{"id":281779,"date":"2023-05-14T09:31:30","date_gmt":"2023-05-14T08:31:30","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=281779"},"modified":"2023-05-12T10:23:37","modified_gmt":"2023-05-12T09:23:37","slug":"fatima-anos-da-pandemia-foram-foram-o-momento-mais-dificil-e-o-momento-mais-doloroso-para-o-santuario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fatima-anos-da-pandemia-foram-foram-o-momento-mais-dificil-e-o-momento-mais-doloroso-para-o-santuario\/","title":{"rendered":"F\u00e1tima: Anos da pandemia foram \u00abforam o momento mais dif\u00edcil e o momento mais doloroso\u00bb para o Santu\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima desde 2011, foi reconduzido para um novo mandato de cinco anos. Depois da pandemia e num contexto de crise global, agravado pelo regresso da guerra \u00e0 Europa, o sacerdote aponta aos desafios que a institui\u00e7\u00e3o enfrenta e aponta ao futuro<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_281773\" aria-describedby=\"caption-attachment-281773\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-281773 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/carlos-cabecinhas-1-1-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-281773\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Come\u00e7amos pela sua nomea\u00e7\u00e3o para um novo mandato: v\u00ea esta recondu\u00e7\u00e3o como uma confirma\u00e7\u00e3o do rumo seguido nos \u00faltimos anos?<\/em><\/p>\n<p>Obviamente que ser reconduzido numa fun\u00e7\u00e3o como esta, numa miss\u00e3o como esta, significa sempre receber um voto de confian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho realizado e, portanto, de alguma forma, uma confirma\u00e7\u00e3o daquilo que foi o rumo seguido e que, no meu entender, significa tamb\u00e9m o pretender que esse rumo seja aquele que vai ser implementado durante o per\u00edodo do mandato, que s\u00e3o os pr\u00f3ximos cinco anos. Obviamente, sempre na perspetiva daquilo que o possa fazer-se de renova\u00e7\u00e3o, porque estes mandatos significam sempre conduzir, neste caso, a vida do Santu\u00e1rio, de forma que v\u00e1 respondendo cada vez mais e melhor \u00e0quilo que \u00e9 a sua miss\u00e3o e isso significa renova\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os anos da pandemia com impacto na atividade pastoral e no equil\u00edbrio econ\u00f3mico do Santu\u00e1rio, foram o momento mais delicado nos anos do seu mandato?<\/em><\/p>\n<p>Foram o momento mais dif\u00edcil e o momento mais doloroso. N\u00e3o direi o mais delicado porque a celebra\u00e7\u00e3o do Centen\u00e1rio foi talvez o momento mais delicado, embora felic\u00edssimo. Foi um per\u00edodo de intensa atividade do Santu\u00e1rio. Foi um momento que, de facto nos encheu o cora\u00e7\u00e3o quer a quem trabalhava no Santu\u00e1rio e durante tantos anos foi preparando o momento da conclus\u00e3o do Centen\u00e1rio, em 2017. Mas foi tamb\u00e9m um momento vivido intensamente pelos peregrinos, vivido intensamente pela Igreja em Portugal. E recordo a visita da imagem peregrina \u00e0s dioceses portuguesas, que teve um impacto absolutamente incr\u00edvel. Obviamente, do ponto de vista do Santu\u00e1rio significou alguma viv\u00eancia, eu diria mesmo dram\u00e1tica pelo facto de termos um lugar vocacionado para acolher peregrinos, um lugar conhecido pelas multid\u00f5es e termos, por exemplo, de repente de celebrar um, 12 e13 de maio, que \u00e9 a data mais significativa, com o recinto completamente vazio, sem peregrinos foi algo que tocou o fundo, que tocou o cora\u00e7\u00e3o, mas que por outro, nos ajudou tamb\u00e9m a sentirmo-nos unidos a todos aqueles que viviam o drama da pandemia, com toda a incerteza que ela trazia. Tivemos uma pandemia que veio p\u00f4r em causa completamente as nossas vidas, as nossas certezas que d\u00e1vamos por adquiridas e intoc\u00e1veis e tudo isto provocou uma grande apreens\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00e1tima n\u00e3o ficou \u00e0 margem de tudo isso e o esfor\u00e7o que fomos fazendo foi tamb\u00e9m depois de procurarmos dar alguma resposta. E eu diria que da pandemia se fica a mem\u00f3ria de alguns momentos dolorosos; fica tamb\u00e9m o enorme desafio que sentimos e que foi depois moldando tamb\u00e9m algumas das iniciativas do Santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E do ponto de vista financeiro, n\u00e3o ficaram feridas. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ultrapassada. O que \u00e9 nos pode dizer da situa\u00e7\u00e3o financeira do Santu\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>Da situa\u00e7\u00e3o financeira do Santu\u00e1rio, obviamente, o ano de 2020 foi um ano extremamente complicado, foi um ano extremamente dif\u00edcil. Ali\u00e1s, depois, quando apresent\u00e1mos as contas, referimos que foi um ano em que tivemos, naquele exerc\u00edcio, mais de 5 milh\u00f5es de resultado negativo.<\/p>\n<p>O ano de 2020 foi muito complicado. O ano de 2021 j\u00e1 permitiu alguma recupera\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio a este n\u00edvel administrativo a este n\u00edvel econ\u00f3mico. No entanto, estes anos, apesar do dram\u00e1tico que foram, n\u00e3o puseram em causa a solidez econ\u00f3mica do Santu\u00e1rio. Isto \u00e9, o Santu\u00e1rio \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a este n\u00edvel s\u00f3lida, que teve de procurar diminuir drasticamente as suas despesas, uma vez que tamb\u00e9m diminuiu drasticamente a sua atividade naquele tempo. Mas isso n\u00e3o p\u00f4s em causa aquilo que era a estabilidade econ\u00f3mica da institui\u00e7\u00e3o e que se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O ciclo do Centen\u00e1rio foi um momento muito intenso, de grande responsabilidade. Desde ent\u00e3o, o mundo mudou radicalmente. Tivemos uma pandemia, a guerra voltou \u00e0 Europa. E o que eu lhe pergunto \u00e9\u00a0de que forma \u00e9 que estes acontecimentos imprevistos mudaram as prioridades que teria definido para o futuro do Santu\u00e1rio tamb\u00e9m?<\/em><\/p>\n<p>Obviamente que este tipo de acontecimentos muda e tinha de mudar o Santu\u00e1rio, porque o Santu\u00e1rio n\u00e3o poderia de forma alguma tentar ficar imune a esta realidade. Seria ser infiel \u00e0 sua miss\u00e3o, n\u00e3o reparar ou n\u00e3o ter devidamente em conta todos estes acontecimentos que foram mudando o mundo. Obviamente que houve algumas mudan\u00e7as de prioridades e eu estou a pensar concretamente que a pandemia motivou nos no sentido de uma aten\u00e7\u00e3o muito maior \u00e0 fragilidade humana, \u00e0 dimens\u00e3o da fragilidade, quer a n\u00edvel reflexivo, quer a n\u00edvel de atividades concretas. Estou a lembrar, de forma muito situada, um centro de escuta que temos j\u00e1 montado e que pretendemos que seja uma resposta a tanta gente que nos procura e que a pandemia vem mostrar que precisa urgentemente de quem os acolha, de quem os ou\u00e7a, de quem os possa dar-lhes\u00a0uma palavra de condu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mostrou um mundo mais s\u00f3\u2026<\/em><\/p>\n<p>Mostrou um mundo mais s\u00f3, um mundo mais fr\u00e1gil tamb\u00e9m a este n\u00edvel da pr\u00f3pria sa\u00fade mental, do equil\u00edbrio emocional. E h\u00e1 muitas destas pessoas que procuram o Santu\u00e1rio e no Santu\u00e1rio procuram uma resposta e, portanto, para n\u00f3s este foi um desafio que sentimos. Sentimos tamb\u00e9m o desafio da aposta na nossa comunica\u00e7\u00e3o digital. Percebemos que h\u00e1 muita gente que n\u00e3o vinha no tempo da pandemia, n\u00e3o vinha ao Santu\u00e1rio porque n\u00e3o podia vir. Mas h\u00e1 muita outra gente que n\u00e3o vem porque n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para vir, independentemente da pandemia ou n\u00e3o. Isso tamb\u00e9m nos mostrou que esta \u00e9 uma aposta que tem de continuar no sentido de que o Santu\u00e1rio \u00e9 um lugar que se define como um lugar, um lugar que n\u00e3o muda. N\u00e3o pode mudar daqui, mas que o Santu\u00e1rio tem voca\u00e7\u00e3o de chegar muito para al\u00e9m destes confins e deve faz\u00ea-lo. As pessoas esperam que o fa\u00e7a e este \u00e9 tamb\u00e9m para n\u00f3s uma das prioridades.