{"id":28781,"date":"2007-12-14T15:46:56","date_gmt":"2007-12-14T15:46:56","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/14\/a-essencia-do-cristianismo-encarnacao-de-deus-no-homem\/"},"modified":"2007-12-14T15:46:56","modified_gmt":"2007-12-14T15:46:56","slug":"a-essencia-do-cristianismo-encarnacao-de-deus-no-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-essencia-do-cristianismo-encarnacao-de-deus-no-homem\/","title":{"rendered":"A ess\u00eancia do cristianismo: encarna\u00e7\u00e3o de Deus no homem"},"content":{"rendered":"<p>O cristianismo nasce no Natal, com o nascimento de \u00aboutro Deus\u00bb, isto \u00e9, de uma nova imagem de Deus. Depois de ao longo da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica o povo de Israel ter captado o Deus da pessoa (o Deus de Abra\u00e3o, de Isaac e de Jacob), o Deus para a pessoa (para libertar a pessoa no \u00eaxodo da escravid\u00e3o do Egipto) e o Deus com a pessoa (o \u00abDeus connosco\u00bb: Immanuel), finalmente Ele revelou-se e foi captado como o Deus na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9. A f\u00e9 crist\u00e3 convida a ver Deus encarnado num ser humano e a contemplar Jesus como Filho de Deus. Em Jesus, Deus tem um \u00abencontro imediato\u00bb connosco: torna-se presente em n\u00f3s. A encarna\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus diz-se em termos de rela\u00e7\u00e3o Pai-Filho, estabelecida pelo Esp\u00edrito de Amor: Jesus \u00e9 o humano em quem \u201chabita corporalmente toda a plenitude da divindade\u201d (Col 2,9). De facto, p\u00f4de dizer: \u201cquem me v\u00ea v\u00ea o Pai\u201d (Jo 14,9), \u201cEu e o Pai somos um\u201d (Jo 10,30), \u201cEu estou no Pai e o Pai est\u00e1 em mim\u201d (Jo 14,10). Jesus \u00e9 \u201ca imagem do Deus invis\u00edvel\u201d (Cl 1,15). Os que o conheceram podiam pela f\u00e9 ver o Filho de Deus e o rosto de Deus humanado. Ent\u00e3o a tr\u00edade nuclear da f\u00e9 crist\u00e3 exprime assim a rela\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus Pai, Filho e Esp\u00edrito com os humanos: Deus encarna no Filho aparecendo como Pai, o Filho redime a humanidade aparecendo como salvador, a humanidade \u00e9 introduzida no Reino de Deus pelo Esp\u00edrito vivificador. Porque Deus foi captado como Amor din\u00e2mico em si e em rela\u00e7\u00e3o com a humanidade, \u00e9 simultaneamente acima de n\u00f3s (Pai), ao lado de n\u00f3s (Filho) e dentro de n\u00f3s (Esp\u00edrito). Como consequ\u00eancia deste mist\u00e9rio de comunh\u00e3o, a partir da encarna\u00e7\u00e3o de Jesus a rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus concebe-se e exprime-se de maneira nova, em termos de filia\u00e7\u00e3o: \u201cTodos os que s\u00e3o conduzidos pelo Esp\u00edrito de Deus s\u00e3o filhos de Deus\u201d (Rm 8,14). \u201cE porque sois filhos, Deus enviou aos nossos cora\u00e7\u00f5es o Esp\u00edrito do seu Filho, que clama \u00abAbba &#8211; Pai!\u00bb. Deste modo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9s escravo, mas filho\u201d (Gl 4,4-7). O discurso crist\u00e3o sempre p\u00f4s a encarna\u00e7\u00e3o de Deus no centro da sua f\u00e9, como a vis\u00e3o mais original de Deus relativamente \u00e0 de outras religi\u00f5es, definindo tal novidade mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o de Israel, da qual \u00e9 continuidade e descontinuidade. E o espec\u00edfico da interpreta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da vida humana consiste em relacion\u00e1-la com a encarna\u00e7\u00e3o de Deus na pessoa de Jesus. Esta vis\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus importa muito. A encarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o resgate mas tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o suprema da corporeidade e do ser humano. Desde a encarna\u00e7\u00e3o do Deus transcendente na pessoa de Jesus, o pr\u00f3prio corpo tornou-se epifania do divino: o divino desposou a corporeidade humana, com as suas leis e limita\u00e7\u00f5es. O humano como tal tornou-se espa\u00e7o privilegiado do encontro com o divino. Pela encarna\u00e7\u00e3o de Deus na humanidade de Jesus, realiza-se em pleno o cruzamento do transcendente com a iman\u00eancia: o Deus transcendente faz hist\u00f3ria com os humanos, sem se tornar vulner\u00e1vel, porque mant\u00e9m a sua alteridade. Deus salva os humanos, n\u00e3o de longe, na sua solid\u00e3o sublime e imperturbada, mas no terreno e na carne deles.  