{"id":28254,"date":"2007-11-20T12:48:26","date_gmt":"2007-11-20T12:48:26","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/11\/20\/comunidades-de-acolhimento\/"},"modified":"2007-11-20T12:48:26","modified_gmt":"2007-11-20T12:48:26","slug":"comunidades-de-acolhimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/comunidades-de-acolhimento\/","title":{"rendered":"Comunidades de acolhimento"},"content":{"rendered":"<p>\u00abComunitarizar\u00bb crentes marcados por uma cultura de afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, na modernidade reflexiva <!--more--> \u00ab\u00c9 preciso mudar o estilo de organiza\u00e7\u00e3o da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Conc\u00edlio Vaticano II, na qual esteja bem estabe-lecida a fun\u00e7\u00e3o do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na fam\u00edlia dos filhos de Deus, e todos somos correspons\u00e1veis pelo crescimento da Igreja.\u00bb Bento XVI, Discurso aos Bispos portugueses, 10 de Novembro de 2007.  1. O discurso de Bento XVI, no quadro da visita ad limina dos Bispos cat\u00f3licos portugueses, foi recebido por um coro de analistas que leram nessas palavras um des\u00edgnio de reprimenda. Assim, sob o ponto de vista social, assume particular relev\u00e2ncia a recep\u00e7\u00e3o das palavras do Bispo de Roma. Num contexto espec\u00edfico do exerc\u00edcio da sua autoridade, as suas palavras n\u00e3o precisaram dos canais eclesiais de comunica\u00e7\u00e3o. Soltas no espa\u00e7o \u00abmassmedi\u00e1tico\u00bb, circularam na cena p\u00fablica, sem que a institui\u00e7\u00e3o pudesse controlar a sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o. Apesar de se tratar de um conjunto de indica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas sobre os aspectos cr\u00edticos da vida actual das comunidades locais cat\u00f3lico-romanas, o discurso foi o catalizador, em quadrantes muito diversos, de uma vontade de mudan\u00e7a que diz mais, talvez, dos leitores do que do pr\u00f3prio texto. Ateus, agn\u00f3sticos, cat\u00f3licos em autogest\u00e3o, cat\u00f3licos militantes, cat\u00f3licos tradicionalistas, cat\u00f3licos progressistas, e outros, todos leram no discurso o apelo a uma mudan\u00e7a mobili-zadora. Como \u00e9 evidente, os sentidos de leitura dessa mudan\u00e7a s\u00e3o contradit\u00f3rios: desde as vis\u00f5es restauracionistas de afirma\u00e7\u00e3o musculada da identidade cat\u00f3lica na sociedade portuguesa at\u00e9 \u00e0s di\u00e1sporas ideol\u00f3gicas defensoras de um catolicismo discreto, de tudo se pode encontrar numa breve viagem aos labirintos da comunica\u00e7\u00e3o. Em todo caso, \u00e9 f\u00e1cil perceber que as palavras do Papa foram recebidas por uma sociedade cuja paisagem religiosa est\u00e1 sofrer amplas recomposi\u00e7\u00f5es. Essas recomposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o dizem respeito apenas ao \u00abfim de um catolicismo\u00bb, sinalizam tamb\u00e9m traject\u00f3rias diversas de redefini\u00e7\u00e3o da perten\u00e7a cat\u00f3lica.  2. Parece-me particularmente importante que o discurso de Bento XVI tenha aludido \u00e0s formas de organiza\u00e7\u00e3o das comunidades cat\u00f3licas, em Portugal. Neste contexto, as Igrejas s\u00e3o hoje confrontadas com uma pergunta essencial: como \u00abcomunitarizar\u00bb crentes marcados por uma cultura de afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, nestas sociedades da modernidade reflexiva? Desprendida a religiosidade da objectividade social pr\u00f3pria de uma religi\u00e3o herdada, os indiv\u00edduos procuram, com frequ\u00eancia, ideais espirituais que, de uma forma \u00e1gil, respondam \u00e0s suas necessidades no curso do seu itiner\u00e1rio biogr\u00e1fico. Deparamo-nos, assim, com um \u00abnomadismo\u00bb religioso de dif\u00edcil identifica\u00e7\u00e3o, bem diverso do \u00absedentarismo\u00bb religioso que se exprime na manuten\u00e7\u00e3o de uma linhagem crente. As primeiras reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre os modos de vida urbanos na metr\u00f3pole moderna viram na mobilidade uma das chaves essenciais para a sua compreens\u00e3o. G. Simmel pensou essa mobilidade a partir da figura do estrangeiro. N\u00e3o esse viajante que hoje chega para partir