{"id":28160,"date":"2007-11-14T15:57:31","date_gmt":"2007-11-14T15:57:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/11\/14\/sem-experiencia-comunitaria-nao-ha-experiencia-do-deus-de-jesus-cristo\/"},"modified":"2007-11-14T15:57:31","modified_gmt":"2007-11-14T15:57:31","slug":"sem-experiencia-comunitaria-nao-ha-experiencia-do-deus-de-jesus-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sem-experiencia-comunitaria-nao-ha-experiencia-do-deus-de-jesus-cristo\/","title":{"rendered":"Sem experi\u00eancia comunit\u00e1ria n\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancia do Deus de Jesus Cristo"},"content":{"rendered":"<p>Intensa a experi\u00eancia humana e eclesial vivida pelos Bispos portugueses, na semana passada, em Roma, nos oito dias da sua visita \u201cad limina Apostolorum\u201d. Depois da anterior, em 1999, novos bispos foram nomeados e ordenados. Entre eles, D. Manuel Clemente, o nosso Bispo do Porto. Valia a pena pedir-lhe que partilhasse as suas impress\u00f5es sobre esta forte experi\u00eancia de comunh\u00e3o apost\u00f3lica com o Sucessor de Pedro e com os irm\u00e3os no episcopado. Uma entrevista para ser transmitida pela R\u00e1dio Vaticano e publicada pela Voz Portucalense, que oferecesse tamb\u00e9m a ocasi\u00e3o de tra\u00e7ar um primeiro esbo\u00e7o da imagem que da diocese vai tendo o seu Pastor, a oito meses do in\u00edcio da sua miss\u00e3o episcopal no Porto.  Acolhida de bom grado a proposta, as declara\u00e7\u00f5es recolhidas exprimem bem a clareza de mente do professor que D. Manuel \u00e9 desde h\u00e1 tantos anos e a sensibilidade e humanidade do Pastor que fala com entusiasmo da \u201cnossa\u201d diocese do Porto, da \u201crealidade muito densa\u201d que esta revela, do seu \u201claicado fort\u00edssimo\u201d, do \u201cclero her\u00f3ico\u201d, do \u201cpotencial carism\u00e1tico\u201d das religiosas, da aten\u00e7\u00e3o a reservar \u00e0s fam\u00edlias. Tudo visto e expresso com aquela perspectiva hist\u00f3rica, cultural, sociol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m teol\u00f3gica, que lhe vem da forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica pessoal, permitindo equacionar as quest\u00f5es de um modo ao mesmo tempo amplo e concreto.  Dada a extens\u00e3o da entrevista, publica-se hoje uma primeira parte, assegurando que a restante cont\u00e9m declara\u00e7\u00f5es igualmente interessantes, a n\u00e3o perder, na pr\u00f3xima semana. Por raz\u00f5es pr\u00e1ticas, de falta de tempo, esta vers\u00e3o escrita \u00e9 da responsabilidade do entrevistador, que manteve o tom coloquial das declara\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00e1dio Vaticano. Jos\u00e9 M. Pacheco Gon\u00e7alves * <b>P. Pacheco Gon\u00e7alves [P.G] \u2013 Ao concluir esta intensa semana de visita \u00e0 Sede de Pedro e ao Santo Padre, quais s\u00e3o, senhor D. Manuel Clemente, as suas impress\u00f5es e reflex\u00f5es?<\/b>\t D. Manuel Clemente [D.M.C]. \u2013 Em termos de \u201cimpress\u00f5es\u201d: excelentes! A come\u00e7ar pelas climat\u00e9ricas: tivemos aqui um Outono romano brilhante, esplendoroso mesmo, e isso tamb\u00e9m ajudou com certeza a sentirmo-nos c\u00e1 muito bem. Depois, pelo acolhimento que tivemos nos diversos locais onde nos dirigimos, onde convers\u00e1mos e onde fomos passando. Tamb\u00e9m nas casas em que fic\u00e1mos, com uma men\u00e7\u00e3o muito particular para o Col\u00e9gio Portugu\u00eas em Roma, que foi inexced\u00edvel na sua simpatia, no seu acolhimento. As \u201creflex\u00f5es\u201d, tamb\u00e9m assim em termos gen\u00e9ricos, v\u00e3o no pr\u00f3prio sentido de uma \u201cvisita ad limina\u201d, ou seja, de nos encontrarmos &#8211; n\u00f3s, bispos de diversas dioceses (portuguesas, no caso) \u2013 com este centro da vida cat\u00f3lica, onde as quest\u00f5es particulares s\u00e3o de algum modo alargadas nas quest\u00f5es gerais da Igreja, e por isso podemos tamb\u00e9m aferir aquilo que andamos a pensar e a fazer com aquelas que s\u00e3o as grandes linhas da Igreja universal, neste momento. <b>Reconfigurar, redefinir a comunidade crist\u00e3<\/b> <b>P.G. \u2013 No encontro conclusivo, em conjunto, com o Santo Padre [s\u00e1bado, 10 de Novembro], tiveram ocasi\u00e3o de ouvir a sua palavra de interpela\u00e7\u00e3o, encorajamento, exorta\u00e7\u00e3o. Do discurso do Papa, o que \u00e9 que mais ressalta?<\/b> D.M.C. \u2013 Da parte do Papa Bento XVI h\u00e1 uma grande insist\u00eancia \u2013 que n\u00e3o \u00e9, obviamente, desta visita s\u00f3, mas desde o princ\u00edpio do seu pontificado \u2013 naquilo a que n\u00f3s poder\u00edamos chamar o realismo cristol\u00f3gico e eclesiol\u00f3gico. Ou seja, na realidade-Jesus Cristo, como \u00fanica realidade que explica a vida da Igreja, e depois na realidade da Igreja como manifesta\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo no mundo. E esta insist\u00eancia do Papa, que n\u00f3s j\u00e1 conhecemos desde a sua primeira Enc\u00edclica, para n\u00e3o falar do seu primeiro discurso, da sua primeira homilia, depois da elei\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m aqui apareceu. O que leva a uma outra quest\u00e3o, que \u00e9 aquela que todos n\u00f3s temos entre m\u00e3os, com certeza, nas nossas dioceses em Portugal, e na nossa do Porto em particular, que \u00e9 a da reconfigura\u00e7\u00e3o, da redefini\u00e7\u00e3o da comunidade crist\u00e3. Ou seja, se a realidade fundamental que a Igreja tem para si, tem para apresentar, \u00e9 Cristo, Cristo vivo. Se essa realidade de Cristo se manifesta naquilo que o ap\u00f3stolo Paulo j\u00e1 chamava de \u201ccorpo de Cristo, que \u00e9 a Igreja\u201d, ent\u00e3o como \u00e9 que, em cada comunidade crist\u00e3, qualquer pessoa pode ter o contacto vivo com Cristo vivo.  No discurso que nos fez, o Papa voltou a citar aquilo que diz tamb\u00e9m na sua primeira Enc\u00edclica, isto \u00e9, que \u201cno princ\u00edpio de qualquer caminho crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma ideia, n\u00e3o h\u00e1 uma abstrac\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 uma experi\u00eancia, e a experi\u00eancia \u00e9 o encontro com Cristo vivo, atrav\u00e9s da Igreja, que \u00e9 o Seu corpo. Ora bem: como \u00e9 que n\u00f3s, em cada comunidade crist\u00e3, podemos proporcionar tal experi\u00eancia? O Papa volta a retomar este tema, e ainda bem que o retomou. Eu julgo que \u00e9 este o grande problema, tanto pastoral como doutrinal. Tive ocasi\u00e3o, na visita particular que fiz como Bispo do Porto, com os senhores Bispos Auxiliares, ao Santo Padre, na passada quinta-feira [8 de Novembro], de tamb\u00e9m levar a conversa (e ele deixou-a levar, de bom grado) para este ponto da reconfigura\u00e7\u00e3o, da redefini\u00e7\u00e3o, da comunidade crist\u00e3. Porque n\u00f3s sabemos que hoje em dia as media\u00e7\u00f5es tradicionais da f\u00e9, que eram a fam\u00edlia e a par\u00f3quia \u2013 mas uma par\u00f3quia muito definida, territorialmente aconchegada, diria mesmo \u2013 isto hoje h\u00e1 n\u00e3o \u00e9 bem assim. As fam\u00edlias, enfim, fazem o que podem, e muitas delas fazem muito, mas em muitos casos elas j\u00e1 n\u00e3o servem de media\u00e7\u00e3o desta f\u00e9 no Cristo vivo, que nelas se sinta presente. E nas nossas par\u00f3quias &#8211; tamb\u00e9m percorridas por gente das mais diversas proveni\u00eancias, que