{"id":28528,"date":"2007-12-04T12:05:11","date_gmt":"2007-12-04T12:05:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/12\/04\/salvos-na-esperanca-um-olhar-da-filosofia\/"},"modified":"2007-12-04T12:05:11","modified_gmt":"2007-12-04T12:05:11","slug":"salvos-na-esperanca-um-olhar-da-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/salvos-na-esperanca-um-olhar-da-filosofia\/","title":{"rendered":"Salvos na Esperan\u00e7a: um olhar da Filosofia"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e9culo XX mostra que os sonhos prometeicos, quando desligados de Deus, acabam por se voltar contra os seus autores  <!--more--> \u00c9 significativo que o Papa Bento XVI comece a sua Carta Enc\u00edclica Salvos na Esperan\u00e7a (Spe salvi) com um exemplo de esperan\u00e7a que vem de \u00c1frica: Josefina Bakhita, uma escrava africana, que depois de inenarr\u00e1veis sofrimentos se tornou irm\u00e3 canossiana, e que foi canonizada por Jo\u00e3o Paulo II. Com tal escolha, o Papa afirma a esperan\u00e7a que esse Continente \u00e9 hoje para a Igreja universal. E se olharmos ainda para outros modelos marcantes de esperan\u00e7a crist\u00e3 que, ao longo da Carta, o Papa prop\u00f5e e vai buscar ao Oriente, concretamente ao Vietna-me (o Padre Paulo Le-Bao-Thin, +1957, e o Cardeal Nguyen Van Thuan, 1928-+2002), n\u00e3o se pode deixar de ver nestas escolhas um gesto simb\u00f3lico e um caminho de esperan\u00e7a que o Papa alem\u00e3o indica \u00e0s Igrejas do velho mundo. Contudo, apesar desses exemplos vindos das novas Igrejas do Sul, e \u00e0 semelhan\u00e7a da anterior Carta Enc\u00edclica sobre a virtude teologal da Caridade (Deus caritas est), Spe salvi \u00e9 um documento cons-tru\u00eddo em di\u00e1logo privilegiado com a tradi\u00e7\u00e3o exeg\u00e9tica, teol\u00f3gica e filos\u00f3fica que, historicamente, se desenvolveu nas margens do Mediterr\u00e2neo. Com efeito, a par do forte enraizamento b\u00edblico, quer no Antigo quer no Novo Testamento, especialmente nas cartas paulinas, assume particular destaque o di\u00e1logo e a cr\u00edtica de v\u00e1rias filosofias e ideologias da modernidade ocidental (o cientismo, o idealismo alem\u00e3o, o marxismo, o materialismo, o comunismo, existencialismo, etc.) as quais, em cr\u00edtica cerrada \u00e0 reserva escatol\u00f3gica da esperan\u00e7a crist\u00e3, se erigiriam em medida da esperan\u00e7a humana e assumiram a tarefa de realizar j\u00e1 na terra, quer por via dos progressos cient\u00edficos quer por via da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, aquilo a que Jesus como &#8220;Reino de Deus&#8221;. Assim, por causa desse pesado lastro cultural, filos\u00f3fico e teol\u00f3gico que assume, e que tem tamb\u00e9m na refer\u00eancia aos Padres da Igreja um momento alto (especialmente Santo Agostinho), n\u00e3o admirar\u00e1 se grande parte dos fi\u00e9is leigos, a quem a Enc\u00edclica tamb\u00e9m se dirige, considerar Spe salvi um documento algo dif\u00edcil de ler e de compreender. Uma das ideias importantes que travejam a primeira parte do documento diz respeito \u00e0 novidade da experi\u00eancia crist\u00e3 frente \u00e0s &#8220;religi\u00f5es pol\u00edticas&#8221; (grega e latina) da Antiguidade. Demarcando-se do mito, da astrologia e das religi\u00f5es c\u00f3smicas, e assumindo &#8220;sementes do Verbo&#8221; j\u00e1 presentes na filosofia grega, a experi\u00eancia crist\u00e3 afirma que Deus \u00e9 um ser pessoal que, em Jesus Cristo Ressuscitado, revelou livremente ao homem um projecto de vida eterna. Destinat\u00e1rio dessa revela\u00e7\u00e3o, o homem \u00e9 constitu\u00eddo igualmente como um ser livre e racional na ades\u00e3o a essa esperan\u00e7a. Neste sentido, a experi\u00eancia crist\u00e3 \u00e9 uma aposta na racionalidade e sempre uma aliada desta contra a