{"id":285379,"date":"2023-06-12T10:16:35","date_gmt":"2023-06-12T09:16:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=285379"},"modified":"2023-06-12T10:16:35","modified_gmt":"2023-06-12T09:16:35","slug":"anatomia-de-um-best-seller","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/anatomia-de-um-best-seller\/","title":{"rendered":"Anatomia de um best-seller"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. \u00c2ngelo Santos, Diocese de Lamego \u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-285380 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Pe-angelo-Santos-lamego.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>O livro mais vendido de sempre \u00e9 a B\u00edblia. O primeiro incun\u00e1bulo da hist\u00f3ria foi a B\u00edblia. O livro mais traduzido do mundo \u00e9 a B\u00edblia. O livro mais destacado no Kindle, a B\u00edblia. Contudo este artigo n\u00e3o \u00e9 sobre a B\u00edblia, mas \u00e9 sobre outro <em>best-seller<\/em>, o Missal Romano. N\u00e3o \u00e9 um <em>best-seller<\/em> de vendas, mas \u00e9 um livro com uma difus\u00e3o e dispers\u00e3o \u00edmpar na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando era pequeno durante a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia interrogava-me quanto \u00e9 que aquele livro chegava ao final\u2026 quando o padre iria terminar de o ler. Por\u00e9m deixemos as mem\u00f3rias, pois o <em>plafond<\/em> para este artigo \u00e9 restrito. Um ano depois de entrar em vigor a nova edi\u00e7\u00e3o do Missal Romano \u00e9 um momento prop\u00edcio para compreender a g\u00e9nese deste <em>best-seller<\/em> eclesial. Podemos dividir a g\u00e9nese deste livro em quatro fases: gesta\u00e7\u00e3o, miscigena\u00e7\u00e3o, \u201cstandartiza\u00e7\u00e3o\u201d e <em>aggiornamento<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1\u00aa Fase: Gesta\u00e7\u00e3o (sec. VI \u2013 X)<\/strong><\/p>\n<p>A partir do s\u00e9culo VI surgem os livros lit\u00fargicos na ascens\u00e3o da palavra, ou seja, livros para serem usados nas celebra\u00e7\u00f5es. Antes do s\u00e9culo VI \u00e9 uma fase que n\u00e3o abrange este artigo pela raz\u00e3o que n\u00e3o existem propriamente livros lit\u00fargicos. \u00c9 uma fase que possui uma identidade pr\u00f3pria que n\u00e3o corresponde ao objetivo deste artigo. Esta primeira fase podemos chamar a fase dos Sacrament\u00e1rios, foi o livro lit\u00fargico principal e ser\u00e1 o \u201cparente\u201d mais remoto do nosso Missal, permanecendo na linguagem familiar \u00e9 o \u201cav\u00f4\u201d do nosso atual Missal. O Sacrament\u00e1rio \u00e9 um livro que cont\u00eam formas eucol\u00f3gicas para a Eucaristia e os demais sacramentos. Nesta fase existe uma prolifera\u00e7\u00e3o de livros lit\u00fargicos: os lecion\u00e1rios (epistol\u00e1rios e evangeli\u00e1rios), os livros de canto (antifon\u00e1rios\u2026), os <em>ordines romani<\/em> e os martirol\u00f3gicos. Dentro dos sacrament\u00e1rios existem dois grupos principais: o sacrament\u00e1rio gelasiano e o sacrament\u00e1rio gregoriano.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo existe um acontecimento que ir\u00e1 marcar a hist\u00f3ria do nosso Missal Romano. No s\u00e9culo VIII, Carlos Magno (Rei 768-800; Imperador 800-814) solicitou ao Papa Adriano I (772-795) um sacrament\u00e1rio puramente romano. Nesse sentido, o Papa enviou um sacrament\u00e1rio gregoriano (express\u00e3o da liturgia papal) para a corte de Aquisgrano. Por\u00e9m este sacrament\u00e1rio era para uso da liturgia papal, n\u00e3o estando preparado para uso diocesano-paroquial. Consequentemente foi necess\u00e1rio elaborar um suplemento para colmatar as lacunas do sacrament\u00e1rio papal. Com o passar do tempo o suposto sacrament\u00e1rio \u201cpuro\u201d romano vai receber adi\u00e7\u00f5es de outros livros lit\u00fargicos dando origem ao processo de miscigena\u00e7\u00e3o do rito romano com a rito-cultura franco-germ\u00e2nica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2\u00aa Fase: Miscigena\u00e7\u00e3o (sec. XI-XV)\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nesta fase existem dois aspetos fundamentais: consolida\u00e7\u00e3o do processo de miscigena\u00e7\u00e3o ritual e o minimalismo livresco. Durante este per\u00edodo o rito romano \u00e9 express\u00e3o de um rito h\u00edbrido, os livros lit\u00fargicos n\u00e3o s\u00e3o mais \u201cpuros romanos\u201d. Estes livros h\u00edbridos ir\u00e3o emigrar para Roma substituindo os \u201cpuramente\u201d romanos. Nesta \u00e9poca da Idade M\u00e9dia aumenta a mobilidade das pessoas, o aumento da popula\u00e7\u00e3o nas cidades. Neste contexto surgem as ordens medicantes com a sua itiner\u00e2ncia apost\u00f3lica, consequentemente este novo dinamismo vai afetar os livros lit\u00fargicos. Ningu\u00e9m consegue andar com v\u00e1rios livros \u201c\u00e0s costas\u201d, por isso, passamos de v\u00e1rios livros lit\u00fargicos, para somente um \u00fanico livro lit\u00fargico que continha tudo (eucologia, leituras, canto, calend\u00e1rio, rubricas\u2026), o Missal Plen\u00e1rio (\u201cpai\u201d do nosso atual Missal). O Missal plen\u00e1rio \u00e9 produto de uma nova sociedade e de uma nova din\u00e2mica apost\u00f3lica-espiritual. Ganhou-se praticidade pastoral, mas perdeu-se riqueza espiritual. Deste per\u00edodo um Missal bastante importante \u00e9 o <em>Missal Regula<\/em>e (1230) dos franciscanos e a sua adapta\u00e7\u00e3o feita pelo superior dos franciscanos Aim\u00f3n de Faversham (1243). No final desta fase surge o primeiro Missal impresso, o <em>Missale Romanum<\/em> de 1474, que ser\u00e1 a base do futuro Missal de Trento (1570).<\/p>\n<p>O Missal Romano n\u00e3o \u00e9 um livro est\u00e1tico, pelo contr\u00e1rio aplicando as palavras de Pierre Rigoulot sobre o conhecimento humano, mas perfeitamente aplic\u00e1veis \u00e0 hist\u00f3ria do Missal Romano \u201co seu desenvolvimento\u2026 o seu retrocesso ou estagna\u00e7\u00e3o, depende da estrutura social, cultural e pol\u00edtica\u201d e claramente do contexto eclesial.<\/p>\n<p>Tendo em conta as restri\u00e7\u00f5es do <em>plafond <\/em>para o artigo n\u00e3o analisarei as duas fases restantes (\u201cstandartiza\u00e7\u00e3o\u201d e <em>aggiornamento<\/em>), qui\u00e7\u00e1 noutra ocasi\u00e3o se termine esta anatomia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pe. \u00c2ngelo Santos <em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. \u00c2ngelo Santos, Diocese de Lamego 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