{"id":281549,"date":"2023-05-10T09:58:43","date_gmt":"2023-05-10T08:58:43","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=281549"},"modified":"2023-05-10T09:58:43","modified_gmt":"2023-05-10T08:58:43","slug":"cibercultura-pedofilia-nao-e-pedocriminalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-pedofilia-nao-e-pedocriminalidade\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; Pedofilia n\u00e3o \u00e9 pedocriminalidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 23 de mar\u00e7o, Lu\u00edsa Semedo escreve um <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2043421\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>; de opini\u00e3o para o P\u00fablico onde chama a aten\u00e7\u00e3o que \u2014 <em>\u00abA quest\u00e3o das palavras importa, porque as palavras s\u00e3o o reflexo de mentalidades, de estruturas. Em Fran\u00e7a, aos poucos tamb\u00e9m se vai abandonando o termo pedofilia para passar a falar de pedocriminalidade e de pedocriminosos.\u00bb<\/em> \u2014 H\u00e1 d\u00e9cadas que usamos a palavra errada e s\u00f3 agora \u00e9 que nos damos conta disso? Que impacte pode ter a recupera\u00e7\u00e3o do sentido e significado etimol\u00f3gico da palavra <em>pedofilia<\/em>?<\/p>\n<figure id=\"attachment_281550\" aria-describedby=\"caption-attachment-281550\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/pedofilia-Custom.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-281550 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/pedofilia-Custom.jpeg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1124\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/pedofilia-Custom.jpeg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/pedofilia-Custom-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/pedofilia-Custom-1024x767.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/pedofilia-Custom-768x575.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-281550\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Bonnie Kittle em Unsplash. &#8220;Pedofilia n\u00e3o \u00e9 pedocriminalidade.&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem abusa dos menores n\u00e3o \u00e9 um ped\u00f3filo, mas um <em>pedocriminoso<\/em>. A etimologia de pedofilia vem de <em>pedo-<\/em> que significa crian\u00e7as e <em>-filia<\/em> que significa amigo. H\u00e1 algu\u00e9m que n\u00e3o seja amigo das crian\u00e7a e, por isso, um ped\u00f3filo? Quem abusa sexualmente das crian\u00e7as \u00e9 tudo menos amigo delas. Comete um crime e, por isso, precisamos de iniciar uma onda que corrija a linguagem e procurar as fontes que induzem algu\u00e9m como um sacerdote, religioso ou leigo a enveredar pelo drama da <em>pedocriminalidade<\/em>.<\/p>\n<p>Um dos primeiros passos para corrigir a linguagem seria alterar a defini\u00e7\u00e3o de pedofilia. Neste momento, o dicion\u00e1rio apresenta para \u201cpedofilia\u201d algo tamb\u00e9m estranho \u2014 <em>\u00abatrac\u00e7\u00e3o sexual patol\u00f3gica de um adulto por crian\u00e7as\u00bb<\/em>. Parece-me estranho porque n\u00e3o seria antes esta a defini\u00e7\u00e3o de um predador <em>pedossexual<\/em>? Desde 2014 que o Papa Francisco apelou \u00e0 mudan\u00e7a desta palavra quando instituiu a Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia para a Prote\u00e7\u00e3o de Menores. Passada quase uma d\u00e9cada desde a cria\u00e7\u00e3o desta comiss\u00e3o, ainda se usa a palavra <em>pedofilia<\/em> para algo contr\u00e1rio ao seu significado. De onde vem a resist\u00eancia a adoptar pela palavra <em>pedocriminalidade<\/em>?