{"id":2821,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-papa-que-admiro-e-amo\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-papa-que-admiro-e-amo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-papa-que-admiro-e-amo\/","title":{"rendered":"Um Papa que admiro e amo"},"content":{"rendered":"<p>Coment\u00e1rio de D. Ant\u00f3nio Marcelino, Bispo de Aveiro <!--more--> Era bispo h\u00e1 tr\u00eas anos quando Jo\u00e3o Paulo II foi eleito. Vi partir Paulo VI, que me deixou ro\u00eddo de saudades e com marcas de gratid\u00e3o que nunca mais  se apagam. Como toda a gente, mal tive tempo para me aperceber da riqueza que estava no sorriso de Jo\u00e3o Paulo I, o Papa que partiu logo que chegou. Tinha nomes em mente, bem consciente que nada viria por a\u00ed, mas confesso que nunca pensara no Arcebispo de Crac\u00f3via. N\u00e3o desejava um italiano, mas n\u00e3o vislumbrava como \u00e9 que podia n\u00e3o ser assim. Em plena  auto-estrada a r\u00e1dio deu a not\u00edcia. Nem percebi o nome, s\u00f3 que era da Pol\u00f3nia. Polaco? Mas quem e a que  prop\u00f3sito?  Quando apareceu \u00e0 janela, percebi que o estilo era outro. Aquele grito inesperado, \u201cN\u00e3o tenhais medo!\u201d, deu-me volta c\u00e1 por dentro. Temos homem e homem para este tempo. Dois anos depois est\u00e1vamos cara a cara. Foi no S\u00ednodo dos Bispos sobre a Fam\u00edlia. N\u00e3o lhe perdia um gesto, seguia o seu olhar pela sala, percebi o sinal de uma cuidadosa aten\u00e7\u00e3o ao que se ia dizendo. E l\u00e1 veio o dia do almo\u00e7o \u00e0 sua mesa. Eram os bispos espanh\u00f3is e os portugueses. \u201cUstedes hablan castellano\u201d\u2026 \u201cOs portugueses falam portugu\u00eas\u201d. Estava dado o tom. Como ia ser poss\u00edvel? Quando nos escorregava a l\u00edngua para o italiano para lhe facilitar a compreens\u00e3o, logo vinha a advert\u00eancia:  \u201cDiz na tua l\u00edngua\u2026\u201d Guardo desse dia uma fotografia curiosa em que parece que o Papa me est\u00e1 advertindo, de tal modo o seu dedo em riste assim faz pensar. Os cardeais de Madrid e de Lisboa sorriem. Segurando a minha m\u00e3o, repetia para me responder e para fixar: \u201cEsperamos, esperamos\u201d. Eu dissera \u00e0 despedida: \u201cEsperamos o Papa em Portugal!\u201d E ele respondeu \u00e0 letra: \u201cEsperamos\u201d. Ao longo destes vinte e cinco anos muitas vezes estive de perto com o Papa e lhe pude falar. S\u00e3o muitas as recorda\u00e7\u00f5es. Tr\u00eas s\u00ednodos, um mundial e dois europeus, simp\u00f3sios, as suas vindas a Portugal, a ida com ele em peregrina\u00e7\u00e3o a Subiaco, v\u00e1rias visitas \u201cAd Limina\u201d, refei\u00e7\u00f5es \u00e0 sua mesa,  concelebra\u00e7\u00f5es na sua capela particular, encontros com os bispos da Europa e mais ainda por v\u00e1rios outros motivos\u2026 Das \u00faltimas vezes, foi quando tive de o saudar em nome dos bispos portugueses, uma vez que, por motivo de doen\u00e7a, o Presidente da nossa Confer\u00eancia Episcopal, Cardeal D. Jos\u00e9 Policarpo, n\u00e3o estava presente. Nada disto \u00e9 importante para a nossa salva\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 uma bagagem interessante da nossa mem\u00f3ria pessoal. Deste ba\u00fa de recorda\u00e7\u00f5es tiro alguns factos que tiveram para mim especial sentido. Foi no I S\u00ednodo da Europa em 1991. Tinha ca\u00eddo o muro de Berlim. O tema do S\u00ednodo era  uma palavra significativa da Ep\u00edstola aos G\u00e1latas: \u201cLivres com a liberdade com que Cristo nos libertou\u201d. O momento era de desafio aos crist\u00e3os para uma ac\u00e7\u00e3o conjunta de acolhimento evangelizador e de permuta de dons. O Papa convidou para participar nos trabalhos sinodais os grandes patriarcas ortodoxos do Leste europeu. Fora um gesto de aproxima\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de uni\u00e3o de esfor\u00e7os. Eles declinaram o convite e mandaram apenas o metropolita Spiridon que residia em It\u00e1lia, com uma miss\u00e3o da qual daria