{"id":28688,"date":"2007-12-11T11:00:03","date_gmt":"2007-12-11T11:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/11\/as-portas-do-patrimonio\/"},"modified":"2007-12-11T11:00:03","modified_gmt":"2007-12-11T11:00:03","slug":"as-portas-do-patrimonio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-portas-do-patrimonio\/","title":{"rendered":"As Portas do Patrim\u00f3nio"},"content":{"rendered":"<p>O Alentejo constitui uma not\u00e1vel s\u00edntese do Atl\u00e2ntico e do Mediterr\u00e2nico que encerra em si o melhor destes dois mundos. Se o primeiro marca essencialmente a geografia, contribuindo para moldar a fisionomia do territ\u00f3rio, em particular na sua fachada ocidental, o segundo pauta a matriz hist\u00f3rica e assume decisivo peso na defini\u00e7\u00e3o da cultura e das mentalidades. As influ\u00eancias tanto do Norte e do Sul como do Este e do Oeste afluem aqui desde os prim\u00f3rdios, transformando as cidades e os campos numa verdadeira encruzilhada de gentes, culturas e civiliza\u00e7\u00f5es. Visto de dentro, este Alentejo \u201cbaixo\u201d e \u201clitoral\u201d pode afigurar-se, pelo menos na apar\u00eancia, uma periferia atl\u00e2ntica. Por\u00e9m, a an\u00e1lise mais atenta do seu vasto e diversificado patrim\u00f3nio revela qu\u00e3o ilus\u00f3ria pode ser a no\u00e7\u00e3o de afastamento do centro. A Europa crist\u00e3, que fora antes pag\u00e3, continuou entre n\u00f3s um processo civilizacional herdado de uma romaniza\u00e7\u00e3o intensa, consumando a globaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 iniciada com o avan\u00e7o dos colonizadores p\u00fanicos e gregos. Embora sem perder o pendor atl\u00e2ntico que lhe \u00e9 intr\u00ednseco, a regi\u00e3o tornou-se fortemente tribut\u00e1ria, a partir da Antiguidade Tardia, dos valores mediterr\u00e2nicos. A presen\u00e7a das comunidades judaicas contribuiu para exaltar tal heran\u00e7a, depois ampliada, numa escala transcontinental, pelo impacto do Isl\u00e3o. Foi o Cristianismo, por\u00e9m, que lhe afei\u00e7oou de maneira mais penetrante a fisionomia espiritual. Ponderadas pelos ge\u00f3grafos, intu\u00eddas pelos historiadores, sopesadas pelos etn\u00f3logos, defendidas pelos soci\u00f3logos, as caracter\u00edsticas que fazem do espa\u00e7o alentejano uma esp\u00e9cie de \u201cponte\u201d a unir o mundo atl\u00e2ntico ao atl\u00e2ntico interessaram menos os investigadores do patrim\u00f3nio art\u00edstico, assaz preocupados com o sondar e o exaltar de t\u00f3picos regionais e, acima de tudo, nacionais. N\u00e3o foi sem surpresa que, com o avan\u00e7o da inventaria\u00e7\u00e3o dos bens culturais da Diocese de Beja, a partir de 1984, traduzido na redescoberta de boa parte da identidade religiosa do Baixo Alentejo, se tornou patente a consci\u00eancia de que o nosso territ\u00f3rio representou, tamb\u00e9m do ponto de vista da heran\u00e7a cultural preservada pela Igreja, um foco privilegiado de media\u00e7\u00e3o intercultural. \u00c0 semelhan\u00e7a do que sucedera em \u00e9pocas precedentes, os contributos das Tr\u00eas Religi\u00f5es do Livro \u2013 Juda\u00edsmo, Cristianismo e Isl\u00e3o \u2013 reflectiram nele, com particular vigor, a capacidade de estabelecerem uma s\u00edntese das tend\u00eancias globais e globalizadoras com a idiossincrasia das popula\u00e7\u00f5es locais. Campo de encontro de gentes e ideais muito diversos, o Sul de Portugal foi um grande cadinho de contactos entre as esferas de influ\u00eancia da Mediterr\u00e6 e do mar Oceano, como chamavam os nossos antepassados ao Atl\u00e2ntico. Brotou daqui, al\u00e9m de uma identidade deveras