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A profissionaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o \u00e9 uma necessidade incontorn\u00e1vel, face \u00e0 dimens\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A profissionaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o do Santu\u00e1rio \u00e9 uma necessidade e um imperativo. Isto \u00e9, o Santu\u00e1rio de F\u00e1tima tem hoje uma dimens\u00e3o, mesmo como estrutura, como institui\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se compadece com amadorismos. Eu desde que assumi fun\u00e7\u00f5es, uma das preocupa\u00e7\u00f5es foi a de ajudar a alguma reestrutura\u00e7\u00e3o interna do pr\u00f3prio Santu\u00e1rio. E isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma cr\u00edtica aos meus antecessores. \u00c9 o reconhecimento que uma estrutura que foi montada nos anos 80 e que se manteve praticamente sem altera\u00e7\u00f5es, precisava de se readequar. E nessa reestrutura\u00e7\u00e3o interna do Santu\u00e1rio, que se foi fazendo durante os pr\u00f3prios anos do Centen\u00e1rio e contemporaneamente com aquele ciclo, levou nos tamb\u00e9m a uma cada vez maior profissionaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria gest\u00e3o. Profissionaliza\u00e7\u00e3o que significa, sobretudo, otimiza\u00e7\u00e3o. Significa que o Santu\u00e1rio tem de procurar responder de forma mais eficaz \u00e0 sua miss\u00e3o e que toda a dimens\u00e3o administrativa tem de estar ao servi\u00e7o da dimens\u00e3o pastoral do Santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E esse \u00e9 um processo em curso, ou est\u00e1 conclu\u00eddo?<\/em><\/p>\n<p>Esse ser\u00e1 sempre um processo em curso, isto \u00e9, nunca podemos dizer que est\u00e1 conclu\u00eddo. \u00c9 sempre um processo em curso, porque a vida do Santu\u00e1rio tamb\u00e9m como institui\u00e7\u00e3o viva que \u00e9 obriga a novos desafios, a abra\u00e7ar novos projetos pastorais. E isso tem sempre implica\u00e7\u00f5es na dimens\u00e3o da gest\u00e3o do pr\u00f3prio Santu\u00e1rio. Obviamente, para n\u00f3s, foi sempre muito claro que toda a gest\u00e3o do Santu\u00e1rio tem de estar ao servi\u00e7o da sua miss\u00e3o pastoral. E n\u00e3o pode ser de outra forma.<\/p>\n<p>Ainda neste campo do impacto da pandemia e do impacto da atual crise econ\u00f3mica. Pergunto-lhe se o Santu\u00e1rio de F\u00e1tima tem sentido um aumento no n\u00famero de pedidos de ajuda e pedia-lhe tamb\u00e9m que se explica um pouco tamb\u00e9m como \u00e9 que se processa habitualmente esse apoio?<\/p>\n<p>N\u00f3s temos sentido um aumento exponencial dos pedidos de ajuda. Sobretudo na fase final do ano passado e em todo este in\u00edcio deste novo ano&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sabemos quais os pedidos, os tipos de pedidos que surgem?<\/em><\/p>\n<p>Por um lado, temos os pedidos institucionais; isto \u00e9, institui\u00e7\u00f5es, nomeadamente institui\u00e7\u00f5es eclesiais ou institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social que pedem ajuda ao Santu\u00e1rio. \u00c9 uma ajuda sempre para projetos. Isto \u00e9 n\u00e3o \u00e9 uma ajuda para atividade regular, \u00e9 para um projeto ou outro, e isso acontece com regularidade. A este n\u00edvel, os pedidos n\u00e3o tiveram um aumento significativo: Os pedidos que tiveram um aumento significativo \u00e9 o apoio social aos mais carenciados, que acontece aqui no Santu\u00e1rio e, portanto, atinge este tecido social de F\u00e1tima e arredores. A esse n\u00edvel, \u00e9 que temos visto aumentar exponencialmente os pedidos de ajuda. H\u00e1 muitas fam\u00edlias que n\u00e3o conseguem pagar rendas de casa. H\u00e1 muitas fam\u00edlias que n\u00e3o conseguem comprar os medicamentos na farm\u00e1cia. N\u00f3s estamos a ajudar tamb\u00e9m com alimentos, muitas outras fam\u00edlias. Depois h\u00e1 uma s\u00e9rie de aspetos que muitas vezes nos passam despercebidos, para os quais n\u00e3o existem apoios sociais estabelecidos, nomeadamente oficiais. E estou a pensar tudo o que tenha que ver com a sa\u00fade oral, com pr\u00f3teses dent\u00e1rias. Por exemplo, os idosos com pens\u00f5es muito baixas