{"id":28480,"date":"2007-11-30T11:38:11","date_gmt":"2007-11-30T11:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/11\/30\/spe-salvi\/"},"modified":"2007-11-30T11:38:11","modified_gmt":"2007-11-30T11:38:11","slug":"spe-salvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/spe-salvi\/","title":{"rendered":"Spe Salvi"},"content":{"rendered":"<p>Enc\u00edclica de Bento XVI sobre a Esperan\u00e7a Crist\u00e3 <!--more--> CARTA ENC\u00cdCLICA <i>SPE SALVI<\/i> DO SUMO PONT\u00cdFICE BENTO XVI AOS BISPOS, AOS PRESB\u00cdTEROS E AOS DI\u00c1CONOS, \u00c0S PESSOAS CONSAGRADAS E A TODOS OS FI\u00c9IS LEIGOS <b>SOBRE A ESPERAN\u00c7A CRIST\u00c3<\/b>    <b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> 1. \u201cSPE SALVI facti sumus\u201d \u2013 \u00e9 na esperan\u00e7a que fomos salvos: diz S\u00e3o Paulo aos Romanos e tamb\u00e9m a n\u00f3s (Rm 8,24). A \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d, a salva\u00e7\u00e3o, segundo a f\u00e9 crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 um simples dado de facto. A reden\u00e7\u00e3o \u00e9-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperan\u00e7a, uma esperan\u00e7a fidedigna, gra\u00e7as \u00e0 qual podemos enfrentar o nosso tempo: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for t\u00e3o grande que justifique a canseira do caminho. E imediatamente se levanta a quest\u00e3o: mas de que g\u00e9nero \u00e9 uma tal esperan\u00e7a para poder justificar a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe, n\u00f3s fomos redimidos? E de que tipo de certeza se trata?  <b>A f\u00e9 \u00e9 esperan\u00e7a<\/b> 2. Antes de nos debru\u00e7armos sobre estas quest\u00f5es, hoje particularmente sentidas, devemos escutar com um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o o testemunho da B\u00edblia sobre a esperan\u00e7a. Esta \u00e9, de facto, uma palavra central da f\u00e9 b\u00edblica, a ponto de, em v\u00e1rias passagens, ser poss\u00edvel intercambiar os termos \u201cf\u00e9\u201d e \u201cesperan\u00e7a\u201d. Assim, a Carta aos Hebreus liga estreitamente a \u201cplenitude da f\u00e9\u201d (10,22) com a \u201cimut\u00e1vel profiss\u00e3o da esperan\u00e7a\u201d (10,23). De igual modo, quando a Primeira Carta de Pedro exorta os crist\u00e3os a estarem sempre prontos a responder a prop\u00f3sito do logos \u2013 o sentido e a raz\u00e3o \u2013 da sua esperan\u00e7a (3,15), \u201cesperan\u00e7a\u201d equivale a \u201cf\u00e9\u201d. Qu\u00e3o determinante se revelasse para a consci\u00eancia dos primeiros crist\u00e3os o facto de terem recebido o dom de uma esperan\u00e7a fidedigna, manifesta-se tamb\u00e9m nos textos onde se compara a exist\u00eancia crist\u00e3 com a vida anterior \u00e0 f\u00e9 ou com a situa\u00e7\u00e3o dos adeptos de outras religi\u00f5es. Paulo lembra aos Ef\u00e9sios que, antes do seu encontro com Cristo, estavam \u201csem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo\u201d (Ef 2,12). Naturalmente, ele sabe que eles tinham seguido deuses, que tiveram uma religi\u00e3o, mas os seus deuses revelaram-se discut\u00edveis e, dos seus mitos contradit\u00f3rios, n\u00e3o emanava qualquer esperan\u00e7a. Apesar de terem deuses, estavam \u201csem Deus\u201d e, consequentemente, achavam-se num mundo tenebroso, perante um futuro obscuro. \u201cIn nihil ab nihilo quam cito recidimus\u201d (No nada, do nada, qu\u00e3o cedo reca\u00edmos) [1] diz um epit\u00e1fio daquela \u00e9poca; palavras nas quais aparece, sem rodeios, aquilo a que Paulo alude. Ao mesmo tempo, diz aos Tessalonicenses: n\u00e3o deveis \u201centristecer-vos como os outros que n\u00e3o t\u00eam esperan\u00e7a\u201d (1 Ts 4,13). Aparece aqui tamb\u00e9m como elemento distintivo dos crist\u00e3os o facto de estes terem um futuro: n\u00e3o \u00e9 que conhe\u00e7am em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida n\u00e3o acaba no vazio. Somente quando o futuro \u00e9 certo como realidade positiva, \u00e9 que se torna viv\u00edvel tamb\u00e9m o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo n\u00e3o era apenas uma \u201cboa nova\u201d, ou seja, uma comunica\u00e7\u00e3o de conte\u00fados at\u00e9 ent\u00e3o ignorados. Em linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem crist\u00e3 n\u00e3o era s\u00f3 \u201cinformativa\u201d, mas \u201cperformativa\u201d. Significa isto que o Evangelho n\u00e3o \u00e9 apenas uma comunica\u00e7\u00e3o de realidades que se podem saber, mas uma comunica\u00e7\u00e3o que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperan\u00e7a, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.  3. Por\u00e9m, agora coloca-se a quest\u00e3o: em que consiste esta esperan\u00e7a que, enquanto esperan\u00e7a, \u00e9 \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d? Pois bem, o n\u00facleo da resposta encontra-se no trecho da Carta aos Ef\u00e9sios j\u00e1 citado: os Ef\u00e9sios, antes do encontro com Cristo, estavam sem esperan\u00e7a, porque estavam \u201csem Deus no mundo\u201d. Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperan\u00e7a. A n\u00f3s, que desde sempre convivemos com o conceito crist\u00e3o de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperan\u00e7a que prov\u00e9m do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida. O exemplo de uma santa da nossa \u00e9poca pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II. Nascera por volta de 1869 \u2013 ela mesma n\u00e3o sabia a data precisa \u2013 no Darfur, Sud\u00e3o. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sud\u00e3o. Por \u00faltimo, acabou escrava ao servi\u00e7o da m\u00e3e e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada at\u00e9 ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o c\u00f4nsul Callisto Legnani que, ante a avan\u00e7ada dos mahdistas, voltou para a It\u00e1lia. Aqui, depois de \u201cpatr\u00f5es\u201d t\u00e3o terr\u00edveis que a tiveram como sua propriedade at\u00e9 agora, Bakhita acabou por conhecer um \u201cpatr\u00e3o\u201d totalmente diferente \u2013 no dialecto veneziano que agora tinha aprendido, chamava \u201cparon\u201d ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. At\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 tinha conhecido patr\u00f5es que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hip\u00f3teses, a consideravam uma escrava \u00fatil. Mas agora ouvia dizer que existe um \u201cparon\u201d acima de todos os patr\u00f5es, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor \u00e9 bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor tamb\u00e9m a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Tamb\u00e9m ela era amada, e precisamente pelo \u201cParon\u201d supremo, diante do qual todos os outros patr\u00f5es n\u00e3o passam de miser\u00e1veis servos. Ela era conhecida, amada e esperada. Mais ainda, este Patr\u00e3o tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava \u00e0 espera dela \u201c\u00e0 direita de Deus Pai\u201d. Agora ela tinha \u201cesperan\u00e7a\u201d; j\u00e1 n\u00e3o aquela pequena esperan\u00e7a de achar patr\u00f5es menos cru\u00e9is, mas a grande esperan\u00e7a: eu sou definitivamente amada e aconte\u00e7a o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida \u00e9 boa. Mediante o conhecimento desta esperan\u00e7a, ela estava \u201credimida\u201d, j\u00e1 n\u00e3o se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Ef\u00e9sios que, antes, estavam sem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo: sem esperan\u00e7a porque sem Deus. Por isso, quando quiseram lev\u00e1-la de novo para o Sud\u00e3o, Bakhita negou-se; n\u00e3o estava disposta a deixar-se separar novamente do seu \u201cParon\u201d. A 9 de Janeiro de 1890, foi baptizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunh\u00e3o das m\u00e3os do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Canossianas e desde ent\u00e3o, a par dos servi\u00e7os na sacristia e na portaria do convento, em v\u00e1rias viagens pela It\u00e1lia procurou sobretudo incitar \u00e0 miss\u00e3o: a liberta\u00e7\u00e3o recebida atrav\u00e9s do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estend\u00ea-la, tinha de ser dada tamb\u00e9m a outros, ao maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas. A esperan\u00e7a, que nascera para ela e a \u201credimira\u201d, n\u00e3o podia guard\u00e1-la para si; esta esperan\u00e7a devia chegar a muitos, chegar a todos.  <b>O conceito de esperan\u00e7a baseada sobre a f\u00e9 no Novo Testamento e na Igreja primitiva<\/b> 4. Antes de enfrentar a quest\u00e3o de saber se tamb\u00e9m para n\u00f3s o encontro com aquele Deus que, em Cristo, nos mostrou a sua Face e abriu o seu Cora\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser \u201cperformativo\u201d e n\u00e3o somente \u201cinformativo\u201d, ou seja, se poder\u00e1 transformar a nossa vida a ponto de nos fazer sentir redimidos atrav\u00e9s da esperan\u00e7a que o mesmo exprime, voltemos de novo \u00e0 Igreja primitiva. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil notar como a experi\u00eancia da humilde escrava africana Bakhita foi tamb\u00e9m a experi\u00eancia de muitas pessoas maltratadas e condenadas \u00e0 escravid\u00e3o no tempo do cristianismo nascente. O cristianismo n\u00e3o tinha trazido uma mensagem s\u00f3cio-revolucion\u00e1ria semelhante \u00e0 de Esp\u00e1rtaco que tinha fracassado ap\u00f3s lutas cruentas. Jesus n\u00e3o era Esp\u00e1rtaco, n\u00e3o era um guerreiro em luta por uma liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como Barrab\u00e1s ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus \u2013 Ele mesmo morto na cruz \u2013 tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperan\u00e7a que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que tinha acontecido revela-se, com a m\u00e1xima evid\u00eancia, na Carta de S\u00e3o Paulo a Fil\u00e9mon. Trata-se de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no c\u00e1rcere e entrega ao escravo fugitivo On\u00e9simo para o seu patr\u00e3o \u2013 precisamente Fil\u00e9mon. \u00c9 verdade, Paulo envia de novo o escravo para o seu patr\u00e3o, de quem tinha fugido, e f\u00e1-lo n\u00e3o impondo, mas suplicando: \u201cVenho pedir-te por On\u00e9simo, meu filho, que gerei na pris\u00e3o [&#8230;]. De novo to enviei e tu torna a receb\u00ea-lo, como \u00e0s minhas entranhas [&#8230;]. Talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre, n\u00e3o j\u00e1 como escravo, mas, em vez de escravo, como irm\u00e3o muito amado\u201d (Flm 10-16). Os homens que, segundo o pr\u00f3prio estado civil, se relacionam entre si como patr\u00f5es e escravos, quando se tornaram membros da \u00fanica Igreja passaram as ser entre si irm\u00e3os e irm\u00e3s \u2013 assim se tratavam os crist\u00e3os mutuamente. Em virtude do Baptismo, tinham sido regenerados, tinham bebido do mesmo Esp\u00edrito e recebiam conjuntamente, um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus diz que os crist\u00e3os n\u00e3o t\u00eam aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isto n\u00e3o significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente \u00e9 reconhecida pelos crist\u00e3os como uma sociedade impr\u00f3pria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo \u00e0 qual caminham e que, na sua peregrina\u00e7\u00e3o, \u00e9 antecipada.  5. Devemos acrescentar ainda um outro ponto de vista. A Primeira Carta aos Cor\u00edntios (1,18-31) mostra-nos que uma grande parte dos primeiros crist\u00e3os pertencia \u00e0s classes baixas da sociedade e, por isso mesmo, se sentia livre para a experi\u00eancia da nova esperan\u00e7a, como constat\u00e1mos no exemplo de Bakhita. Por\u00e9m, j\u00e1 desde os come\u00e7os, havia tamb\u00e9m convers\u00f5es nas classes aristocr\u00e1ticas e cultas, visto que tamb\u00e9m estas viviam \u201csem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo\u201d. O mito tinha perdido a sua credibilidade; a religi\u00e3o romana de Estado tinha-se esclerosado em mero cerimonial, que se realizava escrupulosamente, mas reduzido j\u00e1 simplesmente a uma \u201creligi\u00e3o pol\u00edtica\u201d. O racionalismo filos\u00f3fico tinha relegado os deuses para o campo do irreal. O Divino era visto de variados modos nas for\u00e7as c\u00f3smicas, mas um Deus a Quem se podia rezar n\u00e3o existia. Paulo ilustra, de forma absolutamente apropriada, a problem\u00e1tica essencial da religi\u00e3o de ent\u00e3o, quando contrap\u00f5e \u00e0 vida \u201csegundo Cristo\u201d uma vida sob o dom\u00ednio dos \u201celementos do mundo\u201d (Col 2,8). Nesta perspectiva, pode ser esclarecedor um texto de S\u00e3o Greg\u00f3rio Nazianzeno. Diz ele que, no momento em que os magos guiados pela estrela adoraram Cristo, o novo rei, deu-se por encerrada a astrologia, pois agora as estrelas giram segundo a \u00f3rbita determinada por Cristo [2] De facto, nesta cena fica invertida a concep\u00e7\u00e3o do mundo de ent\u00e3o, que hoje, de um modo distinto, aparece de novo florescente. N\u00e3o s\u00e3o os elementos do cosmo, as leis da mat\u00e9ria que, no fim de contas, governam o mundo e o ser humano, mas \u00e9 um Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo; as leis da mat\u00e9ria e da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o a \u00faltima inst\u00e2ncia, mas raz\u00e3o, vontade, amor: uma Pessoa. E se conhecemos esta Pessoa e Ela nos conhece, ent\u00e3o verdadeiramente o poder inexor\u00e1vel dos elementos materiais deixa de ser a \u00faltima inst\u00e2ncia; deix\u00e1mos de ser escravos do universo e das suas leis, ent\u00e3o somos livres. Tal consci\u00eancia impeliu na antiguidade os \u00e2nimos sinceros a indagar. O c\u00e9u n\u00e3o est\u00e1 vazio. A vida n\u00e3o \u00e9 um simples produto das leis e da casualidade da mat\u00e9ria, mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo h\u00e1 uma vontade pessoal, h\u00e1 um Esp\u00edrito que em Jesus Se revelou como Amor.[3]  6. Os sarc\u00f3fagos dos prim\u00f3rdios do cristianismo ilustram visivelmente esta concep\u00e7\u00e3o (com a morte diante dos olhos a quest\u00e3o do significado da vida torna-se inevit\u00e1vel). A figura de Cristo \u00e9 interpretada, nos antigos sarc\u00f3fagos, sobretudo atrav\u00e9s de duas imagens: a do fil\u00f3sofo e a do pastor. Em geral, por filosofia n\u00e3o se entendia ent\u00e3o uma dif\u00edcil disciplina acad\u00e9mica, tal como ela se apresenta hoje. O fil\u00f3sofo era antes aquele que sabia ensinar a arte essencial: a arte de ser rectamente pessoa, a arte de viver e de morrer. Certamente, j\u00e1 h\u00e1 muito tempo que os seres humanos se tinham apercebido de que boa parte dos que circulavam como fil\u00f3sofos, como mestres de vida, n\u00e3o passavam de charlat\u00e3es que com suas palavras granjeavam dinheiro, enquanto sobre a verdadeira vida nada tinham a dizer. Isto era mais uma raz\u00e3o para se procurar o verdadeiro fil\u00f3sofo que soubesse realmente indicar o itiner\u00e1rio da vida. Quase ao fim do s\u00e9culo terceiro, encontramos pela primeira vez em Roma, no sarc\u00f3fago de um menino e no contexto da ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro, a figura de Cristo como o verdadeiro fil\u00f3sofo que, numa m\u00e3o, segura o Evangelho e, na outra, o bast\u00e3o do viandante, pr\u00f3prio do fil\u00f3sofo. Com este bast\u00e3o, Ele vence a morte; o Evangelho traz a verdade que os fil\u00f3sofos peregrinos tinham buscado em v\u00e3o. Nesta imagem, que sucessivamente por um longo per\u00edodo havia de perdurar na arte dos sarc\u00f3fagos, torna-se evidente aquilo que tanto as pessoas cultas como as simples encontravam em Cristo: Ele diz-nos quem \u00e9 na realidade o ser humano e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente humano. Ele indica-nos o caminho, e este caminho \u00e9 a verdade. Ele mesmo \u00e9 simultaneamente um e outra, sendo por isso tamb\u00e9m a vida de que todos n\u00f3s andamos \u00e0 procura. Ele indica ainda o caminho para al\u00e9m da morte; s\u00f3 quem tem a possibilidade de fazer isto \u00e9 um verdadeiro mestre de vida. O mesmo se torna vis\u00edvel na imagem do pastor. Tal como sucedia com a representa\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo, assim tamb\u00e9m na figura do pastor a Igreja primitiva podia apelar-se a modelos existentes da arte romana. Nesta, o pastor era, em geral, express\u00e3o do sonho de uma vida serena e simples de que as pessoas, na confus\u00e3o da grande cidade, sentiam saudade. Agora a imagem era lida no \u00e2mbito de um novo cen\u00e1rio que lhe conferia um conte\u00fado mais profundo: \u201cO Senhor \u00e9 meu pastor, nada me falta [&#8230;] Mesmo que atravesse vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo\u201d (Sal 23[22], 1.4). O verdadeiro pastor \u00e9 Aquele que conhece tamb\u00e9m o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solid\u00e3o, onde ningu\u00e9m me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao atravess\u00e1-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a n\u00f3s agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem. A certeza de que existe Aquele que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu \u201cbast\u00e3o e o seu cajado me conforta\u201d, de modo que \u201cn\u00e3o devo temer nenhum mal\u201d (cf. Sal 23[22],4): esta era a nova \u201cesperan\u00e7a\u201d que surgia na vida dos crentes.  