conta na sala sinodal, quando lhe fosse dada a palavra. E nessa tarde, com o Papa a presidir, o enviado ortodoxo desferiu um ataque inesperado ao Papa, \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica e \u00e0 sua ac\u00e7\u00e3o. Nem se respirava. Todos est\u00e1vamos perplexos. Como vai isto terminar? Jo\u00e3o Paulo II ouvia serenamente, voltado para o metropolita. Quando este terminou, o Papa ergueu-se rapidamente, foi ao seu encontro e deu-lhe um grande abra\u00e7o. As palmas fizeram tremer a sala. Em muitos olhos, l\u00e1grimas. Alguns dias depois, numa solene vig\u00edlia na Bas\u00edlica de S. Pedro, os oradores da noite foram Spiridon e o Papa\u2026 S\u00f3 na Igreja. Os bispos do Norte acabavam  a visita \u201cAd Limina\u201d. Foi em Novembro de 1992. O Papa dirigiu-nos a palavra com as suas orienta\u00e7\u00f5es. E, no meio do discurso, fala dos Congressos de Leigos j\u00e1 realizados entre n\u00f3s, da I Semana Social e do S\u00ednodo Diocesano de Aveiro, ainda a decorrer, estimulando iniciativas como estas para o amadurecimento das comunidades crist\u00e3s e para a forma\u00e7\u00e3o de leigos, apostolicamente dispon\u00edveis e preparados para a miss\u00e3o. No nosso encontro pessoal eu falara ao Papa da minha preocupa\u00e7\u00e3o de fazer chegar ao povo o Conc\u00edlio Vaticano II e de como o est\u00e1vamos tentando com o S\u00ednodo Diocesano. Nunca pensei que esta minha preocupa\u00e7\u00e3o, no meio de tantas que ele ouvia naqueles dias, lhe ficasse presente e muito menos que a trouxesse para a sua mensagem.  Em Roma, e dirigindo-me ao Papa, o lugar que ocupava dava-me azo para insistir que era importante que ele fosse a F\u00e1tima beatificar os Pastorinhos Francisco e Jacinta. As correntes \u00e0 sua volta eram fortes e contr\u00e1rias. Dois dos grandes pediram-me que n\u00e3o insistisse. \u201cO Papa n\u00e3o iria a F\u00e1tima!\u201d. Apercebi-me que ele estava a seguir a nossa conversa e que ia  abanando com a cabe\u00e7a, naquele gesto que lhe \u00e9 muito pr\u00f3prio, como que a dizer, \u201cEu \u00e9 que sei se vou ou n\u00e3o\u2026\u201d Outros, e de muitos modos, tamb\u00e9m foram insistindo. E o Papa, ao arrepio de muitas press\u00f5es contr\u00e1rias, comunicou ent\u00e3o ao Bispo de Leiria-F\u00e1tima, tamb\u00e9m em Roma e a quem ele mandara chamar, que iria a F\u00e1tima e que o dissesse sem medo. Na grandeza comovente da celebra\u00e7\u00e3o naquele dia 13 de Maio, aproximei-me dos que me afian\u00e7aram que o Papa n\u00e3o viria e disse-lhes ao ouvido: \u201cAinda duvidam que era aqui que o Papa devia beatificar os Pastorinhos?\u201d  \u2014\u201cTem raz\u00e3o, tem raz\u00e3o.\u201d Homem de f\u00e9, apaixonado por Cristo e fascinado pelo absoluto de Deus, homem corajoso e sem medo, homem livre e decidido a ir at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, homem pr\u00f3ximo e fraterno\u2026 Homem que abre, sem pejo, a sua alma, que fascina jovens e adultos, simples e eruditos; que acorda o mundo, denuncia injusti\u00e7as, proclama compromissos, mostra que a Igreja s\u00f3 existe para servir. A hist\u00f3ria h\u00e1-de guard\u00e1-lo em p\u00e1ginas merecidas como o grande arauto da paz, o intr\u00e9pido defensor dos direitos humanos, o crist\u00e3o universal. O mundo h\u00e1-de record\u00e1-lo como um amigo. A Igreja h\u00e1-de senti-lo, at\u00e9 ao fim, na eloqu\u00eancia do seu testemunho evang\u00e9lico e  como um patrim\u00f3nio que o tempo n\u00e3o poder\u00e1 destruir.  As l\u00e1grimas de muitos, quando ele partir, ser\u00e3o de louvor e gratid\u00e3o. As palavras e os gestos que nos deixa  marcar\u00e3o um rumo com sentido certo. Quem esteve atento \u00e0 mensagem de Jo\u00e3o Paulo II, ficou mais apaixonado por Cristo e mais pr\u00f3ximo dos outros, com um renovado amor \u00e0 Igreja e \u00e0 sua miss\u00e3o no mundo.   D. Ant\u00f3nio Marcelino Bispo de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coment\u00e1rio de D. 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