{"id":28657,"date":"2007-12-10T13:21:28","date_gmt":"2007-12-10T13:21:28","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/10\/missas-do-parto-preparam-o-natal-na-madeira\/"},"modified":"2007-12-10T13:21:28","modified_gmt":"2007-12-10T13:21:28","slug":"missas-do-parto-preparam-o-natal-na-madeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/missas-do-parto-preparam-o-natal-na-madeira\/","title":{"rendered":"Missas do Parto preparam o Natal na Madeira"},"content":{"rendered":"<p>No Norte de Portugal, nos s\u00e9culos XVIII e XIX, j\u00e1 se celebravam as \u00abNovenas ao Menino Jesus\u00bb, precisamente nas madrugadas dos dias 16 a 24 de Dezembro. Eram Novenas de prepara\u00e7\u00e3o para o Natal, como ali\u00e1s entre n\u00f3s ainda se celebram as Novenas de prepara\u00e7\u00e3o para qualquer festa patronal. Essas novenas j\u00e1 inclu\u00edam Invitat\u00f3rio, invoca\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo, Ladainha de Nossa Senhora, Ant\u00edfona, Jaculat\u00f3rias ao Menino Jesus e medita\u00e7\u00e3o sobre o seu nascimento.  Em Lamego, por exemplo, tamb\u00e9m os rapazes madrugadores andavam pelas ruas, a chamar para a novena, tocando campainhas e cantado estrofes populares adequadas, tal como \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o na Madeira. Estas novenas do Menino Jesus, certamente trazidas para a Madeira pelos primeiros colonizadores, deram origem \u00e0s nossas \u00abMissas do Parto\u00bb. Com efeito, a Igreja Universal celebrava a 17 de Dezembro a festa lit\u00fargica de Nossa Senhora do \u00ab\u00d3\u00bb ou seja a Festa da Expecta\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora, pelo nascimento do seu divino Filho.  A mesma denomina\u00e7\u00e3o de Festa do \u00ab\u00d3\u00bb tem origem nas Ant\u00edfonas de V\u00e9speras do Of\u00edcio Divino que, a partir do dia 17 e at\u00e9 ao 24 come\u00e7am pelo vocativo \u00ab\u00d3\u00bb: \u00ab\u00d3 Sabedoria do Alt\u00edssimo\u2026, \u00d3 Chefe da Casa de Israel\u2026, \u00d3 Rebento da raiz de Jess\u00e9\u2026, \u00d3 Chave da Casa de David\u2026; \u00d3 Emanuel\u2026, \u00d3 Rei das Na\u00e7\u00f5es\u2026, \u00d3 Sol nascente\u2026\u00bb Na sua sensibilidade, racioc\u00ednios e dedu\u00e7\u00f5es, o povo madeirense associou o \u00ab\u00d3\u00bb destas ant\u00edfonas ao estado de gravidez da Virgem Maria, que daria \u00e0 luz o seu divino Filho, ao findar essa semana. Da\u00ed o chamar-se a estas Novenas do Menino Jesus, as \u00abMissas do Parto\u00bb. Pelo menos desde o s\u00e9culo XIX a Senhora do \u00ab\u00d3\u00bb \u00e9 conhecida na Madeira como a \u00abVirgem do Parto\u00bb. \u00c0 Senhora do \u00ab\u00d3\u00bb ou \u00abVirgem do Parto\u00bb, os madeirenses associam tamb\u00e9m o culto \u00e0 Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, tema obrigat\u00f3rio nos cantos das \u00abMissas do Parto\u00bb, assim como tamb\u00e9m a Senhora do Ros\u00e1rio. As \u00abMissas do Parto\u00bb dever\u00e3o come\u00e7ar a ser celebradas a partir do dia 16 de Dezembro com encerramento no dia 24. Assim manda a liturgia cimentada na tradi\u00e7\u00e3o. Outra caracter\u00edstica inerente \u00e0s Missas do Parto, \u00e9 a hora da celebra\u00e7\u00e3o: antes do amanhecer, antes do nascer do Sol, para da\u00ed haurir toda a espiritualidade das mesmas que honram a Virgem Maria, denominada a \u00abAurora\u00bb da Reden\u00e7\u00e3o, aquela que vai dar \u00e0 luz o Sol Divino a toda a humanidade.   <b>Raiz cultural de mais de quatro s\u00e9culos<\/b> A origem dos c\u00e2nticos das \u00abMissa do Parto\u00bb que chegaram at\u00e9 n\u00f3s, continua a ser uma quest\u00e3o delicada ainda n\u00e3o totalmente desvendada por aqueles que se t\u00eam debru\u00e7ado no seu estudo.  