de que forma \u00e9 que podem adquirir uma pr\u00f3tese dent\u00e1ria que \u00e9 fundamental para o m\u00ednimo de qualidade de vida? Ou falemos de \u00f3culos. A mudan\u00e7a de uns \u00f3culos ou comprar uns \u00f3culos para muitas destas pessoas torna-se depois um desafio enorme quando t\u00eam pens\u00f5es de reforma t\u00e3o baixas, quando o pre\u00e7o das rendas vai aumentando tamb\u00e9m a um ritmo muito grande e n\u00e3o h\u00e1 forma de dar resposta a esse n\u00edvel. A esse n\u00edvel o\u00a0crescimento dos pedidos tem sido exponencial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o Santu\u00e1rio tem tido capacidade para dar resposta \u00e0 maior parte das situa\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Esta \u00e9 talvez a dimens\u00e3o menos conhecida do Santu\u00e1rio. O Santu\u00e1rio foi sempre discreto em rela\u00e7\u00e3o a esta dimens\u00e3o caritativa e discreto tamb\u00e9m nestes casos concretos porque tratamos de pessoas que n\u00e3o queremos e n\u00e3o podemos expor de forma alguma. Obviamente que se estabelecem prioridades e por isso o Santu\u00e1rio foi sempre capaz de dar resposta, porque quer dar resposta e n\u00e3o pode deixar de dar resposta a estes pedidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a falar de um mandato de cinco anos e, portanto, seguramente tamb\u00e9m a apontar para o futuro, sobretudo no que diz respeito ao acolhimento dos peregrinos. H\u00e1 pouco falava que o santu\u00e1rio n\u00e3o pode sair do lugar. O santu\u00e1rio tamb\u00e9m tem uma voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dentro do pensamento cat\u00f3lico e teol\u00f3gico e \u00e9 um lugar de passagem, n\u00e3o \u00e9 o lugar propriamente de chegada e de se ficar. As pessoas t\u00eam de chegar e partir de novo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida que o que define um santu\u00e1rio \u00e9 precisamente esta dimens\u00e3o do lugar de passagem. Pode ser meta de peregrina\u00e7\u00e3o, mas nunca \u00e9 meta onde se vai ficar ou onde se permanecer\u00e1. \u00c9 sempre uma meta em ordem ao regresso \u00e0 quotidianidade. Ali\u00e1s, a peregrina\u00e7\u00e3o tem precisamente esse sentido do ir a um lugar diferente, no caso, a um santu\u00e1rio, para se voltar diferente, para se voltar transformado.<\/p>\n<p>A esse n\u00edvel, o nosso acolhimento de peregrinos tem feito algumas apostas que queremos continuar a enriquecer e eu estou a pensar concretamente, n\u00e3o apenas nos espa\u00e7os &#8211; os espa\u00e7os precisam tamb\u00e9m de ser trabalhados e estou concretamente a pensar no conjunto da \u00e1rea envolvente do Centro Pastoral Paulo Sexto, com todo aquele conjunto de parques que precisam de ser trabalhados, porque n\u00e3o s\u00e3o apenas parques de estacionamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Muita gente que acampa nos parques de estacionamento\u2026<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o lugares onde as pessoas param, convivem, tomam o seu almo\u00e7o em fam\u00edlia. Portanto, queremos revalorizar o acolhimento naqueles espa\u00e7os como fizemos atr\u00e1s da Bas\u00edlica de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio. Mas queremos tamb\u00e9m, por exemplo, continuar a apostar num acolhimento que passa para al\u00e9m dos momentos celebrativos, que s\u00e3o sempre a oferta primordial do santu\u00e1rio, mas tamb\u00e9m por propostas formativas, por propostas daquilo a que chamamos a Escola do Santu\u00e1rio, com itiner\u00e1rios diversos ao longo do ano, que procuram convidar a aprofundar uma outra dimens\u00e3o da vida crist\u00e3 e da espiritualidade de F\u00e1tima, como tamb\u00e9m aproveitar e valorizar a via da beleza.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos vindo a apostar, h\u00e1 uma s\u00e9rie de anos em exposi\u00e7\u00f5es. Essas exposi\u00e7\u00f5es t\u00eam o grande m\u00e9rito de falar de F\u00e1tima por meio de outra linguagem, atrav\u00e9s da via da beleza. Uma via da beleza, de acordo com aquilo que o Papa Francisco dizia a prop\u00f3sito dos museus do Vaticano, em que ele dizia que n\u00e3o queria que os museus ficassem como algo elitista, apenas para um grupo espec\u00edfico de estudiosos ou de pessoas com uma capacidade ou uma forma\u00e7\u00e3o e erudi\u00e7\u00e3o especiais para o visitar &#8211; que fosse o mais aberto a todos. As nossas exposi\u00e7\u00f5es procuram ser isso mesmo: falar de F\u00e1tima com a linguagem da beleza, mas falar de uma forma aberta a todos.