{"id":284930,"date":"2023-06-07T15:56:16","date_gmt":"2023-06-07T14:56:16","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=284930"},"modified":"2023-06-07T16:37:06","modified_gmt":"2023-06-07T15:37:06","slug":"cibercultura-de-olhos-vivos-para-olhos-de-abelha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-de-olhos-vivos-para-olhos-de-abelha\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; De olhos vivos para \u201colhos de abelha\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A pandemia trouxe para a normalidade a possibilidade de muitas pessoas poderem &#8220;participar&#8221; em cerim\u00f3nias religiosas por via digital. Um recente <a href=\"https:\/\/www.pewresearch.org\/religion\/2023\/06\/02\/online-religious-services-appeal-to-many-americans-but-going-in-person-remains-more-popular\/\">relat\u00f3rio<\/a>; da <em>Pew Research Center<\/em> concluiu que nos EUA, cerca de dois ter\u00e7os das pessoas que optam pela via digital est\u00e3o muito satisfeitas com o servi\u00e7o, apesar da participa\u00e7\u00e3o presencial continuar a ser a mais popular. Por\u00e9m, com a emerg\u00eancia de novos produtos de <em>realidade aumentada<\/em>, como o recentemente apresentado <em><a href=\"https:\/\/www.apple.com\/apple-vision-pro\/\">Apple Vision Pro<\/a><\/em>, o impacte desta presen\u00e7a digital poder\u00e1 fazer-se sentir com maior intensidade e ser preocupante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_284931\" aria-describedby=\"caption-attachment-284931\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RealidadeAumentada_DALL-E.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-284931\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RealidadeAumentada_DALL-E.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"920\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RealidadeAumentada_DALL-E.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RealidadeAumentada_DALL-E-289x260.jpg 289w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RealidadeAumentada_DALL-E-768x690.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-284931\" class=\"wp-caption-text\">Imagem gerada pelo DALL-E com prompts de Miguel Pan\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O convite do papa Francisco a sair do sof\u00e1 \u00e9 mais do que n\u00e3o termos medo de sa\u00edrmos da zona de conforto. A interpreta\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o \u00e9, tamb\u00e9m, a de um convite a redescobrirmos o mundo imperfeito \u00e0 nossa volta, cheio de vida f\u00edsica e interac\u00e7\u00f5es reais que geram em n\u00f3s experi\u00eancias sens\u00edveis e mentais que nos transformam interiormente. Mas se colocar uns \u00f3culos especiais por n\u00e3o saber bem o que fazer com 3500 d\u00f3lares, consigo manter-me no meu sof\u00e1, ou estar de p\u00e9 na sala, e ver um mundo completamente diferente \u00e0 minha volta. N\u00e3o me leva a experimentar a brisa ou o odor, nem me d\u00e1 acesso h\u00e1ptico (sensa\u00e7\u00e3o ao toque), mas vejo o mundo \u00e0 minha volta. Por\u00e9m, algu\u00e9m de fora v\u00ea uma pessoa isolada com a cara transformada.<\/p>\n<p>A realidade aumentada adiciona uma camada de informa\u00e7\u00e3o ao mundo que nos circunda. Por\u00e9m, enquanto nenhum de n\u00f3s v\u00ea a sua cara e pode atrav\u00e9s deste tipo de dispositivos ver tudo (e mais alguma coisa) \u00e0 sua volta, os outros v\u00eaem-nos com uns \u00f3culos enormes que transformam a nossa cara e parecemos ter uns &#8220;olhos de abelha&#8221;. N\u00e3o \u00e9 um produto para o qual se dirige o nosso olhar, mas uma &#8220;plataforma&#8221; que determina o que os nossos olhos contemplam. At\u00e9 uma h\u00f3stia suspensa em pleno ar poderia projectar-se no nosso campo de vis\u00e3o tornando a &#8220;vis\u00e3o&#8221; do p\u00e3o transubstanciado pr\u00f3ximo de cada pessoa, mas conseguem imaginar a vis\u00e3o do sacerdote diante da assembleia de crist\u00e3os reunidos? Cada um de n\u00f3s com os &#8220;olhos de abelha&#8221; colocados na cabe\u00e7a. Ou, por outro lado, para qu\u00ea sair de casa e do sof\u00e1, se posso usar o ecr\u00e3 para ter uma experi\u00eancia visual imersiva, como se estivesse no meio da comunidade que celebra a