{"id":2815,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-profeta-e-um-santo\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-profeta-e-um-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-profeta-e-um-santo\/","title":{"rendered":"Um profeta e um Santo"},"content":{"rendered":"<p>O Pontificado de Jo\u00e3o Paulo II ficar\u00e1 sem d\u00favida com um dos mais longos e mais fecundos na hist\u00f3ria da Igreja. Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 o homem que veio de longe, que interrompeu uma s\u00e9rie secular de Papas italianos, que imprimiu um cunho muito pessoal ao exerc\u00edcio do seu minist\u00e9rio petrino, j\u00e1 pela peculiar intensidade que imprimiu a tudo o que empreendia e que tinha a energia de um atleta na escalada das Montanhas do esp\u00edrito, cuja for\u00e7a lhe vinha daquela t\u00e3o espont\u00e2nea e surpreendente devo\u00e7\u00e3o filiar mariana &#8211; Totus Tuus -, j\u00e1 tamb\u00e9m pela forma pessoal em primeira pessoa do singular nas suas comunica\u00e7\u00f5es, nos seus textos, em vez do tradicional plural majest\u00e1tico dos pont\u00edfices anteriores. Para mim, tr\u00eas coisas sempre me surpreenderam na ac\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica de Jo\u00e3o Paulo II.  Em primeiro lugar, o esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o que dele irradia, essa energia que lhe vem do fundo da alma e que contagia. Sempre senti uma profunda emo\u00e7\u00e3o nas poucas vezes que tive o privil\u00e9gio de estar perto dele. Na primeira vez que participei numa audi\u00eancia integrado num grupo de capel\u00e3es militares, em Roma, em Junho de 1986,  aquele olhar de profundidade com que me envolveu, tendo eu pr\u00f3prio ficado surpreendido quando na fotografia, que conservo como uma preciosidade, os nossos olhares se cruzam, num sorriso aberto de comunh\u00e3o intensa de alma e do cora\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o sabia seguramente quem eu era: mas aquele modo de olhar era t\u00e3o pessoal! E no ano jubilar, em Roma, na celebra\u00e7\u00e3o de encerramento do Congresso Mariol\u00f3gico Internacional, coube-me, como presidente do grupo de Portugal, ficar muito perto dele. E foram v\u00e1rias as vezes nas quais o seu olhar me envolveu, de um modo que senti particular, mesmo se na realidade, da parte dele, era um olhar que passeava por todos os que se encontravam a concelebrar com ele. E, numa das suas peregrina\u00e7\u00f5es a F\u00e1tima, aqueles largos minutos que permaneceu em sil\u00eancio, em profunda concentra\u00e7\u00e3o diante da imagem de Nossa Senhora, completamente absorvido, em col\u00f3quio \u00edntimo, alheio \u00e0 multid\u00e3o que se encontrava no recinto e \u00e0s c\u00e2maras de televis\u00e3o que transmitiam aquela tocante cena para todo o mundo!&#8230; Era neste esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o que ele encontrava e encontra a for\u00e7a para ser sinal de contradi\u00e7\u00e3o: o homem da fidelidade ao dep\u00f3sito da f\u00e9 no que respeita \u00e0 vida interna da Igreja em termos de ortodoxia e de ortopraxia; a coragem prof\u00e9tica nas suas viagens apost\u00f3licas pelo mundo todo, e o arrojo da sua doutrina social, econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Numa vez ou noutra tinha a impress\u00e3o de ele ser a \u00fanica voz a ouvir-se, e tal como na antiguidade, nos atribulados s\u00e9culos IV e V, tamb\u00e9m a fidelidade da Igreja ao seu mist\u00e9rio como que se concentrava na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II. Esta coragem em ser sinal de contradi\u00e7\u00e3o, que se manifestava na fidelidade ao essencial, nos campos da teologia e da moral,  e na ousadia nos campos da doutrina social, \u00e9 o segundo aspecto que sempre me impressionou no minist\u00e9rio petrino de Jo\u00e3o Paulo II. O terceiro aspecto tem a ver com a dimens\u00e3o simb\u00f3lica dos seus gestos: sem trair a fidelidade ao que \u00e9, as suas ac\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e concretas no campo do ecumenismo e do di\u00e1logo inter-religioso; o seu gesto de perd\u00e3o ao autor do atentado e a sua visita \u00e0 pris\u00e3o; os encontros com a Juventude, com uma capacidade e uma vibra\u00e7\u00e3o de empatia que se adensava \u00e0 medida que avan\u00e7ava na idade e as suas for\u00e7as iam diminuindo; a coragem e firmeza em manter-se de p\u00e9 e no seu lugar, mesmo na doen\u00e7a, que n\u00e3o oculta, como a dizer, com S. Paulo, cujo nome leva, que \u00e9 \u00e0 medida que o homem exterior se vai degradando, que se renova o homem interior.  Onde est\u00e1 o segredo de tanta energia? N\u00e3o vejo onde, a n\u00e3o ser na sua espiritualidade, naquela energia que lhe vem do fundo do ser e que nos toca e nos contagia, e que fez dele o homem que mudou a hist\u00f3ria, porque tamb\u00e9m a ele se deve a queda do muro de Berlim. Mas, mesmo a este respeito, fiquei muito impressionado quando li num dos seus textos o reconhecimento de que a queda do comunismo como sistema econ\u00f3mico, social e pol\u00edtico tamb\u00e9m trouxe um certo desequil\u00edbrio, pois isso abriu o caminho a certos excessos do capitalismo neoliberal que podem p\u00f4r em causa a paz e o desenvolvimento equilibrado do mundo.  Eu diria, parafraseando uma afirma\u00e7\u00e3o de E\u00e7a de Queir\u00f3s, que Jo\u00e3o Paulo II n\u00e3o \u00e9 apenas um g\u00e9nio! Ele \u00e9 sobretudo um profeta e um santo. Bem haja, Santo Padre!  Jos\u00e9 Jacinto Ferreira de Farias, SCJ Joseffarias@netcabo.pt <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pontificado de Jo\u00e3o Paulo II ficar\u00e1 sem d\u00favida com um dos mais longos e mais fecundos na hist\u00f3ria da Igreja. 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