hoje est\u00e1 e daqui a um ano j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, porque mudou de s\u00edtio, porque mudou de profiss\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m se p\u00f5em problemas graves: como \u00e9 que elas podem transmitir essa tal experi\u00eancia de Cristo vivo que, como diz o Papa, est\u00e1 no fundamento de qualquer caminho de f\u00e9. Bem, este \u00e9 um problema que n\u00f3s temos entre m\u00e3os. Repito: \u00e9 um problema pastoral, porque tem a ver com aquilo que n\u00f3s fazemos, como \u00e9 que n\u00f3s organizamos os nossos esfor\u00e7os e as nossas tentativas. Mas tamb\u00e9m \u00e9 um problema doutrinal, porque sem experi\u00eancia comunit\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancia do Deus de Jesus Cristo &#8211; um Deus uno e trino, que portanto s\u00f3 na comunidade se apanha.  <b>Diocese do Porto: realidade \u201cmuito densa\u201d<\/b> <b>P.G. \u2013 Emergem em todas as suas considera\u00e7\u00f5es, a sua sensibilidade e preocupa\u00e7\u00e3o de pastor, de bispo. Concretamente, desde Mar\u00e7o passado, de Bispo do Porto. Um per\u00edodo de quase oito meses, ocupados antes de mais em tomar contacto, ouvir as pessoas, conhecer a realidade local. Passado este per\u00edodo, que \u201cretrato\u201d da diocese se vai delineando no seu esp\u00edrito? E ainda: parece-lhe poss\u00edvel esbo\u00e7ar desde j\u00e1 algumas perspectivas de ac\u00e7\u00e3o para a diocese, no seu conjunto?<\/b> D.M.C. \u2013 Com certeza! Eu dizia, na minha apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 diocese do Porto, que a procuraria \u201cconhecer, amar e servir\u201d. Esse conhecimento, vou-o fazendo: dediquei-me, dedico-me a ele, quotidianamente. Lembro-me que a seguir \u00e0 P\u00e1scoa e at\u00e9 ao Ver\u00e3o percorri uma a uma as 34 vigararias da diocese, no sentido de me reunir com os respectivos p\u00e1rocos, o que foi extremamente importante, quer para mim, quer \u2013 julgo eu \u2013 tamb\u00e9m para eles, porque nos conhecemos pessoalmente. Cada um deles disse o que era a sua par\u00f3quia, ou melhor dizendo as suas par\u00f3quias, que \u00e9 o caso mais comum: como \u00e9 que elas se caracterizam, quer sociologicamente, quer pastoralmente. Estes contactos foram depois complementados por contactos pessoais das mais diversas inst\u00e2ncias: pessoas que est\u00e3o ligadas \u00e0 vida social, como \u00e0 vida universit\u00e1ria, \u00e0 vida cultural e econ\u00f3mica, da regi\u00e3o do Porto, j\u00e1 n\u00e3o especificamente em termos de diocese. Depois, tamb\u00e9m o contacto com as pessoas que me procuraram e que eu mesmo vou encontrando (ando muito a p\u00e9 pela cidade, e isso proporciona, de maneira inesperada, muitos encontros\u2026). Tudo isso vai dando uma ideia.  Al\u00e9m daquelas que s\u00e3o as minhas visitas habituais, semanais, \u00e0s v\u00e1rias comunidades crist\u00e3s, por motivo do sacramento do Crisma ou por outros motivos. E ent\u00e3o o que \u00e9 que poderei dizer, para j\u00e1, da diocese do Porto? Para j\u00e1, que \u00e9 uma realidade muito densa, muito densa. O que \u00e9 que quero dizer com isto? Que n\u00e3o \u00e9 linear. \u00c9 muito compacta, de variad\u00edssimas combina\u00e7\u00f5es. E tem um laicado fort\u00edssimo. Eu reparo que s\u00e3o milhares as pessoas que na diocese do Porto, quer no que diz respeito \u00e0 Palavra \u2013 concretamente ao servi\u00e7o da catequese, quer no que diz respeito \u00e0 liturgia \u2013 desde a m\u00fasica at\u00e9 ao servi\u00e7o do altar, quer no que diz respeito \u00e0 caridade \u2013 o que n\u00f3s temos de obra social na diocese do Porto \u00e9 imenso! \u2013 e tamb\u00e9m as