peculiar, um excepcional conjunto de valores culturais. A consci\u00eancia de t\u00e3o acutilantes realidades, nem sempre bem entendidas, tem sido um poderoso acicate para a Diocese de Beja aprofundar, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Departamento do Patrim\u00f3nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico, o levantamento sistem\u00e1tico dos diferentes patrim\u00f3nios que tutela. \u00c9 significativo que este trabalho, de certo modo pioneiro, tenha partido de uma diocese frequentemente considerada, pela \u00f3ptica de quem vem do Centro ou do Norte \u2013 \u00f3ptica nem sempre isenta de preconceitos \u2013, como terra de miss\u00e3o, quase \u201cpag\u00e3\u201d. Iniciada numa conjuntura particularmente dif\u00edcil, em pleno rescaldo do movimento revolucion\u00e1rio de 25 de Abril de 1974, a actividade do Departamento acabou por consubstanciar uma aventura cient\u00edfica cujos efeitos se encontram bem presentes no quotidiano do Baixo Alentejo, pondo a descoberto uma das mais ricas manchas patrimoniais do pa\u00eds e levando as popula\u00e7\u00f5es locais a olharem com redobrado empenho os seus tesouros art\u00edsticos, de que foram sempre, ali\u00e1s, as maiores defensoras. Tais efeitos repercutiram-se mesmo num \u00e2mbito mais vasto e, ao colocarem em xeque algumas meias-verdades, acabaram por perturbar o recato c\u00f3modo de algumas consci\u00eancias de bonzos, dentro e fora do \u00e2mbito eclesial. Afinal, a arte sacra alentejana n\u00e3o s\u00f3 existia como continuava a interessar um grande n\u00famero dos nossos cidad\u00e3os e dos nossos visitantes. E, se Beja, dita a mais pobre e a mais rarefeita das dioceses portuguesas, tinha conseguido dar provas de vitalidade, porque n\u00e3o acontecia isso tamb\u00e9m noutras \u00e1reas?  Registar com o maior escr\u00fapulo a multiplicidade e a variedade dos conjuntos patrimoniais sob a \u00e9gide da Igreja constituiu (e constitui ainda) o primeiro, indispens\u00e1vel passo da longa caminhada empreendida por um punhado de volunt\u00e1rios a quem o bispo D. Manuel Franco Falc\u00e3o confiou, em 1984, a salvaguarda do patrim\u00f3nio cultural da diocese a cujo destino passara a presidir, quatro anos antes, por determina\u00e7\u00e3o do papa Jo\u00e3o Paulo II. Atr\u00e1s desse passo viriam muitos outros, como a recupera\u00e7\u00e3o dos monumentos em risco e dos seus acervos de bens m\u00f3veis e integrados, incorporando-os em percursos qualificados e abrindo-os a um p\u00fablico alargado; a defesa de valores culturais seriamente amea\u00e7ados, entre eles os fundos de bibliotecas, arquivos e colec\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas; a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de museus; o apoio t\u00e9cnico \u00e0s par\u00f3quias e \u00e0s irmandades; a promo\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o cultural, incluindo exposi\u00e7\u00f5es, congressos, publica\u00e7\u00f5es; a presen\u00e7a nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social; o fomento o di\u00e1logo com os artistas e pensadores contempor\u00e2neos&#8230; De facto, a emerg\u00eancia, nos in\u00edcios do s\u00e9culo XXI, de modelos sociais distintos coloca desafios enormes \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio religioso e exige uma capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s linguagens de hoje para que a sua mensagem de fundo possa continuar, adaptada a outras circunst\u00e2ncias, a estar presente. Trata-se de um conjunto de valores patrimoniais que permanece ainda, em in\u00fameros aspectos, vivo. Importa que assim possa