\u00edlias que, a partir de determinada altura do m\u00eas, t\u00eam muita dificuldade em colocar p\u00e3o na mesa. E \u00e9 isso que nos devia preocupar a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesse contexto, gostava de perguntar como \u00e9 que olha para o compasso de espera na defini\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza? O Estado tem feito interven\u00e7\u00f5es pontuais face \u00e0 escalada da infla\u00e7\u00e3o, mas apesar a perce\u00e7\u00e3o geral \u00e9 que o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza ou em risco de pobreza continua a aumentar. Onde \u00e9 que se est\u00e1 a errar nesta estrat\u00e9gia? <\/em><\/p>\n<p>Eu diria que a m\u00e1quina do Estado \u00e9 extremamente burocr\u00e1tica, e demora muito, muito, tempo a reagir. Eu N\u00e3o quero dizer que os pol\u00edticos n\u00e3o tenham boa vontade. Naturalmente, querer\u00e3o fazer o melhor pelo seu pa\u00eds, pela sociedade portuguesa, mas a verdade \u00e9 que muitas das vezes os servi\u00e7os do Estado t\u00eam tantos espartilhos que para se definir uma estrat\u00e9gia e se fazer chegar o apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o propriamente dita, demoram meses, demoram anos. Volto a insistir no material ortop\u00e9dico, em que a C\u00e1ritas Diocesana do Porto tem tido uma interven\u00e7\u00e3o importante no dia a dia; o Estado pode demorar 3 a 5 anos a responder a uma fam\u00edlia.\u00a0Isto \u00e9 desesperante. N\u00f3s temos de uma vez por todas repensar o pr\u00f3prio pa\u00eds. Porque n\u00f3s olhamos, \u00e0s vezes, para alguns fen\u00f3menos e que nos orgulham a todos, mas depois h\u00e1 sempre o reverso da medalha. Todos os dias falamos com muito orgulho que temos a gera\u00e7\u00e3o mais qualificada de sempre, mas o ano passado emigraram 65 mil portugueses. E praticamente 50% dos que emigraram tinham curso superior. Eu quase que diria: que pa\u00eds \u00e9 que n\u00f3s queremos?<\/p>\n<p>N\u00f3s passamos muito tempo a debater dogmas quase que diria de natureza partid\u00e1ria. Eu venho do mundo empresarial e eu objetivamente o que acho \u00e9 que o pa\u00eds precisa de criar riqueza. Precisa criar riqueza, mas depois essa riqueza tamb\u00e9m tem de ser distribu\u00edda, porque n\u00f3s todos os dias estamos a criar novos pobres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Enquanto insistimos muito neste modelo de baixos sal\u00e1rios\u2026<\/em><\/p>\n<p>O sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional tem vindo a sofrer reajustes importantes no passado recente, mas verdade \u00e9 que, de um momento para o outro, a classe m\u00e9dia em Portugal desapareceu. H\u00e1 uma pobreza envergonhada que vai surgindo todos os dias, pessoas que tinham uma vida relativamente est\u00e1vel, que tinham as suas obriga\u00e7\u00f5es, o cr\u00e9dito autom\u00f3vel ou ou a presta\u00e7\u00e3o da casa, mas taxas de juro aumentaram de uma forma quase me atreveria a dizer absurda, no passado recente e essas fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam como\u2026 chega ao meio do m\u00eas e n\u00e3o t\u00eam como alimentar a fam\u00edlia, como p\u00f4r comida na mesa para os seus filhos. Esta \u00e9 a nossa realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vivemos num pa\u00eds com grandes assimetrias que tamb\u00e9m se verificam ao n\u00edvel dos rendimentos. De acordo com o Estudo \u201cMelhores munic\u00edpios para viver\u201d, Portugal registou um aumento geral consider\u00e1vel das desigualdades de rendimentos que s\u00e3o mais acentuadas nos munic\u00edpios do litoral e de maior dimens\u00e3o. Tem uma perce\u00e7\u00e3o desta realidade?<\/em><\/p>\n<p>Sim, em particular nas grandes cidades, uma vez mais muito associado ao aumento dos custos da habita\u00e7\u00e3o. A C\u00e1ritas Diocesana do Porto tem interven\u00e7\u00e3o em 26 cidades, a diocese n\u00e3o \u00e9 heterog\u00e9nea, naturalmente. H\u00e1 cidades que t\u00eam comportamentos, desempenhos muito diferentes umas das outras, mas a cidade do Porto, porventura a cidade de Gaia, acidade da Maia, ter\u00e3o um conjunto de problemas substancialmente mais complexos, por exemplo, do que em Amarante, ou Felgueiras ou na Lixa\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Problemas que se agudizam ainda mais quando h\u00e1 grande desigualdade ao n\u00edvel dos rendimentos\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Quando