7. Devemos voltar, uma vez mais, ao Novo Testamento. No d\u00e9cimo primeiro cap\u00edtulo da Carta aos Hebreus (v. 1), encontra-se, por assim dizer, uma certa defini\u00e7\u00e3o da f\u00e9 que entrela\u00e7a estreitamente esta virtude com a esperan\u00e7a. \u00c0 volta da palavra central desta frase come\u00e7ou a gerar-se desde a Reforma, uma discuss\u00e3o entre os exegetas, mas que parece hoje encaminhar-se para uma interpreta\u00e7\u00e3o comum. Por enquanto, deixo o termo em quest\u00e3o sem traduzir. A frase soa, pois, assim: \u201cA f\u00e9 \u00e9 hypostasis das coisas que se esperam; prova das coisas que n\u00e3o se v\u00eaem\u201d. Para os Padres e para os te\u00f3logos da Idade M\u00e9dia era claro que a palavra grega hypostasis devia ser traduzida em latim pelo termo substantia. De facto, a tradu\u00e7\u00e3o latina do texto, feita na Igreja antiga, diz: \u201cEst autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium \u2013 a f\u00e9 \u00e9 a \u201csubst\u00e2ncia\u201d das coisas que se esperam; a prova das coisas que n\u00e3o se v\u00eaem\u201d. Tom\u00e1s de Aquino,[4] servindo-se da terminologia da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica em que se encontra, explica: a f\u00e9 \u00e9 um \u201chabitus\u201d, ou seja, uma predisposi\u00e7\u00e3o constante do esp\u00edrito, em virtude do qual a vida eterna tem in\u00edcio em n\u00f3s e a raz\u00e3o \u00e9 levada a consentir naquilo que n\u00e3o v\u00ea. Deste modo, o conceito de \u201csubst\u00e2ncia\u201d \u00e9 modificado para significar que pela f\u00e9, de forma incoativa \u2013 poder\u00edamos dizer \u201cem g\u00e9rmen\u201d e portanto segundo a \u201csubst\u00e2ncia\u201d \u2013 j\u00e1 est\u00e3o presentes em n\u00f3s as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira. E precisamente porque a coisa em si j\u00e1 est\u00e1 presente, esta presen\u00e7a daquilo que h\u00e1-de vir cria tamb\u00e9m certeza: esta \u201ccoisa\u201d que deve vir ainda n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel no mundo externo (n\u00e3o \u201caparece\u201d), mas pelo facto de a trazermos, como realidade incoativa e din\u00e2mica dentro de n\u00f3s, surge j\u00e1 agora uma certa percep\u00e7\u00e3o dela. Para Lutero, que n\u00e3o nutria muita simpatia pela Carta aos Hebreus em si pr\u00f3pria, o conceito de \u201csubst\u00e2ncia\u201d, no contexto da sua vis\u00e3o da f\u00e9, nada significava. Por isso, interpretou o termo hip\u00f3stase\/subst\u00e2ncia n\u00e3o no sentido objectivo (de realidade presente em n\u00f3s), mas no subjectivo, isto \u00e9, como express\u00e3o de uma atitude interior e, consequentemente, teve naturalmente de entender tamb\u00e9m o termo argumentum como uma disposi\u00e7\u00e3o do sujeito. No s\u00e9culo XX, esta interpreta\u00e7\u00e3o imp\u00f4s-se tamb\u00e9m na exegese cat\u00f3lica \u2013 pelo menos na Alemanha \u2013 de modo que a tradu\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica em alem\u00e3o do Novo Testamento, aprovada pelos Bispos diz: \u201cGlaube aber ist: Feststehen in dem, was man erhofft, \u00dcberzeugtsein von dem, was man nicht sieht\u201d (f\u00e9 \u00e9: permanecer firmes naquilo que se espera, estar convencidos daquilo que n\u00e3o se v\u00ea). Em si mesmo, isto n\u00e3o est\u00e1 errado; mas n\u00e3o \u00e9 o sentido do texto, porque o termo grego usado (elenchos) n\u00e3o tem o valor subjectivo de \u201cconvic\u00e7\u00e3o\u201d, mas o valor objectivo de \u201cprova\u201d. Com raz\u00e3o, pois, a recente exegese protestante chegou a uma convic\u00e7\u00e3o diversa: \u201cAgora, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o restam d\u00favidas de que esta interpreta\u00e7\u00e3o protestante, tida como cl\u00e1ssica, \u00e9 insustent\u00e1vel\u201d.[5] A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma inclina\u00e7\u00e3o da pessoa para realidades que h\u00e3o-de vir, mas est\u00e3o ainda totalmente ausentes; ela d\u00e1-nos algo. D\u00e1-nos j\u00e1 agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para n\u00f3s uma \u201cprova\u201d das coisas que ainda n\u00e3o se v\u00eaem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o puro \u201cainda-n\u00e3o\u201d. O facto de este futuro existir, muda o presente; o presente \u00e9 tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras.  8. Esta explica\u00e7\u00e3o fica ainda mais refor\u00e7ada e aplicada \u00e0 vida concreta, se considerarmos o vers\u00edculo 34 do d\u00e9cimo cap\u00edtulo da Carta aos Hebreus que, sob o aspecto da l\u00edngua e do conte\u00fado, tem a ver com esta defini\u00e7\u00e3o de uma f\u00e9 perpassada de esperan\u00e7a e prepara-a. No texto, o autor fala aos crentes que viveram a experi\u00eancia da persegui\u00e7\u00e3o, dizendo-lhes: \u201cN\u00e3o s\u00f3 vos compadecestes dos encarcerados, mas aceitastes com alegria a confisca\u00e7\u00e3o dos vossos bens (hyparchonton \u2013 Vg: bonorum), sabendo que possu\u00eds uma riqueza melhor (hyparxin \u2013 Vg: substantiam) e imperec\u00edvel\u201d. Hyparchonta s\u00e3o as propriedades, aquilo que na vida terrena constitui a sustenta\u00e7\u00e3o, precisamente a base, a \u201csubst\u00e2ncia\u201d da qual se necessita para viver. Esta \u201csubst\u00e2ncia\u201d, a seguran\u00e7a normal para a vida, foi tirada aos crist\u00e3os durante a persegui\u00e7\u00e3o. Eles suportaram-no, porque em todo o caso consideravam transcur\u00e1vel esta subst\u00e2ncia material. Podiam prescindir dela, porque tinham encontrado uma \u201cbase\u201d melhor para a sua exist\u00eancia \u2013 uma base que permanece e que ningu\u00e9m lhes pode tirar. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de ver a liga\u00e7\u00e3o existente entre estas duas esp\u00e9cies de \u201csubst\u00e2ncia\u201d, entre a sustenta\u00e7\u00e3o ou base material e a afirma\u00e7\u00e3o da f\u00e9 como \u201cbase\u201d, como \u201csubst\u00e2ncia\u201d que permanece. A f\u00e9 confere \u00e0 vida uma nova base, um novo fundamento, sobre o qual o ser humano se pode apoiar, e consequentemente, o fundamento habitual, ou seja a confian\u00e7a na riqueza material, relativiza-se. Cria-se uma nova liberdade diante deste fundamento da vida que s\u00f3 aparentemente \u00e9 capaz de sustentar, embora o seu significado normal n\u00e3o seja certamente negado com isso. Esta nova liberdade, a consci\u00eancia da nova \u201csubst\u00e2ncia\u201d que nos foi dada, ficou patente no mart\u00edrio, quando as pessoas se opuseram \u00e0 prepot\u00eancia da ideologia e dos seus \u00f3rg\u00e3os pol\u00edticos e, com a sua morte, renovaram o mundo. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no mart\u00edrio&#8230; Aquela manifestou-se sobretudo nas grandes ren\u00fancias a come\u00e7ar pelos monges da antiguidade at\u00e9 Francisco de Assis e \u00e0s pessoas do nosso tempo que, nos Institutos e Movimentos religiosos actuais, deixaram tudo para levar aos outros a f\u00e9 e o amor de Cristo, para ajudar as pessoas que sofrem no corpo e na alma. Aqui a nova \u201csubst\u00e2ncia\u201d confirmou-se realmente como \u201csubst\u00e2ncia\u201d: da esperan\u00e7a destas pessoas tocadas por Cristo brotou esperan\u00e7a para outros que viviam na escurid\u00e3o e sem esperan\u00e7a. Ficou demonstrado que esta nova vida possui realmente \u201csubst\u00e2ncia\u201d e \u00e9 \u201csubst\u00e2ncia\u201d que suscita vida para os outros. Para n\u00f3s, que vemos tais figuras, este seu actuar e viver \u00e9, de facto, uma \u201cprova\u201d de que as coisas futuras, ou seja, a promessa de Cristo n\u00e3o \u00e9 uma realidade apenas esperada, mas uma verdadeira presen\u00e7a: Ele \u00e9 realmente o \u201cfil\u00f3sofo\u201d e o \u201cpastor\u201d que nos indica o que seja e onde est\u00e1 a vida. 9. Para compreender mais profundamente esta reflex\u00e3o sobre as duas esp\u00e9cies de subst\u00e2ncias &#8211; hypostasis e hyparchonta \u2013 e sobre as duas maneiras de viver que com elas se exprimem, devemos reflectir ainda brevemente sobre duas palavras referentes ao assunto, que se encontram no d\u00e9cimo cap\u00edtulo da Carta aos Hebreus. Trata-se das palavras hypomone (10,36) e hypostole (10,39). Hypomone traduz-se normalmente por \u201cpaci\u00eancia\u201d, perseveran\u00e7a, const\u00e2ncia. Este saber esperar, suportando pacientemente as provas, \u00e9 necess\u00e1rio para o crente poder \u201cobter as coisas prometidas\u201d (cf. 10,36). Na religiosidade do antigo juda\u00edsmo, esta palavra era usada expressamente para a espera de Deus, caracter\u00edstica de Israel, para este perseverar na fidelidade a Deus, na base da certeza da Alian\u00e7a, num mundo que contradiz a Deus. Sendo assim, a palavra indica uma esperan\u00e7a vivida, uma vida baseada na certeza da esperan\u00e7a. No Novo Testamento, esta espera de Deus, este estar da parte de Deus assume um novo significado: \u00e9 que em Cristo, Deus manifestou-Se. Comunicou-nos j\u00e1 a \u201csubst\u00e2ncia\u201d das coisas futuras, e assim a espera de Deus adquire uma nova certeza. \u00c9 espera das coisas futuras a partir de um dom j\u00e1 presente. \u00c9 espera \u2013 na presen\u00e7a de Cristo, isto \u00e9, com Cristo presente \u2013 que se completa no seu Corpo, na perspectiva da sua vinda definitiva. Diversamente, com hypostole, exprime-se o esquivar-se de algu\u00e9m que n\u00e3o ousa dizer, abertamente e com franqueza, a verdade talvez perigosa. Este dissimular por esp\u00edrito de temor diante dos homens, conduz \u00e0 \u201cperdi\u00e7\u00e3o\u201d (Heb 10,39). Pois, \u201cDeus n\u00e3o nos deu um esp\u00edrito de timidez, mas de fortaleza, amor e sabedoria\u201d, l\u00ea-se na Segunda Carta a Tim\u00f3teo (1,7) caracterizando assim, com uma bela express\u00e3o, a atitude fundamental do crist\u00e3o.  <b>A vida eterna \u2013 o que \u00e9?