continuar, n\u00e3o por intuitos meramente utilit\u00e1rios ou proselitistas, mas porque essa vida interior corresponde a uma das suas principais caracter\u00edsticas, representando o melhor garante de continuidade entre gera\u00e7\u00f5es \u2013 e de transmiss\u00e3o aos vindouros. O Departamento do Patrim\u00f3nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico da Diocese de Beja tem feito da mobiliza\u00e7\u00e3o dos bens culturais in situ, no seio das comunidades a que pertencem, o esteio da sua ac\u00e7\u00e3o. Trata-se de um princ\u00edpio indeclin\u00e1vel, s\u00f3 pass\u00edvel de outros enquadramentos, em termos cient\u00edficos, de gest\u00e3o e at\u00e9 de efic\u00e1cia pastoral, quando as estruturas locais j\u00e1 n\u00e3o conseguem desempenhar as fun\u00e7\u00f5es que lhes competem, o que ocorre infelizmente em v\u00e1rios pontos do nosso territ\u00f3rio, merc\u00ea da rarefac\u00e7\u00e3o humana, pren\u00fancio de um fen\u00f3meno de desertifica\u00e7\u00e3o mais amplo. As igrejas hist\u00f3ricas (e tudo o que elas cont\u00eam e significam) s\u00f3 podem perdurar se o Baixo Alentejo conseguir alcan\u00e7ar os seus pr\u00f3prios rumos de sustentabilidade. Cabe tamb\u00e9m aqui um papel de realce ao patrim\u00f3nio cultural, como factor de base para um desenvolvimento equilibrado. Um dos maiores desafios que se colocam aos servi\u00e7os patrimoniais, como o da Diocese de Beja, \u00e9 o de conseguirem fazer com que os bens culturais sob a sua tutela deixem de representar apenas um \u00f3nus, hoje demasiado pesado, em muitos casos, para os recursos existentes, e se transformem em mais-valias, capazes de gerarem desenvolvimento, riqueza, inclus\u00e3o, emprego, qualidade de vida, protec\u00e7\u00e3o do ambiente&#8230; Isto implica, entre muitas outras coisas, a revitaliza\u00e7\u00e3o de monumentos de not\u00e1vel interesse, mas pouco acess\u00edveis, cuja manuten\u00e7\u00e3o se torna cada vez mais \u00e1rdua. A exist\u00eancia de uma programa\u00e7\u00e3o cultural de qualidade pode assumir reflexos importantes neste \u00e2mbito, tendo na m\u00fasica \u2013 e em particular na m\u00fasica sacra e religiosa \u2013 um dos seus ve\u00edculos de elei\u00e7\u00e3o. Atravessamos uma fase paradoxal da vida do pa\u00eds em que a Igreja sente crescente dificuldade em preservar os bens culturais de que \u00e9 propriet\u00e1ria ou administradora mas n\u00e3o consegue articular ainda uma estrat\u00e9gia nacional para fazer face aos in\u00fameros problemas que da\u00ed decorrem, alguns deles com dram\u00e1ticas consequ\u00eancias. As hesita\u00e7\u00f5es do Estado e dos munic\u00edpios em articularem os seus pr\u00f3prios dispositivos e em assumirem as suas pr\u00f3prias responsabilidades, num momento de aperto das contas p\u00fablicas, agravam ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, apesar do patroc\u00ednio garantido pela Concordata entre a Santa S\u00e9 e a Rep\u00fablica Portuguesa aos bens classificados (ou em vias de classifica\u00e7\u00e3o). Face aos embara\u00e7os que afectam as institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas e oficiais, j\u00e1 se percebeu que s\u00f3 a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil, enraizada no cora\u00e7\u00e3o das comunidades, poder\u00e1 evitar a degrada\u00e7\u00e3o ou a perda de muitos valores, mormente de \u00edndole religiosa. A Igreja, por\u00e9m, encontra-se dividida entre o acantonamento e a abertura. O debate sobre a realiza\u00e7\u00e3o de concertos em igrejas, \u00e0 luz das novas orienta\u00e7\u00f5es dimanadas da hierarquia, \u00e9 um sinal angustiante do impasse