{"id":280903,"date":"2023-05-04T09:00:23","date_gmt":"2023-05-04T08:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=280903"},"modified":"2023-05-03T13:32:38","modified_gmt":"2023-05-03T12:32:38","slug":"a-importancia-da-piedade-popular-no-baixo-alentejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-importancia-da-piedade-popular-no-baixo-alentejo\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia da piedade popular no Baixo Alentejo"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Hugo Gon\u00e7alves, Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-266299 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>O Baixo Alentejo vive e respira a piedade popular, traduzida nas inumer\u00e1veis prociss\u00f5es, tocada nas ancestrais tradi\u00e7\u00f5es em torno da Paix\u00e3o de Cristo, saboreada na gastronomia de cada \u00e9poca, respirada pelas fragr\u00e2ncias de cada tempo e ouvida na beleza e como\u00e7\u00e3o do cante alentejano que a ningu\u00e9m deixa indiferente<em>.<\/em><\/p>\n<p>Partindo da forma como o Papa Francisco considera e enaltece a piedade popular ao defini-la como um tesouro, ent\u00e3o poder-se-\u00e1 afirmar que o Alentejo \u00e9 verdadeira e profundamente rico na medida em que n\u00e3o h\u00e1 praticamente m\u00eas em que, nalguma par\u00f3quia ou lugar destas vastas terras do campo dourado, n\u00e3o haja um festa, uma prociss\u00e3o.<\/p>\n<p>Contrariando um preconceito generalizado sobre o Alentejo, cujas concep\u00e7\u00f5es tendem sempre a olhar esta regi\u00e3o transtagana como um deserto social e espiritual, a verdade \u00e9 que a cultura deste povo coloca a f\u00e9 na din\u00e2mica da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, exist\u00eancia e viv\u00eancia.\u00a0 As diversas festividades (na sua grande maioria de \u00edndole religiosa) s\u00e3o sempre lugar de reuni\u00e3o e confraterniza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, dos amigos, das comunidades, sendo que tamb\u00e9m acolhem a di\u00e1spora pois muitos s\u00e3o aqueles que tiram dias de f\u00e9rias para regressarem \u00e0s suas terras de modo a tomarem parte nas celebra\u00e7\u00f5es dos seus padroeiros.<\/p>\n<p>Algumas destas festas s\u00e3o romarias a capelas que est\u00e3o como que perdidas nos campos \u2013 para l\u00e1 v\u00e3o romando, em jeito de peregrina\u00e7\u00e3o, os homens, as mulheres, os jovens e as crian\u00e7as. Podem nem sempre ir \u00e0 Missa, mas aquela \u00e9 festa sagrada, que marca o ritmo do ano, das suas vidas, e estar presente \u00e9 algo de verdadeiramente importante. Se o tempo ajuda, ent\u00e3o montam-se mesas, estendem-se toalhas no ch\u00e3o e, depois da Missa e da prociss\u00e3o, \u00e9 tempo de comer, de sentar a fam\u00edlia, os amigos e de conviver, de recordar com os mais velhos como era antigamente as festas \u2013 \u201cera com mais gente; ningu\u00e9m ia para a praia; a aldeia, a vila tinha muito mais pessoas; em cada casa eram seis, sete\u201d. Recordo aqui algumas festas: a\u00a0 de S\u00e3o Sebasti\u00e3o (que se celebra a 20 Janeiro), em Castro Verde, com a sua tradicional feira e romaria \u00e0 capela que se encontra nos arrabaldes desta vila; tamb\u00e9m nesta par\u00f3quia, no segundo Domingo do m\u00eas de Maio se faz a romaria a cavalo, de charrete (as quais levam os andores) ou mesmo a p\u00e9, l\u00e1 se celebra a\u00a0 Missa e se come no campo e h\u00e1 sempre anima\u00e7\u00e3o. Em Messejana, no 5\u00ba Domingo da Quarema, a que o povo chama de L\u00e1zaro, decorre a prociss\u00e3o dos Passos e no 14 de Agosto h\u00e1 romaria \u00e0 bela capela de N.\u00aa S.\u00aa da Assun\u00e7\u00e3o \u2013 l\u00e1 se passa parte do dia, se almo\u00e7a e convive, se recita o ter\u00e7o e se celebra a Missa, para finalmente \u00e0 tarde se trazer a imagem de Nossa Senhora at\u00e9 \u00e0 vila, para ficar na igreja matriz at\u00e9 \u00e0 festa do dia seguinte. A 8 de Setembro, em Ourique \u00e9 a romaria ao Santu\u00e1rio de Nossa Senhora da Cola, a festa inicia-se no dia anterior, com feira e m\u00fasica, prolongando-se no dia seguinte, o da festa. Nestas e muit\u00edssimas outras prociss\u00f5es e romarias, que proliferam por todo o Baixo Alentejo, a gastronomia acompanha o ciclo das festas \u2013 o cozido de gr\u00e3os, as sopas de toicinho nos meses de inverno, o jantarinho de ch\u00edcharos e o ensopado de borrego j\u00e1 na primavera, os grelhados de carne de porco, as sardinhas e carapaus, a sopas frias ou gaspacho, as a\u00e7ordas no ver\u00e3o; nunca falta o bom vinho alentejano, os enchidos caseiros e os queijos, beijados no final por um medronho. As refei\u00e7\u00f5es, j\u00e1 a meio ou no seu final, s\u00e3o marcadas pela melodia do cante alentejano, onde todos cantam e onde ningu\u00e9m \u00e9 capaz de ficar apenas como espectador, transmitindo entre as gera\u00e7\u00f5es a riqueza das letras, das melodias e do sentido espiritual com que se entoa o cante do Alentejo; elas, as m\u00fasicas, as modas e as suas letras, acompanham o sentido espiritual e lit\u00fargico de cada festividade: melanc\u00f3licas na Quaresma e Paix\u00e3o, cheias de alegria e ternura no Natal, no cante ao Menino e nas de Nossa Senhora.