<\/b> 10. At\u00e9 agora estivemos a falar da f\u00e9 e da esperan\u00e7a no Novo Testamento e nos in\u00edcios do cristianismo, mas deixando sempre claro que n\u00e3o se tratava apenas do passado; toda a reflex\u00e3o feita tem a ver com a vida e a morte do ser humano em geral e, portanto, interessa-nos tamb\u00e9m a n\u00f3s, aqui e agora. Chegou o momento, por\u00e9m, de nos colocarmos explicitamente a quest\u00e3o: para n\u00f3s, hoje a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 tamb\u00e9m uma esperan\u00e7a que transforma e sustenta a nossa vida? Para n\u00f3s aquela \u00e9 \u201cperformativa\u201d \u2013 uma mensagem que plasma de modo novo a mesma vida \u2013 ou \u00e9 simplesmente \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d que, entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada por informa\u00e7\u00f5es mais recentes? Na busca de uma resposta, desejo partir da forma cl\u00e1ssica do di\u00e1logo, usado no rito do Baptismo, para exprimir o acolhimento do rec\u00e9m-nascido na comunidade dos crentes e o seu renascimento em Cristo. O sacerdote perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a crian\u00e7a, e prosseguia: \u201cO que \u00e9 que pedis \u00e0 Igreja?\u201d. Resposta: \u201cA f\u00e9\u201d. \u201cE o que \u00e9 que vos d\u00e1 a f\u00e9?\u201d. \u201cA vida eterna\u201d. Como vemos por este di\u00e1logo, os pais pediam para a crian\u00e7a o acesso \u00e0 f\u00e9, a comunh\u00e3o com os crentes, porque viam na f\u00e9 a chave para a \u201cvida eterna\u201d. Com efeito hoje, como sempre, \u00e9 disto que se trata no Baptismo, quando nos tornamos crist\u00e3os: \u00e9 n\u00e3o somente um acto de socializa\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na Igreja. Os pais esperam algo mais para o baptizando: esperam que a f\u00e9 \u2013 de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos \u2013 lhe d\u00ea a vida, a vida eterna. F\u00e9 \u00e9 subst\u00e2ncia da esperan\u00e7a. Aqui, por\u00e9m, surge a pergunta: Queremos n\u00f3s realmente isto: viver eternamente? Hoje, muitas pessoas rejeitam a f\u00e9, talvez simplesmente porque a vida eterna n\u00e3o lhes parece uma coisa desej\u00e1vel. N\u00e3o querem de modo algum a vida eterna, mas a presente; antes, a f\u00e9 na vida eterna parece, para tal fim, um obst\u00e1culo. Continuar a viver eternamente \u2013 sem fim \u2013 parece mais uma condena\u00e7\u00e3o do que um dom. Certamente a morte queria-se adi\u00e1-la o mais poss\u00edvel. Mas, viver sempre, sem um termo, acabaria por ser fastidioso e, em \u00faltima an\u00e1lise, insuport\u00e1vel. \u00c9 isto precisamente que diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambr\u00f3sio na sua elegia pelo irm\u00e3o defunto S\u00e1tiro: \u201cSem d\u00favida, a morte n\u00e3o fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus n\u00e3o instituiu a morte ao princ\u00edpio, mas deu-a como rem\u00e9dio. Condenada pelo pecado a um trabalho cont\u00ednuo e a lamenta\u00e7\u00f5es insuport\u00e1veis, a vida da humanidade come\u00e7ou a ser miser\u00e1vel. Deus teve de p\u00f4r fim a estes males, para que a morte restitu\u00edsse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que ben\u00e9fica, se n\u00e3o fosse promovida pela gra\u00e7a\u201d.[6] Antes, Ambr\u00f3sio tinha dito: \u201cN\u00e3o devemos chorar a morte, que \u00e9 a causa de salva\u00e7\u00e3o universal\u201d[7].  11. Independentemente do que Santo Ambr\u00f3sio quisesse dizer precisamente com estas palavras, \u00e9 certo que a elimina\u00e7\u00e3o da morte ou mesmo o seu adiamento quase ilimitado, deixaria a terra e a humanidade numa condi\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel e nem mesmo prestaria um benef\u00edcio ao indiv\u00edduo. Obviamente h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o na nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma exist\u00eancia. Por um lado, n\u00e3o queremos morrer; sobretudo quem nos ama n\u00e3o quer que morramos. Mas, por outro, tamb\u00e9m n\u00e3o desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com esta perspectiva. Ent\u00e3o, o que \u00e9 que queremos na realidade? Este paradoxo da nossa pr\u00f3pria conduta suscita uma quest\u00e3o mais profunda: o que \u00e9, na verdade, a \u201cvida\u201d? E o que significa realmente \u201ceternidade\u201d? H\u00e1 momentos em que de repente temos a sua percep\u00e7\u00e3o: sim, isto seria precisamente a \u201cvida\u201d verdadeira, assim deveria ser. Em compara\u00e7\u00e3o, aquilo que no dia-a-dia chamamos \u201cvida\u201d, na verdade n\u00e3o o \u00e9. Agostinho, na sua extensa carta sobre a ora\u00e7\u00e3o, dirigida a Proba \u2013 uma vi\u00fava romana rica e m\u00e3e de tr\u00eas c\u00f4nsules \u2013, escreve: no fundo, queremos uma s\u00f3 coisa, \u201ca vida bem-aventurada\u201d, a vida que \u00e9 simplesmente vida, pura \u201cfelicidade\u201d. No fim de contas, nada mais pedimos na ora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 para ela caminhamos; s\u00f3 disto se trata. Por\u00e9m, depois, Agostinho diz tamb\u00e9m: se considerarmos melhor, no fundo n\u00e3o sabemos realmente o que desejamos, o que propriamente queremos. N\u00e3o conhecemos de modo algum esta realidade; mesmo naqueles momentos em que pensamos toc\u00e1-la, n\u00e3o a alcan\u00e7amos realmente. \u201cN\u00e3o sabemos o que conv\u00e9m pedir\u201d \u2013 confessa ele citando S\u00e3o Paulo (Rm 8,26). Sabemos apenas que n\u00e3o \u00e9 isto. Por\u00e9m, no facto de n\u00e3o saber sabemos que esta realidade deve existir. \u201cH\u00e1 em n\u00f3s, por assim dizer, uma douta ignor\u00e2ncia\u201d (docta ignorantia) \u2013 escreve ele. N\u00e3o sabemos realmente o que queremos; n\u00e3o conhecemos esta \u201cvida verdadeira\u201d; e, no entanto, sabemos que deve existir algo que n\u00e3o conhecemos e para isso nos sentimos impelidos.[8]  12. Penso que Agostinho descreve aqui, de modo muito preciso e sempre v\u00e1lido, a situa\u00e7\u00e3o essencial da pessoa humana, uma situa\u00e7\u00e3o donde prov\u00eam todas as suas contradi\u00e7\u00f5es e as suas esperan\u00e7as. De certo modo, desejamos a pr\u00f3pria vida, a vida verdadeira, que depois n\u00e3o seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos. N\u00e3o podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos experimentar ou realizar n\u00e3o \u00e9 aquilo por que anelamos. Esta \u201ccoisa\u201d desconhecida \u00e9 a verdadeira \u201cesperan\u00e7a\u201d que nos impele e o facto de nos ser desconhecida \u00e9, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como tamb\u00e9m de todos os \u00edmpetos positivos ou destruidores para o mundo aut\u00eantico e o ser humano verdadeiro. A palavra \u201cvida eterna\u201d procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente \u00e9 uma express\u00e3o insuficiente, que cria confus\u00e3o. Com efeito, \u201ceterno\u201d suscita em n\u00f3s a ideia do intermin\u00e1vel, e isto nos amedronta; \u201cvida\u201d, faz-nos pensar na exist\u00eancia por n\u00f3s conhecida, que amamos e n\u00e3o queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfa\u00e7\u00f5es, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro n\u00e3o a queremos. A \u00fanica possibilidade que temos \u00e9 procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade n\u00e3o seja uma sucess\u00e3o cont\u00ednua de dias do calend\u00e1rio, mas algo parecido com o instante repleto de satisfa\u00e7\u00e3o, onde a totalidade nos abra\u00e7a e n\u00f3s abra\u00e7amos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo \u2013 o antes e o depois \u2013 j\u00e1 n\u00e3o existe. Podemos somente procurar pensar que este instante \u00e9 a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastid\u00e3o do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de Jo\u00e3o: \u201cEu hei-de ver-vos de novo; e o vosso cora\u00e7\u00e3o alegrar-se-\u00e1 e ningu\u00e9m vos poder\u00e1 tirar a vossa alegria\u201d (16,22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperan\u00e7a crist\u00e3, o que esperamos da f\u00e9, do nosso estar com Cristo.[9]  <b>A esperan\u00e7a crist\u00e3 \u00e9 individualista?<\/b> 13. Ao longo da sua hist\u00f3ria, os crist\u00e3os procuraram traduzir este saber, que desconhece, em figuras ilustrativas, explanando imagens do \u201cc\u00e9u\u201d que ficam sempre aqu\u00e9m daquilo que conhecemos precisamente s\u00f3 por nega\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de um n\u00e3o-conhecimento. Todas estas tentativas de representa\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a deram a muitos, no decorrer dos s\u00e9culos, a coragem de viverem segundo a f\u00e9 e, assim, abandonarem inclusivamente os seus \u201chyparchonta\u201d, os bens materiais para a sua exist\u00eancia. O autor da Carta aos Hebreus, no d\u00e9cimo primeiro cap\u00edtulo, tra\u00e7ou, por assim dizer, uma hist\u00f3ria daqueles que vivem na esperan\u00e7a e da sua condi\u00e7\u00e3o de caminhantes, uma hist\u00f3ria que desde Abel chega at\u00e9 \u00e0 sua \u00e9poca. Contra este tipo de esperan\u00e7a acendeu-se, na idade moderna, uma cr\u00edtica sempre mais dura: tratar-se-ia de puro individualismo, que teria abandonado o mundo \u00e0 sua mis\u00e9ria indo refugiar-se numa salva\u00e7\u00e3o eterna puramente privada. Henry De Lubac, na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 sua obra fundamental Catholicisme. Aspects sociaux du dogme, recolheu algumas vozes caracter\u00edsticas deste tipo, uma das quais merece ser citada: \u201cSer\u00e1 que encontrei a alegria? N\u00e3o&#8230; Encontrei a minha alegria. O que \u00e9 algo terrivelmente diferente&#8230; A alegria de Jesus pode ser individual. Pode pertencer a uma s\u00f3 pessoa, e esta est\u00e1 salva. Est\u00e1 em paz&#8230; agora e para sempre, mas ela s\u00f3. Esta solid\u00e3o na alegria n\u00e3o a perturba. Pelo contr\u00e1rio: ela sente-se precisamente a eleita! Na sua bem-aventuran\u00e7a, atravessa as batalhas com uma rosa na m\u00e3o\u201d.