amanh\u00e3, mas sim esse errante que chega hoje e que ficar\u00e1 amanh\u00e3 sem prescindir da liberdade de ir e vir \u2013 porque \u00e9 estrangeiro procura o gesto de acolhimento. Essa mobilidade n\u00e3o dispensa as refer\u00eancias \u00e0 mem\u00f3ria religiosa em que os indiv\u00edduos foram socializados, mas \u00e9 moldada \u00e0quilo que as Ci\u00eancias Sociais designam de \u201cestilos de vida\u201d.  3. Este fen\u00f3meno n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0s formas de identifica\u00e7\u00e3o religiosa que apresentam um car\u00e1cter mais difuso. As par\u00f3quias foram envolvidas na l\u00f3gica de um amplo mercado simb\u00f3lico, na medida em que s\u00e3o procuradas de acordo com a personalidade dos padres que a\u00ed se podem encontrar, o seu estilo de acolhimento, a tonalidade expressiva das suas celebra\u00e7\u00f5es, a compet\u00eancia das suas ofertas de forma\u00e7\u00e3o, etc., numa palavra, a \u00abqualidade\u00bb (n\u00e3o \u00e9 por acaso que o idioma pastoral incorporou recentemente este termo: fala-se de ora\u00e7\u00e3o de qualidade, celebra\u00e7\u00f5es de qualidade, cate-quese de qualidade, entre outros). No terreno das culturas urbanas, h\u00e1 par\u00f3quias que s\u00e3o reconhecidas pela sua extraordin\u00e1ria capacidade de oferta ou pela compet\u00eancia com que o fazem, rasto de uma \u00abterciariza\u00e7\u00e3o\u00bb generalizada dos modos de vida. Nesse contexto, lan\u00e7a-se m\u00e3o da din\u00e2mica das sociabilidades grupais para criar uma \u201cIgreja de op\u00e7\u00f5es\u201d, oferecendo respostas diversas \u00e0s inquieta\u00e7\u00f5es religiosas ou \u00e0s demandas de manuten\u00e7\u00e3o da identidade religiosa, abrindo \u00e0s pessoas a possibilidade de encontrar um contexto de acolhimento onde a sua pequena narrativa possa ser acolhida na grande narrativa eclesial. 4. N\u00e3o se perca de vista que, nestas culturas de afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, a procura de autovalida\u00e7\u00e3o e valida\u00e7\u00e3o m\u00fatua do crer assume, pelo menos, tanta import\u00e2ncia quanto as formas de auten-tifica\u00e7\u00e3o pela tradi\u00e7\u00e3o ou pela autoridade da institui\u00e7\u00e3o. Nas comunidades crist\u00e3s, encontramos hoje formas modulares de sociabilidade fundadas primordialmente na comunh\u00e3o de afinidades. Quando algu\u00e9m procura um c\u00edrculo mais pequeno dentro da comunidade crente de refer\u00eancia, para al\u00e9m da percep\u00e7\u00e3o de uma f\u00e9 comum e da vontade de se colocar ao servi\u00e7o dos objectivos do grupo, esse indiv\u00edduo procura algo que confirme o seu pr\u00f3prio trabalho de constru\u00e7\u00e3o do sentido. Paradoxalmente, o refor\u00e7o e a multiplica\u00e7\u00e3o de diferentes regimes comunit\u00e1rios dentro de uma comunidade de refer\u00eancia, sendo uma tradu\u00e7\u00e3o da moderna individualiza\u00e7\u00e3o religiosa, traduz a vontade do sujeito crente se auto-implicar na economia de salva\u00e7\u00e3o que a institui\u00e7\u00e3o pretende servir e mostra tamb\u00e9m que esse individualismo n\u00e3o se verte numa completa privatiza\u00e7\u00e3o do religioso. O \u00abnomadismo\u00bb religioso contempor\u00e2neo corresponde \u00e0 vontade de celebrar a subjectividade e o acontecimento; mas, porque o movimento s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel dentro de um quadro m\u00ednimo de refer\u00eancias, assistimos tamb\u00e9m \u00e0 procura de grupos onde seja poss\u00edvel o acolhimento das inquieta\u00e7\u00f5es pessoais. Ou seja, na era do individualismo religioso subsiste a nostalgia da comunidade (imaginada ou praticada). <i>Alfredo Teixeira &#8211; Centro de Estudos de Religi\u00f5es e Culturas (UCP)  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abComunitarizar\u00bb crentes marcados por uma cultura de afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, na modernidade reflexiva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,144,191,206,321,327],"class_list":["post-28254","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-concilio-vaticano-ii","tag-economia","tag-familia","tag-ucp","tag-visita-ad-limina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28254\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}