{"id":27878,"date":"2007-10-30T10:49:31","date_gmt":"2007-10-30T10:49:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2007\/10\/30\/uma-morte-cheia-de-vida\/"},"modified":"2007-10-30T10:49:31","modified_gmt":"2007-10-30T10:49:31","slug":"uma-morte-cheia-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-morte-cheia-de-vida\/","title":{"rendered":"Uma morte cheia de vida"},"content":{"rendered":"<p>Bispo do Porto fala do sentido da ressurrei\u00e7\u00e3o que a f\u00e9 da Igreja professa <!--more--> O Cristianismo \u00e9 a vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte, tal como os seus disc\u00edpulos o sabem e dizem. Resposta global, nada fica de fora, tornado o fim princ\u00edpio. Soube-o logo S\u00e3o Paulo, escrevendo-o em letras de fogo que irrompem das suas ep\u00edstolas. Aos filipenses chega a dizer que, tendo a vida em Cristo, mais lhe agradaria partir deste mundo. Todavia, ter Cristo \u00e9 ter a caridade de Cristo, sendo por isso tempo de exercit\u00e1-la aqui: \u201c\u00c9 que, para mim, viver \u00e9 Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitir\u00e1 que d\u00ea fruto a obra que realizo. Que escolher ent\u00e3o? N\u00e3o sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, j\u00e1 que isso seria muit\u00edssimo melhor; mas continuar a viver \u00e9 mais necess\u00e1rio por causa de v\u00f3s. E \u00e9 confiado nisto que eu sei que ficarei e continuarei junto de todos v\u00f3s, para o progresso e a alegria da vossa f\u00e9\u201d (Flp. 1, 21-26).  Verdade grande demais para o Imp\u00e9rio de ent\u00e3o, que se queria total. Por isso mesmo perseguia quem o relativizava, como os disc\u00edpulos de Cristo, que distinguiam Deus de C\u00e9sar. S\u00e3o tamb\u00e9m de fogo as palavras de In\u00e1cio de Antioquia, escritas aos crist\u00e3os de Roma, a dissuadi-los de obviarem ao seu mart\u00edrio. Mart\u00edrio que sobreveio c. 107 e o uniu ao do pr\u00f3prio Cristo, numa mesma d\u00e1diva, numa mesma vida: \u201cDeixai-me alcan\u00e7ar a luz pura. Quando l\u00e1 chegar serei verdadeiramente um homem. Deixai-me ser imitador da paix\u00e3o do meu Deus. Se algu\u00e9m O possuir, compreender\u00e1 o que quero e ter\u00e1 compaix\u00e3o de mim, por conhecer a \u00e2nsia que me atormenta\u201d (In\u00e1cio de Antioquia, Carta aos Romanos).   Passariam aquelas persegui\u00e7\u00f5es, viria a paz de Constantino, em 313. Para os disc\u00edpulos de Cristo o caminho continuaria, na morte e para al\u00e9m dela, rumo \u00e0 plenitude da vida em Cristo, a alcan\u00e7ar mais al\u00e9m, com a lembran\u00e7a activa de quem ficasse. Trata-se da intercess\u00e3o pelos que partem, cont\u00ednua na caridade da Igreja. Como a pedia M\u00f3nica aos seus filhos, pouco antes de falecer em \u00d3stia, l\u00e1 para o final desse s\u00e9culo. Conta-o Agostinho: \u201cSepultai este corpo em qualquer parte e n\u00e3o vos preocupeis com ele. S\u00f3 vos pe\u00e7o que vos lembreis de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais\u2019\u201d (Confiss\u00f5es, 9, 11). Francisco de Assis, vivendo a filia\u00e7\u00e3o divina no Esp\u00edrito de Cristo, sentia por isso mesmo a fraternidade universal das criaturas, como outras tantas oportunidades para louvar a Deus. S\u00f3 quem o sabia tanto poderia incluir nesse louvor a pr\u00f3pria \u201cmorte corporal\u201d, como ele o fez por fim. Diz-nos um relato antigo que \u201cS. Francisco [de Assis], [\u2026] pareceu ser penetrado duma alegria nova interior ao ouvir que a irm\u00e3 morte se aproximava. [\u2026] Acrescentou os versos de louvor \u00e0 irm\u00e3 morte antes da \u00faltima estrofe do mesmo C\u00e2ntico, dizendo: \u2018Louvado sejas, meu Senhor, \/ Pela nossa irm\u00e3 a morte corporal, \/ De quem nenhum vivente pode escapar. \/ Ai de quem morrer em pecado mortal! \/ Bendito o que estiver em Tua sant\u00edssima vontade, \/ Porque a morte segunda lhe n\u00e3o far\u00e1 mal\u2019 \u201d(Espelho de Perfei\u00e7\u00e3o, 124). Com Francisco de Assis est\u00e1vamos no s\u00e9culo XIII. Tr\u00eas s\u00e9culos depois, com Tom\u00e1s Moro, estamos no s\u00e9culo XVI, na Inglaterra de Henrique VIII. Ou seja, estamos em tempos de \u201craz\u00f5es de Estado\u201d, quando n\u00e3o meras \u201craz\u00f5es