{"id":287650,"date":"2023-07-03T10:06:52","date_gmt":"2023-07-03T09:06:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=287650"},"modified":"2023-07-03T10:06:52","modified_gmt":"2023-07-03T09:06:52","slug":"ah-quanto-se-espera-do-cristianismo-a-encarnacao-diante-dos-novos-gnosticismos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ah-quanto-se-espera-do-cristianismo-a-encarnacao-diante-dos-novos-gnosticismos\/","title":{"rendered":"Ah, quanto se espera do cristianismo! A encarna\u00e7\u00e3o diante dos novos gnosticismos"},"content":{"rendered":"<p><em>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-266200 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Nas d\u00e9cadas que antecederam o Conc\u00edlio do Vaticano II, foi-se consolidando uma convic\u00e7\u00e3o (que tivera no movimento lit\u00fargico j\u00e1 not\u00f3ria express\u00e3o) de que o encontro fecundo entre a Igreja e a sociedade (e o mundo) n\u00e3o poderia fazer-se sem um retorno \u00e0s fontes. \u00c9, ali\u00e1s, nesse dinamismo que \u00e9 criada, pela m\u00e3o de Dani\u00e9lou, Lubac e Mond\u00e9sert, em Lyon, em 1943, a c\u00e9lebre cole\u00e7\u00e3o \u2018Sources Chr\u00e9tiennes\u2019.<\/p>\n<p>Este <em>modus cogitandi<\/em> (modo de pensar), dada a sua fecundidade, deve ser retomado, vez ap\u00f3s vez, em particular, em tempos de maior dificuldade em discernir onde se encontra o equil\u00edbrio entre a fidelidade ao que deve propor o cristianismo e a fidelidade ao Homem a quem se dirige. Pela sua natureza tensional, este m\u00e9todo comporta um equil\u00edbrio entre dois pontos que asseguram que a tens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 perdida, sendo que a retirada de um dos pontos quebra a mesma tens\u00e3o, com custos, seja para a fidelidade ao Homem, seja para a fidelidade ao cristianismo.<\/p>\n<p>Vivemos um desses tempos\u2026<\/p>\n<p>Exige-se, por isso, o regresso \u00e0s fontes, n\u00e3o para nelas permanecer (perder-se-ia a tens\u00e3o com preju\u00edzo para a fidelidade ao Homem e ao seu tempo, com consequente infidelidade ao pr\u00f3prio cristianismo que se define como religi\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o da Humanidade\u2026), mas para que o cristianismo seja significativo, permanecendo fiel a si e sendo-o, tamb\u00e9m, ao Humano para quem \u00e9 an\u00fancio de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Regressemos, por isso, \u00e0s fontes\u2026<\/p>\n<p>Os nossos tempos trazem desafios \u2018generosos\u2019 ao cristianismo, perante os quais a tenta\u00e7\u00e3o da desist\u00eancia se agiganta. O regresso \u00e0s fontes permite, por\u00e9m, constatar que, feitas as devidas adequa\u00e7\u00f5es, os desafios recuperam encontros j\u00e1 havidos, no tempo das fontes.<\/p>\n<p>Veja-se que o primeiro desafio do pr\u00f3prio cristianismo foi o do confronto entre a sua emerg\u00eancia localizada, precisamente situada na quase inc\u00f3gnita Palestina, e o cosmopolitismo do helenismo com que se encontra, de forma particularmente exigente, S\u00e3o Paulo. Logo nesse encontro se define com precis\u00e3o a necessidade do estabelecimento de crit\u00e9rios de fidelidade: distinguir o essencial do acidental \u00e9 um desses crit\u00e9rios estruturantes. Eram acidentais os rituais herdados do juda\u00edsmo; era fundamental a afirma\u00e7\u00e3o da encarna\u00e7\u00e3o. E veja-se como este elemento fundamental (a encarna\u00e7\u00e3o) n\u00e3o se afigurava como marca de f\u00e1cil conforma\u00e7\u00e3o ao pensamento vigente. Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se estudarmos, com deten\u00e7\u00e3o, esses primeiros tempos, percebemos que o primeiro grande embate do cristianismo que \u2013 defendo-o desde h\u00e1 muito \u2013 se retoma, hoje, no transumanismo e na ideologia de g\u00e9nero, \u00e9, precisamente, o que resulta dessa afirma\u00e7\u00e3o: Deus encarnou!<\/p>\n<p>O helenismo trazia consigo um modo de pensar de influ\u00eancia plat\u00f3nica que veio a seduzir as primeiras comunidades crist\u00e3s, num amplo movimento designado como gnosticismo. No dizer de Roque Frangiotti, no seu livro \u2018hist\u00f3ria das heresias\u2019, \u201cos gn\u00f3sticos [\u2026] caracterizam-se pelo menosprezo da mat\u00e9ria, da carne e superestimam a alma-esp\u00edrito. Para eles, a mat\u00e9ria \u00e9 m\u00e1 em si mesma, incapaz e desnecess\u00e1ria para a salva\u00e7\u00e3o. Mais ainda: a mat\u00e9ria \u00e9 radicalmente oposta ao esp\u00edrito. S\u00e3o realidades contradit\u00f3rias. Por isso, Deus, o esp\u00edrito perfeit\u00edssimo, transcendente, imut\u00e1vel e impass\u00edvel, n\u00e3o pode, por nenhuma raz\u00e3o, assumir qualquer parcela de mat\u00e9ria.