<\/p>\n<p>A <em>pedocriminalidade<\/em> inclui tamb\u00e9m crimes de outra natureza que n\u00e3o seja, exclusivamente, de natureza sexual. Talvez por esse motivo a palavra esteja ainda a encontrar o seu espa\u00e7o na linguagem do tempo presente. Curiosamente, uma das primeiras vezes que esta palavra \u00e9 usada reporta a um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.chiabu.2010.01.011\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>; cient\u00edfico publicado em 2010 por G\u00e9rard Niveau, investigador da Faculdade de Medicina em Geneva na Su\u00ed\u00e7a, onde afirma<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abCom o advento da internet, surgiu um novo modo de comunica\u00e7\u00e3o caracterizado por uma capacidade sem precedentes de trocar informa\u00e7\u00f5es instantaneamente, um dom\u00ednio imenso e a aus\u00eancia geral de quaisquer regras, uma situa\u00e7\u00e3o que alguns descreveram como an\u00e1rquica. Esse meio de comunica\u00e7\u00e3o relativamente amplo deu origem \u00e0 <strong>pedocriminalidade<\/strong> cibern\u00e9tica, uma nova forma de comportamento criminoso que compreende a exibi\u00e7\u00e3o online, troca, venda e compra de arquivos contendo pedopornografia.\u00bb<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, parece existir uma liga\u00e7\u00e3o entre a emerg\u00eancia do mundo cibercultural e a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para alimentar o desejo desordenado que leva ao abuso sexual de um menor. Quando penso no caso dos sacerdotes, seria interessante avaliar se os que abusaram viviam sozinhos e que tipo de uso faziam da internet. Quando experimentamos alguma solid\u00e3o, o recurso \u00e0 internet permite a muitas pessoas ligarem-se ao mundo e \u00e0s imagens que saciam o olhar. Por\u00e9m, da solid\u00e3o pode passar-se ao v\u00edcio, justificando a necessidade de purificar o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na &#8220;Arte de Purificar o Cora\u00e7\u00e3o&#8221;, o Cardeal Tom\u00e1\u0161 \u0160pidl\u00edk (1919-2010) refere que prestar aten\u00e7\u00e3o a um cora\u00e7\u00e3o puro \u00e9 um processo psicol\u00f3gico com cinco fases que precisamos de ultrapassar:<\/p>\n<ol>\n<li><em>Sugest\u00e3o<\/em> \u2014 uma simples ideia orientada para o mal.<\/li>\n<li><em>Conversa<\/em> \u2014 um col\u00f3quio com a ideia sugerida em vez de a esfumar da mente.<\/li>\n<li><em>Combate<\/em> \u2014 uma reac\u00e7\u00e3o da alma (todo o nosso ser) que procura libertar-se do pensamento que n\u00e3o nos larga a mente.<\/li>\n<li><em>Consenso<\/em> \u2014 quando ficamos cansados de combater, cedemos \u00e0 ideia.<\/li>\n<li><em>V\u00edcio<\/em> \u2014 depois do consenso, a ideia orientada para o mal cria ra\u00edz em n\u00f3s e repetimos o que impede ter um cora\u00e7\u00e3o puro.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Poder\u00edamos questionar se este processo resulta pensando que Marko Rupnik, jesu\u00edta excomungado por abuxos sexuais, trabalhou com \u0160pidl\u00edk em diversas ocasi\u00f5es. Por\u00e9m, purificar o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de prescri\u00e7\u00e3o, mas de persuas\u00e3o da vontade. Nada resulta se n\u00e3o dermos passos na direc\u00e7\u00e3o da purifica\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o come\u00e7ando por reconhecer a sua necessidade constante. Por outro lado, a linguagem \u00e9 uma caracter\u00edstica humana essencial na forma\u00e7\u00e3o de ideias, e come\u00e7armos por chamar as coisas pelos nomes, neste caso \u2014 <em>pedocriminalidade<\/em> \u2014, seria tamb\u00e9m um passo importante.<\/p>\n<p>Pedofilia n\u00e3o \u00e9 pedocriminalidade. Quando na catequese dizemos a uma crian\u00e7a que Jesus \u00e9 teu amigo, fazemos de Jesus um ped\u00f3filo no sentido puro do termo que o tempo e a cultura humana deformou ao longo de muito anos. \u00c9 preciso purificar a linguagem, assim como \u00e9 fundamental purificar o cora\u00e7\u00e3o. Ambos est\u00e3o profundamente ligados e oxal\u00e1 que o mundo cibercultural de hoje pudesse tornar essa liga\u00e7\u00e3o viral, a come\u00e7ar por re-orientar os dicion\u00e1rios da palavra pedofilia para a pedocriminalidade. Qual a editora que ter\u00e1 coragem de dar o primeiro passo?<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-281549","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281549","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281549"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281549\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}