{"id":285314,"date":"2023-06-11T09:31:08","date_gmt":"2023-06-11T08:31:08","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=285314"},"modified":"2023-06-10T16:39:26","modified_gmt":"2023-06-10T15:39:26","slug":"portugal-e-um-dever-de-todos-denunciar-e-alertar-presidente-da-confederacao-nacional-de-acao-sobre-trabalho-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-e-um-dever-de-todos-denunciar-e-alertar-presidente-da-confederacao-nacional-de-acao-sobre-trabalho-infantil\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00ab\u00c9 um dever de todos denunciar e alertar\u00bb &#8211; presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de A\u00e7\u00e3o sobre Trabalho Infantil"},"content":{"rendered":"<p><em>Na v\u00e9spera do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia F\u00e1tima Pinto, presidente da CNASTI<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_285250\" aria-describedby=\"caption-attachment-285250\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-285250 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1081\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103326-1536x865.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-285250\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 cerca de um ano, em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a, alertava para a prostitui\u00e7\u00e3o e para a mendicidade como as piores formas de trabalho infantil e motivos de maior preocupa\u00e7\u00e3o das autoridades em Portugal. Este cen\u00e1rio n\u00e3o mudou, entretanto\u2026<\/em><\/p>\n<p>A prostitui\u00e7\u00e3o infantil e a mendicidade s\u00e3o, reconhecidamente, uma realidade que \u00e9 necess\u00e1rio combater em Portugal, uma realidade que, por ser t\u00e3o escondida e ser crime, exige uma maior aten\u00e7\u00e3o, no sentido de se conseguir combater o poss\u00edvel. A reeduca\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente dif\u00edcil, mas precisamos de dar toda a nossa aten\u00e7\u00e3o, n\u00f3s, as autoridades e a sociedade civil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 um problema dif\u00edcil de detetar\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, \u00e0s vezes a sociedade at\u00e9 desconfia, as pessoas percebem que h\u00e1 ali qualquer coisa de estranho, mas n\u00e3o denunciam. E mais vale prevenir que remediar. \u00c9 necess\u00e1rio que todas as pessoas que tenham qualquer desconfian\u00e7a, digam, comuniquem \u00e0 Pol\u00edcia Judici\u00e1ria porque eles t\u00eam especialistas e pessoas preparadas para, de facto, atuar se se confirmarem as suspeitas. As pessoas n\u00e3o devem ter medo de fazer a den\u00fancia, pensar que v\u00e3o ser injustos, que v\u00e3o prejudicar\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o delicada, porque muitas vezes o fen\u00f3meno \u00e9, escondido como diz. Mas sente que falta mais fiscaliza\u00e7\u00e3o e o controlo necess\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o digo isso. Eu acho que o poss\u00edvel est\u00e1 a ser feito, s\u00f3 que, por ser t\u00e3o escondido e t\u00e3o delicado, as pessoas poderiam colaborar mais, assim que que se desconfiasse desta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 um dever c\u00edvico?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um dever de todos denunciar e alertar, porque se h\u00e1 uma desconfian\u00e7a, o melhor a fazer \u00e9 alertar as pessoas competentes para analisar o que se est\u00e1 a passar. N\u00e3o quer dizer que seja verdade, nem que n\u00e3o seja verdade, mas \u00e9 preciso analisar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para al\u00e9m dessa necessidade de refor\u00e7o, de fiscaliza\u00e7\u00e3o, de policiamento, n\u00e3o faltar\u00e1 tamb\u00e9m uma maior aten\u00e7\u00e3o por parte dos pais, dos encarregados de educa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>isso tamb\u00e9m, os pais e os encarregados de educa\u00e7\u00e3o t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de dar aten\u00e7\u00e3o aos seus educandos, mas, \u00e0s vezes as coisas escapam. \u00c0s vezes quem est\u00e1 mais perto \u00e9 aquele que menos v\u00ea\u2026 para educar uma crian\u00e7a \u00e9 preciso uma aldeia, portanto, vamos ser solid\u00e1rios uns com os outros e ajudar a salvaguardar todas as crian\u00e7as a que fazem parte da nossa aldeia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos j\u00e1 de duas situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o delicadas, neste \u00e2mbito do trabalho infantil. Que outras formas s\u00e3o precisas relevar, chamar a aten\u00e7\u00e3o da sociedade?