\u201d (Roque Frangiotti, p. 27)<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil constatar que com esta mentalidade se confrontou o pr\u00f3prio S. Jo\u00e3o que, nas suas cartas, escritas em finais do primeiro s\u00e9culo ou in\u00edcio do segundo, alerta para a centralidade da encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afirma, em 1jo 1,1 (sigo a recente tradu\u00e7\u00e3o que vem sendo disponibilizada pela Confer\u00eancia Episcopal): \u201cO que era desde o princ\u00edpio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contempl\u00e1mos e as nossas m\u00e3os tocaram, no que respeita \u00e0 Palavra da vida: \u00e9 isso que vos anunciamos. Pois a vida manifestou-se, n\u00f3s vimo-la e disso damos testemunho: anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e que se manifestou a n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Assim tamb\u00e9m em 1jo 4,1-31: \u201cAmados meus, n\u00e3o acrediteis em todos os esp\u00edritos, mas examinai-os para ver se s\u00e3o de Deus, porque no mundo surgiram muitos falsos profetas. \u00c9 nisto que reconhecereis o Esp\u00edrito de Deus: todo o esp\u00edrito que confessa Jesus Cristo, que veio na carne, \u00e9 de Deus; e todo o esp\u00edrito que n\u00e3o confessa Jesus n\u00e3o \u00e9 de Deus. Esse \u00e9 o esp\u00edrito do anticristo, aquele que ouvistes dizer que estava para vir; pois bem, agora j\u00e1 est\u00e1 no mundo.<\/p>\n<p>E, ainda, em 2jo7: \u201c\u00c9 que surgiram no mundo muitos impostores, que n\u00e3o confessam que Jesus Cristo veio na carne. \u00c9 esse o impostor e o anticristo!\u201d<\/p>\n<p>A uma leitura menos fina, poder\u00e1 parecer que o gnosticismo estar\u00e1 longe do que hoje s\u00e3o os desafios do cristianismo. Na minha perspetiva, esta conclus\u00e3o ser\u00e1 precipitada, pois uma das consequ\u00eancias evidentes do gnosticismo foi a relativiza\u00e7\u00e3o da corporeidade, dispensando, por isso, o corpo da sua natureza de entidade intrinsecamente moraliz\u00e1vel. O corpo, para o gnosticismo, n\u00e3o \u00e9 parte da condi\u00e7\u00e3o humana, escapa-se-lhe e \u00e9, por isso, exterior \u00e0 pr\u00f3pria economia salv\u00edfica. S\u00f3 o espiritual se salvar\u00e1. E, logo, o corpo escapa \u00e0 moral e \u00e0 \u00e9tica, podendo-se fazer \u2018com\u2019 e \u2018nele\u2019 o que bem se entende. O Homem que somos, na mentalidade de matriz gn\u00f3stica, nada tem a ver com o corpo, que lhe \u00e9 exterior e alheio.<\/p>\n<p>Veja-se como n\u00e3o estamos longe de uma matriz vigente que exclui o corpo do ser que somos, transumanizando-o e reduzindo o Homem ao pensamento que nele apenas \u2018reside\u2019. (Como se n\u00e3o pens\u00e1ssemos tudo o que vivemos, isto \u00e9, como se n\u00e3o fosse o nosso pensamento a repercuss\u00e3o do que vivemos enquanto corpo que somos!&#8230; Pelo contr\u00e1rio, o que pensamos \u00e9, na linha de Merleau-Ponty, \u201ccorpo vivido\u201d\u2026.).<\/p>\n<p>E como respondeu, no tempo das fontes, o cristianismo?<\/p>\n<p>Reconheceu, com Santo Ireneu, no seu Adversus Hereses (livro IV, 11,2) que \u2018Deus faz, o homem \u00e9 feito\u2019, sublinhando a progressividade e car\u00e1cter desenvolvimental do ser humano, condi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 natureza de ser corp\u00f3reo, sublinhando que \u201c<strong>a gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o homem vivente\u201d<\/strong> (Livro IV, 20,7 \u2013 sigo tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o editada do saudoso Pe. Doutor Franclim Pacheco). N\u00e3o, parte do Homem, mas, sim, a totalidade do Homem.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise detida das implica\u00e7\u00f5es desta ideologia diante da qual se espera o an\u00fancio da encarna\u00e7\u00e3o, por parte do cristianismo, permitir-nos-\u00e1 verificar que, sem a afirma\u00e7\u00e3o de que o corpo faz transparecer a pessoa que somos, estaremos diante de uma antropologia solipsista, em que o que aparece, diante dos outros, \u00e9 opaco e indecifr\u00e1vel. \u00c9, por isso, necess\u00e1rio retomar a centralidade do princ\u00edpio \u2018encarna\u00e7\u00e3o\u2019 e reafirmar, aos nossos tempos, que quem somos se vislumbra, ainda que provisoriamente e sempre como mist\u00e9rio a descobrir, mais e mais, no corpo que somos.<\/p>\n<p>O regresso \u00e0s fontes permite-nos recuperar a esperan\u00e7a de que estes n\u00e3o s\u00e3o os \u00faltimos tempos e de que muito se espera do cristianismo: que salve o Homem de se fechar em si mesmo, tenta\u00e7\u00e3o t\u00e3o densamente descrita no relato do para\u00edso. O Ad\u00e3o que quer fechar-se e ser autossuficiente continua, dia ap\u00f3s dia, a ouvir os passos, no jardim, e a esconder-se por vergonha\u2026 Ou talvez j\u00e1 nem vergonha tenha, mas continuar\u00e1, certamente, a sentir o som dos passos. E \u00e9 preciso n\u00e3o ter medo de percorrer o caminho do \u00c9den e dar a ouvir os passos que nos dizem que estamos nus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-287650","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287650"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287650\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=287650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=287650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}