{"id":279954,"date":"2023-04-26T17:08:35","date_gmt":"2023-04-26T16:08:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=279954"},"modified":"2023-04-26T17:08:35","modified_gmt":"2023-04-26T16:08:35","slug":"cibercultura-o-erro-na-traducao-da-palavra-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-o-erro-na-traducao-da-palavra-fe\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; O erro na tradu\u00e7\u00e3o da palavra f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Num <a href=\"https:\/\/setemargens.com\/jesus-cristo-salvou-nos-de-que\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>; de opini\u00e3o, o fil\u00f3sofo Domingos Faria procurou responder \u00e0 quest\u00e3o \u2014 Jesus salva-nos de qu\u00ea? \u2014 Vale a pena ler o percurso que faz, mas em s\u00edntese: Jesus salva-nos do pecado por nos inspirar a uma vida moralmente boa. Por\u00e9m, e antes de pecarmos, Jesus salva-nos de qu\u00ea? No livro de Ratzinger \u201cNo princ\u00edpio Deus criou o C\u00e9u e a Terra\u201d (3a Ed., Lucerna, 2020), e no \u00e2mbito do estudo da rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o, aprendi que Jesus salva-nos de um mundo imerso em rela\u00e7\u00f5es danificadas. Ambas as respostas acentuam aspectos de conduta pessoal e comunit\u00e1ria que considero independentes da cren\u00e7a. Isto \u00e9, n\u00e3o preciso de acreditar em Jesus para ter uma conduta correcta, desde que procure ser moralmente bom, ainda que siga o seu exemplo e promova relacionamentos saud\u00e1veis e respeitosos. Que raz\u00f5es temos que d\u00eaem sentido a uma f\u00e9 religiosa no mundo cibercultural de hoje?<\/p>\n<figure id=\"attachment_279955\" aria-describedby=\"caption-attachment-279955\" style=\"width: 601px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-279955 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"601\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280-260x260.jpg 260w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280-150x150.jpg 150w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280-768x768.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280-300x300.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/hug-g536ab74d0_1280.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 601px) 100vw, 601px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-279955\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de Ronald Sandino em Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>No di\u00e1logo que pude ter com pessoas sem f\u00e9 religiosa, uma boa parte tem a ideia de que as pessoas com f\u00e9 acreditam sem ver. Para eles, &#8220;ver&#8221; n\u00e3o se restringe aos olhos da cara, mas inclui os olhos da raz\u00e3o. Por isso, consideram-se pessoas sem f\u00e9 religiosa por verem com os olhos da raz\u00e3o a realidade \u00e0 sua volta e n\u00e3o terem motivos para acreditar em Deus. Por\u00e9m, <a href=\"https:\/\/international.la-croix.com\/news\/religion\/theological-twists-and-turns\/17704\">segundo<\/a>; o te\u00f3logo e historiador John Alonzo Dick, essa experi\u00eancia de no\u00e7\u00e3o de f\u00e9 prov\u00e9m de um erro de tradu\u00e7\u00e3o muito antigo.<\/p>\n<p>A palavra f\u00e9 teve o seu significado original na palavra grega <em>pistis<\/em> que significa <em>confian\u00e7a, compromisso e envolvimento pessoal<\/em>. Ou seja, \u00e0 f\u00e9 associava-se uma viv\u00eancia activa inspirada na vida de Jesus, uma <em>ortopraxia<\/em>. Por\u00e9m, quando S. Jer\u00f3nimo traduziu a B\u00edblia para o Latim, escolheu para a palavra <em>pistis<\/em> a palavra <em>fides<\/em> que significa <em>cren\u00e7a<\/em> em vez de <em>confido<\/em>, transformando &#8220;f\u00e9&#8221; numa quest\u00e3o de concord\u00e2ncia intelectual.