{"id":280768,"date":"2023-05-03T09:00:01","date_gmt":"2023-05-03T08:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=280768"},"modified":"2023-05-02T17:22:43","modified_gmt":"2023-05-02T16:22:43","slug":"um-dialogo-em-condicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-dialogo-em-condicoes\/","title":{"rendered":"Um di\u00e1logo em condi\u00e7\u00f5es\u2026"},"content":{"rendered":"<p><em>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-266200 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Os nossos tempos t\u00eam medo\u2026 Medo de tudo, mas, particularmente, do outro, do diferente de si pr\u00f3prio. Temos medo daquele que vem de outro lugar, do que pensa de outro modo, do que cr\u00ea de forma diferente\u2026 Por paradoxal que pare\u00e7a, por\u00e9m, muitos tomariam estas primeiras afirma\u00e7\u00f5es como defesa de um pronto acolhimento das agendas ditas \u2018da diferen\u00e7a\u2019. H\u00e1, contudo, que reconhecer que uma das maiores promotoras deste medo do outro, do diferente, \u00e9, entre outras, precisamente, a ideologia de g\u00e9nero (e outras agendas agregadas) que promove um individualismo que fecha cada um em si mesmo, como que revisitando a r\u00e9gua de Prot\u00e1goras e dando-lhe um novo sujeito: \u2018o indiv\u00edduo \u00e9 a medida de todas as coisas\u2019\u2026<\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se, por isso, superar os medos, superar os individualismos enclausurantes, e partir em dire\u00e7\u00e3o ao outro, ao tu, diante de quem nos definimos como \u2018eu\u2019.<\/p>\n<p>A etimologia da palavra \u2018di\u00e1logo\u2019 ajuda a perceber o alcance desta minha \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma etimologia fina do que nos diz a palavra \u2018di\u00e1logo\u2019 permite-nos concluir que ela afirma que a \u2018palavra percorre um caminho que vai de um a outro sujeito\u2019. Poder\u00edamos traduzir a palavra \u2018di\u00e1logo\u2019 como \u2018a palavra ao longo de, atrav\u00e9s de\u2019, como que afirmando que existe uma \u2018tens\u00e3o\u2019 natural, fundamental, que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para que a palavra se sinta atra\u00edda a sair de um e dirigir-se a outro.<\/p>\n<p>\u00c0 luz desta etimologia, percebe-se que, para haver di\u00e1logo, \u00e9 necess\u00e1rio assegurar duas condi\u00e7\u00f5es. Condi\u00e7\u00f5es que, quando inexistentes, criam o cen\u00e1rio em que se representam os extremismos de direita ou de esquerda.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas condi\u00e7\u00f5es as seguintes:<\/p>\n<p>&#8211; Por um lado, diferen\u00e7a;<\/p>\n<p>&#8211; Por outro lado, abertura.<\/p>\n<p>Os tempos em que vivemos, radicalizados, polarizados, esquecem uma ou outra condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora afirmam que, em nome do \u2018di\u00e1logo\u2019 se fundam as identidades, se omitam as identidades, se neutralizem as identidades, como se tal assegurasse as boas condi\u00e7\u00f5es para o di\u00e1logo. Nada mais errado. A oculta\u00e7\u00e3o das identidades impede o di\u00e1logo, funde as vozes num mon\u00f3logo, redundando, por fim, na gritaria dos que elevam mais alto a voz.