{"id":28101,"date":"2007-11-10T11:40:04","date_gmt":"2007-11-10T11:40:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/11\/10\/discurso-de-bento-xvi-aos-bispos-portugueses\/"},"modified":"2007-11-10T11:40:04","modified_gmt":"2007-11-10T11:40:04","slug":"discurso-de-bento-xvi-aos-bispos-portugueses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-de-bento-xvi-aos-bispos-portugueses\/","title":{"rendered":"Discurso de Bento XVI aos bispos portugueses"},"content":{"rendered":"<p>Senhor Cardeal Patriarca, Amados Bispos portugueses! Sinto grande alegria em receber-vos hoje na Casa de Pedro, pela for\u00e7a de Deus s\u00f3lido pilar daquela ponte que sois chamados a ser e a estabelecer entre a humanidade e o seu destino supremo, a Sant\u00edssima Trindade. Oito anos depois da vossa \u00faltima Visita ad Limina, encontrais modificado o rosto de Pedro mas n\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o nem os bra\u00e7os que vos acolhem e confirmam na for\u00e7a de Deus que nos sustenta e irmana em Cristo Senhor: \u00abGra\u00e7a e paz vos sejam dadas em abund\u00e2ncia\u00bb (1 Ped 1, 2). Com estas palavras de boas-vindas, a todos sa\u00fado, agradecendo ao presidente da Confer\u00eancia Episcopal, Dom Jorge Ortiga, o esbo\u00e7o feito da vida e situa\u00e7\u00e3o das vossas dioceses e os devotados sentimentos que me exprimiu em nome de todos e que retribuo com vivo afecto e a certeza das minhas ora\u00e7\u00f5es por v\u00f3s e quantos est\u00e3o confiados \u00e0 vossa solicitude pastoral. Amados Bispos de Portugal, cruzastes a Porta Santa do Jubileu do ano 2000 \u00e0 cabe\u00e7a da peregrina\u00e7\u00e3o dos vossos diocesanos, convidando-os a entrar e permanecer em Cristo como a Casa dos seus desejos mais profundos e verdadeiros, ou seja, a Casa de Deus, e a medir at\u00e9 onde j\u00e1 se fizeram realidade tais desejos, isto \u00e9, at\u00e9 onde a vida e o ser de cada um encarna o Verbo de Deus, \u00e0 semelhan\u00e7a de S\u00e3o Paulo que dizia: \u00abJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, \u00e9 Cristo que vive em mim\u00bb (Gal 2, 20). Indicador concreto dessa encarna\u00e7\u00e3o: o transbordar para os outros da vida de Cristo que irrompe em mim. \u00c9 que \u00abeu n\u00e3o posso ter Cristo s\u00f3 para mim; posso pertencer-Lhe apenas unido a todos aqueles que se tornaram ou h\u00e3o-de tornar Seus. (\u2026) Tornamo-nos &#8220;um s\u00f3 corpo&#8221;, fundidos todos numa \u00fanica exist\u00eancia\u00bb (Carta enc. Deus caritas est, 14). Este \u00abcorpo\u00bb de Cristo que abra\u00e7a a humanidade de todos os tempos e lugares \u00e9 a Igreja. Prefigura\u00e7\u00e3o desta viu-a Santo Ambr\u00f3sio naquela \u00abterra santa\u00bb indicada por Deus a Mois\u00e9s: \u00abTira as tuas sand\u00e1lias dos p\u00e9s, porque o lugar em que est\u00e1s \u00e9 uma terra santa\u00bb (Ex 3, 5); e l\u00e1, mais tarde, foi-lhe ordenado: \u00abTu, por\u00e9m, permanece aqui comigo\u00bb (Dt 6, 31) \u2013 ordem esta, que o Santo Bispo de Mil\u00e3o actualiza para os fi\u00e9is nestes termos: \u00abTu permaneces comigo [com Deus], se permaneces na Igreja. (\u2026) Permanece, pois, na Igreja; permanece onde te apareci; a\u00ed Eu estou contigo. Onde est\u00e1 a Igreja, a\u00ed encontras o ponto de apoio mais firme para a tua mente; onde te apareci na sar\u00e7a ardente, a\u00ed est\u00e1 o alicerce da tua