irracionalidade. A revela\u00e7\u00e3o comporta precisamente como seu termi-nus ad quem a exist\u00eancia de um ser racional capaz de a acolher em liberdade e consci\u00eancia, porque &#8220;um mundo sem liberdade n\u00e3o \u00e9 um mundo bom&#8221; (\u00a730). Mas este inequ\u00edvoco elogio da raz\u00e3o e da liberdade, dirigido aos crist\u00e3os, e em primeiro lugar aos Bispos, resultar\u00e1 mais cred\u00edvel ad extra, i.e., para os n\u00e3o-cat\u00f3licos, se ad intra a Igreja, que no Vaticano II se apresentou &#8220;mestra em humanidade&#8221;, come\u00e7ar ela pr\u00f3pria por praticar essa santa &#8220;liberdade dos Filhos de Deus&#8221;, qual tesouro que transporta em vasos de barro, nas diversas inst\u00e2ncias de servi\u00e7o, de responsabiliza\u00e7\u00e3o, de colegialidade episcopal, etc. A esperan\u00e7a crist\u00e3, por\u00e9m, come\u00e7a por ser n\u00e3o tanto um conjunto de enunciados &#8220;informativos&#8221; acerca de Deus (fides quae) e do destino do homem, mas, na pessoa de Cristo, come\u00e7a a j\u00e1 realizar o que anuncia (dimens\u00e3o &#8220;performativa&#8221; da esperan\u00e7a crist\u00e3 que o Papa sublinha, socorrendo-se de terminologia da filosofia da linguagem), e esta tens\u00e3o entre o &#8216;j\u00e1&#8217; e o &#8216;ainda-n\u00e3o&#8217; leva consigo uma maneira nova de estar no tempo: este \u00e9 menos a inst\u00e2ncia de morte ou de corros\u00e3o c\u00edclica, mas antes &#8220;kair\u00f3s&#8221;, plenitude e &#8220;ocasi\u00e3o oportuna&#8221;, qual instante em que somos abra\u00e7ados e abra\u00e7amos a totalidade do ser, do amor e da alegria. E tal esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 individualista, como se fora mergulho interesseiro e solit\u00e1rio no divino; ao inv\u00e9s, \u00e9 vivida comunitariamente e est\u00e1 animada por um \u00edmpeto positivo de transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Um exemplo disso \u00e9 o elogio do trabalho que, em continuidade com o Paulo da Carta aos Colossenses, encontramos em Agostinho de Hipona e no Ora et labora de Bento de N\u00farsia que pautou a Idade M\u00e9dia. Desde cedo que o Cristianismo se assumiu a constru\u00e7\u00e3o da cidade como a forma dar sentido concreto \u00e0 esperan\u00e7a. Por\u00e9m, esteve sempre consciente de que, conforme a Carta aos Hebreus, &#8220;n\u00e3o temos aqui uma morada permanente&#8221;, mas esperamos Jerusal\u00e9m do alto\u2026 A experi\u00eancia crist\u00e3 de assun\u00e7\u00e3o do mundo jamais imanentizou a escatologia no tempo. Aconteceu que a Modernidade aboliu essa esperan\u00e7a crist\u00e3 e a reserva escatol\u00f3gica que a animava e preferiu simplesmente &#8220;trabalhar&#8221; hic et nunc como forma de realizar hist\u00f3rica, social e politicamente o &#8220;reino de Deus&#8221;. Esqueceu, por\u00e9m, que um &#8220;Reino de Deus&#8221; sem Deus fica sujeito as todas as utopias, manipula\u00e7\u00f5es e perversidades desses que, pretensos detentores de um ponto de vista divino sobre a hist\u00f3ria, n\u00e3o sabem afinal quem \u00e9 homem e desconhecem que ele tem necessidade de Deus como horizonte \u00faltimo da sua esperan\u00e7a. \u00c9 certo que o Papa n\u00e3o deixa de reconhecer validade \u00e0 cr\u00edtica marxista das injusti\u00e7a sociais que haviam roubado a esperan\u00e7a ao proletariado do s\u00e9c. XIX. O problema do marxismo n\u00e3o se encontra do lado do diagn\u00f3stico, mas da solu\u00e7\u00e3o. Assumindo a antropologia agostiniana ? &#8220;Criaste-nos para v\u00f3s e o nosso cora\u00e7\u00e3o anda inquieto at\u00e9 que descanse em v\u00f3s&#8221; (Confiss\u00f5es, I.1.1) ?, o Papa apresenta o homem como um &#8220;desejo de infinito&#8221; e \u00e9 por isso que nenhuma realiza\u00e7\u00e3o humana, por mais grandiosa e importante que seja, pode saciar a inquietude do seu