{"id":284660,"date":"2023-06-05T11:50:34","date_gmt":"2023-06-05T10:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=284660"},"modified":"2023-06-05T11:50:34","modified_gmt":"2023-06-05T10:50:34","slug":"a-cruz-escondida-236","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cruz-escondida-236\/","title":{"rendered":"A cruz escondida"},"content":{"rendered":"<p><em>No Ruanda, o genoc\u00eddio dos tutsis \u00e9 ainda uma mem\u00f3ria dolorosa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-284662 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/ACN-20230329-143496-391x260.jpeg 391w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<h4>O longo caminho da paz<\/h4>\n<p>Foi h\u00e1 29 anos. Por estes dias, o Ruanda estava transformado num quase matadouro. Viveram-se situa\u00e7\u00f5es brutais de viol\u00eancia \u00e9tnica. De viol\u00eancia dos hutus contra os tutsis. Houve cerca de 1 milh\u00e3o de mortos. Ainda hoje h\u00e1 centenas de pessoas presas que foram condenadas pelos massacres. A Igreja trabalha com eles, procurando ajudar no processo de reconcilia\u00e7\u00e3o. O Pe. Th\u00e9g\u00e8ne Ngoboka \u00e9 volunt\u00e1rio na pris\u00e3o de Rusizi\u2026<\/p>\n<p>Foram apenas 100 dias. Em 1994, grupos de homens armados, pertencentes \u00e0 etnia\u00a0<em>hutu<\/em>, mataram membros da minoria\u00a0<em>tutsi<\/em>. Provavelmente nunca se saber\u00e1 o n\u00famero exacto dos que morreram. A contabilidade ainda n\u00e3o est\u00e1 feita. Estima-se que entre 800 mil a 1 milh\u00e3o de pessoas tenham sido assassinadas, muitas vezes com requintes de malvadez, em cerca de tr\u00eas meses. Foram 100 dias que enlutarem o pa\u00eds. Ainda hoje \u00e9 dif\u00edcil olhar para tr\u00e1s e recordar o que se passou. Mas sempre que se fala desses tr\u00eas meses de viol\u00eancia, empregam-se palavras como massacre ou genoc\u00eddio. O Pe. Th\u00e9g\u00e8ne Ngoboka, director da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz de Cyangugu, \u00e9 volunt\u00e1rio na pris\u00e3o de Rusizi, onde realiza o seu trabalho pastoral. Recentemente, a Funda\u00e7\u00e3o AIS esteve no Ruanda e falou com ele. O trabalho deste sacerdote \u00e9 essencial para que o perd\u00e3o e a reconcilia\u00e7\u00e3o sejam uma realidade, apesar de se estar a lidar com mem\u00f3rias extremamente dolorosas. Ele tem salvo-conduto. Pode entrar e sair livremente da cadeia, juntamente com outros volunt\u00e1rios. A sua preocupa\u00e7\u00e3o principal \u00e9 ajudar os reclusos que est\u00e3o a terminar as suas penas de pris\u00e3o e que se preparam para sair, mas que t\u00eam de lidar com uma sociedade que ainda n\u00e3o se pacificou, que olha para eles acusando, julgando. \u201cEu explico aos reclusos que \u00e9 importante e necess\u00e1rio reconciliar-se com a comunidade\u201d, diz o Pe. Ngoboka. Esta \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil, que obriga a muita paci\u00eancia, a muito di\u00e1logo. \u201c\u00c9 realmente um processo de acompanhamento dos presos, mas tamb\u00e9m da comunidade para a qual v\u00e3o regressar, para caminhar juntos no sentido da reconcilia\u00e7\u00e3o. Antes de mais \u2013 diz o sacerdote \u2013 preparamos os presos para a necessidade de pedir perd\u00e3o.\u201d Neste delicado processo, a Igreja funciona como intermedi\u00e1rio entre os presos e os sobreviventes e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<h4><strong>Emo\u00e7\u00f5es fortes<\/strong><\/h4>\n<p>O processo de reconcilia\u00e7\u00e3o passa por os reclusos escreverem uma carta a todas as pessoas a quem sentem que t\u00eam de pedir perd\u00e3o. H\u00e1 um pedido de perd\u00e3o e o compromisso tamb\u00e9m de que se est\u00e1 preparado para viver em harmonia com a comunidade. A direc\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o autentica as cartas que s\u00e3o depois entregues \u00e0s fam\u00edlias dos sobreviventes pelos padres ou volunt\u00e1rios. E assim se faz o processo, incentivando-se um encontro na pris\u00e3o entre as fam\u00edlias das v\u00edtimas e o agressor agora arrependido. \u201cUma vez por m\u00eas organizamos estas visitas com os servi\u00e7os sociais da pris\u00e3o. As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o fortes\u201d, relata o sacerdote. \u201cDepois, se o perd\u00e3o for dado e aceite, temos de o levar at\u00e9 aos membros da fam\u00edlia. O perd\u00e3o deve relacionar-se com a fam\u00edlia, tanto a fam\u00edlia do sobrevivente como a fam\u00edlia do preso\u201d, acrescenta, explicando ainda que \u201ca f\u00e9 desempenha um papel fundamental no processo de perd\u00e3o\u201d. S\u00e3o necess\u00e1rios todos estes passos. O perd\u00e3o exige muito trabalho. \u201cAs feridas ainda s\u00e3o sens\u00edveis, mesmo 29 anos depois\u2026\u201d Seja como for, nada disto seria poss\u00edvel sem a ajuda da Igreja. Para o Pe. Ngoboka, \u201co perd\u00e3o \u00e9 um milagre, um dom de Deus\u2026 quando se ouve falar em todas as atrocidades cometidas\u2026 o perd\u00e3o \u00e9 um poder dado por Deus\u201d. Todo este trabalho tem o apoio directo da Funda\u00e7\u00e3o AIS atrav\u00e9s do financiamento de um programa de forma\u00e7\u00e3o para 120 sacerdotes, religiosos e religiosas em tr\u00eas dioceses, para que possam compreender o trauma, as t\u00e9cnicas de escuta activa e o acompanhamento espiritual para a resili\u00eancia da comunidade.<\/p>\n<p><em>Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Ruanda, o genoc\u00eddio dos tutsis \u00e9 ainda uma mem\u00f3ria dolorosa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":187728,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-284660","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=284660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284660\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/187728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=284660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=284660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=284660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}