{"id":279173,"date":"2023-04-20T09:00:33","date_gmt":"2023-04-20T08:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=279173"},"modified":"2023-04-19T16:32:14","modified_gmt":"2023-04-19T15:32:14","slug":"para-quando-a-ordenacao-de-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/para-quando-a-ordenacao-de-mulheres\/","title":{"rendered":"Para quando a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres?"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-268285 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>\u00c9 interessante ler nos Evangelhos o protagonismo que t\u00eam as mulheres na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. S\u00e3o elas que d\u00e3o a cara, ainda banhadas em l\u00e1grimas, e v\u00e3o prestar todo o cuidado e zelo ao corpo do seu mestre e Senhor, carregadas de uma pura afetividade, e eis que se confrontam com um acontecimento in\u00e9dito e original: Jesus dava sinais de que estava vivo. Coube-lhes a elas dar a grande not\u00edcia que iria fundar o Cristianismo e mudar a hist\u00f3ria da humanidade, sendo Maria Madalena denominada ap\u00f3stola dos ap\u00f3stolos, como sabemos. J\u00e1 na paix\u00e3o as mulheres marcam presen\u00e7a, uma limpa-lhe o rosto e outras choram a viol\u00eancia e a injusti\u00e7a que cai sobre um inocente, um homem bom e santo. Onde est\u00e3o os homens? Fico sempre a pensar como \u00e9 que a Igreja cometeu a proeza de afastar as mulheres de Cristo, quando elas revelaram sempre por Jesus uma bondade e uma afetividade desmedidas.<\/p>\n<p>Refiro-me, certamente, ao acesso ao sacerd\u00f3cio pelas mulheres, que ainda hoje, por mais justifica\u00e7\u00f5es que ou\u00e7a, muitas sem qualquer consist\u00eancia e razoabilidade, me deixam sempre tomado pela perplexidade. Infelizmente a Igreja transportou para dentro de si a mentalidade e a configura\u00e7\u00e3o cultural e social que se imp\u00f4s na hist\u00f3ria, esse sim um aut\u00eantico pecado \u201coriginal\u201d: o predom\u00ednio do homem e a subalterniza\u00e7\u00e3o da mulher. Que mal ter\u00e3o feito as mulheres ao mundo e aos homens para serem, de longe, o g\u00e9nero humano mais enxovalhado, explorado, violentado, discriminado e desvalorizado na hist\u00f3ria da humanidade! Jostein Gaarder escreve assim no seu livro O Mundo de Sofia: \u201cArist\u00f3teles pensava que algo faltava \u00e0 mulher. Ela \u00e9 um \u201chomem incompleto\u201d. Na reprodu\u00e7\u00e3o, a mulher \u00e9 passiva e recetora, enquanto o homem \u00e9 ativo e dador. Por isso, segundo Arist\u00f3teles, a crian\u00e7a herdava apenas as caracter\u00edsticas do homem. Todas as caracter\u00edsticas da crian\u00e7a estavam contidas no s\u00e9men do homem. A mulher \u00e9 como o terreno que recebe e conserva a semente, enquanto o homem \u00e9 o pr\u00f3prio \u201csemeador\u201d. Ou, dito de uma forma verdadeiramente aristot\u00e9lica: o homem d\u00e1 a forma, a mulher d\u00e1 a mat\u00e9ria. \u00c9 surpreendente e lament\u00e1vel que um homem t\u00e3o perspicaz como Arist\u00f3teles se pudesse enganar de tal forma no que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. A conce\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica da mulher \u00e9 particularmente grave porque se tornou predominante durante a Idade M\u00e9dia, e n\u00e3o a de Plat\u00e3o. Deste modo, tamb\u00e9m a Igreja herdou uma conce\u00e7\u00e3o da mulher para a qual n\u00e3o h\u00e1 justifica\u00e7\u00e3o nenhuma na B\u00edblia. Jesus n\u00e3o era de modo algum inimigo das mulheres!\u201d. J\u00e1 agora vale a pena lembrar o que pensava Plat\u00e3o: \u201cSegundo Plat\u00e3o, as mulheres tinham tanta racionalidade como os homens, se recebessem a mesma forma\u00e7\u00e3o, e se fossem ainda libertadas do cuidado das crian\u00e7as e das tarefas dom\u00e9sticas. Um estado que n\u00e3o educa e forma mulheres \u00e9 como um homem que apenas exercita o seu bra\u00e7o direito.\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o autor est\u00e1 a ser rigoroso com o pensamento dos dois proeminentes fil\u00f3sofos, mas as suas vis\u00f5es s\u00e3o facilmente detet\u00e1veis na Igreja e na sociedade. Chegou o tempo de a Igreja remover esta pedra e acabar com a injusti\u00e7a hist\u00f3rica que foi cometida contra as mulheres. E n\u00e3o lhe falta substrato evang\u00e9lico para o fazer. Ali\u00e1s, perdura a sensa\u00e7\u00e3o de que a Igreja interrompeu o progresso do Evangelho. Jesus Cristo, no seu tempo, contribuiu para a promo\u00e7\u00e3o da mulher. Falava com elas abertamente na pra\u00e7a p\u00fablica, teve disc\u00edpulas e partilhava refei\u00e7\u00f5es em casa de amigas, o que para o seu tempo era subversivo. N\u00e3o vejo que dom a menos tenham do que os homens para n\u00e3o poderem ter um papel mais interveniente e decisivo na vida da Igreja. S\u00e3o, atualmente, a for\u00e7a da Igreja: d\u00e3o catequese na sua maioria, s\u00e3o zeladoras, integram em grande n\u00famero os coros paroquiais, presidem ao ter\u00e7o, fazem parte das comiss\u00f5es, entre tantos outros servi\u00e7os. \u00c9 do mais elementar respeito pela dignidade da mulher que se promova o seu acesso ao sacerd\u00f3cio, como afirma Phyllis Zagano: \u00abN\u00e3o preciso tornar o mundo todo crist\u00e3o, mas gostaria de mostrar ao mundo que as mulheres s\u00e3o valiosas. Em particular para os crentes em Deus, que as mulheres s\u00e3o valiosas, s\u00e3o preciosas, n\u00e3o s\u00e3o um bem para possuir, n\u00e3o servem apenas para cozinhar e limpar. \u00c9 muito importante fazer estas coisas, mas as mulheres t\u00eam um c\u00e9rebro. E as mulheres s\u00e3o pessoas, humanas, totalmente humanas\u00bb.