<\/em><\/p>\n<p>Em Portugal, o trabalho tradicional quase \u00e9 considerado erradicado\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m no sentido em que a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais urbana, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. E se as crian\u00e7as est\u00e3o na escola, n\u00e3o podem estar a trabalhar, essa \u00e9 uma realidade. A verdade \u00e9 que, depois, h\u00e1 outras situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o bem aceites, n\u00e3o temos s\u00f3 a prostitui\u00e7\u00e3o e a mendicidade: h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de trabalho infantil que as pessoas aceitam bem, que, de modo geral, n\u00e3o considera sequer uma explora\u00e7\u00e3o de trabalho infantil. No entanto, \u00e9, nomeadamente o trabalho infantil art\u00edstico, o trabalho infantil na moda, o trabalho infantil e a explora\u00e7\u00e3o infantil no desporto.<\/p>\n<p>H\u00e1 crian\u00e7as que s\u00e3o trazidas para Portugal, sobretudo das nossas ex-col\u00f3nias, e chegam c\u00e1. Por motivos alheios, naturalmente, \u00e0 sua vontade, deixam de ser consideradas bons jogadores, bons atletas, s\u00e3o arrumados e as fam\u00edlias &#8211; que muitas vezes v\u00eam com eles &#8211; ficam completamente abandonadas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma crian\u00e7a que fica sem o seu sustento, \u00e9 toda uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 muitas situa\u00e7\u00f5es dessas, conhece casos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es dessas em praticamente todos os clubes, nos principais clubes, aqueles que t\u00eam capacidade de ir buscar crian\u00e7as ao estrangeiro, portanto, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que devem ser trabalhadas, devem ser investigadas. Vemos fam\u00edlias que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o ilegal e, muitas vezes, tem a ver com situa\u00e7\u00f5es dessas, porque ficam completamente abandonadas, ningu\u00e9m se preocupa com elas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sabemos que menores de idade, em clubes de futebol, por vezes come\u00e7am a receber sal\u00e1rios que s\u00e3o superiores at\u00e9 aos dos pais, portanto, isso tamb\u00e9m cria uma situa\u00e7\u00e3o complexa\u2026<\/em><\/p>\n<p>Naturalmente, mas n\u00f3s n\u00e3o podemos trazer uma fam\u00edlia para Portugal e depois fazer de conta que ela n\u00e3o existe. Quem os traz para Portugal tamb\u00e9m tem de assumir algumas responsabilidades, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a traz\u00ea-los e se as coisas correrem bem, muito bem; se correrem mal, n\u00e3o \u00e9 nada connosco. N\u00f3s n\u00e3o podemos trazer fam\u00edlias inteiras e depois abandonar tudo, porque os nossos planos sa\u00edram gorados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Teme que a situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos, com n\u00edveis de infla\u00e7\u00e3o elevados e com muitos trabalhadores a viver em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, possa despertar outras formas de trabalho infantil?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que a pobreza anda sempre de m\u00e3o dada com a explora\u00e7\u00e3o de trabalho das crian\u00e7as. O trabalho infantil n\u00e3o \u00e9 uma realidade est\u00e1tica, a todo o momento, as coisas podem mudar. Naturalmente, numa altura em que o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 cada vez mais abrangente e atinge at\u00e9 categorias profissionais que antes tinham um sal\u00e1rio muito mais razo\u00e1vel, sabendo n\u00f3s que o sal\u00e1rio m\u00ednimo n\u00e3o \u00e9 suficiente para que uma fam\u00edlia tenha uma vida digna, isso preocupa-nos. Temos consci\u00eancia de que h\u00e1 fam\u00edlias que vivem na pobreza, apesar de trabalharem, e que o sal\u00e1rio n\u00e3o chega mesmo ao fim do m\u00eas, portanto, isto \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o constante, para a CNASTI e tem de ser para toda a gente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 justo que uma fam\u00edlia, pai e m\u00e3e, trabalhem e n\u00e3o ganhem o suficiente para alimentar os seus filhos, proporcionar-lhes uma vida digna. \u00c9 uma realidade que tem de preocupar todos, a come\u00e7ar pelas nossas autoridades competentes.