<\/p>\n<p>Penso que as nossas exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, por exemplo, com a grande aflu\u00eancia que sempre registam, manifestam o quanto essa aposta tem sido uma aposta ganha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A internacionaliza\u00e7\u00e3o da Mensagem de F\u00e1tima faz com que as fronteiras da Cova da Iria se alarguem constantemente. Espera que se confirme, no p\u00f3s-pandemia, o crescimento do n\u00famero de peregrinos vindos, por exemplo, da \u00c1sia?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Voltando \u00e0 pergunta anterior, esse \u00e9 um dos aspetos que est\u00e1 muito presente neste novo mandato, que \u00e9 esta aposta na internacionaliza\u00e7\u00e3o de F\u00e1tima. Sabemos que a pandemia limitou muito a vinda de peregrinos, sobretudo estrangeiros. Os peregrinos portugueses regressaram de imediato, os espanh\u00f3is pouco tempo depois. Mas tem havido outros peregrinos que t\u00eam regressado mais lentamente. Este ano assistimos j\u00e1 a um aumento significativo de peregrinos vindos da \u00c1sia e, obviamente, essa \u00e9 uma origem de peregrinos que n\u00f3s quer\u00edamos tamb\u00e9m privilegiar.<\/p>\n<p>Em 2019 n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos uma presen\u00e7a praticamente di\u00e1ria, por exemplo, de grupos de peregrinos vindos da Coreia do Sul. Este ano n\u00e3o estamos ainda nesse n\u00edvel, mas este ano eles est\u00e3o claramente a regressar, como os peregrinos filipinos, como tamb\u00e9m da China e da China continental foram aumentando. N\u00e3o tem a expressividade, por exemplo, dos peregrinos da Coreia, mas \u00e9 um n\u00famero ainda significativo que foi aumentando.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, essa \u00e9 uma das nossas preocupa\u00e7\u00f5es: aumentar e potenciar o aumento dos peregrinos vindos da \u00c1sia, os peregrinos vindos do continente americano &#8211; seja dos Estados Unidos, que \u00e9 tamb\u00e9m uma origem que tem vindo a crescer, e da Am\u00e9rica Latina &#8211; o Brasil, com a pandemia tamb\u00e9m decresceu enormemente &#8211; assistimos neste momento a um regresso &#8211; mas temos muitos outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina com um interesse cada vez maior por F\u00e1tima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para o que aconteceu em mar\u00e7o de 2022, a consagra\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e da Ucr\u00e2nia ao Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria em que o Papa Francisco quis unir F\u00e1tima ao Vaticano, pedindo a paz. Trata-se de um momento novo na interpreta\u00e7\u00e3o da mensagem de F\u00e1tima? Abre caminhos diferentes tamb\u00e9m para o futuro da Cova da Iria?<\/em><\/p>\n<p>Eu estou convencido que sim. A dimens\u00e3o da paz foi sempre uma parte absolutamente fundamental da mensagem de F\u00e1tima. Desde o primeiro momento, falemos das apari\u00e7\u00f5es do Anjo, falemos das apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora, a paz apareceu sempre como horizonte e concretamente na apari\u00e7\u00e3o de maio, o pedido &#8211; \u00e9 \u00faltimo pedido na apari\u00e7\u00e3o, segundo o relato da Irm\u00e3 L\u00facia &#8211; \u00e9 que rezem o ter\u00e7o para alcan\u00e7ar a paz. Portanto esta dimens\u00e3o da paz \u00e9 parte integrante da pr\u00f3pria Mensagem de F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Quando, na sequ\u00eancia do in\u00edcio da guerra na Ucr\u00e2nia, com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, o Papa decide fazer um ato de consagra\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses beligerantes e unir F\u00e1tima a esse ato de consagra\u00e7\u00e3o, obviamente houve um reconhecimento desta dimens\u00e3o de