vamos para o mais para o Interior do pa\u00eds, os custos de habita\u00e7\u00e3o muitas vezes s\u00e3o menos expressivos \u2013 ainda que estejam a aumentar de uma forma tamb\u00e9m assustadora, no passado recente -, muita das vezes h\u00e1 agricultura de subsist\u00eancia, h\u00e1 um conjunto de outros instrumentos, diria assim. A comunidade funciona melhor, \u00e9 mais pr\u00f3xima, quando vamos para as grandes cidades, os problemas tendem a tendem a agravar-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Durante os anos da pandemia, a C\u00e1ritas abriu o programa \u2018Inverter a Curva da Pobreza\u2019, de apoio \u00e0 rede nacional, o qual \u201cpermitiu refor\u00e7ar a capacidade de resposta das C\u00e1ritas Diocesanas \u00e0s fam\u00edlias mais vulner\u00e1veis\u201d. Qual a import\u00e2ncia deste programa, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, e que problemas persistem?<\/em><\/p>\n<p>A import\u00e2ncia foi muita, quanto mais n\u00e3o seja \u00e9 traduzida por 31 mil fam\u00edlias que foram apoiadas neste per\u00edodo, com 700 mil euros de apoio. Ser\u00e1 seguramente muito menor do que aquilo que n\u00f3s gostar\u00edamos de ter assegurado, mas os problemas persistem de tal forma que a C\u00e1ritas portuguesa resolveu prolongar esta campanha, pelo menos, at\u00e9 final de 2023. Efetivamente, n\u00f3s n\u00e3o estamos a conseguir inverter a curva da pobreza. Por muito que possamos olhar para os n\u00fameros e, com alguma cosm\u00e9tica, dizer que desde 2020, 170 mil portugueses sa\u00edram da situa\u00e7\u00e3o de pobreza\u2026 a verdade \u00e9 que n\u00f3s vivemos em clima de tens\u00e3o social de uma forma permanente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A inten\u00e7\u00e3o de criar este programa nacional permanente de emerg\u00eancia social mostra, de facto, que a crise est\u00e1 para est\u00e1 para ficar. A C\u00e1ritas denuncia uma crise social quase permanente, desde a pandemia. Voltando \u00e0 quest\u00e3o da necessidade de se definir uma estrat\u00e9gia nacional de combate \u00e0 pobreza, n\u00e3o considera que essa estrat\u00e9gia j\u00e1 devia ter sido definida? J\u00e1 deveria estar a ser implementada?<\/em><\/p>\n<p>Acho que ningu\u00e9m ter\u00e1 d\u00favidas disso, o pr\u00f3prio Governo, o Estado, n\u00e3o ter\u00e3o d\u00favidas que isto \u00e9 uma corrida contra o tempo, porque todos os dias em que bater \u00e0 porta de uma qualquer institui\u00e7\u00e3o algu\u00e9m com fome ou completamente desprotegido, naturalmente o Estado est\u00e1 a falhar.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia j\u00e1 deveria estar mais do que definida e os Servi\u00e7os Sociais j\u00e1 tinham de estar no terreno, porque a situa\u00e7\u00e3o agrava-se dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A C\u00e1ritas Diocesana do Porto, em algum momento, foi ouvida sobre a defini\u00e7\u00e3o dessa estrat\u00e9gia?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, tem sido ouvida a C\u00e1ritas Portuguesa e parece-me bem. A C\u00e1ritas portuguesa tem um papel muito importante porque representa toda a rede, constitu\u00edda por 20 C\u00e1ritas Diocesanas e, portanto, parece-me bem que o Estado, quando tem de auscultar uma entidade com esta relev\u00e2ncia, centre as suas aten\u00e7\u00f5es na C\u00e1ritas Portuguesa, que tem a preocupa\u00e7\u00e3o de estar em contacto di\u00e1rio com as C\u00e1ritas Diocesanas. Desse ponto de vista, acho que estou tranquilo, descansado, o diagn\u00f3stico j\u00e1 est\u00e1 feito, mas os apoios sociais est\u00e3o a sair a conta-gotas, de forma avulsa, quando h\u00e1 mais ou menos press\u00e3o social. Dever\u00edamos ter uma estrat\u00e9gia efetivamente integrada, que respondesse \u00e0s quest\u00f5es da habita\u00e7\u00e3o, da pobreza e a um conjunto de outros problemas que v\u00e3o surgindo no dia a dia.<\/p>\n<p>Eu vou antecipar outro: estamos a um m\u00eas e pico de sabermos os resultados do acesso ao Ensino Superior. Deus queira que n\u00e3o tenhamos centenas ou milhares de alunos, que andaram a estudar nos \u00faltimos anos, para atingirem uma meta, no fundo cumprir um sonho de uma vida e, pelas quest\u00f5es das propinas, financeiras, de habita\u00e7\u00e3o, tenham de desistir do seu curso superior. Tem acontecido de forma mais recorrente, no passado recente, do que n\u00f3s gostar\u00edamos. Volto a dizer que estamos a desperdi\u00e7ar talento e, a m\u00e9dio prazo, estamos a contribuir para o empobrecimento do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse receio baseia-se nalguma perce\u00e7\u00e3o anterior?