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 cada vez mais menores, incluindo crian\u00e7as at\u00e9 aos 13 anos, que come\u00e7am a jogar a dinheiro online. Isso \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Claro. Eu conheci uma crian\u00e7a que me disse que n\u00e3o trabalhava, mas que ganhava muito dinheiro, e eu perguntei-lhe como. Ele disse: \u201ceu jogo todas as noites na internet, aqui sou um desconhecido, mas na Internet sou famoso, porque eu sou um grande jogador\u201d. E fazia-o \u00e0 revelia dos pais? Provavelmente.<\/p>\n<p>Eu disse: n\u00e3o tens idade, como \u00e9 que tu consegues? \u201cTenho o nickname da minha irm\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>E perguntei-lhe se os pais sabiam, se ele tinha consci\u00eancia de que, assim como ganha, tamb\u00e9m pode perder e depois ele ficou a pensar. \u201cAcho que n\u00e3o vou perder\u201d, mas ele n\u00e3o sabe, pode haver um que seja melhor do que ele\u2026 \u201cAh, depois logo vejo, porque eu j\u00e1 ganhei muito dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que isto alerta. N\u00f3s est\u00e1vamos numa assembleia de crian\u00e7as quando esta realidade apareceu, a crian\u00e7a contou&#8230; Sem grandes alaridos, comunicamos \u00e0s professoras, que era preciso avisar os pais, porque isto poderia vir a dar resultados maus. De facto, uma crian\u00e7a jogar na Internet \u00e9 perigoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 um alvo f\u00e1cil de explora\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Claro. Podem deix\u00e1-lo ganhar e depois, de um momento para outro, come\u00e7ar a perder, e ele vai achar que que vai recuperar. Ele n\u00e3o tinha idade para jogar nem para estar na Internet, durante a noite, porque era uma crian\u00e7a de 12, 13 anos, isto n\u00e3o lembra ao diabo, mas a verdade \u00e9 que ele jogava e dizia que tinha muito dinheiro, porque ganhava.<\/p>\n<p>Eu perguntei o que fazia ao dinheiro, ele comprou um computador novo, topo de gama, para poder jogar, para poder ganhar, para poder competir com os outros. E a\u00ed os pais n\u00e3o se apercebiam, porque jogava no quarto durante a noite, de madrugada, todos os dias, para estar em hor\u00e1rios compat\u00edveis com os do estrangeiro.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 uma realidade. N\u00f3s sabemos que, quando aparecem estes jogos que p\u00f5em em risco a vida dos das crian\u00e7as e que as incentivam a fazer coisas que n\u00e3o devem, falamos com os adolescentes e todos eles conhecem os jogos. N\u00f3s, \u00e0s vezes, s\u00f3 conhecemos quando ouvimos falar deles, at\u00e9 na televis\u00e3o, mas eles j\u00e1 os conhecem, portanto, est\u00e3o sempre atentos a todas as novidades. \u00c9 necess\u00e1rio que os pais estejam atentos, que os pais controlem a Internet, que os pais se preocupem e procurem perceber mais do que o que percebem de internet, porque e eles normalmente percebem muito mais do que n\u00f3s, \u00e9 quase intuitivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_285239\" aria-describedby=\"caption-attachment-285239\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103127.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-285239\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20230607_103127-400x225.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-285239\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Estava a retratar uma realidade descoberta em meio escolar. A CNASTI quer refletir sobre a carga hor\u00e1ria das crian\u00e7as?