{"id":28680,"date":"2007-12-11T10:33:22","date_gmt":"2007-12-11T10:33:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/11\/d-manuel-madureira-dias\/"},"modified":"2007-12-11T10:33:22","modified_gmt":"2007-12-11T10:33:22","slug":"d-manuel-madureira-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-manuel-madureira-dias\/","title":{"rendered":"D. Manuel Madureira Dias"},"content":{"rendered":"<p>Era, a nossa festa. Os pobres contentam-se com o pouco que t\u00eam! <!--more--> O Natal era simples, como simples eram as condi\u00e7\u00f5es de vida dos protagonistas que viviam naquelas paragens!  Perdida no ermo do campo, e pendurada sobre o rio Douro, a aldeia onde vivi a minha inf\u00e2ncia, \u00edngreme e de acessos dif\u00edceis, lavava os p\u00e9s nas \u00e1guas do grande rio que corria em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 j\u00e1 progressiva urbe do Porto, galgando os declives de um leito irregular, l\u00e1 desde as bandas de Espanha.  Para ir \u00e0 sede do concelho, s\u00f3 havia transporte duas vezes por semana; para ir a Lamego, sede diocesana, n\u00e3o existia qualquer meio p\u00fablico de locomo\u00e7\u00e3o. Toda a vida de contactos se fazia, na direc\u00e7\u00e3o da cidade do Porto, atrav\u00e9s da \u00abcarreira\u00bb que passava, vinda de Cinf\u00e3es, quatro dias na semana, uma vez por dia.  Existia uma escola prim\u00e1ria que nem todos frequentavam, por n\u00e3o ser obrigat\u00f3rio, e, se algu\u00e9m quisesse estudar mais, teria de sair da terra, porque o liceu mais pr\u00f3ximo era no Porto, embora existisse uma escola industrial a quarenta quil\u00f3metros, mas sem transporte para garantir as liga\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 sua frequ\u00eancia.  Na aldeia existia uma telefonia particular, alimentada a bateria, que, ao Domingo era escutada pelo povo que se aglomerava, para ouvir o programa c\u00f3mico, ao tempo, \u00abO Zequinha e a L\u00e9l\u00e9\u00bb. Jornais di\u00e1rios eram recebidos dois, na loja do Sr. Miranda, onde os mais \u00abcultos\u00bb iam saber das not\u00edcias do pa\u00eds e do mundo. Vivia-se, ent\u00e3o, numa grande ansiedade por saber o que ia acontecendo l\u00e1 para os lados da Europa central, uma vez que se vivia em plena Segunda Guerra Mundial.  N\u00e3o existiam estradas alcatroadas e algumas delas ficavam intransit\u00e1veis, ap\u00f3s qualquer chuvada mais invernosa.  E como era celebrado o Natal, por essas \u00abterras do demo\u00bb, escondidas nas faldas remotas da serra de Montemuro, quase isentas de tr\u00e1fego autom\u00f3vel, por inexist\u00eancia de vias de liga\u00e7\u00e3o?  Como podia ser, dentro destas e de muitas outras limita\u00e7\u00f5es de ordem s\u00f3cio-econ\u00f3mica. Vivia-se do trabalho do campo ou do exerc\u00edcio de algum of\u00edcio de magros rendimentos. Era o caso dos meus pais. No tempo da guerra e do p\u00f3s-guerra, as coisas tornaram-se dif\u00edceis: os alimentos mais essenciais \u00e0 subsist\u00eancia ficaram racionados e reduzidos a um m\u00ednimo prescrito por senhas, atrav\u00e9s das quais se comprava a mercearia e a farinha para o p\u00e3o. Quando essas quantias se tornavam insuficientes, era necess\u00e1rio recorrer ao \u00abmercado negro\u00bb, que se aproveitava da circunst\u00e2ncia, para a especular nos custos do bem que se vendia e comprava. Com todos estes condicionamentos, se celebrava o Natal! Vivido com muita simplicidade, pobreza e isolamento do mundo mais evolu\u00eddo. Mas vivia-se, com aquela poesia pr\u00f3pria da quadra festiva. Nada tinha de especial, mas era uma grande data, apesar da mod\u00e9stia que o envolvia.  Do ponto de vista religioso era t\u00e3o pobre como o pres\u00e9pio de Bel\u00e9m. Missa \u00e0 meia-noite n\u00e3o existia, porque o P\u00e1roco vivia a alguns quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia e n\u00e3o tinha transporte; al\u00e9m disso, no escuro da noite, numa aldeia dispersa e sem luz, n\u00e3o era poss\u00edvel andar pelos caminhos e veredas daqueles campos. A \u00fanica realidade vivida festivamente, como Natal, era a Missa do pr\u00f3prio dia 25, solenizada por uma orquestra, formada por alguns instrumentistas da filarm\u00f3nica da terra, que, para al\u00e9m de cantarem a Missa (em latim), cantavam e tocavam loas ao Menino Deus. Era, a nossa festa. Os pobres contentam-se com o pouco que t\u00eam! Em fam\u00edlia, o mesmo ambiente sadio e simples. No meio das limita\u00e7\u00f5es existentes, sempre se ia economizando alguma coisa para celebrar aquele dia com alguma diferen\u00e7a do quotidiano: economizava-se dinheiro para comprar algo necess\u00e1rio em todos os dias, mas cuja estreia era reservada para o dia de Natal; economizava-se no a\u00e7\u00facar racionado, para se poder cuidar da do\u00e7aria naquela noite de consoada. Nessa refei\u00e7\u00e3o comia-se o que era uso comer-se em qualquer aldeia da regi\u00e3o. O importante, contudo, era o encontro da fam\u00edlia naquele repasto festivo. S\u00f3 o facto da fam\u00edlia se congregar para essa refei\u00e7\u00e3o j\u00e1 marcava o cunho festivo, mesmo que n\u00e3o houvesse grandes e extraordin\u00e1rios sinais festivos pr\u00f3prios dos grandes acontecimentos. Mas, mesmo assim, era Natal! Natal \u00fanico, igual ao qual nunca mais encontrei outro! Fiz a experi\u00eancia da falta deste Natal, assim vivido, no primeiro Natal que passei fora de casa, aos treze anos de idade; senti saudades deste Natal, quando, em 1963, vinte anos depois destes natais, o passei numa aldeia de It\u00e1lia, onde o Natal, sendo Natal, n\u00e3o sabia a Natal!  <i>D. Manuel Madureira Dias, Bispo Em\u00e9rito do Algarve <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era, a nossa festa. 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