{"id":287696,"date":"2023-07-02T20:41:43","date_gmt":"2023-07-02T19:41:43","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=287696"},"modified":"2023-07-03T11:44:44","modified_gmt":"2023-07-03T10:44:44","slug":"dorsal-atlantica-lisbona-sfavillava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dorsal-atlantica-lisbona-sfavillava\/","title":{"rendered":"Dorsal Atl\u00e2ntica &#8211; Lisbona sfavillava"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 J\u00falio Rocha, Diocese de Angra<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-265482 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/pe_jose_julio_rocha.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>\u201cUna Magnifica giornata d\u2019estate, soleggiata e ventilata, e Lisbona sfavillava.\u201d Esta \u00e9 a segunda frase do livro onde Antonio Tabucchi enfatiza a Lisboa dos anos trinta. \u201cSostiene Pereira\u201d (Afirma Pereira) diz no t\u00edtulo, e esta frase refere-se ao ver\u00e3o de 1938, um dia de sol e brisa, e Lisboa \u201csfavillava\u201d. Gosto desse termo, que adivinha algo inc\u00f3modo, como a dizer que Lisboa brilhava e ardia ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Encontrei-me com um amigo nas Amoreiras. \u201cQueres revisitar a Lisboa real?\u201d \u201cVamos a isso\u201d e arrependi-me, mais tarde, desse \u201cvamos a isso\u201d. Lisboa \u201csfavillava\u201d na t\u00f3rrida vaga de calor. Era o dia trinta de junho deste ano. O percurso inclu\u00eda passar por Campo de Ourique, descer \u00e0 Estrela, contornar S\u00e3o Bento, amea\u00e7ar o Bairro Alto, dizer adeus ao Chiado, derrapar pela rua do Alecrim, arregalar os olhos para a 24 de Julho, passar pelo Cais do Sodr\u00e9, arrepiar caminho pelas margens do Tejo at\u00e9 ao Parque das Na\u00e7\u00f5es e derivar para o destino, o aeroporto que me traria de volta aos A\u00e7ores.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o conhe\u00e7o esta Lisboa. O tr\u00e2nsito a passo de caracol, inquinando o ar e os pulm\u00f5es, parava, parava, avan\u00e7ava alguns metros, parava. As ruas estavam sujas, beatas, pap\u00e9is, porcarias. Quem conheceu a Lisboa limpa e briosa de h\u00e1 vinte, trinta anos atr\u00e1s, emparvece agora. Um casal de estrangeiros com cabelos estranhos e roupas infinitamente mais estranhas discutem de m\u00e3os dadas. Dois velhos, absolutamente velhos, desesperam, um com uma bengala, outra a servir de bengala ao que tem bengala, para atravessar uma rua onde a cal\u00e7ada mais parece um caminho de cabras. Carros apitam atr\u00e1s e \u00e0 frente. Motoretas ziguezagueiam por entre os carros desesperadamente engarrafados. Mais \u00e0 frente h\u00e1 uma briga. Um louro, com cara de sueco \u2013 porque quase todos os louros s\u00e3o parecidos com os suecos \u2013 dispara uns socos na cara de um negro e este responde com um gancho nos queixos do louro. A briga p\u00e1ra (p\u00e1ra, n\u00e3o para). Os carros n\u00e3o andam.<\/p>\n<p>Os exteriores dos caf\u00e9s fervilham de gente nova, esmagadoramente turistas, que inundam as ruas com uma vaga de l\u00ednguas e culturas abstrusamente diversas. H\u00e1 gente com pressa. Penso que todos os que n\u00e3o s\u00e3o turistas est\u00e3o com pressa; e os turistas atrasam e desesperam os que est\u00e3o com pressa; e os que est\u00e3o com pressa afrontam o prazer que os turistas querem disfrutar. Ningu\u00e9m se entente. Caos. \u00c9 essa a palavra.<\/p>\n<p>J\u00e1 quase n\u00e3o h\u00e1 lisboetas em Lisboa. Os pre\u00e7os das casas, a subida das taxas de juro, a p\u00e9ssima mobilidade e mais uma mir\u00edade de raz\u00f5es est\u00e3o oferecendo a capital portuguesa aos ricos e aos turistas. Ou aos imigrantes nepaleses, indianos, bengalis, africanos, brasileiros, que esgotam, dia-a-dia, a sua vida por um tost\u00e3o, para j\u00e1 n\u00e3o falar das mansardas velhas de antigas estalagens, velhos edif\u00edcios, em cujas janelas assomam rostos de escravos, a dormir e a comer uns em cima dos outros, numa das maiores vergonhas de que nos podemos envergonhar.