{"id":286310,"date":"2023-06-21T10:44:42","date_gmt":"2023-06-21T09:44:42","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=286310"},"modified":"2023-06-21T10:44:42","modified_gmt":"2023-06-21T09:44:42","slug":"cibercultura-o-fim-das-certezas-seria-inicio-de-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-o-fim-das-certezas-seria-inicio-de-que\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; O fim das certezas seria in\u00edcio de qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>No passado dia 19 de junho, celebrou-se os 400 anos do nascimento de Blaise Pascal e o Papa Francisco escreveu uma Carta Apost\u00f3lica dedicada a este cientista, fil\u00f3sofo e pessoa de f\u00e9. No dia 23 de novembro de 1654, Pascal fez uma experi\u00eancia forte da presen\u00e7a de Deus que a escreveu em poucas palavras num &#8220;Memorial&#8221;. Esse peda\u00e7o de papel haveria de ficar guardado no forro do seu casaco para ser descoberto apenas ap\u00f3s a sua morte. Pascal escreveu \u2014 <em>\u00abDeus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac e Deus de Jacob, n\u00e3o dos fil\u00f3sofos e dos eruditos. Certeza, certeza, sentimento, alegria, paz. Deus de Jesus Cristo\u00bb<\/em> \u2014 Intrigou-me aquele &#8220;certeza, certeza&#8221; porque, depois de ter lido pela escritora Anne Lammot, que a certeza \u00e9 a inimiga da verdade, n\u00e3o a d\u00favida, a &#8220;intelig\u00eancia intuitiva&#8221; que o papa reconhece em Pascal, e que todos n\u00f3s temos, levou-me a questionar se Pascal teria vivido, de facto, uma &#8220;certeza&#8221;. N\u00e3o teria antes vivido uma <em>clareza<\/em>?<\/p>\n<figure id=\"attachment_286311\" aria-describedby=\"caption-attachment-286311\" style=\"width: 509px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/BlaisePascal.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-286311\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/BlaisePascal.jpg\" alt=\"\" width=\"509\" height=\"286\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/BlaisePascal.jpg 600w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/BlaisePascal-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 509px) 100vw, 509px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-286311\" class=\"wp-caption-text\">IV Anivers\u00e1rio do Nascimento de Blaise Pascal<\/figcaption><\/figure>\n<p>A ideia da certeza ser inimiga da verdade, sobretudo em tudo o que diz respeito a Deus, \u00e9 porque o ser humano n\u00e3o possui a capacidade de conhecer Deus, sem que Ele revele o que quiser revelar sobre si mesmo e sobre as realidades sobrenaturais. A certeza pode fechar-nos a algo-mais que Deus queira revelar. Por isso, a f\u00e9 suscita d\u00favidas porque ao mesmo tempo d\u00e1-nos a confian\u00e7a de que o Esp\u00edrito Santo <em>clarifica<\/em>. Mesmo no estudo das realidades naturais, como no caso da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que fa\u00e7o, ningu\u00e9m procura ter a certeza, mas explicar com clareza. A compreens\u00e3o da realidade \u00e9 um processo colectivo e se explicar com clareza, o outro compreende, mas se n\u00e3o for claro no que explico, pode ser um sinal de que eu n\u00e3o compreendo ainda bem o que queria explicar e isso mant\u00e9m-nos humildes relativamente ao que pensamos saber.<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios da nossa cibercultura \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o gerada pelas falsas certezas. Uns est\u00e3o &#8220;certos&#8221; de uma coisa, outros est\u00e3o &#8220;certos&#8221; do contr\u00e1rio, e as pessoas com uma <em>intelig\u00eancia intuitiva<\/em> menos treinada deixam-se influenciar por isso. No casos mais graves, a influ\u00eancia ocorre em detrimento da sua pr\u00f3pria vida, por exemplo, como aconteceu durante a pandemia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vacinas. Por outro lado, a p\u00f3s-verdade ou <em>verdadez<\/em>, como verdade a sentimento, aliena-se da raz\u00e3o e perde-se a oportunidade da <em>clareza<\/em> que me parece atingir-se quando o sentimento\/cora\u00e7\u00e3o se alia \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O &#8220;fim das certezas&#8221; \u00e9 uma express\u00e3o frequentemente usada para descrever situa\u00e7\u00f5es ou per\u00edodos de grande incerteza ou volatilidade. Pode-se referir a situa\u00e7\u00f5es pessoais, pol\u00edticas, econ\u00f3micas ou sociais, entre outras. No contexto cient\u00edfico e filos\u00f3fico, &#8220;O Fim das Certezas&#8221; \u00e9 o t\u00edtulo de um livro escrito pelo f\u00edsico e fil\u00f3sofo da ci\u00eancia Ilya Prigogine. Prigogine, vencedor do pr\u00e9mio Nobel da Qu\u00edmica, \u00e9 conhecido pelo seu trabalho sobre sistemas termodin\u00e2micos longe do equil\u00edbrio. Ele explora a ideia do &#8220;fim das certezas&#8221; para ajudar as pessoas a ultrapassar a f\u00edsica newtoniana (ainda presente na cabe\u00e7a de muitas), que proporciona uma vis\u00e3o determinista do universo, e substitu\u00ed-la por uma vis\u00e3o mais probabil\u00edstica e incerta do mundo, em particular com o advento da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica e da teoria do caos. A incerteza \u00e9 o g\u00e9rmen da clareza porque nos permite explorar o espa\u00e7o de possibilidades de encontrarmos sempre uma explica\u00e7\u00e3o melhor e mais profunda para as realidades naturais e sobrenaturais que fazem parte da nossa vida.<\/p>\n<p>Com os v\u00e1rios e diversos meios que temos de trocar informa\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, esperava que a capacidade de compreender o mundo com maior clareza fosse maior do que realmente \u00e9. O &#8220;fim das certezas&#8221; expressa a sensa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de que as ideias e institui\u00e7\u00f5es que eram anteriormente tomadas como certas, est\u00e3o a ser questionadas ou est\u00e3o a desmoronar-se, seja na pol\u00edtica, na economia, na religi\u00e3o ou na sociedade em geral. Basta olhar para as dificuldades que a Igreja Portuguesa sente e que lemos nos v\u00e1rios textos relacionados com o S\u00ednodo. Parece que o &#8220;fim das certezas&#8221; que t\u00ednhamos \u00e9 o in\u00edcio do drama religioso que vivemos no quotidiano, mas talvez seja algo bem melhor e diferente.<\/p>\n<p>O fim das certezas \u00e9 o in\u00edcio das clarezas. O mundo cibercultural em que vivemos exige uma grande abertura de mente e cora\u00e7\u00e3o. A tens\u00e3o que sentimos prov\u00e9m da velocidade que esperam na nossa resposta, quando o ser humano precisa sempre se um espa\u00e7o-tempo adequado para descobrir a claridade que prov\u00e9m da Voz do Esp\u00edrito Santo. A evoca\u00e7\u00e3o de Pascal &#8220;certeza, certeza&#8221; faz-me pensar as vezes em que vivi experi\u00eancias pr\u00f3ximas da que ele fez. Recordo essas experi\u00eancias como as de uma especial impress\u00e3o da presen\u00e7a de Deus. Uma presen\u00e7a t\u00e3o forte que dentro de mim o sentimento era de uma profunda e alegre &#8220;clareza, clareza&#8221;.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-286310","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/286310","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=286310"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/286310\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=286310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=286310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=286310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}