{"id":280412,"date":"2023-04-30T09:30:25","date_gmt":"2023-04-30T08:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=280412"},"modified":"2023-04-29T14:41:45","modified_gmt":"2023-04-29T13:41:45","slug":"as-pessoas-sentem-que-ja-nao-tem-muito-a-perder-so-juntas-encontram-saidas-para-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-pessoas-sentem-que-ja-nao-tem-muito-a-perder-so-juntas-encontram-saidas-para-a-crise\/","title":{"rendered":"\u00abAs pessoas sentem que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam muito a perder, s\u00f3 juntas encontram sa\u00eddas para a crise\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>A tens\u00e3o acumula-se nas ruas, \u00e0 medida que o poder de compra desce e sobem os protestos e as greves. A presidente do Movimento de Trabalhadores Crist\u00e3os da Europa (MTC), em entrevista \u00e0 RR e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia, avisa que o custo de vida \u201caumentou brutalmente\u201d, as fam\u00edlias \u201ct\u00eam medo de perder a casa\u201d e o trabalho j\u00e1 n\u00e3o garante a fuga \u00e0 pobreza<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-189262 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"733\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4.jpg 1100w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/olinda-marques-4-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Sandra Afonso (RR) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos na v\u00e9spera da comemora\u00e7\u00e3o do 1\u00ba de maio. Como olha para o atual cen\u00e1rio social em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o em Portugal n\u00e3o \u00e9 \u00fanica, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o abrangente, n\u00e3o s\u00f3 na Europa, mas tamb\u00e9m em todo o mundo. Assiste-se, no p\u00f3s pandemia, a uma escassez e ao aumento do custo de alguns bens essenciais. Por outro lado, h\u00e1 alguma desregula\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e dos hor\u00e1rios de trabalho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m come\u00e7a a sentir se de forma mais forte, sobretudo em pessoas que trabalham no sector informal, que muitas vezes nem t\u00eam acesso \u00e0 seguran\u00e7a social, que n\u00e3o t\u00eam seguro de acidentes de trabalho. Aquilo que n\u00f3s consideramos que s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para ter um trabalho digno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nos primeiros 100 dias deste ano, Portugal registou mais de 300 greves. O privado apresenta o triplo das paralisa\u00e7\u00f5es, \u00e9 um recorde desde 2016, altura em que os dados come\u00e7aram a ser recolhidos. Isto \u00e9 um sinal de que os trabalhadores est\u00e3o no limite e de que esta tens\u00e3o pode escalar?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um sinal de que as pessoas est\u00e3o cansadas. \u00c9 um sinal de que o custo de vida aumentou brutalmente, o aumento das taxas de juro tamb\u00e9m fez com que as pessoas come\u00e7assem a ter receio de perder a casa, o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Por outro lado, as casas tamb\u00e9m aumentaram brutalmente e, por isso,\u00a0as pessoas sentem que tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam muito a perder, que s\u00f3 juntas \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel encontrar sa\u00eddas para esta crise.<\/p>\n<p>Depois do esfor\u00e7o que o covid trouxe em termos de crise sanit\u00e1ria, um esfor\u00e7o do qual n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria, foi necess\u00e1rio reinventar formas de mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, que est\u00e3o a revelar-se em greves um pouco por todo o pa\u00eds. Mas a situa\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da Europa, por exemplo, em Fran\u00e7a, \u00e9 bem mais abrangente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os trabalhadores crist\u00e3os da Europa consideram que o apoio financeiro dos governos n\u00e3o foi suficientemente direcionado. \u00c9 preciso ir mais al\u00e9m na resposta \u00e0 crise, incluindo em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, sim. O esfor\u00e7o financeiro tem de ser direcionado no sentido de dignificar cada uma das pessoas, porque muitas vezes o que est\u00e1 \u00e0 frente \u00e9 a parte econ\u00f3mica e n\u00e3o a pessoa humana, o trabalhador individual.