alma. De facto, Eu te apareci na Igreja, como outrora na sar\u00e7a ardente. Tu \u00e9s a sar\u00e7a, Eu o fogo; fogo na sar\u00e7a, sou Eu na tua carne. Por isso, Eu sou fogo: para te iluminar, para destruir os teus espinhos, os teus pecados, e te manifestar a minha benevol\u00eancia\u00bb (Epistul\u00e6 extra collectionem: Ep. 14, 41-42). Estas palavras bem traduzem a viv\u00eancia e o apelo deixado por Deus aos peregrinos do Grande Jubileu. Neste momento, quero convosco dar gra\u00e7as a Cristo Senhor pela grande miseric\u00f3rdia que usou para com a sua Igreja peregrina em Portugal nos dias do Ano Santo e nos anos sucessivos permeados do mesmo esp\u00edrito jubilar, que vos fez olhar, sem medo, limita\u00e7\u00f5es e falhas que vos deixaram \u00e0 m\u00edngua de p\u00e3o e tomar o caminho de regresso \u00e0 Casa do Pai, onde h\u00e1 p\u00e3o em abund\u00e2ncia. De facto, sente-se perdurar o mesmo clima do Jubileu em numerosas iniciativas por v\u00f3s tomadas nos anos imediatos: o recenseamento geral da pr\u00e1tica dominical, o retomar a caminhada sinodal feita ou a fazer, a convoca\u00e7\u00e3o em mais do que uma diocese da statio eucar\u00edstica ou da miss\u00e3o geral segundo modalidades novas e antigas, a realiza\u00e7\u00e3o nacional do encontro de movimentos e novas comunidades eclesiais e do congresso da fam\u00edlia, a vontade de servir o homem consignada pela Igreja e o Estado numa nova Concordata, a aclama\u00e7\u00e3o da santidade exemplar na pessoa de novos Beatos\u2026 Neste longo peregrinar, a confiss\u00e3o mais frequente nos l\u00e1bios dos crist\u00e3os foi falta de participa\u00e7\u00e3o na vida comunit\u00e1ria, propondo-se encontrar novas formas de integra\u00e7\u00e3o na comunidade. A palavra de ordem era, e \u00e9, construir caminhos de comunh\u00e3o. \u00c9 preciso mudar o estilo de organiza\u00e7\u00e3o da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Conc\u00edlio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a fun\u00e7\u00e3o do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na fam\u00edlia dos filhos de Deus, e todos somos correspons\u00e1veis pelo crescimento da Igreja. Esta eclesiologia da comunh\u00e3o na senda do Conc\u00edlio, \u00e0 qual a Igreja portuguesa se sente particularmente interpelada na sequ\u00eancia do Grande Jubileu, \u00e9, meus amados Irm\u00e3os, a rota certa a seguir, sem perder de vista eventuais escolhos tais como o horizontalismo na sua fonte, a democratiza\u00e7\u00e3o na atribui\u00e7\u00e3o dos minist\u00e9rios sacramentais, a equipara\u00e7\u00e3o entre a Ordem conferida e servi\u00e7os emergentes, a discuss\u00e3o sobre qual dos membros da comunidade seja o primeiro (in\u00fatil discutir, pois o Senhor Jesus j\u00e1 decidiu que \u00e9 o \u00faltimo). Com isto n\u00e3o quero dizer que n\u00e3o se deva discutir acerca do recto ordenamento na Igreja e sobre a atribui\u00e7\u00e3o das responsabilidades; sempre haver\u00e1 desequil\u00edbrios, que exigem correc\u00e7\u00e3o. Mas tais quest\u00f5es n\u00e3o nos podem distrair da verdadeira miss\u00e3o da Igreja: esta n\u00e3o deve falar primariamente de si mesma, mas de Deus. Os elementos essenciais do conceito crist\u00e3o de \u00abcomunh\u00e3o\u00bb encontram-se neste texto da primeira Carta de S\u00e3o Jo\u00e3o: \u00abO que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que tamb\u00e9m