F\u00e1tima como polo de paz, como mensagem de paz, como ponto de ora\u00e7\u00e3o permanente pela paz. E esse n\u00edvel, pode abrir um cap\u00edtulo novo tamb\u00e9m na interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 caiu o muro Berlim\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exato. J\u00e1 caiu o Muro de Berlim e n\u00f3s dir\u00edamos a consagra\u00e7\u00e3o est\u00e1 feita, a consagra\u00e7\u00e3o da R\u00fassia foi feita pelo papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II a 25 de mar\u00e7o \u2013 significativamente a 25 de mar\u00e7o de 1984 &#8211; e, no entanto, o Papa Francisco reinterpreta porque nos convida a renovar essa consagra\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 agora a consagra\u00e7\u00e3o da R\u00fassia no sentido de alguma diaboliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria R\u00fassia, mas da consagra\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses beligerantes no sentido de pedir por ambos, de pedir para ambos a paz.<\/p>\n<p>Eu creio que neste momento n\u00e3o podemos interpretar a R\u00fassia com os olhos com que se interpretava antes, mesmo \u00e0 luz da mensagem de F\u00e1tima. Aqui n\u00e3o se trata de pedir a convers\u00e3o da R\u00fassia. Aqui trata se de pedir especificamente pela paz e trata-se de pedir pela paz tamb\u00e9m para a R\u00fassia, para o povo russo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O regresso do Papa, no contexto da Jornada Mundial da Juventude \u00e9 um momento in\u00e9dito nas visitas do Pont\u00edfice a F\u00e1tima, porque vai ocorrer n\u00e3o numa celebra\u00e7\u00e3o de maio. Vai ser um momento especial? Como \u00e9 que v\u00ea esta liga\u00e7\u00e3o de Francisco \u00e0 Cova da Iria?<\/em><\/p>\n<p>O Papa Francisco reconhece que antes de ter vindo a F\u00e1tima, em 2017, n\u00e3o tinha uma devo\u00e7\u00e3o muito grande a F\u00e1tima e conhecia muito pouco de F\u00e1tima. No fundo, aquilo que o tocou e o sensibilizou para F\u00e1tima foi fundamentalmente essa experi\u00eancia forte que viveu aqui nos dias 12 e 13 de maio de 2017. \u00c9 verdade que j\u00e1 tinha feito uma experi\u00eancia forte em 2013, com a ida da imagem ao Vaticano e como uma celebra\u00e7\u00e3o mariana presidida por ele, mas esta liga\u00e7\u00e3o a F\u00e1tima tem o seu \u00e1pice, o seu momento culminante, com a vinda por ocasi\u00e3o do Jubileu, portanto, o centen\u00e1rio e a canoniza\u00e7\u00e3o dos santos Francisco e Jacinta.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 diferente. Agora trata-se do regresso a F\u00e1tima. O Papa disse, e disse-o v\u00e1rias vezes e a diversos interlocutores, que n\u00e3o punha sequer a hip\u00f3tese de voltar a Portugal sem voltar a F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Creio que aqui, num outro contexto, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o contexto de uma grande peregrina\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 o Papa quer vir como peregrino, quer vir para rezar ao santu\u00e1rio. N\u00f3s n\u00e3o conhecemos ainda o programa do Papa aqui em F\u00e1tima, em agosto &#8211; estamos nessa expectativa. Certamente ser\u00e1 uma vinda para rezar, mas obviamente ser\u00e1 sempre uma vinda para rezar, acompanhado por uma grande multid\u00e3o que aqui se reunir\u00e1 para rezar com o Papa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E ser\u00e1 uma oportunidade tamb\u00e9m para refor\u00e7ar a comunica\u00e7\u00e3o entre F\u00e1tima e as novas gera\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Eu tenho essa convic\u00e7\u00e3o de que a vinda do Papa no contexto da Jornada Mundial da Juventude ter\u00e1 uma import\u00e2ncia fundamental no sentido de projetar F\u00e1tima tamb\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o mais jovem.