{"id":27880,"date":"2007-10-30T10:54:36","date_gmt":"2007-10-30T10:54:36","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/10\/30\/o-medico-perante-a-morte\/"},"modified":"2007-10-30T10:54:36","modified_gmt":"2007-10-30T10:54:36","slug":"o-medico-perante-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-medico-perante-a-morte\/","title":{"rendered":"O m\u00e9dico perante a morte"},"content":{"rendered":"<p>A vida humana suporta todos os outros valores, nomeadamente a exist\u00eancia da consci\u00eancia reflexiva e \u00e9 a base de todos os direitos de cidadania <!--more--> 1. A forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do m\u00e9dico iniciava-se no contacto com o corpo morto. O estudo da morfologia dos \u00f3rg\u00e3os humanos fundamentava na manipula\u00e7\u00e3o de corpos h\u00e1 muito sem vida, frequentemente fragmentados e completamente desligados do seu contexto significante. De facto, no curriculum m\u00e9dico acad\u00e9mico tradicional apenas posteriormente se iniciava, pouco a pouco, o estudo das fun\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os e a integra\u00e7\u00e3o de conhecimentos dispersos e est\u00e1ticos num todo onde a imagem do corpo humano surgia como um conjunto equilibrado e extremamente complexo de \u00f3rg\u00e3os com fun\u00e7\u00f5es integradas, complementares e interdependentes. Desde o in\u00edcio o jovem m\u00e9dico moldava a sua forma\u00e7\u00e3o pela omnipresen\u00e7a da morte.  As tecnologias actuais de processamento da imagem tornam o corpo humano transparente permitindo o estudo das morfologias dos \u00f3rg\u00e3os activos e em vida, necessariamente diferentes das do corpo morto, e mais de acordo com as interven\u00e7\u00f5es das actividades habituais dos m\u00e9dicos, que se exercem predominantemente no corpo humano com vida. Na actualidade procura-se real\u00e7ar a integra\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da doen\u00e7a nos comportamentos humanos. Nas escolas das ci\u00eancias da sa\u00fade, a Anatomia do corpo humano, de que n\u00e3o foi nem ser\u00e1 certamente poss\u00edvel prescindir na forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, \u00e9 agora companheira da Epidemiologia e das Ci\u00eancias Antropol\u00f3gicas, disciplinas que estudam os homens integrados num ambiente espec\u00edfico e numa sociedade, entidades das quais depende o seu equil\u00edbrio e a sua estabilidade. Demonstrou-se que a sa\u00fade e a doen\u00e7a, as condi\u00e7\u00f5es da vida e da morte, est\u00e3o estritamente dependentes das circunst\u00e2ncias em que os homens, as mulheres e as crian\u00e7as vivem as suas vidas. A morte tem um lugar de menor relevo na forma\u00e7\u00e3o actual dos m\u00e9dicos.  2. As pessoas que se encontram no per\u00edodo terminal das suas vidas, por serem portadoras de doen\u00e7as que inexoravelmente terminam com a morte, t\u00eam escassas probabilidades de encontrar nos hospitais actuais as condi\u00e7\u00f5es adequadas para o seu tratamento. O pessoal m\u00e9dico e de enfermagem est\u00e1 mais preparado para tratar doen\u00e7as agudas e rapidamente evolutivas do que para tratar as doen\u00e7as cr\u00f3nicas e de progn\u00f3stico fatal. De um modo geral, o sistema de cuidados de sa\u00fade est\u00e1 mais adaptado aos cuidados da medicina curativa e de reabilita\u00e7\u00e3o do que aos cuidados da medicina paliativa que se destina aos doentes portadores de doen\u00e7as cr\u00f3nicas, progressivas, invalidantes e fatais. Os objectivos da terap\u00eautica est\u00e3o apontados predominantemente para os sofrimentos f\u00edsicos e minimizam o enquadramento psicol\u00f3gico, social, cultural e espiritual. Este facto traduz-se na incipiente prepara\u00e7\u00e3o no pessoal de sa\u00fade nos dom\u00ednios da medicina paliativa e na aus\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es dedicadas \u00e0quelas actividades em muitas comunidades. A pr\u00f3pria arquitectura dos hospitais tradicionais est\u00e1 mal adaptada para permitir aos doentes em situa\u00e7\u00e3o terminal a privacidade, o conforto e a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia que a abordagem adequada das suas situa\u00e7\u00f5es exigiria.   3. O termo da vida \u00e9 um fen\u00f3meno natural. Tanto como o seu in\u00edcio. A vida humana suporta todos os outros valores, nomeadamente a exist\u00eancia da consci\u00eancia reflexiva e \u00e9 a base de todos os direitos de cidadania e de espiritualidade. A vida humana n\u00e3o adquire nem perde o seu valor por se situar em condi\u00e7\u00f5es limite, por mais prec\u00e1rias que sejam, nomeadamente por existir uma doen\u00e7a progressiva e fatal. O valor da vida pode entrar em conflito com o valor atribu\u00eddo a uma morte digna, j\u00e1 que este valor se encontra ligado \u00e0 imagem integral da pessoa. Neste sentido os m\u00e9dicos e, de um modo geral todo o pessoal de sa\u00fade, t\u00eam o dever de contribuir para reunir as condi\u00e7\u00f5es para tratar adequadamente, os doentes em situa\u00e7\u00e3o terminal, segundo as possibilidades da arte m\u00e9dica e as capacidades reais da sociedade. T\u00eam o dever de manter um di\u00e1logo verdadeiro e aberto de modo a manter a confian\u00e7a dos doentes e das suas fam\u00edlias, respeitando as suas vontades expressas. T\u00eam o dever de n\u00e3o transmitir precipitadamente informa\u00e7\u00f5es, que, ainda que verdadeiras, possam induzir a ang\u00fastia ou o desespero. T\u00eam o dever de utilizar adequadamente os meios de interven\u00e7\u00e3o da medicina paliativa e de fomentar, na medida poss\u00edvel, a organiza\u00e7\u00e3o de cuidados paliativos, nomeadamente, nas comunidades locais. E t\u00eam sempre o dever de n\u00e3o recorrer aos tratamentos f\u00fateis, inadequados e desproporcionados \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos doentes que neles confiam.  <i>Alexandre Laureano Santos M\u00e9dico <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida humana suporta todos os outros valores, nomeadamente a exist\u00eancia da consci\u00eancia reflexiva e \u00e9 a base de todos os direitos de cidadania<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[154,199,206],"class_list":["post-27880","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-crianca","tag-espiritualidade","tag-familia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27880"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27880\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}