<\/p>\n<p>Contra esta vis\u00e3o, deve afirmar-se a import\u00e2ncia das identidades, da hist\u00f3ria, da mem\u00f3ria, na linha, ali\u00e1s, do que sustenta a nossa Constitui\u00e7\u00e3o, quando se refere \u00e0 natureza da rela\u00e7\u00e3o entre Estado e Igrejas, e onde se evita uma ideia de laicidade compreendida como silenciamento das religi\u00f5es ou neutralidade opaca do Estado. A nossa Constitui\u00e7\u00e3o, ao evitar os termos \u2018laico\u2019 e \u2018laicidade\u2019 para definir a rela\u00e7\u00e3o da III Rep\u00fablica com as religi\u00f5es, foi s\u00e1bia, pois compreendeu as li\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria e definiu que a Rep\u00fablica se relaciona com as religi\u00f5es como parceiras e como cooperantes na constru\u00e7\u00e3o da sociedade. A nossa Constitui\u00e7\u00e3o defende a separa\u00e7\u00e3o entre Estado e Igrejas, n\u00e3o em nome de uma indiferen\u00e7a e fus\u00e3o de identidades (neutralizando-as), mas sim em nome da liberdade e identidade religiosa. Evita, com sabedoria, os erros da Constitui\u00e7\u00e3o francesa que utiliza o termo \u2018laica\u2019, criando um problema com as religi\u00f5es que, felizmente, Portugal n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>\u00c9 esta sabedoria que deveria ter-se sempre que a mat\u00e9ria \u00e9 di\u00e1logo e encontro de culturas. O di\u00e1logo n\u00e3o sup\u00f5e, a esta luz, uma fus\u00e3o, uma neutralidade das identidades, mas, antes, sup\u00f5e-nas. Sem identidades, a palavra n\u00e3o percorre um caminho; antes, p\u00e1ra, estagna, n\u00e3o circula\u2026<\/p>\n<p>Este \u00e9 o risco dos radicalismos de esquerda.<\/p>\n<p>A outra condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a abertura. Abertura que tem a consci\u00eancia de que ningu\u00e9m nasce de si, ningu\u00e9m se gera a si mesmo, ningu\u00e9m pode constituir-se como \u2018eu\u2019 sem ser diante de um \u2018tu\u2019.<\/p>\n<p>O medo do outro, enclausurado numa m\u00e1scara que faz dele sempre algu\u00e9m sem virtudes, aprisiona e contradiz o axioma de que sem os outros nunca ter\u00edamos consci\u00eancia de n\u00f3s mesmos. \u00c9 diante do outro que nos definimos e n\u00e3o sem o outro. O outro n\u00e3o deveria, por isso, suscitar-nos medo, mas gratid\u00e3o. O outro \u00e9 como que a nossa condi\u00e7\u00e3o de possibilidade, pois, como tenho vindo a afirmar, repetidamente, a nossa liberdade n\u00e3o termina onde come\u00e7a a do outro (como defendeu Herbert Spencer, preconizador do liberalismo cl\u00e1ssico), como se o outro nos limitasse, nos oprimisse e fosse o impedimento para o nosso desenvolvimento, mas antes, a nossa liberdade s\u00f3 \u00e9 efetiva se crescer com a do outro, se promover a do outro e s\u00f3 germina com a do outro.<\/p>\n<p>O esquecimento disto \u00e9 o erro dos extremismos de direita.<\/p>\n<p>Radicalismos de esquerda, que fundem as identidades e as neutralizam, ou de direita, que isolam e fecham em si mesmos, esquecem uma das duas condi\u00e7\u00f5es, absolutizando apenas uma delas.<\/p>\n<p>Ao afirmarem essa condi\u00e7\u00e3o, que pretendem proteger, parecem seduzir e atrair, mas \u00e9 sempre bom lembrar aos que, entre os cat\u00f3licos, se identificam com o radicalismo de esquerda ou com o radicalismo de direita que o segredo da catolicidade est\u00e1 em n\u00e3o tomar apenas uma parte, como tantas vezes fizeram as \u2018heresias\u2019 (\u2018heresia\u2019 quer, precisamente, dizer \u2018escolha\u2019, \u2018op\u00e7\u00e3o\u2019, \u2018parte\u2019). A verdadeira sabedoria cat\u00f3lica est\u00e1 em n\u00e3o ficar com uma parte: \u00e9 preciso tomar o todo.<\/p>\n<p>E assim haver\u00e1 um di\u00e1logo em condi\u00e7\u00f5es\u2026 Todas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-280768","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/280768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=280768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/280768\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=280768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=280768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=280768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}