em que nos encontramos. Muitas foram as portas que se fecharam \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as musicais, mesmo as de car\u00e1cter sagrado ou religioso, em contextos prop\u00edcios \u00e0 interac\u00e7\u00e3o com outros sectores e que deviam ser aproveitados para uma aproxima\u00e7\u00e3o deveras necess\u00e1ria. A quest\u00e3o est\u00e1 longe de ser in\u00f3cua, j\u00e1 que se encontra sobre a mesa n\u00e3o s\u00f3 a fidelidade ao passado, embora em moldes diferentes, mais culturais do que cultuais, mas tamb\u00e9m a necessidade de di\u00e1logo franco com a sociedade, sabendo acolher e valorizar, no momento oportuno, a diferen\u00e7a. Recuar para a sacristia \u00e9 um erro estrat\u00e9gico que sair\u00e1 caro a muitos n\u00edveis. Para grande parte do patrim\u00f3nio cultural religioso poder\u00e1 vir a revelar-se, at\u00e9, fatal. Olhando o mundo a partir deste pequeno-grande territ\u00f3rio de Beja, sentimos que o momento n\u00e3o pode continuar a ser de ego\u00edsmo ou de nostalgia. Pelo contr\u00e1rio, os sinais dos tempos mostram que a partilha e a concerta\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os se imp\u00f5em cada vez mais na estrat\u00e9gia de salvaguarda de um patrim\u00f3nio afinal comum, a cujo destino ningu\u00e9m pode ser indiferente. Esta \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o de que nos orgulhamos. A m\u00fasica, com \u00eanfase para a m\u00fasica sacra e religiosa, assume um papel importante neste \u00e2mbito, constituindo um poderoso instrumento de mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, de comunica\u00e7\u00e3o intercultural, de respeito pelos outros. Quando em algumas partes do pa\u00eds h\u00e1 festivais de tem\u00e1tica sacro-religiosa que foram obrigados a findar por n\u00e3o ser autorizada a utiliza\u00e7\u00e3o de igrejas para os seus concertos, o rumo iniciado com o Festival Terras sem Sombra, no ano de 2002, atrav\u00e9s da parceria entre o Departamento do Patrim\u00f3nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico da Diocese de Beja e a Arte das Musas, no \u00e2mbito de uma s\u00f3lida colabora\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio da Cultura e v\u00e1rios munic\u00edpios, atinge a quarta edi\u00e7\u00e3o. Para o Baixo Alentejo, esta iniciativa constitui a oportunidade de trazer outro alento, de forma itinerante, a um conjunto de monumentos hist\u00f3ricos da maior relev\u00e2ncia patrimonial, alvos de obras de recupera\u00e7\u00e3o, o que vai ao encontro de uma prioridade diocesana e regional. Mas n\u00e3o podemos deixar de sublinhar a deliberada escolha de um repert\u00f3rio que, ao enfatizar o peso do Mediterr\u00e2neo, exalta as ra\u00edzes da toler\u00e2ncia e a confian\u00e7a no futuro. Quando em outras regi\u00f5es de Portugal h\u00e1 portas que se fecham, desejamos ardentemente que as do Baixo Alentejo permane\u00e7am abertas. Ao n\u00e3o irris\u00f3rio de alguns, opomos um sim caloroso. Fazemo-lo com a firme convic\u00e7\u00e3o de que, sob o impulso do Esp\u00edrito, a beleza transfigura o mundo, tornando-o mais solid\u00e1rio, mais acolhedor, mais humano. Esta \u00e9, tamb\u00e9m, a nossa bandeira. <i>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Falc\u00e3o, Director do Departamento do Patrim\u00f3nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico da Diocese de Beja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Alentejo constitui uma not\u00e1vel s\u00edntese do Atl\u00e2ntico e do Mediterr\u00e2nico que encerra em si o melhor destes dois mundos. 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