eucaristia, quando, na realidade, estou s\u00f3, sentado no sof\u00e1 e literalmente afastado dos outros. Ali\u00e1s, ser\u00e1 que de tanta realidade aumentada conseguiremos no futuro distinguir o que \u00e9 real do que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Recentemente revi excertos do document\u00e1rio &#8220;O Dilema Social&#8221; da Netflix e notei que o modo como os produtores imaginam um jovem com a sua aten\u00e7\u00e3o consumida pelas redes sociais que procuram manipular o seu comportamento \u00e9 igual \u00e0 experi\u00eancia proporcionada pelo Vision Pro da Apple. A interac\u00e7\u00e3o com a realidade \u00e0 nossa volta n\u00e3o se restringe \u00e0 quantidade de informa\u00e7\u00e3o que conseguimos colocar no nosso campo de vis\u00e3o. Por vezes, aquele olhar para o infinito enquanto pensamos, resulta na inexistente possibilidade de algo poder, digitalmente, captar a nossa aten\u00e7\u00e3o. Um acto contemplativo envolve uma interac\u00e7\u00e3o real entre o nosso corpo e o mundo f\u00edsico que nos rodeia. Por isso, ser\u00e1 que as pessoas imersas cada vez mais em mundos digitalizados perder\u00e3o, gradualmente, no\u00e7\u00e3o do potencial experiencial do mundo real?<\/p>\n<p>Do ponto de vista da produtividade, quando saiu o primeiro filme do &#8220;Homem de Ferro&#8221;, com Tony Stark a criar uma armadura usando realidade aumentada, a possibilidade ficcional do filme continua a ser fascinante e quantas vezes n\u00e3o desejei trabalhar a ci\u00eancia que desenvolvia numa tela infinita que materializasse a minha imagina\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, quando contabilizamos a percentagem de tempo que a promo\u00e7\u00e3o destes produtos dedica \u00e0 produtividade, notamos ser marginal. O caminho da realidade aumentada que est\u00e1 a ser tra\u00e7ado \u00e9 o caminho do consumo, n\u00e3o tanto o da produtividade (apesar da potencialidade). E quem se deixa fascinar pela tecnologia (como eu h\u00e1 cinco ou seis anos) come\u00e7a j\u00e1 a poupar e preparar-se para fazer os maiores sacrif\u00edcios de modo a ter acesso \u00e0 experi\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o espacial atrav\u00e9s da realidade aumentada. \u00c9 isto que nos torna livres? Se um dos desafios \u00e0 psique humana era o excesso de tempo de ecr\u00e3, agora que se avizinha o tempo da multiplica\u00e7\u00e3o de ecr\u00e3s (n\u00e3o dos p\u00e3es) , todo o esfor\u00e7o para controlar melhor esse tempo pode ficar comprometido.<\/p>\n<p>Longe no fundo da Igreja onde habitualmente costumo ficar quando experiencio a Eucaristia, a h\u00f3stia quase n\u00e3o se v\u00ea. E se estiver sem \u00f3culos, por ser m\u00edope, preciso de acreditar que est\u00e1 l\u00e1 porque vejo tudo desfocado. Um ecr\u00e3 digital que coloca uns &#8220;olhos de abelha&#8221; na minha cara poderia corrigir digitalmente as limita\u00e7\u00f5es do meu corpo. \u00c9 uma perspectiva positiva, mas at\u00e9 que ponto ver mal e pouco n\u00e3o far\u00e1 parte da experi\u00eancia eucar\u00edstica? O meu caro amigo jesu\u00edta e professor de filosofia P. Alfredo Dinis tinha uma pala no olho para recuperar de um deslocamento da retina e partilhou-me que, n\u00e3o podendo ver bem para fora, sentia-se convidado a olhar para dentro. Sentimos muito a necessidade de sil\u00eancio auditivo, mas creio avizinharem-se tempos em que come\u00e7aremos a dar valor ao &#8220;sil\u00eancio visual&#8221; que convida a olhar o exterior des-digitalizado e real para reflectir sobre o nosso interior e aquilo que na vida tem real valor. E s\u00f3 conversando sobre estes assuntos poderemos n\u00e3o perder o controlo das nossas escolhas e evitar distrair o cora\u00e7\u00e3o com coisas v\u00e3s e ef\u00e9meras para estarmos atentos \u00e0 Sua Voz que fala atrav\u00e9s da realidade \u00e0 nossa volta.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-284930","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=284930"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284930\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=284930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=284930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=284930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}