<\/p>\n<p>O sentido de f\u00e9 da ortopraxia (conduta correcta) passou a ser ortodoxia (cren\u00e7a correcta). \u00c9 deste erro de tradu\u00e7\u00e3o que prov\u00e9m a impress\u00e3o distorcida que se propagou ao longo da hist\u00f3ria na experi\u00eancia cat\u00f3lica de f\u00e9 religiosa como um ambiente que pretende controlar o pensamento, receando aqueles que ousam questionar esse pensamento. Na passagem do s\u00e9culo IV para o V, a concord\u00e2ncia dos fi\u00e9is come\u00e7ou a ser obrigat\u00f3ria e com a inven\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho do &#8220;pecado original&#8221;, a Igreja sentou Deus num trono celeste de onde Ele pronuncia o Seu ju\u00edzo sobre cada ser humano. E com a teoria de Anselmo de Cantu\u00e1ria sobre a vis\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o na expia\u00e7\u00e3o, a crucifica\u00e7\u00e3o de Jesus entendia-se como uma exig\u00eancia de Deus que estava muito ofendido com o pecado humano. N\u00e3o \u00e9 esta a vis\u00e3o que Jesus d\u00e1 de Deus e que encontramos nos Evangelhos e Cartas.<\/p>\n<p>Se ser crist\u00e3o significa ser de Cristo, e se realmente acreditamos que Jesus \u00e9 Filho de Deus, ent\u00e3o, a primeira carta de S. Jo\u00e3o (4, 15) expressa como na experi\u00eancia crist\u00e3 \u2014 <em> \u00abQuem confessar que Jesus Cristo \u00e9 o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus.\u00bb<\/em> \u2014 Ou seja, Deus est\u00e1 connosco e faz-Se presente no meio de n\u00f3s pelo amor rec\u00edproco (Mt 18, 20). N\u00e3o est\u00e1 num trono ou se manifesta como supremo juiz, mas revela-Se como Algu\u00e9m que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s do que n\u00f3s estamos de n\u00f3s pr\u00f3prios. Esta proximidade oferece uma oportunidade da nossa f\u00e9 religiosa levar-nos mais \u00e0 experi\u00eancia religiosa pelo aumento da nossa sensibilidade \u00e0 presen\u00e7a divina, do que pela exig\u00eancia de crer nas &#8220;coisas certas&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos te\u00f3logos mais controversos pela insist\u00eancia que fez desde os anos 1990 pela proximidade da viv\u00eancia de Deus \u00e0 realidade da cultura em cada \u00e9poca \u00e9 Michael Morwood, chamado diversas vezes \u00e0 aten\u00e7\u00e3o pela Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 por erros nos seus livros. Erros que surgiam do inconformismo \u00e0 pr\u00e1tica do assentimento inquestion\u00e1vel que hoje sabemos afastar as pessoas da procura incessante e profunda pela presen\u00e7a de Deus em tudo e em todos.<\/p>\n<p>No seu livro &#8220;Chegou o Tempo: Desafios \u00e0 Doutrina da F\u00e9&#8221;, Morwood diz que \u2014 <em>\u00abChegou o tempo de quebrar com a vis\u00e3o do mundo de h\u00e1 dois mil anos e a suas no\u00e7\u00f5es de um Senhor Deus Supremo que viveu nos c\u00e9us e que desconectou o acesso a &#8216;Si&#8221; por causa de um suposto pecado do primeiro humano.\u00bb<\/em> \u2014 O mundo cibercultural que habitamos pelo tempo que muitos passam a olhar para o seu ecr\u00e3 quer saber cada vez menos deste medo incutido pela condena\u00e7\u00e3o ao tormento do inferno na linguagem de muitos quando testemunham a sua f\u00e9 religiosa por via da &#8220;cren\u00e7a correcta&#8221;, em vez da &#8220;conduta correcta&#8221; inspirada em Jesus que n\u00e3o fazia acep\u00e7\u00e3o de pessoas, acolhendo o pobre e pecador para o transformar, por amor, a partir do seu interior.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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