<\/p>\n<p>\u00abVemos que em todo o mundo o foco n\u00e3o est\u00e1 no trabalho digno, n\u00e3o est\u00e1 no trabalhador, nem nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, nem em garantir que cada pessoa tenha acesso a um sal\u00e1rio que lhe permita ter uma casa, que permita viver dignamente e que permita sustentar a sua fam\u00edlia. Em vez disso, vemos muitas pessoas sem acesso ao trabalho e outros trabalhadores com hor\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es laborais completamente desregulados. Por isso \u00e9 que, por exemplo, ao n\u00edvel europeu, defendemos a quest\u00e3o do domingo livre de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma das prioridades que a Pastoral Oper\u00e1ria tem vindo a apresentar na Europa, que j\u00e1 tem esta miss\u00e3o desde 2020. Al\u00e9m do domingo livre j\u00e1 falou dos baixos sal\u00e1rios, da precariedade laboral, s\u00e3o preocupa\u00e7\u00f5es dos movimentos cat\u00f3licos da Pastoral Oper\u00e1ria na Europa. Teme que a situa\u00e7\u00e3o se venha agravar nos pr\u00f3ximos tempos?<\/em><\/p>\n<p>Se n\u00f3s olharmos para tr\u00e1s, quando come\u00e7aram a surgir estas novas tecnologias, todos n\u00f3s acredit\u00e1mos que era poss\u00edvel reduzir o hor\u00e1rio de trabalho e que era poss\u00edvel os trabalhadores ficarem com mais tempo livre. Mas, a realidade foi um bocadinho diferente.<\/p>\n<p>Existe um conjunto de trabalhadores com hor\u00e1rios extenuantes, desregulados, e outro conjunto de trabalhadores que n\u00e3o tem acesso ao trabalho ou que n\u00e3o tem acesso ao trabalho de forma digna. Se o trabalho fosse distribu\u00eddo de outra forma, era poss\u00edvel termos um sal\u00e1rio digno suficiente para cobrir as necessidades das fam\u00edlias. Por outro lado, claramente n\u00e3o parece ser uma prioridade a elimina\u00e7\u00e3o da pobreza. Acabamos por encontrar solu\u00e7\u00f5es mais parciais para os problemas, respondemos muito com respostas imediatas.<\/p>\n<p>Claro que as pessoas t\u00eam fome e \u00e9 preciso resolver o problema! Mas se apostamos numa pol\u00edtica de sal\u00e1rios muito baixos, com pessoas que trabalham \u00e0 noite, ao fim de semana, em dois ou tr\u00eas lugares distintos para conseguirem pagar as suas despesas, depois falamos em baixa natalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para este combate \u00e0 precariedade laboral, a redu\u00e7\u00e3o da jornada semanal para quatro dias pode ser uma solu\u00e7\u00e3o? Defende esta altera\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 est\u00e1 em discuss\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>No fundo, essa proposta muitas vezes significa trabalhar muito mais tempo aos outros dias. \u00c9 uma proposta interessante, que j\u00e1 est\u00e1 em teste em alguns locais, mas o que eu defendia sobretudo, em termos de movimento, era que existisse um dia de descanso comum. Porque, se as pessoas trabalharem quatro dias, mas os tr\u00eas dias livres n\u00e3o coincidirem com os dias livres do resto da fam\u00edlia, acaba por ter muito pouco impacto. Os dias livres t\u00eam de ser em comum.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Este dia de descanso comum inclui a paragem de com\u00e9rcio, servi\u00e7os, tudo o que normalmente est\u00e1 aberto ao domingo?<\/em><\/p>\n<p>Exceto aquilo que \u00e9 essencial para a vida humana. O trabalho, por exemplo, na \u00e1rea da sa\u00fade ou trabalho em lares, farm\u00e1cias, hospitais.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Esta quest\u00e3o do domingo livre \u00e9 um debate antigo da Pastoral Oper\u00e1ria, que engloba uma frente comum de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es. H\u00e1 bons exemplos que t\u00eam chegado do resto da Europa, j\u00e1 que tem estado tamb\u00e9m envolvida na dire\u00e7\u00e3o do movimento Trabalhadores Crist\u00e3os?