confer\u00eancias vicentinas. S\u00e3o milhares de pessoas que semanalmente praticam o cristianismo e integram a actividade da Igreja nestes tr\u00eas factores fundamentais da Palavra, da Liturgia e da Caridade. Portanto, \u00e9 uma realidade \u2013 repito o adjectivo \u2013 extraordinariamente densa. \u00c9 uma realidade que nalguns casos j\u00e1 implica e manifesta uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica muito grande. Reparo isso particularmente no campo da liturgia, do canto e da m\u00fasica. \u00c9 uma coisa espantosa! Eu n\u00e3o sei se encontraremos por esta nossa Europa fora o que encontramos na diocese do Porto, certamente fruto de muito trabalho, ao longo de d\u00e9cadas, na forma\u00e7\u00e3o destes agentes pastorais \u2013 chamemos-lhes assim \u2013 no campo da liturgia e da m\u00fasica sacra; mas tamb\u00e9m nos outros campos, na catequese, com certeza. Muita gente com alguma forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, \u00e0s vezes at\u00e9 com uma forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica razo\u00e1vel, mesmo entre o laicado, quer em Teologia, quer em Ci\u00eancias Religiosas. \u00c9 uma diocese que, em termos de organiza\u00e7\u00f5es, de associa\u00e7\u00f5es laicais, se contam pelas muit\u00edssimas dezenas, aos diversos n\u00edveis, quer locais, quer diocesanos, quer de movimentos e associa\u00e7\u00f5es, que extravasam a vida da diocese, mas est\u00e3o l\u00e1 presentes.   <b>\u201cHer\u00f3ico\u201d, o clero do Porto<\/b> \u00c9 uma diocese que tem um clero que eu chamo her\u00f3ico\u2026 porque \u00e9 escasso para as necessidades. J\u00e1 disse que o mais vulgar \u00e9 que os p\u00e1rocos sejam p\u00e1rocos de mais do que uma par\u00f3quia, \u00e0s vezes grandes par\u00f3quias. Em muitos casos j\u00e1 com uma idade que ultrapassa os 70 anos e at\u00e9 os 80 (temos na diocese do Porto p\u00e1rocos na casa dos 90!). \u00c9 por isso que eu sublinho este adjectivo \u201cher\u00f3ico\u201d. \u00c9 um clero que desenvolve, com uma generosidade imensa, uma actividade de acompanhamento b\u00e1sico e sacramental da vida do povo de Deus. Mas que tem que ser necessariamente mais ajudado, mais apoiado, e \u2013 enfim \u2013 com a ajuda de Deus, especialmente, mais completado, em n\u00famero, nos tempos que a\u00ed v\u00eam. Portanto, \u00e9 uma diocese que tem todas estas realidades em si, que eu intitulei como \u201cdensa\u201d, mas que tem muitas outras linhas de envolvimento. No que diz respeito ao clero \u2013 quer em termos de presb\u00edteros, de sacerdotes, quer em termos de diaconado permanente (agora renovou-se a respectiva forma\u00e7\u00e3o \u2013 tem que ser muito, muito refor\u00e7ado, porque as perspectivas quantitativas n\u00e3o s\u00e3o muito animadoras para os pr\u00f3ximos anos, como sabemos. N\u00f3s temos neste momento uns 24 ou 25 seminaristas, no Semin\u00e1rio Maior, para os pr\u00f3ximos sete anos. Ora nos pr\u00f3ximos sete anos, atendendo \u00e0 idade que tem o clero, possivelmente deixar\u00e3o de poder trabalhar uns 30, 40, 50?\u2026 &#8211; n\u00e3o sabemos. O que \u00e9 uma grande despropor\u00e7\u00e3o. Temos a ajuda, preciosa, do clero religioso, mas temos que trabalhar muito nisso.  