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi dito, muitos olham para o Alentejo como uma terra des\u00e9rtica em v\u00e1rios sentidos, sendo um deles o da f\u00e9. \u00c9 verdade que, muitos dos que vivem por estas terras, n\u00e3o s\u00e3o ass\u00edduos aos actos comunit\u00e1rios como noutras zonas, mas esse facto n\u00e3o pode ser interpretado \u00e0 luz do bin\u00f3mio <em>crente-descrente<\/em>, dado que circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas servem de chave de leitura para a realidade de hoje. A Diocese de Beja viveu s\u00e9culos sem Bispo (celebr\u00e1mos h\u00e1 poucos anos os 250 anos da restaura\u00e7\u00e3o da Diocese), onde o clero secular era em n\u00famero reduzido e onde a vida destas popula\u00e7\u00f5es girava tendencialmente em torno dos diversos conventos que salpicavam esta regi\u00e3o. Durante o tempo da monarquia constitucional, mais concretamente com Joaquim Ant\u00f3nio de Aguiar (apelidado de Mata-Frades) como Ministro dos Neg\u00f3cios Eclesi\u00e1sticos e da Justi\u00e7a, deu-se uma machadada nos cat\u00f3licos do Baixo Alentejo, com a lei que extinguia os conventos e mosteiros, expropriando tudo o que eram bens da Igreja e deixando sem cura pastoral este povo que destas comunidades religiosas dependia. Posteriormente sucedeu a Rep\u00fablica, portadora de uma nova persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja e apropriando-se dos poucos bens que restavam do primeiro saque. Os poucos padres seculares que resistiram, tantas vezes isolados e sem fonte de subsist\u00eancia, foram for\u00e7ados a escolher entre a obedi\u00eancia ao poder pol\u00edtico ou \u00e0 Igreja e, no caso daqueles que tiveram a coragem de desobedecer \u00e0 tirania pol\u00edtica, restou-lhes muitas vezes viver da esmola dos grandes latifundi\u00e1rios, com todas as consequ\u00eancias nefastas que chegaram at\u00e9 ao p\u00f3s o 25 de Abril de 1974. Mas no meio de toda esta turbul\u00eancia, h\u00e1 algo que perdurou e em que nem os promotores deste movimentos pol\u00edticos conseguiram tocar: a piedade popular, manifesta nas prociss\u00f5es, romarias e no cante, sobressaindo uma grande devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora, a quem carinhosamente os homens chamam de \u2018Santinha\u2019. A centralidade do culto mariano, extremamente relacionado com a estrutura matriarcal alentejana, faz com que n\u00e3o se permitam ofensas a Nossa Senhora nestas terras alentejanas e, se porventura algu\u00e9m o insinua, rapidamente enfrentar\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o de negativa de homens e mulheres dos mais diferentes quadrantes da sociedade e das mais diferentes convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. E, se porventura subsiste alguma d\u00favida sobre o amor destes homens e mulheres a Santa Maria, ent\u00e3o basta ouvir o cante, escutar a letra que brotou de gente simples e tantas vezes iletrada, para compreender que h\u00e1 ainda uma \u201ctorcida que fumega\u201d e que aguarda que os pastores a soprem com a suavidade do Esp\u00edrito e sob a luz do Evangelho.<\/p>\n<p>A piedade popular, as romarias, as prociss\u00f5es, as tradi\u00e7\u00f5es religiosas e o cante s\u00e3o certamente a porta que poder\u00e1 conduzir a uma convers\u00e3o e a um encontro pessoal com o Senhor. Para isso, compete aos pastores e ao laicado descobrir neste tesouro sementes de esperan\u00e7a de uma evangeliza\u00e7\u00e3o adormecida no cora\u00e7\u00e3o do Alentejo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Hugo Gon\u00e7alves, Diocese de Beja<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":266299,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-280903","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/280903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=280903"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/280903\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=280903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=280903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=280903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}