do pr\u00edncipe\u201d, podendo vergar consci\u00eancias d\u00e9beis. O ex-chanceler do reino n\u00e3o condescendeu nem com o div\u00f3rcio do rei nem com a cria\u00e7\u00e3o duma Igreja desligada de Roma e sujeita \u00e0 coroa. Reeditam-se mart\u00edrios antigos, testemunhos da consci\u00eancia crist\u00e3. A vida continuaria al\u00e9m, mais garantida ainda por uma morte assim. Pouco antes de morrer \u00e0s ordens do rei, em 1535, Tom\u00e1s Moro escreve: \u201cAt\u00e9 agora a sant\u00edssima gra\u00e7a de Deus deu-me for\u00e7as para tudo desprezar do \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o \u2013 riquezas, rendimentos e a pr\u00f3pria vida \u2013 antes que prestar juramento contra a voz da minha consci\u00eancia. [\u2026] E espero confiadamente que a mesma gra\u00e7a divina h\u00e1-de continuar a favorecer-me, ou acalmando o \u00e2nimo do rei para que n\u00e3o me imponha tormento mais grave, ou dando-me a for\u00e7a necess\u00e1ria para suportar tudo, seja o que for, com paci\u00eancia, fortaleza e boa vontade\u201d (Carta do c\u00e1rcere, \u00e0 filha Margarida).   O s\u00e9culo XIX esvaneceu muito este horizonte dilatado da vida, diminuindo tamb\u00e9m a prem\u00eancia de o alcan\u00e7ar. Bastaria o aqu\u00e9m, material e concreto, sem responsabilidades para o al\u00e9m. \u00c9 interessante verificar que, precisamente para os crist\u00e3os mais comprometidos no mundo e na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais da altura, a cren\u00e7a na vida eterna e o sentido penitencial da exist\u00eancia eram essenciais para a resolu\u00e7\u00e3o deles. A vida eterna garante-se nesta, para quem sabe que responder\u00e1 por ac\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es. Oi\u00e7amos o Conde de Samod\u00e3es, campe\u00e3o da causa cat\u00f3lica entre n\u00f3s, escrevendo em 1888: \u201cAqueles, que temerariamente negam a exist\u00eancia do purgat\u00f3rio, destroem o fundamento de todas as virtudes her\u00f3icas, da necessidade do arrependimento, das penit\u00eancias e da verdade da justi\u00e7a reparadora. Com tais ideias nem sequer sustentar-se pode a sociedade humana; muito menos a ordem, que Deus estabeleceu no universo\u201d (O m\u00eas dos finados). Nove anos depois, pouco antes de falecer no Carmelo de Lisieux, Teresinha confidenciaria a 17 de Julho de 1897 as grandes coisas que a esperavam. Sobretudo a certeza que tinha de que continuaria, na caridade de Cristo, a trabalhar no C\u00e9u pelo bem da terra. Certeza que a fez \u201cpadroeira das miss\u00f5es\u201d, como muito bem o sabem e sentem os seus amigos de agora: \u201cSinto sobretudo que a minha miss\u00e3o vai come\u00e7ar. A miss\u00e3o de fazer amar a Deus como eu O amo, de dar \u00e0s almas o meu pequeno caminho. Se Deus realizar os meus desejos, o meu C\u00e9u passar-se-\u00e1 sobre a terra at\u00e9 ao fim do mundo. Sim, quero passar o meu C\u00e9u a fazer o bem sobre a terra\u201d. Vida eterna, ganha na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e estendida a toda a cria\u00e7\u00e3o que \u201caguarda a manifesta\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus\u201d, como a entreviu S\u00e3o Paulo num trecho admir\u00e1vel (cf. Rm 8, 19). Ou assim anunciada: \u201cNo fim dos tempos, o Reino de Deus chegar\u00e1 \u00e0 sua plenitude. Depois do Ju\u00edzo final, os justos reinar\u00e3o para sempre com Cristo, glorificados em corpo e alma, e o pr\u00f3prio universo ser\u00e1 renovado [\u2026]. Assim, pois, tamb\u00e9m o universo vis\u00edvel est\u00e1 destinado a ser transformado, [\u2026] participando na sua glorifica\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo ressuscitado\u201d (Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n\u00ba 1042 e 1047).  <i>D. Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bispo do Porto fala do sentido da ressurrei\u00e7\u00e3o que a f\u00e9 da Igreja professa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[168,187,261],"class_list":["post-27878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-missoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27878"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27878\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}