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s queremos refletir sobre a carga hor\u00e1ria, curricular e extracurricular. Porque as crian\u00e7as hoje est\u00e3o em ambiente escolar e extracurricular &#8211; mas sempre controlado por adultos- demasiadas horas, consideramos n\u00f3s. Porque algumas tem um hor\u00e1rio de trabalho, uma vez que o trabalho a escola e os ambientes da forma\u00e7\u00e3o para elas s\u00e3o considerados o seu trabalho, e t\u00eam um hor\u00e1rio de trabalho superior ao dos pais. E isto traz certamente implica\u00e7\u00f5es; algumas ser\u00e3o positivas, outras ser\u00e3o negativas e precisamos de fazer uma avalia\u00e7\u00e3o sobre o impacto que isto tem, de facto depois, na sua forma\u00e7\u00e3o integral, sobre suas capacidades intelectuais, sobre as suas capacidades de socializa\u00e7\u00e3o, sobre o seu isolamento, muitas vezes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Haver\u00e1 falta de tempo, inclusive para brincar? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo para brincar. Uma crian\u00e7a que sai de casa \u00e0s 08h30 para entrar as 09h00 e que sai do Centro de estudos \u00e0s 7 da tarde, quando chega a casa janta e depois est\u00e1 na hora do banhinho e ir para a cama. Portanto, o que que eles v\u00e3o brincar? Qual \u00e9 o espa\u00e7o que eles t\u00eam para inventar, para jogar, para at\u00e9 desenvolver a sua capacidade de motricidade. N\u00e3o t\u00eam. Passam a vida em ambiente escolar ou ambiente de forma\u00e7\u00e3o. Alguns fazem desporto e Isso n\u00e3o tem um especto t\u00e3o negativo, mas muitas vezes aquela capacidade de fazer experi\u00eancias, de inventar, de construir coisas como n\u00f3s faz\u00edamos quando \u00e9ramos mi\u00fados que constru\u00edmos os nossos carrinhos, constru\u00edmos os nossos brinquedos que invent\u00e1vamos que est\u00e1vamos a cozinhar, que invent\u00e1vamos isto e invent\u00e1vamos aquilo; eles n\u00e3o t\u00eam tempo para isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s sabemos que no mundo h\u00e1 muitas crian\u00e7as que n\u00e3o podem ser crian\u00e7as por outros motivos. O Papa Francisco tem chamado aten\u00e7\u00e3o, sobretudo para explora\u00e7\u00e3o que deriva da pobreza, para a falta de prote\u00e7\u00e3o dos mais desprotegidos, dos mais necessitados. A n\u00edvel global, tem se perdido a consci\u00eancia de que o fen\u00f3meno do trabalho infantil ainda \u00e9 uma realidade grave?<\/em><\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o se tem perdido essa consci\u00eancia. Acho que a n\u00edvel mundial h\u00e1 uma consci\u00eancia muito clara de que existe muita explora\u00e7\u00e3o do trabalho infantil a todos os n\u00edveis.\u00a0 Se em Portugal h\u00e1 alguma redu\u00e7\u00e3o, tem havido alguma preocupa\u00e7\u00e3o; a verdade \u00e9 que com a pandemia e com o despoletar da guerra o trabalho infantil, tem aumentado a n\u00edvel global. E tem havido consci\u00eancia disso. E h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande da OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho) em alertar as entidades nacionais dos v\u00e1rios pa\u00edses onde o trabalho infantil recrudesceu no sentido de se combater e de alertar todas as entidades competentes no sentido de se combater o fen\u00f3meno.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que nalguns s\u00edtios tem sido poss\u00edvel. \u00c1frica \u00e9 sempre um Continente onde isso \u00e9 mais dif\u00edcil de combater pelas situa\u00e7\u00f5es que n\u00f3s sabemos de grande pobreza, de guerra, por causa das situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7a. E tamb\u00e9m pelo facto de haver muitos \u00f3rf\u00e3os. Crian\u00e7as que est\u00e3o de facto completamente s\u00f3s e que t\u00eam de sobreviver.\u00a0Mas, acho que h\u00e1 uma consci\u00eancia clara de que todos temos obriga\u00e7\u00e3o de ajudar a combater o trabalho infantil \u00e9 n\u00f3s Portugal, que temos uma experi\u00eancia de combate e at\u00e9 bem-sucedida; temos obriga\u00e7\u00e3o de partilhar esta experi\u00eancia e de ajudar os outros pa\u00edses a combater a sua realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que devemos exigir ao Estado, neste caso a qualquer Estado para proteger as crian\u00e7as?<\/em><\/p>\n<p>Depende do Estado onde n\u00f3s estamos. Se fosse em Portugal, eu diria que t\u00ednhamos direito de exigir tudo.