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia que eu fiz, por exemplo, no Panam\u00e1, na \u00faltima Jornada Mundial da Juventude, em que a imagem de Nossa Senhora, a Imagem Peregrina, foi tamb\u00e9m e esteve inserida em momentos do programa, foi, por um lado, do reconhecimento da invoca\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora de F\u00e1tima: quando a imagem, na vig\u00edlia, percorreu todo o largo espa\u00e7o onde os jovens estavam, o interessante n\u00e3o foi notar, simplesmente, que os jovens reagiam a uma invoca\u00e7\u00e3o mariana; os jovens reagiam sabendo que era a imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima e cantavam o Ave e acenavam com len\u00e7os brancos. Isto \u00e9, havia uma clara identifica\u00e7\u00e3o daquela invoca\u00e7\u00e3o e muita gente, quando no dia seguinte foi anunciado que a Jornada Mundial da Juventude, a pr\u00f3xima jornada, seria em Lisboa, muita gente, muita gente, nos veio dizer precisamente vamos estar em Lisboa porque queremos ir a F\u00e1tima, n\u00f3s n\u00e3o podemos ir a Lisboa sem ir a F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Essa perspetiva j\u00e1 existe em muitos jovens; estou convencido que muitos outros ficar\u00e3o cativados por esta experi\u00eancia. Por isso, tamb\u00e9m desde o an\u00fancio da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, que o Santu\u00e1rio procurou come\u00e7ar a preparar-se para esse acontecimento \u2013 manifestou, desde o in\u00edcio, aos respons\u00e1veis toda a disponibilidade para colaborar naquilo que fosse necess\u00e1rio e temos mantido sempre essa colabora\u00e7\u00e3o para procurar que F\u00e1tima seja momento da jornada, sabendo que o Papa vem para a Jornada Mundial da Juventude, n\u00e3o vem para vir a F\u00e1tima, e que esse \u00e9 o momento alto da sua estadia.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em style=\"font-size: 16px;\">D. Jos\u00e9 Ornelas, bispo de Leiria \u2013 F\u00e1tima, disse numa entrevista recente \u00e0 Ecclesia, que o santu\u00e1rio tamb\u00e9m pode ser um polo de a\u00e7\u00e3o na defesa dos direitos das crian\u00e7as, at\u00e9 dando o contexto das apari\u00e7\u00f5es terem sido dirigidas a tr\u00eas crian\u00e7as. Como v\u00ea esse desafio, tendo em conta o momento que se vive na Igreja Cat\u00f3lica em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>O desafio do senhor D. Jos\u00e9 Ornelas parece-me que \u00e9 um desafio enorme tamb\u00e9m para o Santu\u00e1rio. O Santu\u00e1rio teve sempre alguma pastoral voltada para as crian\u00e7as\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A peregrina\u00e7\u00e3o anual\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o apenas a peregrina\u00e7\u00e3o anual, embora seja o momento culminante, o momento de maior visibilidade e mais conhecido. Temos tamb\u00e9m outras propostas que se fazem desde as escolas, aos grupos de catequese, permitindo-lhes passar por F\u00e1tima, visitar F\u00e1tima, conhecer melhor F\u00e1tima. Temos muitas atividades com escuteiros, nomeadamente com os mais novos, com os lobitos, que temos vindo a trabalhar com o Corpo Nacional de Escutas. Portanto, a pastoral das crian\u00e7as tem estado presente na vida do santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>As palavras de senhor D. Jos\u00e9 alertam-nos para uma outra dimens\u00e3o, que \u00e9 toda a dimens\u00e3o do cuidado com as crian\u00e7as e, portanto, toda uma dimens\u00e3o que teremos de desenvolver, uma vez que n\u00e3o a temos desenvolvido, a n\u00e3o ser em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es dedicadas ao apoio de crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o muito especial, seja por motivo de sa\u00fade, seja por desagrega\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n<p>Isto lan\u00e7a-nos um novo desafio. Obviamente, Nossa Senhora escolheu crian\u00e7as como interlocutoras. A mensagem de F\u00e1tima \u00e9 muito mais do que uma mensagem dirigida a crian\u00e7as, mas o facto de Nossa Senhora ter escolhido crian\u00e7as como interlocutoras, o facto de os dois santos de F\u00e1tima serem duas crian\u00e7as, Francisco e Jacinta, faz com que esse desafio, seja um desafio a que o santu\u00e1rio n\u00e3o possa, de forma alguma, ficar alheio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima desde 2011, foi reconduzido para um novo mandato de cinco anos. 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