[10]  14. A este respeito, De Lubac, baseando-se na teologia dos Padres em toda a sua amplid\u00e3o, p\u00f4de demonstrar que a salva\u00e7\u00e3o foi sempre considerada como uma realidade comunit\u00e1ria. A mesma Carta aos Hebreus fala de uma \u201ccidade\u201d (cf. 11,10.16; 12,22; 13,14) e, portanto, de uma salva\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Coerentemente, o pecado \u00e9 entendido pelos Padres como destrui\u00e7\u00e3o da unidade do g\u00e9nero humano, como fragmenta\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o. Babel, o lugar da confus\u00e3o das l\u00ednguas e da separa\u00e7\u00e3o, apresenta-se como express\u00e3o daquilo que \u00e9 radicalmente o pecado. Deste modo, a \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d aparece precisamente como a restaura\u00e7\u00e3o da unidade, onde nos encontramos novamente juntos numa uni\u00e3o que se desenha na comunidade mundial dos crentes. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ocuparmo-nos aqui de todos os textos, onde transparece o car\u00e1cter comunit\u00e1rio da esperan\u00e7a. Retomemos a Carta a Proba em que Agostinho tenta ilustrar um pouco esta desconhecida realidade conhecida de que andamos \u00e0 procura. O seu ponto de partida \u00e9 simplesmente a express\u00e3o \u201cvida bem-aventurada [feliz]\u201d. Em seguida cita o Salmo 144 (143), 15: \u201cFeliz o povo cujo Deus \u00e9 o Senhor\u201d. E continua: \u201cPara poder formar parte deste povo e [&#8230;] viver eternamente com Ele, recordemos que \u201co fim dos mandamentos \u00e9 promover a caridade, que procede de um cora\u00e7\u00e3o puro, de uma consci\u00eancia recta e de uma f\u00e9 sincera\u201d (1 Tm 1,5)\u201d.[11] Esta vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende do facto de se estar na uni\u00e3o existencial com um \u201cpovo\u201d e pode realizar-se para cada pessoa somente no \u00e2mbito deste \u201cn\u00f3s\u201d. Aquela pressup\u00f5e, precisamente, o \u00eaxodo da pris\u00e3o do pr\u00f3prio \u201ceu\u201d, pois s\u00f3 na abertura deste sujeito universal \u00e9 que se abre tamb\u00e9m o olhar para a fonte da alegria, para o amor em pessoa, para Deus.  15. Esta vis\u00e3o da \u201cvida bem-aventurada\u201d orientada para a comunidade visa, certamente, algo que est\u00e1 para al\u00e9m do mundo presente, mas \u00e9 precisamente deste modo que ela tem a ver tamb\u00e9m com a edifica\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 segundo formas muito distintas, conforme o contexto hist\u00f3rico e as possibilidades por ele oferecidas ou exclu\u00eddas. No tempo de Agostinho, quando a irrup\u00e7\u00e3o de novos povos amea\u00e7ava aquela coes\u00e3o do mundo que dava uma certa garantia de direito e de vida numa comunidade jur\u00eddica, tratava-se de fortalecer os fundamentos realmente basilares desta comunidade de vida e de paz, para poder sobreviver no meio da transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Deixando de lado outros casos, procuremos lan\u00e7ar um olhar sobre um momento da Idade M\u00e9dia, emblem\u00e1tico sob determinados aspectos. Na consci\u00eancia comum, os mosteiros eram vistos como os lugares da fuga do mundo (\u201ccontemptus mundi\u201d) e do subtrair-se \u00e0 responsabilidade pelo mundo na procura da salva\u00e7\u00e3o privada. Bernardo de Claraval, que, com a sua Ordem reformada, trouxe uma multid\u00e3o de jovens para os mosteiros, tinha a este respeito uma vis\u00e3o muito distinta. Na sua opini\u00e3o, os monges desempenham uma tarefa para bem de toda a Igreja e, por conseguinte, tamb\u00e9m de todo o mundo. Com muitas imagens, ele ilustra a responsabilidade dos monges pelo organismo inteiro da Igreja, antes, pela humanidade; aplica a eles esta frase do Pseudo-Rufino: \u201cO g\u00e9nero humano vive gra\u00e7as a poucos; se estes n\u00e3o existissem, o mundo pereceria&#8230;\u201d.[12] Os contemplativos (contemplantes) devem tornar-se trabalhadores agr\u00edcolas (laborantes) \u2013 diz ele. A nobreza do trabalho, que o cristianismo herdou do juda\u00edsmo, estava patente nas regras mon\u00e1sticas de Agostinho e de Bento. Bernardo retoma este conceito. Os jovens nobres que aflu\u00edam aos seus mosteiros deviam submeter-se ao trabalho manual. \u00c9 verdade que Bernardo diz explicitamente que nem mesmo o mosteiro pode restabelecer o Para\u00edso; mas defende que aquele deve, como lugar de amanho manual e espiritual, preparar o novo Para\u00edso. O terreno bravio de um bosque torna-se f\u00e9rtil, precisamente quando, ao mesmo tempo, se deitam abaixo as \u00e1rvores da soberba, se extirpa o que de bravio cresce nas almas e se prepara assim o terreno onde possa prosperar p\u00e3o para o corpo e para a alma.[13] Por acaso, olhando precisamente a hist\u00f3ria actual, n\u00e3o se constata novamente que nenhuma estrutura\u00e7\u00e3o positiva do mundo \u00e9 poss\u00edvel nos lugares onde as almas se brutalizam?  <b>A transforma\u00e7\u00e3o da f\u00e9-esperan\u00e7a crist\u00e3 no tempo moderno<\/b> 16. Como p\u00f4de desenvolver-se a ideia de que a mensagem de Jesus \u00e9 estritamente individualista e visa apenas o indiv\u00edduo? Como \u00e9 que se chegou a interpretar a \u201csalva\u00e7\u00e3o da alma\u201d como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca ego\u00edsta da salva\u00e7\u00e3o que se recusa a servir os outros? Para encontrar uma resposta \u00e0 quest\u00e3o, devemos lan\u00e7ar um olhar sobre as componentes fundamentais do tempo moderno. Estas aparecem, com particular clareza, em Francisco Bacon. Que uma nova \u00e9poca tenha surgido \u2013 gra\u00e7as \u00e0 descoberta da Am\u00e9rica e \u00e0s novas conquistas t\u00e9cnicas que permitiram este desenvolvimento \u2013 \u00e9 um dado fora de discuss\u00e3o. Mas, sobre o que \u00e9 que se baseia esta mudan\u00e7a epocal? \u00c9 a nova correla\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia e m\u00e9todo que coloca o ser humano em condi\u00e7\u00f5es de chegar a uma interpreta\u00e7\u00e3o da natureza conforme \u00e0s suas leis e, deste modo, conseguir finalmente \u201ca vit\u00f3ria da arte sobre a natureza\u201d (victoria cursus artis super naturam).[14] A novidade \u2013 conforme a vis\u00e3o de Bacon \u2013 est\u00e1 numa nova correla\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e pr\u00e1tica. Isto foi depois aplicado tamb\u00e9m teologicamente: esta nova correla\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e pr\u00e1tica significaria que o dom\u00ednio sobre a cria\u00e7\u00e3o, dado ao ser humano por Deus e perdido no pecado original, ficaria restabelecido.[15]  17. Quem l\u00ea estas afirma\u00e7\u00f5es e nelas reflecte com aten\u00e7\u00e3o, reconhece uma transi\u00e7\u00e3o desconcertante: at\u00e9 ent\u00e3o a recupera\u00e7\u00e3o daquilo que o homem e a mulher, expulsos do para\u00edso terrestre, tinham perdido esperava-se da f\u00e9 em Jesus Cristo, e nisto se via a \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d. Agora, esta \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d, a restaura\u00e7\u00e3o do \u201cpara\u00edso\u201d perdido, j\u00e1 n\u00e3o se espera da f\u00e9, mas da liga\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-descoberta entre ci\u00eancia e pr\u00e1tica. Com isto, n\u00e3o \u00e9 que se negue simplesmente a f\u00e9; mas, esta acaba deslocada para outro n\u00edvel \u2013 o das coisas somente privadas e ultraterrestres \u2013 e, simultaneamente, torna-se de algum modo irrelevante para o mundo. Esta vis\u00e3o program\u00e1tica determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a actual crise da f\u00e9 que, concretamente, \u00e9 sobretudo uma crise da esperan\u00e7a crist\u00e3. Assim tamb\u00e9m a esperan\u00e7a, segundo Bacon, ganha uma nova forma. Agora chama-se f\u00e9 no progresso. Com efeito, para Bacon, resulta claro que os descobrimentos e as recentes inven\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas um come\u00e7o e que, gra\u00e7as \u00e0 sinergia entre ci\u00eancia e pr\u00e1tica, seguir-se-\u00e3o descobertas completamente novas, surgir\u00e1 um mundo totalmente novo, o reino do ser humano. [16] Nesta linha, apresentou um panorama das inven\u00e7\u00f5es previs\u00edveis, chegando ao avi\u00e3o e ao submarino. Ao longo do sucessivo desenvolvimento da ideologia do progresso, a alegria pelos avan\u00e7os palp\u00e1veis das potencialidades humanas permanece uma confirma\u00e7\u00e3o constante da f\u00e9 no progresso enquanto tal.  18. Simultaneamente, h\u00e1 duas categorias que penetram sempre mais no centro da ideia de progresso: raz\u00e3o e liberdade. Aquele \u00e9 sobretudo um progresso no crescente dom\u00ednio da raz\u00e3o, sendo esta considerada obviamente um poder do bem e para o bem. O progresso \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o de todas as depend\u00eancias; \u00e9 avan\u00e7o para a liberdade perfeita. Tamb\u00e9m a liberdade \u00e9 vista s\u00f3 como promessa, na qual a pessoa humana se realiza rumo \u00e0 plenitude. Em ambos os conceitos \u2013 liberdade e raz\u00e3o \u2013 est\u00e1 presente um aspecto pol\u00edtico. O reino da raz\u00e3o, de facto, \u00e9 aguardado como a nova condi\u00e7\u00e3o da humanidade feita totalmente livre. Todavia, as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas deste reino da raz\u00e3o e da liberdade aparecem, \u00e0 primeira vista, pouco definidas. Raz\u00e3o e liberdade parecem garantir por si mesmas, em virtude da sua intr\u00ednseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita. Nos dois conceitos-chave de \u201craz\u00e3o\u201d e \u201cliberdade\u201d, tacitamente o pensamento coloca-se sempre em contraste com os v\u00ednculos da f\u00e9 e da Igreja, como tamb\u00e9m com os v\u00ednculos dos ordenamentos estatais de ent\u00e3o. Por isso, ambos os conceitos trazem em si um potencial revolucion\u00e1rio de enorme for\u00e7a explosiva.  