O Pe. Pita Ferreira, \u00abO Natal na Madeira\u00bb, edi\u00e7\u00e3o de 1956, afirmava j\u00e1 que \u00abalguns desses versos s\u00e3o antiqu\u00edssimos\u00bb, acrescentando: \u00abjulgo n\u00e3o ser temeridade afirmar que v\u00eam do tempo dos primeiros povoadores da ilha. As ora\u00e7\u00f5es e o catecismo em verso estavam, nessa \u00e9poca, muito em voga. S. Francisco Xavier deitou m\u00e3o deles para converter e baptizar os \u00edndios\u00bb Por sua vez, o Dr. Rufino Silva, no seu livro \u00abC\u00e2nticos Religiosos do Natal Madeirense\u00bb, 1998, escreve que \u00abn\u00e3o sabemos at\u00e9 que ponto s\u00e3o originais da Madeira, os c\u00e2nticos considerados \u00abobrigat\u00f3rios\u00bb nas Missas do Parto, como a \u00abAve-Maria\u00bb, \u00ab\u00d3 Virgem Soberana\u00bb, \u00abSalve-Rainha\u00bb, \u00abSalve Doce Amparo\u00bb, o \u00abRetrato de Nossa Senhora\u00bb, o \u00abPai-Nosso\u00bb, a \u00abConcei\u00e7\u00e3o de Maria\u00bb, \u00abo Bendito ao Sant\u00edssimo Sacramento\u00bb, \u00abMeu Deus que alegria\u00bb. Constata que j\u00e1 eram populares no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, pois aparecem em colect\u00e2neas impressas para uso dos fi\u00e9is, em 1906 e 1907. Segundo afirma, algumas m\u00fasicas aparecem policopiadas numa colect\u00e2nea cuja 1.\u00aa edi\u00e7\u00e3o se presume ser anterior a 1890, e a 2.\u00aa em 1908. Por um lado afirma ter a certeza que esses c\u00e2nticos s\u00e3o centen\u00e1rios; mas \u00abfixar a sua origem desde o per\u00edodo da descoberta da Madeira, a\u00ed tudo se torna obscuro e incerto\u00bb. Por outro lado, afirma que, \u00abda an\u00e1lise textual dos referidos c\u00e2nticos verifica-se que, tanto na forma como no conte\u00fado, apresentam vest\u00edgios das correntes po\u00e9ticas da l\u00edrica tradicional\u00bb. Afirma ainda que \u00abos primeiros povoadores, senhores e colonos, provenientes do norte do Pa\u00eds e das Beiras, trouxeram para a Madeira essas ora\u00e7\u00f5es em verso, assim como autos e pastorelas\u00bb, pr\u00f3prios da \u00e9poca dos descobrimentos. Acrescenta que \u00aboutras influ\u00eancias provenientes de povoadores estrangeiros \u2013 flamengos, italianos e espanh\u00f3is, aos quais se juntaram mouros do norte de \u00c1frica e negros da Guin\u00e9 \u2013 fizeram-se sentir nos c\u00e2nticos religiosos\u00bb. Reconhece ainda que o isolamento da ilha ter\u00e1 contribu\u00eddo para a conserva\u00e7\u00e3o de textos e melodias, com modifica\u00e7\u00f5es que o tempo e uso costumam imprimir. O madeirense, portanto, ter\u00e1 conservado esses textos e melodias, com as modifica\u00e7\u00f5es que se impunham em cada \u00e9poca. E conclui Rufino Silva: \u00abAssim, alguns c\u00e2nticos que chegaram at\u00e9 n\u00f3s, n\u00e3o ser\u00e3o por certo os da \u00e9poca do povoamento, mas ter\u00e3o as suas ra\u00edzes numa viv\u00eancia cultural de mais de quatro s\u00e9culos\u00bb, pois j\u00e1 Gaspar Frutuoso, no seu livro, Saudades das Terra, faz refer\u00eancia \u00e0 actividade musical na Madeira no s\u00e9c. XVI\u00bb.    <b>Da tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 actualidade<\/b> O Padre Pita Ferreira, no seu livro \u00abo Natal na Madeira\u00bb assinala tr\u00eas tempos fortes na viv\u00eancia das \u00abMissas do Parto\u00bb; a v\u00e9spera, a madrugada e a participa\u00e7\u00e3o da missa propriamente dita. Localizada a v\u00e9spera em C\u00e2mara de Lobos, o referido autor descreve-a como uma aut\u00eantica v\u00e9spera de festa patronal, com a salva e a gir\u00e2ndola de fogo ao meio-dia, com a presen\u00e7a da filarm\u00f3nica que toca os hinos aos festeiros e os visita a domic\u00edlio, vivendo essa tarde como um dia de festa, mas dormindo cedo, para poder levantar-se \u00e0s duas da madrugada, com novos toques de filarm\u00f3nica e estoirar de foguet\u00f3rio, acordando o povo que dever\u00e1 dirigir-se, em aut\u00eantica romaria, para a Igreja. O mesmo autor localiza na Ribeira Brava a sua brilhante descri\u00e7\u00e3o desta descida, desde os s\u00edtios mais distantes, a duas ou tr\u00eas horas de caminho. Por isso mesmo o b\u00fazio tocava \u00e0s duas da madrugada, fazendo juntar as pessoas das redondezas que, tocando instrumentos regionais, como b\u00fazios, castanholas, machetes, raj\u00f5es, violas e braguinhas, vai descendo ladeiras e veredas, avan\u00e7ando e engrossando a multid\u00e3o, como um \u00abbando de grilos\u00bb, at\u00e9 \u00e0 Vila, onde \u00abos Senhoras da Vila\u00bb tamb\u00e9m terminam por abrir os olhos.  Todos, ricos e pobres, senhores e plebeus est\u00e3o na Igreja \u00e0s quatro e meia da manh\u00e3, para come\u00e7arem, com todo o calor a cantar o invitat\u00f3rio: \u00abAo Menino nascer \/ que gosto teremos! Oh! quanto felizes \/ Todos n\u00f3s seremos. Anjos e pastores, Vinde em harmonia \/ Louvar o Parto da Virgem Maria\u00bb. Quanto \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o propriamente dita, o referido escritor evoca a tradi\u00e7\u00e3o do Porto Moniz.  Ap\u00f3s a entrada solene na Igreja, o padre, junto dos degraus do altar, entoa o \u00abDeus in adjutorium meum intende\u00bb, que o povo continua: \u00abDomine, ad adjuvandum me festina\u00bb, para logo come\u00e7ar o \u00abInvitat\u00f3rio\u00bb em portugu\u00eas, cantado por toda a gente: \u00ab\u00d3 Meu Menino, \/ \u00f3 Meu Redentor, \/ Meu doce Jesus, \/ Salvai-nos, Senhor\u00bb, que consta de seis estrofes. Segue imediatamente a segunda parte da novena. Enquanto o sacerdote se senta e come\u00e7a a rezar o brevi\u00e1rio, o povo canta sozinho a invoca\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo: \u00abVinde Esp\u00edrito Santo \/ L\u00e1 das celestes alturas, E, da vossa luz um raio,\/ Infundi nas criaturas. Logo canta o Retrato de Nossa Senhora, obrigat\u00f3rio em todas as Missas do Parto, que consta de vinte estrofes. Segue-se depois a Ladainha que termina com a Ant\u00edfona: \u00abSalve, \u00f3 M\u00e3e do Salvador, \/ Brilhante estrela do mar \/ Deste o Salvador ao Mundo \/ Fazei-nos no c\u00e9u entrar\u00bb. Ap\u00f3s a Ladainha cantam ainda seis jaculat\u00f3rias \u00e0 Virgem Maria, sendo a \u00faltima do teor seguinte: \u00abVirgem do Parto, \/ \u00cdnclita Maria, \/ Atendei prop\u00edcia \/ Os devotos deste dia\u00bb. Terminada a novena que todos cantaram a bom cantar, enquanto o padre rezou o brevi\u00e1rio, come\u00e7a ent\u00e3o a missa, onde o Pai-Nosso, a Ave Maria, a Salve Rainha e o Bendito s\u00e3o m\u00fasicas obrigat\u00f3rias. No seu livro \u00abC\u00e2nticos Religiosos do Natal Madeirense\u00bb, Rufino Silva refere ainda que antes da reforma lit\u00fargica conciliar do Vaticano II, o uso do latim obrigava a uma liturgia paralela entre o altar e o povo. Este, que ao longo do ano se mostrava geralmente passivo, gostava de participar activamente e com grande e singular entusiasmo. Como s\u00e3o sabia latim, utilizava o portugu\u00eas, rezando o ter\u00e7o, entoando entre cada mist\u00e9rio, c\u00e2nticos a Nossa Senhora do Parto, da Concei\u00e7\u00e3o e do Ros\u00e1rio, Entretanto, no altar o sacerdote fazia outra coisa, rezando a missa em latim. Com a