Como tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s voca\u00e7\u00f5es religiosas, porque a vida religiosa feminina, em concreto na nossa diocese, tamb\u00e9m tem este grande desafio do seu rejuvenescimento. J\u00e1 tenho tido v\u00e1rias entrevistas com superioras religiosas que me v\u00eam dizer que bem gostariam de desenvolver mais trabalho, mas, pelo contr\u00e1rio, t\u00eam \u00e9 que fechar casas, comunidades, porque j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam religiosas em n\u00famero suficiente. Ora esta componente da vida religiosa \u00e9 fundamental para uma diocese, porque elas t\u00eam um potencial carism\u00e1tico sem o qual a Igreja n\u00e3o viveria bem. Portanto, muito trabalho! Nas fam\u00edlias, no apoio \u00e0 fam\u00edlias. N\u00f3s temos tamb\u00e9m, na diocese do Porto, aquilo que eu julgo que n\u00e3o tem muita compara\u00e7\u00e3o fora do Porto, com todo o respeito pelo que se faz noutros s\u00edtios: temos cerca de 40 centros diocesanos de prepara\u00e7\u00e3o para o matrim\u00f3nio, na diocese, espalhados por v\u00e1rias vigararias, e que fazem um trabalho, muito muito consistente, ao longo do ano, na forma\u00e7\u00e3o dos novos casais. \u00c9 preciso que seja depois complementado no acompanhamento dos casais j\u00e1 constitu\u00eddos das fam\u00edlias, quer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria consist\u00eancia &#8211; a manuten\u00e7\u00e3o da vida conjugal, quer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos filhos, quer em rela\u00e7\u00e3o a um acompanhamento dos familiares idosos, que \u00e9 hoje uma problem\u00e1tica imensa, que tamb\u00e9m precisa de ser muito apoiada, essa realidade familiar. Portanto, trabalho n\u00e3o falta, gra\u00e7as a Deus\u2026 <b>\u201cImportant\u00edssimo\u201d o papel das Confer\u00eancias Episcopais<\/b> <b>P.G. &#8211; A visita \u201cad limina\u201d realiza-se a n\u00edvel da Confer\u00eancia Episcopal, mas \u00e9 significativo que n\u00e3o falte o encontro pessoal de cada Bispo residencial (e Auxiliares) com o Santo Padre. A hist\u00f3ria da Igreja mostra a import\u00e2ncia de figuras de bispos que deixaram a sua marca na vida das suas comunidades locais, influ\u00eancia que irradiava na Igreja universal. H\u00e1 quem pense que se corre o risco de as Confer\u00eancias episcopais chamarem a si certo dirigismo, em detrimento da responsabilidade pessoal do Bispo na sua Igreja local. Neste momento de profunda comunh\u00e3o eclesial com os irm\u00e3os no episcopado portugu\u00eas e com o Papa (e seus directos colaboradores), como v\u00ea, como \u201csente\u201d esta quest\u00e3o?<\/b> D.M.C. \u2013 H\u00e1 uma raz\u00e3o, digamos assim, eclesiol\u00f3gica, no que respeita \u00e0 doutrina da Igreja sobre si pr\u00f3pria, como Igreja, e outra que n\u00f3s poder\u00edamos chamar pessoal e sacramental. No que diz respeito \u00e0 parte eclesiol\u00f3gica \u00e9 preciso ver que, segundo a eclesiologia cat\u00f3lica como foi formulada no Conc\u00edlio Vaticano II e com a mais antiga refer\u00eancia, a Igreja existe em qualquer Igreja particular, local, onde haja um ap\u00f3stolo, que lhe d\u00ea tamb\u00e9m por a\u00ed essa continuidade com a Igreja de Jesus Cristo, com a Igreja dos ap\u00f3stolos, enfim, com os outros ministros sagrados, com tudo aquilo que faz parte da vida da Igreja, nos seus diversos aspectos lit\u00fargico-sacramentais, de an\u00fancio do Evangelho, de pr\u00e1tica da caridade. Onde estes elementos existem, existe uma Igreja local, e nessa Igreja local ou particular existe toda a Igreja de Cristo. Agora, esta Igreja local est\u00e1 ligada, por essa mesma apostolicidade, atrav\u00e9s do seu Bispo, ao conjunto dos Bispos do mundo, sucessores dos ap\u00f3stolos, e \u00e0quele que \u00e9 o sucessor de Pedro, e que Jesus fez, enfim, o cimento da unidade entre os seus irm\u00e3os, como todos n\u00f3s conhecemos a frase de Jesus ao mesmo Pedro: \u201cConfirma os teus irm\u00e3os, na f\u00e9\u201d. E por isso tamb\u00e9m existe a dimens\u00e3o universal da Igreja, \u00e0 volta do Sucessor de Pedro. Uma coisa n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 