19. Temos de lan\u00e7ar brevemente um olhar sobre duas etapas essenciais da concretiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desta esperan\u00e7a, porque s\u00e3o de grande import\u00e2ncia para o caminho da esperan\u00e7a crist\u00e3, para a sua compreens\u00e3o e persist\u00eancia. H\u00e1, antes de mais nada, a Revolu\u00e7\u00e3o francesa como tentativa de instaurar o dom\u00ednio da raz\u00e3o e da liberdade agora tamb\u00e9m de modo politicamente real. Inicialmente, a Europa do Iluminismo contemplou fascinada estes acontecimentos, mas depois, \u00e0 vista da sua evolu\u00e7\u00e3o, teve de reflectir de modo novo sobre raz\u00e3o e liberdade. Significativos destas duas fases de recep\u00e7\u00e3o do que acontecera em Fran\u00e7a s\u00e3o dois escritos de Emanuel Kant, nos quais ele reflecte sobre os acontecimentos. Em 1792, escreve a obra Der Sieg des guten Prinzips \u00fcber das b\u00f6se und die Gr\u00fcndung eines Reichs Gottes auf Erden (A vit\u00f3ria do princ\u00edpio bom sobre o princ\u00edpio mau e a constitui\u00e7\u00e3o de um reino de Deus sobre a terra). Nela afirma: \u201cA passagem gradual da f\u00e9 eclesi\u00e1stica ao dom\u00ednio exclusivo da pura f\u00e9 religiosa constitui a aproxima\u00e7\u00e3o do reino de Deus\u201d.[17] Diz tamb\u00e9m que as revolu\u00e7\u00f5es podem apressar os tempos desta passagem da f\u00e9 eclesi\u00e1stica \u00e0 f\u00e9 racional. O \u201creino de Deus\u201d, de que falara Jesus, recebeu aqui uma nova defini\u00e7\u00e3o e assumiu tamb\u00e9m uma nova presen\u00e7a; existe, por assim dizer, uma nova \u201cexpectativa imediata\u201d: o \u201creino de Deus\u201d chega onde a \u201cf\u00e9 eclesi\u00e1stica\u201d \u00e9 superada e substitu\u00edda pela \u201cf\u00e9 religiosa\u201d, ou seja, pela mera f\u00e9 racional. Em 1795, no livro Das Ende aller Dinge (O fim de todas as coisas), aparece uma imagem diferente. Agora, Kant toma em considera\u00e7\u00e3o a possibilidade de que, a par do fim natural de todas as coisas, se verifique tamb\u00e9m um fim contr\u00e1rio \u00e0 natureza, perverso. Escreve a tal respeito: \u201cSe acontecesse um dia chegar o cristianismo a n\u00e3o ser mais digno de amor, ent\u00e3o o pensamento dominante dos homens deveria tomar a forma de rejei\u00e7\u00e3o e de oposi\u00e7\u00e3o contra ele; e o anticristo [&#8230;] inauguraria o seu regime, mesmo que breve, (baseado presumivelmente sobre o medo e o ego\u00edsmo). Em seguida, por\u00e9m, visto que o cristianismo, embora destinado a ser a religi\u00e3o universal, de facto n\u00e3o teria sido ajudado pelo destino a s\u00ea-lo, poderia verificar-se, sob o aspecto moral, o fim (perverso) de todas as coisas\u201d.[18]  20. O s\u00e9culo XIX n\u00e3o perdeu a sua f\u00e9 no progresso como nova forma da esperan\u00e7a humana e continuou a considerar raz\u00e3o e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperan\u00e7a. Todavia a evolu\u00e7\u00e3o sempre mais r\u00e1pida do progresso t\u00e9cnico e a industrializa\u00e7\u00e3o com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situa\u00e7\u00e3o social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da ind\u00fastria e o chamado \u201cproletariado industrial\u201d, cujas terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de vida foram ilustradas de modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar claro que isto n\u00e3o pode continuar; \u00e9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a. Mas a mudan\u00e7a haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da revolu\u00e7\u00e3o burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolu\u00e7\u00e3o: a prolet\u00e1ria. O progresso n\u00e3o podia limitar-se a avan\u00e7ar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucion\u00e1rio. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da hist\u00f3ria rumo \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, rumo \u00e0quilo que Kant tinha qualificado como o \u201creino de Deus\u201d. Tendo-se dilu\u00edda a verdade do al\u00e9m, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aqu\u00e9m. A cr\u00edtica do c\u00e9u transforma-se na cr\u00edtica da terra, a cr\u00edtica da teologia na cr\u00edtica da pol\u00edtica. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, j\u00e1 n\u00e3o vem simplesmente da ci\u00eancia, mas da pol\u00edtica \u2013 de uma pol\u00edtica pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da hist\u00f3ria e da sociedade, indicando assim a estrada da revolu\u00e7\u00e3o, da mudan\u00e7a de todas as coisas. Com pontual precis\u00e3o, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situa\u00e7\u00e3o do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade anal\u00edtica, as vias para a revolu\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o s\u00f3 teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, tamb\u00e9m a iniciou concretamente. A sua promessa, gra\u00e7as \u00e0 agudeza das an\u00e1lises e \u00e0 clara indica\u00e7\u00e3o dos instrumentos para a mudan\u00e7a radical, fascinou e n\u00e3o cessa de fascinar ainda hoje. E a revolu\u00e7\u00e3o deu-se, depois, na forma mais radical na R\u00fassia.  21. Com a sua vit\u00f3ria, por\u00e9m, tornou-se evidente tamb\u00e9m o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactid\u00e3o o modo como realizar o derrubamento. Mas, n\u00e3o nos disse, como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropria\u00e7\u00e3o da classe dominante, a queda do poder pol\u00edtico e a socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, ter-se-ia realizado a Nova Jerusal\u00e9m. Com efeito, ent\u00e3o ficariam anuladas todas as contradi\u00e7\u00f5es; o ser humano e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si pr\u00f3prios. Ent\u00e3o tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolu\u00e7\u00e3o, Lenine deu-se conta de que, nos escritos do mestre, n\u00e3o se achava qualquer indica\u00e7\u00e3o sobre o modo como proceder. \u00c9 verdade que ele tinha falado da fase interm\u00e9dia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, por\u00e9m, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta \u201cfase interm\u00e9dia\u201d conhecemo-la muito bem e sabemos tamb\u00e9m como depois evoluiu, n\u00e3o dando \u00e0 luz o mundo sadio, mas deixando atr\u00e1s de si uma destrui\u00e7\u00e3o desoladora. Marx n\u00e3o falhou s\u00f3 ao deixar de idealizar os ordenamentos necess\u00e1rios para o mundo novo; com efeito, j\u00e1 n\u00e3o deveria haver mais necessidade deles. O facto de n\u00e3o dizer nada sobre isso \u00e9 l\u00f3gica consequ\u00eancia da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o ser humano permanece sempre humano. Esqueceu o ser humano e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro \u00e9 o materialismo: de facto, a pessoa humana n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o produto de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas nem se pode cur\u00e1-lo apenas do exterior criando condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas favor\u00e1veis.  22. Encontramo-nos assim novamente diante da quest\u00e3o: o que \u00e9 que podemos esperar? \u00c9 necess\u00e1ria uma autocr\u00edtica da idade moderna feita em di\u00e1logo com o cristianismo e com a sua concep\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a. Neste di\u00e1logo, tamb\u00e9m os crist\u00e3os devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experi\u00eancias, em que consiste verdadeiramente a sua esperan\u00e7a, o que \u00e9 que temos para oferecer ao mundo e, ao contr\u00e1rio, o que \u00e9 que n\u00e3o podemos oferecer. \u00c9 preciso que, na autocr\u00edtica da idade moderna, conflua tamb\u00e9m uma autocr\u00edtica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das pr\u00f3prias ra\u00edzes. A este respeito, pode-se aqui mencionar somente alguns ind\u00edcios. Antes de mais, devemos perguntar-nos: o que \u00e9 que significa verdadeiramente \u201cprogresso\u201d; o que \u00e9 que ele promete e o que \u00e9 que n\u00e3o promete? No s\u00e9culo XIX, j\u00e1 existia uma cr\u00edtica \u00e0 f\u00e9 no progresso. No s\u00e9culo XX, Teodoro W. Adorno formulou, de modo dr\u00e1stico, a problematicidade da f\u00e9 no progresso: este, visto de perto, seria o progresso da funda \u00e0 megabomba. Certamente, este \u00e9 um lado do progresso que n\u00e3o se deve encobrir. Dito de outro modo: torna-se evidente a ambiguidade do progresso. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que este oferece novas potencialidades para o bem, mas abre tamb\u00e9m possibilidades abissais de mal \u2013 possibilidades que antes n\u00e3o existiam. Todos fomos testemunhas de como o progresso em m\u00e3os erradas possa tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terr\u00edvel no mal. Se ao progresso t\u00e9cnico n\u00e3o corresponde um progresso na forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica do ser humano, no crescimento do homem interior (cf. Ef 3,16; 2 Cor 4,16), ent\u00e3o aquele n\u00e3o \u00e9 um progresso, mas uma amea\u00e7a para a humanidade e para o mundo.  23. No que diz respeito aos dois grandes temas \u201craz\u00e3o\u201d e \u201cliberdade\u201d, aqui \u00e9 poss\u00edvel apenas acenar \u00e0s quest\u00f5es relacionadas com eles. Sem d\u00favida, a raz\u00e3o \u00e9 o grande dom de Deus ao ser humano, e a vit\u00f3ria da raz\u00e3o sobre a irracionalidade \u00e9 tamb\u00e9m um objectivo da f\u00e9 crist\u00e3. Mas, quando \u00e9 que a raz\u00e3o domina verdadeiramente? Quando se separou de Deus? Quando ficou cega a Deus? A raz\u00e3o inteira reduz-se \u00e0 raz\u00e3o do poder e do fazer? Se o progresso, para ser digno deste nome necessita do crescimento moral da humanidade, ent\u00e3o a raz\u00e3o do poder e do fazer deve de igual modo urgentemente ser integrada mediante a abertura da raz\u00e3o \u00e0s for\u00e7as salv\u00edficas da f\u00e9, ao discernimento entre o bem e o mal. Somente assim \u00e9 que se torna uma raz\u00e3o verdadeiramente humana. Torna-se humana apenas se for capaz de indicar o caminho \u00e0 vontade, e s\u00f3 \u00e9 capaz disso se olhar para al\u00e9m de si pr\u00f3pria. Caso contr\u00e1rio, a situa\u00e7\u00e3o do ser humano, devido \u00e0 discrep\u00e2ncia entre a capacidade material e a falta de ju\u00edzo do cora\u00e7\u00e3o, torna-se uma amea\u00e7a para ele e para a cria\u00e7\u00e3o. Por isso, falando de liberdade, \u00e9 preciso recordar que a liberdade humana requer sempre um concurso de v\u00e1rias liberdades. Este concurso, por\u00e9m, n\u00e3o se pode efectuar se n\u00e3o for determinado por um crit\u00e9rio intr\u00ednseco comum de pondera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 fundamento e meta da nossa liberdade. Digamos isto de uma forma mais simples: o ser humano tem necessidade de Deus; de contr\u00e1rio, fica privado de esperan\u00e7a. Consideradas as mudan\u00e7as da era moderna, a afirma\u00e7\u00e3o de S. Paulo, citada ao princ\u00edpio (Ef 2,12), revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que um \u201creino de Deus\u201d realizado sem Deus \u2013 e por conseguinte um reino somente do ser humano \u2013 resolve-se inevitavelmente no \u201cfim perverso\u201d de todas as coisas, descrito por Kant: j\u00e1 o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, n\u00e3o basta ser pensado por n\u00f3s, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso, a raz\u00e3o necessita da f\u00e9 para chegar a ser totalmente ela pr\u00f3pria: raz\u00e3o e f\u00e9 precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira natureza e miss\u00e3o.  <b>A verdadeira fisionomia da esperan\u00e7a crist\u00e3<\/b> 24. Retomemos agora a quest\u00e3o: o que \u00e9 que podemos esperar? E o que \u00e9 que n\u00e3o podemos esperar? Antes de mais, devemos constatar que um progresso por adi\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no campo material. Aqui, no conhecimento crescente das estruturas da mat\u00e9ria e correlativas inven\u00e7\u00f5es cada vez mais avan\u00e7adas, verifica-se claramente uma continuidade do progresso rumo a um dom\u00ednio sempre maior da natureza. Mas, no \u00e2mbito da consci\u00eancia \u00e9tica e da decis\u00e3o moral, n\u00e3o h\u00e1 tal possibilidade de adi\u00e7\u00e3o, simplesmente porque a liberdade do ser humano \u00e9 sempre nova e deve sempre de novo tomar as suas decis\u00f5es. Nunca aparecem simplesmente j\u00e1 tomadas em nossa vez por outros \u2013 neste caso, de facto, deixar\u00edamos de ser livres. A liberdade pressup\u00f5e que, nas decis\u00f5es fundamentais, cada pessoa, cada gera\u00e7\u00e3o seja um novo in\u00edcio. Certamente as novas gera\u00e7\u00f5es, tal como podem construir sobre os conhecimentos e as experi\u00eancias daqueles que as precederam, podem haurir do tesouro moral da humanidade inteira. Mas podem tamb\u00e9m recus\u00e1-lo, pois este n\u00e3o pode ter a mesma evid\u00eancia das inven\u00e7\u00f5es materiais. O tesouro moral da humanidade n\u00e3o est\u00e1 presente como o est\u00e3o os instrumentos que se usam; aquele existe como convite \u00e0 liberdade e como sua possibilidade. Isto, por\u00e9m, significa que: a) O recto estado das coisas humanas, o bem-estar moral do mundo n\u00e3o pode jamais ser garantido simplesmente mediante as estruturas, por mais v\u00e1lidas que estas sejam. Tais estruturas s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 importantes, mas necess\u00e1rias; todavia, n\u00e3o podem nem devem impedir a liberdade do ser humano. Inclusive, as melhores estruturas s\u00f3 funcionam se numa comunidade subsistem convic\u00e7\u00f5es que sejam capazes de motivar os seres humanos para uma livre ades\u00e3o ao ordenamento comunit\u00e1rio. A liberdade necessita de uma convic\u00e7\u00e3o; esta n\u00e3o existe por si mesma, mas deve ser sempre novamente conquistada comunitariamente. b) Visto que a pessoa humana permanece sempre livre e dado que a sua liberdade \u00e9 tamb\u00e9m sempre fr\u00e1gil, n\u00e3o existir\u00e1 jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado. Quem prometesse o mundo melhor que duraria irrevocavelmente para sempre, faria uma promessa falsa; ignora a liberdade humana. A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. A livre ades\u00e3o ao bem nunca acontece simplesmente por si mesma. Se houvesse estruturas que fixassem de modo irrevog\u00e1vel uma determinada \u2013 boa \u2013 condi\u00e7\u00e3o do mundo, ficaria negada a liberdade humana e, por este motivo, n\u00e3o seriam de modo algum, em definitivo, boas estruturas.  25. Consequ\u00eancia de tudo isto \u00e9 que a busca sempre nova e trabalhosa de rectos ordenamentos para as realidades humanas \u00e9 tarefa de cada gera\u00e7\u00e3o: nunca \u00e9 uma tarefa que se possa simplesmente dar por conclu\u00edda. Mas, cada gera\u00e7\u00e3o deve dar a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o para estabelecer razo\u00e1veis ordenamentos de liberdade e de bem, que ajudem a gera\u00e7\u00e3o seguinte na sua orienta\u00e7\u00e3o para o recto uso da liberdade humana, dando assim \u2013 sempre dentro dos limites humanos \u2013 uma certa garantia para o futuro tamb\u00e9m. Por outras palavras: as boas estruturas ajudam, mas por si s\u00f3 n\u00e3o bastam. O ser humano n\u00e3o poder\u00e1 jamais ser redimido simplesmente a partir de fora. Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o ser humano teria sido redimido atrav\u00e9s da ci\u00eancia. Com uma tal expectativa, est\u00e1-se a pedir demasiado \u00e0 ci\u00eancia; esta esp\u00e9cie de esperan\u00e7a \u00e9 falaz. A ci\u00eancia pode contribuir muito para a humaniza\u00e7\u00e3o do mundo e dos povos. Mas, pode tamb\u00e9m pode destruir a humanidade e o mundo, se n\u00e3o for orientada por for\u00e7as que se encontram fora dela. Al\u00e9m disso, devemos constatar tamb\u00e9m que o cristianismo moderno, diante dos sucessos da ci\u00eancia na progressiva estrutura\u00e7\u00e3o do mundo, tinha-se concentrado em grande parte somente sobre o indiv\u00edduo e a sua salva\u00e7\u00e3o. Deste modo, restringiu o horizonte da sua esperan\u00e7a e n\u00e3o reconheceu suficientemente sequer a grandeza da sua tarefa \u2013 apesar de ser grande o que continuou a fazer na forma\u00e7\u00e3o da pessoa humana e no cuidado dos fracos e dos que sofrem.  26. N\u00e3o \u00e9 a ci\u00eancia que redime a pessoa humana. O ser humano \u00e9 redimido pelo amor. Isto vale j\u00e1 no \u00e2mbito deste mundo. Quando algu\u00e9m experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d que d\u00e1 um sentido novo \u00e0 sua vida. Mas, rapidamente se dar\u00e1 conta tamb\u00e9m de que o amor que lhe foi dado n\u00e3o resolve, por si s\u00f3, o problema da sua vida. \u00c9 um amor que permanece fr\u00e1gil. Pode ser destru\u00eddo pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: \u201cNem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poder\u00e1 separar-nos do amor de Deus, que est\u00e1 em Cristo Jesus, nosso Senhor\u201d (Rom 8,38-39). Se existe este amor absoluto com a sua certeza absoluta, ent\u00e3o \u2013 e somente ent\u00e3o \u2013 o ser humano est\u00e1 \u201credimido\u201d, independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunst\u00e2ncia. \u00c9 isto o que se entende, quando afirmamos: Jesus Cristo \u201credimiu-nos\u201d. Atrav\u00e9s d&#8217;Ele tornamo-nos seguros de Deus \u2013 de um Deus que n\u00e3o constitui uma remota \u201ccausa primeira\u201d do mundo, porque o seu Filho unig\u00e9nito fez-Se homem e d&#8217;Ele pode cada um dizer: \u201cVivo na f\u00e9 do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim\u201d (Gal 2,20).  