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Quando era adolescente foi-me dado a entender que o com\u00e9rcio estava aberto em toda a Europa, exceto em Portugal. N\u00f3s \u00e9 que \u00e9ramos uns privilegiados. Na pr\u00e1tica, aquilo que acontece \u00e9 quase o contr\u00e1rio. Ou seja, o com\u00e9rcio geral est\u00e1 fechado ao domingo em praticamente todos os pa\u00edses da Europa. \u00c9 o que acontece, por exemplo, na Alemanha, na Su\u00ed\u00e7a, em Espanha. Ou seja, n\u00f3s \u00e9 que somos quase um exemplo \u00fanico, porque n\u00f3s \u00e9 que temos tudo aberto ao domingo. Se calhar tamb\u00e9m depende de n\u00f3s, enquanto consumidores, fazer a op\u00e7\u00e3o por, se poss\u00edvel, fazer as compras noutro dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso leva a uma outra quest\u00e3o, de que falou ainda h\u00e1 pouco. \u00c9 poss\u00edvel fazer isso com os ritmos de trabalho que existem, com o tempo que as pessoas perdem em desloca\u00e7\u00e3o. Ou seja, isto \u00e9 uma mudan\u00e7a estrutural, tem de ser muito mais ampla, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 uma mudan\u00e7a que tem de come\u00e7ar, se calhar, com cada um de n\u00f3s. No fundo, cada um de n\u00f3s \u00e9 consumidor. Al\u00e9m de ser trabalhador, tamb\u00e9m \u00e9 consumidor. De uma forma geral, se antes consegu\u00edamos fazer as compras ao s\u00e1bado de manh\u00e3 &#8211; porque ainda sobra o s\u00e1bado, at\u00e9 o s\u00e1bado \u00e0 tarde- porque \u00e9 que agora tem de ser ao domingo? At\u00e9 mesmo como sa\u00edda familiar, \u00e9 muito discut\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu trabalho com crian\u00e7as, tamb\u00e9m, no MAAC [Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crian\u00e7as], que \u00e9 um movimento da Pastoral Oper\u00e1ria, e alguns dos meninos que eu acompanho falam: \u201cAo domingo costumamos sair para ir \u00e0s compras\u201d. Ok, tudo bem, mas enquanto sa\u00edda familiar tamb\u00e9m n\u00e3o me parece ser aquilo mais marcante, mais interessante a fazer em fam\u00edlia, quando existem tantas outras possibilidades, quer do ponto de vista cultural, quer do ponto de vista de natureza ou simplesmente ficar em casa tranquilamente em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E at\u00e9 h\u00e1 op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o dispendiosas e outras que nem implicam dinheiro. H\u00e1 uma quest\u00e3o que condiciona muito a vida dos portugueses, j\u00e1 fal\u00e1mos dela, que \u00e9 a quest\u00e3o salarial e os baixos sal\u00e1rios em Portugal.\u00a0Ser trabalhador deixou de garantir a fuga \u00e0 pobreza no nosso pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Deixou de garantir. Por isso mesmo \u00e9 que muitos trabalhadores, em vez de terem um trabalho, t\u00eam dois trabalhos, fazem mais horas e deslocam-se de locais para locais. Porque, no fundo, com o aumento do custo da habita\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m com o aumento do custo dos bens essenciais &#8211; arroz, massa, leite, coisas b\u00e1sicas &#8211; tornou-se dif\u00edcil alimentar a fam\u00edlia e garantir o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O governo tem avan\u00e7ado com muitas medidas populares nesta \u00e1rea: apoios a quem tem cr\u00e9ditos \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, o famoso IVA zero. Como \u00e9 que v\u00ea estas medidas?<\/em><\/p>\n<p>Tudo contribui para minorar, mas n\u00e3o me parece que seja suficiente, porque no fundo s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es mais estruturais. Tamb\u00e9m reconhe\u00e7o que seria mais f\u00e1cil de resolver se fosse um problema simplesmente portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa quest\u00e3o da guerra e o impacto que teve em toda a Europa tamb\u00e9m \u00e9 sentida no Movimento? H\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com o facto de serem muitas vezes os trabalhadores a pagar a maior fatura?<\/em><\/p>\n<p>Sim, os trabalhadores e n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel na Europa. No final de mar\u00e7o, tivemos um encontro mundial e foi partilhado um bocadinho isto: a subida generalizada da infla\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m outra dificuldade para muitas pessoas, que trabalham no sector informal e, por isso, foram as mais sacrificadas durante a pandemia, porque no fundo n\u00e3o tinham qualquer sistema de prote\u00e7\u00e3o. Foram obrigadas a trabalhar, durante a pandemia, mesmo correndo riscos, porque n\u00e3o tinham outra forma.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, em Portugal, por exemplo, o setor das mulheres a dias \u00e9 um setor que vive um bocadinho isto. Na zona onde eu vivo, existem muitas mulheres que trabalham nas limpezas, em casas particulares, mas a maioria n\u00e3o tem Seguran\u00e7a Social. Durante a pandemia, a maior parte delas ficou sem qualquer rendimento porque n\u00e3o ia trabalhar, por isso n\u00e3o recebia. Simples.