v\u00f3s tenhais comunh\u00e3o connosco. Quanto \u00e0 nossa comunh\u00e3o, ela \u00e9 com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo\u00bb (1, 3). Sobressai aqui o ponto de partida da comunh\u00e3o: est\u00e1 na uni\u00e3o de Deus com o homem, que \u00e9 Cristo em pessoa; o encontro com Cristo cria a comunh\u00e3o com Ele mesmo e, n\u2019Ele, com o Pai no Esp\u00edrito Santo. Vemos assim \u2013 como escrevi na primeira Enc\u00edclica \u2013 que, \u00abao in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa [Jesus Cristo] que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo\u00bb (Deus caritas est, 1); a evangeliza\u00e7\u00e3o da pessoa e das comunidades humanas depende, absolutamente, da exist\u00eancia ou n\u00e3o deste encontro com Jesus Cristo. Sabemos que o primeiro encontro pode revestir-se duma pluralidade de formas, como o demonstram in\u00fameras vidas de Santos (a apresenta\u00e7\u00e3o destas faz parte da evangeliza\u00e7\u00e3o, que deve ser acompanhada por modelos de pensamento e de conduta), mas a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da pessoa passa, normalmente, pela Igreja: a presente economia divina da salva\u00e7\u00e3o requer a Igreja. \u00c0 vista da mar\u00e9 crescente de crist\u00e3os n\u00e3o praticantes nas vossas dioceses, talvez valha a pena verificardes \u00aba efic\u00e1cia dos percursos de inicia\u00e7\u00e3o actuais, para que o crist\u00e3o seja ajudado, pela ac\u00e7\u00e3o educativa das nossas comunidades, a maturar cada vez mais at\u00e9 chegar a assumir na sua vida uma orienta\u00e7\u00e3o autenticamente eucar\u00edstica, de tal modo que seja capaz de dar raz\u00e3o da pr\u00f3pria esperan\u00e7a de maneira adequada ao nosso tempo\u00bb (Exort. ap. p\u00f3s-sinodal Sacramentum caritatis, 18). Amados Bispos de Portugal, h\u00e1 quatro semanas encontrastes-vos no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima com o Cardeal Secret\u00e1rio de Estado que l\u00e1 enviei como meu Legado Especial no encerramento das celebra\u00e7\u00f5es pelos 90 anos das Apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora. Apraz-me pensar em F\u00e1tima como escola de f\u00e9 com a Virgem Maria por Mestra; l\u00e1 ergueu Ela a sua c\u00e1tedra para ensinar aos pequenos Videntes e depois \u00e0s multid\u00f5es as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar. Na atitude humilde de alunos que necessitam de aprender a li\u00e7\u00e3o, confiem-se diariamente, a Mestra t\u00e3o insigne e M\u00e3e do Cristo total, todos e cada um de v\u00f3s e os sacerdotes vossos directos colaboradores na condu\u00e7\u00e3o do rebanho, os consagrados e consagradas que antecipam o C\u00e9u na terra e os fi\u00e9is leigos que moldam a terra \u00e0 imagem do C\u00e9u. Sobre todos implorando, pelo valimento de Nossa Senhora de F\u00e1tima, a luz e a for\u00e7a do Esp\u00edrito, concedo-lhes a minha B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica. <i>Bento XVI, 10 de Novembro de 2007<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senhor Cardeal Patriarca, Amados Bispos portugueses! Sinto grande alegria em receber-vos hoje na Casa de Pedro, pela for\u00e7a de Deus s\u00f3lido pilar daquela ponte que sois chamados a ser e a estabelecer entre a humanidade e o seu destino supremo, a Sant\u00edssima Trindade. 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