<\/em><\/p>\n<p>Tem acontecido no passado recente e todos os problemas que existiam t\u00eam-se vindo a acentuar: a infla\u00e7\u00e3o, o custo m\u00e9dio de vida ou a pr\u00f3pria habita\u00e7\u00e3o. Os custos dispararam, vamos tendo conhecimento de alunos que j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 procura de quartos, nomeadamente nas grandes necessidades, que podem custar 400, 500, 600, 800 euros\u2026 muitas das fam\u00edlias, infelizmente, n\u00e3o podem suportar esses custos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A subida das taxas de juro mostra que a Europa est\u00e1 mais preocupada com as Finan\u00e7as do que com os seus valores humanistas? Como \u00e9 que se explica essa tend\u00eancia num pa\u00eds como o nosso, em que os sal\u00e1rios s\u00e3o baixos?<\/em><\/p>\n<p>Devemos ser mais incisivos nas perguntas que \u00e0s vezes fazemos \u00e0 senhora Largarde, para todos os efeitos: aquilo que nos disse, nas \u00faltimas semanas, \u00e9 que os portugueses at\u00e9 ganham muito, n\u00e3o \u00e9? E eu gostava que a Europa, como n\u00f3s a conhecemos e que nasceu no p\u00f3s-II Grande Guerra, n\u00e3o perdesse a sua raiz, n\u00e3o perdesse a sua matriz, n\u00e3o perdesse os seus valores. A Europa tem sofrido altera\u00e7\u00f5es muito profundas no passado recente, muitas vezes damos primazia \u00e0s quest\u00f5es financeiras, \u00e0s quest\u00f5es econ\u00f3micas do que propriamente aos valores e \u00e0 humanidade. Gostaria que possamos todos refletir sobre isso e pud\u00e9ssemos voltar \u00e0 matriz europeia, mas tenho d\u00favidas que isso efetivamente aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas a verdade \u00e9 que Christine Lagarde apontou a possibilidade de nova subida de taxas de juro, nos pr\u00f3ximos tempos, nomeadamente em setembro \u00e9 prov\u00e1vel que subam +0,25%&#8230;<\/em><\/p>\n<p>E j\u00e1 sabemos o que \u00e9 que vai acontecer\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A explica\u00e7\u00e3o que deu que, a que se referia h\u00e1 instantes, para clarificar, \u00e9 que a senhora Lagarde acha que as taxas de juro t\u00eam de subir, porque os sal\u00e1rios tamb\u00e9m est\u00e3o a subir muito\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas a base dos aumentos das taxas de juro estava diretamente associada a uma infla\u00e7\u00e3o galopante que tivemos, em particular no \u00faltimo ano. A infla\u00e7\u00e3o em Portugal est\u00e1 nos 3, 3,5%, come\u00e7a a ser normalidade. Na pr\u00f3pria Europa, a taxa de infla\u00e7\u00e3o come\u00e7a a diminuir, a chegar a valores razo\u00e1veis, diria. Esta escalada das taxas de juro, um dia destes, vai ter de ser estancada, n\u00e3o \u00e9? Porque, para todos os efeitos, n\u00f3s ou pagamos as obriga\u00e7\u00f5es com o Banco ou passamos fome. Encontrar um equil\u00edbrio, aqui, \u00e9 que est\u00e1 a ser dif\u00edcil nesta altura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E, para quem vem do mundo empresarial, tamb\u00e9m se percebe que procura j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim tanta que provoque uma onda inflacionista como aquela que temos assistido\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, ali\u00e1s, ouvimos dizer que estamos em recess\u00e3o na Europa. A maior parte dos mercados europeus est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica de anemia, diria assim. Volto a dizer que n\u00e3o sou economista, n\u00e3o sou especialista, nem nada que se pare\u00e7a, mas parece-me que se continuarmos a aumentar de forma t\u00e3o expressiva as taxas de juro, vamos ter cada vez mais fam\u00edlias em dificuldade e n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto vamos reverter este fraco desempenho econ\u00f3mico, que \u00e9 comum a praticamente todos os pa\u00edses europeus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Semana em que a C\u00e1ritas Portuguesa apresentou a sua nova campanha, \u2018Doar Com Certeza\u2019, e os resultados do Programa \u2018Vamos Inverter a Curva da Pobreza\u2019, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Paulo Gon\u00e7alves, presidente da C\u00e1ritas Diocesana do 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