<\/p>\n<p>Lisboa \u00e9, como muitas outras cidades, uma porta-voz dos \u00faltimos caminhos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Jovens yuppies e vazios competem com ferocidade n\u00e3o sei por qu\u00ea. Jovens que n\u00e3o s\u00e3o yuppies nem vazios sentem o vazio de n\u00e3o ter futuro, numa sociedade que lhes vende uma esp\u00e9cie de felicidade em pacotinhos de satisfa\u00e7\u00e3o imediata, mas n\u00e3o lhes d\u00e1 emprego, dignidade, raz\u00f5es para lutar e motivos para mudar. Mudar o qu\u00ea? S\u00f3 para uma nova gera\u00e7\u00e3o de telem\u00f3veis ou um maior desafio da intelig\u00eancia artificial que, ali\u00e1s, j\u00e1 vai conduzindo muitos destinos de muita gente.<\/p>\n<p>Grande parte destes jovens, que deambulam, com pressa ou sem ela, pela cidade nunca tiveram Deus no horizonte da sua vida. Deus \u00e9 uma ideia, razoavelmente desnecess\u00e1ria, e a f\u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de vida que j\u00e1 fez o seu tempo e perdeu o prazo de validade quando as pessoas come\u00e7arem a pensar pelas suas cabe\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 ateus como antigamente, que quem j\u00e1 nasce onde n\u00e3o h\u00e1 Deus concentra uma nova esp\u00e9cie de ate\u00edsmo, aquele da maior indiferen\u00e7a: Deus n\u00e3o incomoda, \u00e9 uma realidade indiferente, n\u00e3o h\u00e1 nada para rezar ao Nada.<\/p>\n<p>E sim, o Nada. Esse vazio existencial que se reflete nas prioridades de uma civiliza\u00e7\u00e3o cruelmente farta de um lado, cruelmente faminta de outro, esse vazio existencial reflete-se sobretudo nos jovens, a gera\u00e7\u00e3o do futuro a quem n\u00e3o se deu futuro nenhum, a n\u00e3o ser o drama da emerg\u00eancia clim\u00e1tica que lhes enegrece o futuro, as pol\u00edticas extremadas e cada vez mais pateticamente est\u00fapidas, que adivinham futuros sombrios para uma paz que se preze.<\/p>\n<p>Lisboa \u201csfavillava\u201d naquele trinta de junho brilhante e ardente, Lisboa linda, luz e Fernando Pessoa, luz e Am\u00e1lia Rodrigues, luz e aquele tuk-tuk que me aborrece, atravessado no cruzamento, nem para tr\u00e1s nem para diante, apitos e palavr\u00f5es para quem apita, uma jovem chora, absolutamente s\u00f3, com um top e o umbigo \u00e0 mostra, piercing farto no nariz, encostada \u00e0 ombreira de uma das portas mais velhas e tristes de Lisboa. Como \u00e9 dif\u00edcil o amor\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 esta Lisboa \u201csfavillante\u201d que, dentro de um m\u00eas, receber\u00e1 eventualmente mais de um milh\u00e3o de jovens oriundos das quatro partidas do mundo. Jovens cat\u00f3licos. Que t\u00eam eles de diferente dos outros jovens? \u201cJ\u00e1 reparaste?\u201d, disse-me um daqueles amigos ateus que, \u00e0s vezes, devem ser ouvidos. \u00abJ\u00e1 reparaste? Os jovens cat\u00f3licos s\u00e3o os que menos pensam. Pelo menos a maior parte. Os grupos de jovens cantam coisas bonitas e n\u00e3o passa disso. S\u00e3o uns burguesinhos acomodados que perdem a f\u00e9 quando v\u00e3o para a universidade. J\u00e1 viste se todos os jovens cat\u00f3licos se unissem por uma causa, ambiental, de justi\u00e7a, de solidariedade, v\u00e1 l\u00e1, que lutassem por uma causa. E o que v\u00eas \u00e9 essa apatia alegre, esses jovens todos de bem, que cantam coisas parvas e acreditam vagamente num Deus a quem n\u00e3o rezam.\u00bb<\/p>\n<p>E eu, pois claro, fiquei pensativo\u2026 e se todos os jovens cat\u00f3licos se apaixonassem, lutassem por uma causa, esse milh\u00e3o, muitos mais milh\u00f5es em milh\u00f5es de lugares.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que uma Jornada Mundial da Juventude, na \u201csfavillante\u201d Lisboa, vai fazer por isso? O Papa Francisco sabe-o bem. A Igreja portuguesa, na particular situa\u00e7\u00e3o em que se encontra, tem que encontrar for\u00e7as, seja onde for, para apaixonar um milh\u00e3o de jovens por uma causa. Ou n\u00e3o seja esta mais uma jornada da juventude.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 J\u00falio Rocha, Diocese de Angra<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":265482,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-287696","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287696"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287696\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/265482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=287696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=287696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}