cora\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de que se a modernidade prometeu instaurar, j\u00e1 pela ci\u00eancia j\u00e1 pela pol\u00edtica, o Reino de Deus na terra, o que acabou por nos dar? Nem sequer um reino humano, mesmo que &#8220;demasiado humano&#8221;, mas antes o inumano e projectos opressores do homem concreto, ami\u00fade em nome do &#8220;homem ideal&#8221;. O s\u00e9c. XX est\u00e1 a\u00ed para mostrar como esses sonhos prometeicos, quando desligados de Deus, acabam por se voltar contra os seus autores (como no mito do Golem). O progresso por si s\u00f3 \u00e9 uma categoria amb\u00edgua (T. Adorno), e se o seu ponto alto foi o grito de emancipa\u00e7\u00e3o de Feuerbach &#8220;O homem \u00e9 o Deus do Homem&#8221; (Homo deus homini) como esquecer &#8220;o drama do humanismo ateu&#8221; (H. Lubac) e os resultados tr\u00e1gicos a que conduziu historicamente? Prometeu o c\u00e9u, mas o que resultou foi o horror de duas Guerras Mundiais, o Gulag, etc.. N\u00e3o \u00e9 a ci\u00eancia nem a pol\u00edtica que podem redimir o homem, mas apenas o Amor. Assim, e sem ignorar as \u00e2nsias profundas de onde brotava o moderno desejo de raz\u00e3o e de liberdade, importa repensar os &#8220;lugares de aprendizagem&#8221; da Esperan\u00e7a crist\u00e3, esperan\u00e7a \u00faltima que d\u00e1 sentido \u00faltimo \u00e0s pequenas esperan\u00e7as que alimentam o nosso dia a dia. O primeiro lugar de aprendizagem da esperan\u00e7a, diz-nos o Papa, \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o, porque esta, enquanto espa\u00e7o de rela\u00e7\u00e3o com Deus, \u00e9 tamb\u00e9m uma autognose de si, de conhecimento de si e dos pr\u00f3prios desejos, de den\u00fancia das mentiras que se alapam no fundo do cora\u00e7\u00e3o humano. Desta rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com Deus, brota um olhar clarividente sobre o sentido da ac\u00e7\u00e3o humana ? e a ac\u00e7\u00e3o humana \u00e9 a esperan\u00e7a em acto ? e sobre o sofrimento humano. Tanto os poderes humanos como as suas impot\u00eancias s\u00e3o lugares de aprendizagem da esperan\u00e7a crist\u00e3: daquilo que o homem dever fazer e de que n\u00e3o pode eximir-se e daquilo que tem de aceitar como express\u00e3o da sua finitude, conting\u00eancia ou, por outro lado, da quota-parte de mal que a vontade de cada um introduz no mundo. Face ao sofrimento e ao mal, a esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o so\u00e7obra, antes encontra espa\u00e7o para compreender que n\u00e3o \u00e9 o homem o senhor da Hist\u00f3ria, capaz de fazer as contas finais e proferir um ju\u00edzo terminante, antes o Ju\u00edzo pertence a Outrem. O Papa partilha assim a sua f\u00e9 e a sua esperan\u00e7a de que a &#8220;quest\u00e3o da justi\u00e7a constitui o argumento essencial a favor da f\u00e9 na vida eterna&#8221; (\u00a7 43). Mas injusti\u00e7a na hist\u00f3ria n\u00e3o ter\u00e1 a \u00faltima palavra, sen\u00e3o sob esperan\u00e7a da vinda de Cristo e da nova Vida que Ele inaugurar\u00e1. \u00c9 neste horizonte que Spe salvi acaba revisitando os chamados &#8220;Nov\u00edssimos&#8221; (morte, ju\u00edzo, purgat\u00f3rio, inferno e para\u00edso) no \u00e2mbito de uma renovada teologia da esperan\u00e7a. <i>Jos\u00e9 Rosa &#8211; Professor de Filosofia<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9culo XX mostra que os sonhos prometeicos, quando desligados de Deus, acabam por se voltar contra os seus autores<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,120,237],"class_list":["post-28528","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-africa","tag-bento-xvi","tag-joao-paulo-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28528"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28528\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}