outra, mas estas s\u00e3o as duas inst\u00e2ncias, para falar assim, em que a Igreja existe. E por isso qualquer cat\u00f3lico sabe que, quando vai \u00e0 Missa, ouve o presidente pedir pela Igreja, em uni\u00e3o com o seu Bispo e com o Papa. <b>Hoje as pessoas s\u00e3o \u201ctrans-diocesanas\u201d (e \u201ctrans-paroquianas\u201d) P.G. \u2013 Qual \u00e9 ent\u00e3o o lugar das Confer\u00eancias Episcopais? <\/b> D.M.C. &#8211; Entretanto acontecem estas realidades nacionais, pol\u00edticas, \u00e9tnicas, culturais e por a\u00ed fora, que s\u00e3o as na\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o os pa\u00edses, ou as regi\u00f5es grandes dentro dos pa\u00edses. E \u00e9 natural que os Bispos das dioceses presentes nessas regi\u00f5es ou nesses pa\u00edses tamb\u00e9m se encontrem para tratarem em comum das coisas que a todos dizem respeito. Tanto mais que hoje em dia a circula\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e9 muito grande, muito mais do que foi no passado. Uma Igreja como \u00e9 a nossa em Portugal, seja concretamente a Igreja do Porto, ou a Igreja de Lisboa, ou por a\u00ed fora, as pessoas s\u00e3o bastante \u201ctrans-diocesanas, como tamb\u00e9m s\u00e3o bastante \u201ctrans-paroquiais\u201d.  Tamb\u00e9m por a\u00ed \u00e9 importante que n\u00f3s tenhamos, enfim, um entendimento comum das coisas que comuns s\u00e3o. E por isso as Confer\u00eancias Episcopais t\u00eam um papel important\u00edsssimo. Enfim, eu, nestes oito anos que levo de bispo, teria sido muito diferente o que eu fiz e o que eu pensei se n\u00e3o tivesse reunido quatro vezes por ano com os meus colegas bispos de todo o pa\u00eds, debru\u00e7ado em conjunto sobre problemas que nos tocam a todos. E por isso as Confer\u00eancias Episcopais s\u00e3o organismos de uma enorme import\u00e2ncia para que esta ac\u00e7\u00e3o que cada Bispo faz na sua diocese seja uma ac\u00e7\u00e3o conjugado com o que fazem os seus irm\u00e3os das outras Igrejas \u2013 eu j\u00e1 nem digo \u201cvizinhas\u201d, porque hoje s\u00e3o quase interpenetradas pela pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o que se mexe de um lado para o outro, constantemente, e por not\u00edcias que s\u00e3o comuns e desafios que comuns tamb\u00e9m s\u00e3o.   Depois, h\u00e1 tamb\u00e9m outro aspecto, a que eu chamei sacramental e pessoal. \u00c9 que, quer no que diz respeito ao Sucessor de Pedro, quer no que diz respeito aos Bispos em cada diocese, n\u00f3s entendemos, na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, que se pode falar de um verdadeiro sacramento: o sacramento da Ordem, a sucess\u00e3o apost\u00f3lica. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que Jesus n\u00e3o entrega este servi\u00e7o de unidade e de comunh\u00e3o, que \u00e9 o dos ap\u00f3stolos, n\u00e3o o entrega genericamente, mas sim \u00e0queles homens nomeados um por um (ali\u00e1s s\u00e3o os \u00fanicos que s\u00e3o nomeados, em termos de fun\u00e7\u00e3o, nos Evangelhos!).  Depois, enfim, \u00e9 em cada Bispo que esta miss\u00e3o \u201capost\u00f3lica\u201d se concretiza, naquela pessoa. Portanto, a Igreja n\u00e3o tem servidores assim abstractos, mas realizados, concretizados, por isso, sacramentalmente, pessoalmente, nesta ou naquela pessoa, o que melhor que ela possa e saiba, mas sobretudo com a mesma gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intensa a experi\u00eancia humana e eclesial vivida pelos Bispos portugueses, na semana passada, em Roma, nos oito dias da sua visita \u201cad limina Apostolorum\u201d. Depois da anterior, em 1999, novos bispos foram nomeados e ordenados. Entre eles, D. 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