\u00a0Se formos a Mo\u00e7ambique, se formos a um Mali, se formos a um Sud\u00e3o n\u00e3o sei se podemos exigir alguma coisa. Temos \u00e9 que exigir a n\u00f3s mesmos, pelo menos que tentemos ajudar aqueles pa\u00edses a ultrapassar a situa\u00e7\u00e3o de crise e pobreza que est\u00e3o a viver. O que \u00e9 muito complicado, porque n\u00f3s sabemos que a solidariedade Internacional praticamente n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>N\u00f3s ajudamos a resolver coisas pontuais, mas depois uma solidariedade entre os povos, isso \u00e9 diferente porque n\u00e3o \u00e9 consistente aquilo que fazemos. As ajudas que damos n\u00e3o s\u00e3o consistentes de forma a transformar aquela realidade, nem de guerra, nem de pobreza, nem de nada. N\u00e3o ajudamos a transformar nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Uni\u00e3o Europeia tem discutido a diretiva relativa ao dever de dilig\u00eancia das empresas em mat\u00e9ria de sustentabilidade.\u00a0\u00c9 importante que a dimens\u00e3o dos direitos humanos, e particularmente aquilo que temos estado a falar da luta contra o trabalho infantil, seja uma prioridade alargada a toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o, independentemente do pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que sim, mas a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o \u00e9 autoridade nenhuma, porque a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 o pior exemplo que existe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como trata os imigrantes, quando os deixa ficar \u00e0s suas portas e at\u00e9 morrer dentro dos barcos. Isto \u00e9 do maior ego\u00edsmo e da maior desumanidade que se possa considerar. Porque n\u00e3o haver o sentido de que temos de ser solid\u00e1rios, de que temos de salvar uma vida que est\u00e1 em perigo&#8230; quem faz isto n\u00e3o \u00e9 humano, n\u00e3o tem autoridade moral para dizer nada a respeito de ningu\u00e9m. \u00c9 inconceb\u00edvel que se deixem morrer tantas vidas que se ponham pessoas em campos de concentra\u00e7\u00e3o sem as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es e que se permita que tantas crian\u00e7as sejam traficadas, como aquelas que entram na Europa a sem retaguarda familiar.<\/p>\n<p>Portanto, eu n\u00e3o reconhe\u00e7o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia autoridade moral para nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa solidariedade de que falava h\u00e1 pouco passa tamb\u00e9m, se calhar do ponto de vista individual, pelo momento em que por, por exemplo, podemos adquirir produtos a que se pode associar a pr\u00e1tica do trabalho infantil. Falta ainda essa consci\u00eancia de percebermos que um determinado produto veio de um determinado pa\u00eds e que foi fabricado, na sua maioria, por crian\u00e7as?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que falta, mas preocupa-me tamb\u00e9m que haja um grande boicote a produtos que s\u00e3o fabricados por crian\u00e7as e depois n\u00e3o haja a transforma\u00e7\u00e3o nos seus pa\u00edses, no sentido de que os pais ganham o suficiente para que as crian\u00e7as vivam bem. Por exemplo vamos \u00e0 China e n\u00e3o compramos produtos chineses fabricados por crian\u00e7as.\u00a0E os pais ganham o suficiente para que essas crian\u00e7as vivam bem?\u00a0O que \u00e9 que fazemos para que os pais delas ganhem bem?<\/p>\n<p>Tem de haver de facto, a solidariedade Internacional. Tem de haver uma luta e a\u00ed passa tamb\u00e9m pelos sindicatos, pela regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho empresarial, pela desloca\u00e7\u00e3o das empresas que v\u00e3o para o estrangeiro, para explorar o trabalho e a m\u00e3o-de-obra mais barata. Tem de haver, de facto uma homogeneidade em termos de direitos e em termos de sal\u00e1rios no sentido de que quem trabalha de facto usufrua o suficiente para viver bem naqueles pa\u00edses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na v\u00e9spera do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia F\u00e1tima Pinto, presidente da CNASTI<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":285250,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-285314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=285314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285314\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/285250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=285314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=285314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=285314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}