reforma lit\u00fargica e a introdu\u00e7\u00e3o do vern\u00e1culo nos anos sessenta, os c\u00e2nticos das \u00abMissas do Parto\u00bb ficaram condicionados a determinados momentos da Missa, muito embora ainda se conserve um esquema id\u00eantico da celebra\u00e7\u00e3o: a Novena com o seu invitat\u00f3rio, a invoca\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo, o Retrato de Nossa Senhora, a Ladainha e a Salve-Rainha. Ficam reservados para a Missa o Pai-Nosso, a Ave-Maria, e outros c\u00e2nticos obrigat\u00f3rios. Uma outra quest\u00e3o a ter em conta hoje em dia, \u00e9 o tempo que disp\u00f5em as pessoas para as cerim\u00f3nias religiosas que, regra geral, n\u00e3o devem durar mais que uma hora: \u00e9 o g\u00e9nero de trabalho, \u00e9 a escola, \u00e9 a barraquinha, \u00e9 a transmiss\u00e3o radial, s\u00e3o os transportes, \u00e9 o folguedo, etc. Uma s\u00e9rie de considerandos que se colocam \u00e0 sociedade hodierna para viver a tradi\u00e7\u00e3o, adaptando-a \u00e0 forma de viver do s\u00e9culo presente.  <b>Do s\u00e9culo XIX aos nossos dias<\/b> Os C\u00e2nticos tradicionais das Missas do Parto e Natal na Madeira conheceram divulga\u00e7\u00e3o singular a partir do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX, nomeadamente a partir de 1877, quando o bispo D. Manuel Agostinho Barreto resolveu reformar o Semin\u00e1rio do Funchal, entregando \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o dos padres Lazaristas, sob a direc\u00e7\u00e3o do Pe. Ernesto Schmitz,, que foi Vice-Reitor de 1877 a 1908. As primeiras colect\u00e2neas de textos e melodias tradicionais das Missas do Parto e Natal madeirense at\u00e9 hoje conhecidas, remontam a 1880-90, 1906-1907, 1908, 1918 e 1920. Nesta \u00faltima o autor da letra esconde-se nas iniciais N.A.P., que ningu\u00e9m consegue identificar, e as melodias s\u00e3o quase todas adaptadas de originais franceses e alem\u00e3es. Por isso mesmo, devemos distinguir entre tradicionais, popularizadas e de autores consagrados. Aquelas poder\u00e3o ter vindo dos primeiros povoadores, e estas s\u00e3o constitu\u00eddas por melodias mais aperfei\u00e7oadas, quanto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o, que ca\u00edram bem na alma do povo que as adaptou, como \u00e9 o caso da \u00abVirgem do Parto, \u00d3 Maria\u00bb, cantada no final das celebra\u00e7\u00f5es. A reforma do Semin\u00e1rio teve as sus consequ\u00eancias tamb\u00e9m no campo musical, pois surgiu na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, como bem observa Rufino Silva, \u00abuma pl\u00eaiade de padres-m\u00fasicos, que dinamizaram a m\u00fasica sacra na Madeira\u00bb: Manuel Joaquim Paiva (1867-1935), C\u00f3nego Manuel Mendes Teixeira (1875-1945), Pe. Jos\u00e9 Bibiano da Paix\u00e3o (1886-1925), C\u00f3nego Fernando Menezes Vaz (1884-1954), Pe. Sebasti\u00e3o Antero Gon\u00e7alves (1886-1964), Pe. Antonino C\u00e9sar de Gouveia Valente (1884-1947) Pe. Joaquim Roque Fernandes Dantas, (1905-1996), para s\u00f3 citar os principais e mais antigos, cujas composi\u00e7\u00f5es enriquecem o patrim\u00f3nio musical natal\u00edcio da Madeira, que o nosso povo ainda hoje canta.   <i>Manuel da Gama<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Norte de Portugal, nos s\u00e9culos XVIII e XIX, j\u00e1 se celebravam as \u00abNovenas ao Menino Jesus\u00bb, precisamente nas madrugadas dos dias 16 a 24 de Dezembro. Eram Novenas de prepara\u00e7\u00e3o para o Natal, como ali\u00e1s entre n\u00f3s ainda se celebram as Novenas de prepara\u00e7\u00e3o para qualquer festa patronal. 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