27. Neste sentido, \u00e9 verdade que quem n\u00e3o conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperan\u00e7as, no fundo est\u00e1 sem esperan\u00e7a, sem a grande esperan\u00e7a que sustenta toda a vida (cf. Ef 2,12). A verdadeira e grande esperan\u00e7a do ser humano, que resiste apesar de todas as desilus\u00f5es, s\u00f3 pode ser Deus \u2013 o Deus que nos amou, e ama ainda agora \u201cat\u00e9 ao fim\u201d, \u201cat\u00e9 \u00e0 plena consuma\u00e7\u00e3o\u201d (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem \u00e9 atingido pelo amor come\u00e7a a intuir em que consistiria propriamente a \u201cvida\u201d. Come\u00e7a a intuir o significado da palavra de esperan\u00e7a que encontramos no rito do Baptismo: da f\u00e9 espero a \u201cvida eterna\u201d \u2013 a vida verdadeira que, inteiramente e sem amea\u00e7as, em toda a sua plenitude \u00e9 simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abund\u00e2ncia (cf. Jo 10,10), tamb\u00e9m nos explicou o que significa \u201cvida\u201d: \u201cA vida eterna consiste nisto: Que Te conhe\u00e7am a Ti, por \u00fanico Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste\u201d (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, n\u00e3o a possui cada um em si pr\u00f3prio sozinho, nem mesmo por si s\u00f3: aquela \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o. E a vida na sua totalidade \u00e9 rela\u00e7\u00e3o com Aquele que \u00e9 a fonte da vida. Se estivermos em rela\u00e7\u00e3o com Aquele que n\u00e3o morre, que \u00e9 a pr\u00f3pria Vida e o pr\u00f3prio Amor, ent\u00e3o estamos na vida. Ent\u00e3o \u201cvivemos\u201d.  28. Surge agora, por\u00e9m, a quest\u00e3o: n\u00e3o ser\u00e1 que, desta maneira, ca\u00edmos de novo no individualismo da salva\u00e7\u00e3o? Na esperan\u00e7a s\u00f3 para mim, que ali\u00e1s n\u00e3o \u00e9 uma esperan\u00e7a verdadeira porque esquece e descuida os outros? N\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com Deus estabelece-se atrav\u00e9s da comunh\u00e3o com Jesus \u2013 sozinhos e apenas com as nossas possibilidades n\u00e3o o conseguimos. Mas, a rela\u00e7\u00e3o com Jesus \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o com Aquele que Se entregou a Si pr\u00f3prio em resgate por todos n\u00f3s (cf. 1 Tim 2,6). O facto de estarmos em comunh\u00e3o com Jesus Cristo envolve-nos no seu ser \u201cpara todos\u201d, fazendo disso o nosso modo de ser. Ele compromete-nos a ser para os outros, mas s\u00f3 na comunh\u00e3o com Ele \u00e9 que se torna poss\u00edvel sermos verdadeiramente para os outros, para a comunidade. Neste contexto, queria citar o grande doutor grego da Igreja, S. M\u00e1ximo o Confessor (\u2020 662), o qual come\u00e7a por exortar a n\u00e3o antepor nada ao conhecimento e ao amor de Deus, mas depois passa imediatamente a aplica\u00e7\u00f5es muito pr\u00e1ticas: \u201cQuem ama Deus n\u00e3o pode reservar o dinheiro para si pr\u00f3prio. Distribui-o de modo \u201cdivino\u201d [&#8230;] do mesmo modo segundo a medida da justi\u00e7a\u201d.[19] Do amor para com Deus consegue a participa\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a e na bondade de Deus para com os outros; amar a Deus requer a liberdade interior diante de cada bem possu\u00eddo e de todas as coisas materiais: o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro.[20] A mesma conex\u00e3o entre amor de Deus e responsabilidade pelos homens podemos observ\u00e1-la com como\u00e7\u00e3o na vida de S. Agostinho. Depois da sua convers\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, ele, juntamente com alguns amigos possu\u00eddos pelos mesmos ideais, queria levar uma vida dedicada totalmente \u00e0 palavra de Deus e \u00e0s realidades eternas. Pretendia realizar com valores crist\u00e3os o ideal da vida contemplativa expressa pela grande filosofia grega, escolhendo deste modo \u201ca melhor parte\u201d (cf. Lc 10,42). Mas as coisas foram de outro modo. Participava ele na Missa dominical, na cidade portu\u00e1ria de Hipona, quando foi chamado pelo Bispo do meio da multid\u00e3o e instado a deixar-se ordenar para exercer o minist\u00e9rio sacerdotal naquela cidade. Olhando retrospectivamente para aquela hora, escreve nas suas \u201cConfiss\u00f5es\u201d: \u201cAterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha mis\u00e9ria, tinha resolvido e meditado em meu cora\u00e7\u00e3o, o projecto de fugir para o ermo. Mas V\u00f3s mo impedistes e me fortalecestes dizendo: \u201cCristo morreu por todos, para que os viventes n\u00e3o vivam para si, mas para Aquele que morreu por todos\u201d (cf. 2 Cor 5,15)\u201d.[21] Cristo morreu por todos. Viver para Ele significa deixar-se envolver no seu \u201cser para\u201d.  29. Para Agostinho, isto significou uma vida totalmente nova. Assim descreveu ele uma vez o seu dia-a-dia: \u201cCorrigir os indisciplinados, confortar os pusil\u00e2nimes, amparar os fracos, refutar os opositores, precaver-se dos maliciosos, instruir os ignorantes, estimular os negligentes, travar os provocadores, moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos, demonstrar aprova\u00e7\u00e3o aos bons, tolerar o maus e [ai de mim!] amar a todos\u201d.[22] \u201c\u00c9 o Evangelho que me assusta\u201d[23] \u2013 aquele susto salutar que nos impede de viver para n\u00f3s mesmos e que nos impele a transmitir a nossa esperan\u00e7a comum. De facto, era esta precisamente a inten\u00e7\u00e3o de Agostinho: na dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano, que amea\u00e7ava tamb\u00e9m a \u00c1frica romana e \u2013 no final da vida de Agostinho \u2013 at\u00e9 a destruiu, transmite esperan\u00e7a, a esperan\u00e7a que lhe vinha da f\u00e9 e que, contrariamente ao seu temperamento introvertido, o tornou capaz de participar decididamente e com todas as for\u00e7as na edifica\u00e7\u00e3o da cidade. No mesmo cap\u00edtulo das Confiss\u00f5es, onde acab\u00e1mos de ver o motivo decisivo do seu empenhamento \u201cpor todos\u201d, diz ele: Cristo \u201cintercede por n\u00f3s. Doutro modo desesperaria, pois s\u00e3o muitas e grandes as minhas fraquezas! Sim, s\u00e3o muito pesadas, mas maior \u00e9 o poder da vossa medicina. Poder\u00edamos pensar que a vossa Palavra Se tinha afastado da uni\u00e3o com o ser humano e desesperado de nos salvar, se n\u00e3o se tivesse feito homem e habitado entre n\u00f3s\u201d.[24] Em virtude da sua esperan\u00e7a, Agostinho prodigalizou-se pelas pessoas simples e pela sua cidade \u2013 renunciou \u00e0 sua nobreza espiritual e pregou e agiu de modo simples para a gente simples.  30. Fa\u00e7amos um resumo daquilo que emergiu no desenrolar das nossas reflex\u00f5es. A pessoa humana, na sucess\u00e3o dos dias, tem muitas esperan\u00e7as \u2013 menores ou maiores \u2013 distintas nos diversos per\u00edodos da sua vida. \u00c0s vezes pode parecer que uma destas esperan\u00e7as a satisfa\u00e7a totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperan\u00e7a do grande e suave amor; a esperan\u00e7a de uma certa posi\u00e7\u00e3o na profiss\u00e3o, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperan\u00e7as se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso n\u00e3o era a totalidade. Torna-se evidente que o ser humano necessita de uma esperan\u00e7a que v\u00e1 mais al\u00e9m. V\u00ea-se que s\u00f3 algo de infinito lhe pode bastar, algo que ser\u00e1 sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcan\u00e7ar. Neste sentido, a \u00e9poca moderna desenvolveu a esperan\u00e7a da instaura\u00e7\u00e3o de um mundo perfeito que, gra\u00e7as aos conhecimentos da ci\u00eancia e a uma pol\u00edtica cientificamente fundada, parecia tornar-se realiz\u00e1vel. Assim, a esperan\u00e7a b\u00edblica do reino de Deus foi substitu\u00edda pela esperan\u00e7a do reino do ser humano, pela esperan\u00e7a de um mundo melhor que seria o verdadeiro \u201creino de Deus\u201d. Esta parecia finalmente a esperan\u00e7a grande e realista de que a pessoa humana necessita. Estava em condi\u00e7\u00f5es de mobilizar \u2013 por um certo tempo \u2013 todas as energias do ser humano; o grande objectivo parecia merecedor de todo o esfor\u00e7o. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperan\u00e7a escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperan\u00e7a para a humanidade de amanh\u00e3, mas n\u00e3o uma esperan\u00e7a para mim. E, embora o elemento \u201cpara todos\u201d fa\u00e7a parte da grande esperan\u00e7a \u2013 com efeito, n\u00e3o posso ser feliz contra e sem os demais \u2013 o certo \u00e9 que uma esperan\u00e7a que n\u00e3o me diga respeito a mim pessoalmente n\u00e3o \u00e9 sequer uma verdadeira esperan\u00e7a. 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