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 justamente uma das v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es, s\u00e3o cerca de 70, que v\u00e3o entrar em vigor agora no dia 1 de maio, na legisla\u00e7\u00e3o laboral. Por exemplo, passa a ser considerado crime a n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o deste trabalho na Seguran\u00e7a Social, estamos a falar de mulheres a dias, de tudo o que \u00e9 trabalho prec\u00e1rio. Imagino que seja uma altera\u00e7\u00e3o positiva\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim. Eu diria que s\u00e3o muitos milhares de pessoas &#8211; aqui na cidade de Coimbra, a realidade que eu conhe\u00e7o bem, s\u00e3o sobretudo mulheres. N\u00f3s vemo-las, v\u00e3o de transporte p\u00fablico at\u00e9 \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Isto pode significar que todas estas mulheres v\u00e3o ter acesso a coisas b\u00e1sicas como o direito a uma baixa, quando se magoam, o direito ao subs\u00eddio de desemprego, quando a pessoa deixa de estar interessada na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Al\u00e9m dessas mudan\u00e7as legislativas de que falamos, \u00e9 imposs\u00edvel hoje falar de trabalho e de emprego sem comentar o impacto da Intelig\u00eancia Artificial, da robotiza\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho. A mudan\u00e7a, em muitas profiss\u00f5es, ser\u00e1 inevit\u00e1vel e algumas j\u00e1 se est\u00e3o a transformar. Perspetiva que esta seja uma mudan\u00e7a positiva e, sobretudo, como \u00e9 que os trabalhadores se podem preparar para ela?<\/em><\/p>\n<p>\u00c0 partida seria uma mudan\u00e7a positiva, no sentido em que poderia permitir que o trabalho mais rotineiro, menos criativo, fosse feito por m\u00e1quinas e que aos homens coubesse o trabalho mais criativo, digamos assim. Agora, voltamos \u00e0 quest\u00e3o do que \u00e9 que est\u00e1 \u00e0 frente, o que \u00e9 que o que n\u00f3s pretendemos como economia &#8211; fala-se da Economia de Francisco, baseada em Francisco de Assis &#8211; uma economia que pretenda p\u00f4r os trabalhadores \u00e0 frente, a natureza, o ambiente, uma economia de paz ou uma economia que n\u00e3o se importa em destruir os recursos naturais dos povos, que p\u00f5e em perigo a sobreviv\u00eancia at\u00e9 das gera\u00e7\u00f5es futuras?<\/p>\n<p>Aqui na Europa, fala-se neste momento da chamada lei da cadeia de abastecimento, que \u00e9 ainda uma proposta. Eu acho que pode ter uma import\u00e2ncia fulcral no futuro, porque poder\u00e1 permitir, se for aprovada, que os bens que consumimos na Europa, onde quer que sejam produzidos, respeitam o meio ambiente, o trabalho digno e os sal\u00e1rios dignos de todos os trabalhadores.<\/p>\n<p>Esta lei penso que pode criar mudan\u00e7as para melhor, nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, n\u00e3o s\u00f3 na Europa, mas no mundo inteiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tenho uma \u00faltima pergunta, que se relaciona com uma refer\u00eancia \u00e0 Economia de Francisco e ao movimento, sobretudo levada a cabo por jovens cat\u00f3licos, por desafio do Papa Francisco. N\u00f3s estamos a menos de 100 dias da JMJ Lisboa 2023. Consideraria importante que o programa inclua o debate sobre a precariedade laboral das novas gera\u00e7\u00f5es, destes jovens com empregos incertos e inseguros, sem contrato de trabalho efetivos?<\/em><\/p>\n<p>Deveria. Afinal, quem vai l\u00e1 estar s\u00e3o os jovens do futuro. S\u00e3o eles que v\u00e3o viver num mundo, espero, que seja mais respeitador dos seus direitos, enquanto trabalhadores; num mundo que permita mais tempo livre, mais tempo para a fam\u00edlia, que permita, de facto, aumentar a natalidade. Sem tempo para a fam\u00edlia, se as pessoas n\u00e3o sentirem que t\u00eam a possibilidade de garantir aos seus filhos tempo, educa\u00e7\u00e3o e disponibilidade interior, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reverter o envelhecimento a que se est\u00e1 a assistir.<\/p>\n<p>Por isso, o fulcral \u00e9 o trabalho digno para todos e espero que fa\u00e7a parte do programa das Jornadas, sinceramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tens\u00e3o acumula-se nas ruas, \u00e0 medida que o poder de compra desce e sobem os protestos e as greves. 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