<\/p>\n<p>A Igreja tem de deixar de ser uma institui\u00e7\u00e3o que alimenta e favorece a inferioridade, a desvaloriza\u00e7\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o da mulher. Ultimamente, j\u00e1 foram dados alguns passos importantes, como o acesso ao acolitado e leitorado, mais presen\u00e7a da mulher em setores nevr\u00e1lgicos da vida da Igreja, mas ainda \u00e9 preciso deixar as ligaduras e o sud\u00e1rio com que envolvemos a mulher e n\u00e3o a deixamos caminhar com a dignidade que Deus lhe deu. Um manto de desconfian\u00e7a permanece sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher, que hoje n\u00e3o tem qualquer sentido. Quando se trata de subir \u00e0 capela-mor, alto l\u00e1 que aqui \u00e9 para homens. Sei que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mexer em dois mil anos de hist\u00f3ria, mas a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 sagrada. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso corrigi-la. Quantas injusti\u00e7as, abusos, viol\u00eancias e incorre\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o se corrigiram, apesar da for\u00e7a da hist\u00f3ria. \u00c9 uma pena ver a Igreja a desperdi\u00e7ar o talento intelectual, o valor humano e afetivo de tantas mulheres, que dariam um contributo decisivo para o enriquecimento da vida da Igreja, na liturgia e na obra da evangeliza\u00e7\u00e3o, e contribuiriam para uma melhor e mais equilibrada presen\u00e7a da Igreja no mundo, no cumprimento da sua miss\u00e3o. Para uma Igreja que se considera conduzida pelo Esp\u00edrito Santo (em hebraico, Ruah \u2013 esp\u00edrito, sopro &#8211; \u00e9 uma palavra feminina), esperemos a coragem de se romper com a hist\u00f3ria e de se dar \u00e0 mulher a devida promo\u00e7\u00e3o, que nunca lhe deveria ter sido negada.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi esta a vontade de Jesus? N\u00e3o vejo nenhum gesto ou dito significativo de Jesus que nos permita epilogar que o sacerd\u00f3cio \u00e9 um privil\u00e9gio dos homens. Mas ent\u00e3o Jesus n\u00e3o escolheu s\u00f3 homens? Pudera, num tempo de total irrelev\u00e2ncia social e descr\u00e9dito da mulher, seria um suic\u00eddio deixar uma miss\u00e3o nas m\u00e3os das mulheres. Hoje sabemos fazer uma releitura mais correta das op\u00e7\u00f5es de Jesus. E pergunto tamb\u00e9m: como sustentar que Deus s\u00f3 chama homens para o sacerd\u00f3cio? Por que \u00e9 que Deus embirra com as mulheres? O problema n\u00e3o est\u00e1 em Deus, est\u00e1 na Igreja. \u00a0Ser\u00e1 consensual afirmar que Jesus deixou o sacerd\u00f3cio \u00e0 Igreja, n\u00e3o aos homens. Estes \u00e9 que se apropriaram do sacerd\u00f3cio, por algumas raz\u00f5es que j\u00e1 invoquei.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o, dir\u00e3o muitos. Como muito bem j\u00e1 disse o Papa Francisco, a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o perpetuada no tempo. A tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deve adaptar-se e evoluir. A Igreja reclama para si que gosta de ser pedag\u00f3gica, ent\u00e3o fa\u00e7a, quanto antes, por promover como deve ser a dignidade da mulher. O batismo concede o mesmo Esp\u00edrito e a mesma dignidade de filhos de Deus a homens e a mulheres, mas depois os homens t\u00eam acesso a sete sacramentos e as mulheres apenas a seis. Os sete sacramentos representam a plenitude da vida crist\u00e3. Qual o fundamento divino, doutrinal, humano e religioso para esta diferencia\u00e7\u00e3o? O que \u00e9 que uma mulher tem a menos como ser humano, ou como crist\u00e3 filha de Deus?<\/p>\n<p>Diz-nos o Evangelho de Marcos, que depois do s\u00e1bado, as mulheres compraram aromas para irem ungir o corpo de Jesus. Pelo caminho perguntaram: quem nos ir\u00e1 rolar a pedra da entrada do sepulcro? Eis a pergunta que perdura: para quando faremos rolar a pedra que impede as mulheres de acederem, por chamamento de Deus e da Igreja, ao sacerd\u00f3cio?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-279173","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279173"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279173\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}