As leituras gn\u00f3sticas e \u2018docetistas\u2019 n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o o extremo radical duma compreens\u00e3o minimalista da encarna\u00e7\u00e3o; testemunham a dificuldade de admitir que o Deus transcendente tenha podido tomar corpo e que o corpo seja capaz de Deus. Pelo contr\u00e1rio, o cristianismo torna-se profundo ao explorar todo o sentido da encarna\u00e7\u00e3o. A nossa tend\u00eancia para a transcend\u00eancia entende-se como realiza\u00e7\u00e3o plena do corp\u00f3reo, n\u00e3o como sua nega\u00e7\u00e3o. Uma espiritualidade crist\u00e3 que n\u00e3o valorize o corpo n\u00e3o pode depois respeitar e amar a pessoa. Compreende-se assim o desprezo a que os gn\u00f3sticos votavam a mat\u00e9ria, a corporeidade e a pr\u00f3pria pessoa. Para dar valor \u00e0 vida definitiva, \u00e9 preciso valorizar a vida corp\u00f3rea, encarnada, que desde a encarna\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 sagrada. Como diz o cardeal J. Ratzinger na Introdu\u00e7\u00e3o ao cristianismo, ao ver o L\u00f3gos de Deus encarnado no homem Jesus, a f\u00e9 crist\u00e3 escolhia uma imagem de Deus, fazendo uma purifica\u00e7\u00e3o com aud\u00e1cia: optava pelo Deus dos fil\u00f3sofos contra os deuses das v\u00e1rias religi\u00f5es antigas. Era a op\u00e7\u00e3o pelo l\u00f3gos, pela raz\u00e3o contra o mito mal entendido, isto \u00e9, contra o mito entendido \u00e0 letra, como se existissem diversos deuses para explicar as diversas realidades da vida humana. Para a f\u00e9 crist\u00e3, todas as realidades t\u00eam fundamento num \u00fanico Deus. Mas, ao decidir-se pelo Deus dos fil\u00f3sofos, a f\u00e9 crist\u00e3 sentia que Ele se manifestou e falou aos humanos na pessoa de Jesus. Com isso, conferia ao Deus dos fil\u00f3sofos um sentido totalmente novo. Ao tir\u00e1-lo da esfera puramente acad\u00e9mica, transformou-O profundamente. Esse Deus que era visto pelos fil\u00f3sofos como o conceito supremo e conclusivo, como o ente em si e o puro pensamento a girar eternamente num c\u00edrculo fechado em torno de si mesmo sem chegar jamais at\u00e9 ao ser humano\u2026, esse Deus, cujas eternidade e imutabilidade puras exclu\u00edam \u00e0 partida qualquer rela\u00e7\u00e3o com o mundo mut\u00e1vel, passava a aparecer agora, para a f\u00e9 crist\u00e3, como Deus dos homens e amor criativo, que tomou a iniciativa de se dar gratuita e totalmente para arrancar os humanos \u00e0 sua finitude radical. Nesse sentido, a f\u00e9 crist\u00e3 capta o que experimentou Pascal na inolvid\u00e1vel noite de luz em que escreveu num bilhete com o t\u00edtulo Fogo: \u201cDeus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac, Deus de Jacob, n\u00e3o dos fil\u00f3sofos e s\u00e1bios. Deus de Jesus Cristo&#8230; Certeza, sentimento, alegria, paz. Pai justo, o mundo n\u00e3o te conheceu, mas eu conheci-te. Alegria. Alegria. L\u00e1grimas de alegria\u201d. Acostumado \u00e0 ideia de um Deus identificado com o pensamento matem\u00e1tico, Pascal teve a experi\u00eancia da sar\u00e7a ardente, da qual \u2013 segundo o narrador b\u00edblico \u2013 se fez ouvir um nome revelado a Mois\u00e9s, pelo qual entrava no mundo do ser humano como Deus para as pessoas: \u201cDeus continuou a dizer a Mois\u00e9s: Assim dir\u00e1s aos israelitas: Yahv\u00e9 [Aquele que existe], o Deus dos vossos pais, o Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob enviou-me a v\u00f3s. Este \u00e9 o meu nome para sempre: por ele quero ser recordado e invocado de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o\u201d (Ex 3,15). Mois\u00e9s aparece aqui como mediador e executor do plano libertador concebido por Deus: \u201cVai, eu te envio ao Fara\u00f3, para que tires o meu povo do Egipto\u201d (Ex 3,10). Ao fazer encarnar o L\u00f3gos-Palavra-Projecto (Jo\u00e3o 1), Jesus tornou-se o perfeito mediador entre Deus e os humanos e o realizador definitivo desse Projecto salv\u00edfico de Deus. Que h\u00e1 de novo no Deus encarnado em Jesus e revelado por ele? Nada e tudo. \u00c9 o mesmo Deus que o de Abra\u00e3o e de Mois\u00e9s. Mas a luz \u00e9 nova. E esta torna tudo novo. \u00c9 a experi\u00eancia de que o Deus dos fil\u00f3sofos \u00e9 totalmente diferente daquilo que d\u2019Ele pensaram os fil\u00f3sofos, e que esse Deus, que \u00e9 a Verdade por excel\u00eancia e o fundamento de todo o ser, \u00e9 tamb\u00e9m o Deus da f\u00e9 e o Deus dos humanos: \u00e9 o Deus do amor, \u00e9 Amor. Neste ponto, a mensagem do evangelho e a imagem crist\u00e3 de Deus v\u00eam ao encontro da filosofia e dizem que o amor \u00e9 mais sublime do que o pensamento puro. O pensamento absoluto \u00e9 amar, dar-se ao outro para se transcender a si pr\u00f3prio no outro. Esse Amor manifestou-se definitivamente ao encarnar em Jesus. Por isso, o cristianismo \u00e9 humanismo, porque permite a diviniza\u00e7\u00e3o do ser humano ao este acolher a riqueza do amor de Deus no humano Jesus.  <i>Pe. Armindo Vaz   (Universidade Cat\u00f3lica) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cristianismo nasce no Natal, com o nascimento de \u00aboutro Deus\u00bb, isto \u00e9, de uma nova imagem de Deus. 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