{"id":278528,"date":"2023-04-14T09:00:32","date_gmt":"2023-04-14T08:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=278528"},"modified":"2023-04-13T17:20:46","modified_gmt":"2023-04-13T16:20:46","slug":"abusos-sexuais-justica-e-perdao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/abusos-sexuais-justica-e-perdao\/","title":{"rendered":"Abusos sexuais, justi\u00e7a e perd\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Pedro Vaz Patto, Diocese de Lisboa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_194923\" aria-describedby=\"caption-attachment-194923\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-194923 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pedro-Vaz-Patto1.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-194923\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia Ecclesia\/PR<\/figcaption><\/figure>\n<p>Falar de perd\u00e3o a prop\u00f3sito dos crimes de abusos sexuais de crian\u00e7as e adolescentes tem suscitado grande incompreens\u00e3o, e at\u00e9 esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Para afastar essa incompreens\u00e3o, \u00e9 de sublinhar, antes de mais, que, na perspetiva da doutrina crist\u00e3, o perd\u00e3o n\u00e3o substitui a justi\u00e7a (como a caridade n\u00e3o a substitui), pressup\u00f5e-na e vai para al\u00e9m dela.<\/p>\n<p>Precisamente a prop\u00f3sito desses crimes, foram marcantes as palavras de Bento XVI na sua visita a Portugal, em 2010: \u00ab \u2026a maior persegui\u00e7\u00e3o da Igreja n\u00e3o vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja, e (\u2026) a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de re-aprender a penit\u00eancia, de aceitar a purifica\u00e7\u00e3o, de aprender por um lado o perd\u00e3o, mas tamb\u00e9m a necessidade de justi\u00e7a. O perd\u00e3o n\u00e3o substitui a justi\u00e7a.\u00bb<\/p>\n<p>Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a justi\u00e7a e o perd\u00e3o, \u00e9 not\u00e1vel a mensagem, de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II para o Dia Mundial da Paz de 2002 N\u00e3o h\u00e1 Paz sem Justi\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 Justi\u00e7a sem Perd\u00e3o. Nela se afirma:<\/p>\n<p>\u00abMuitas vezes me detive a refletir nesta quest\u00e3o: qual \u00e9 o caminho que leva ao pleno restabelecimento da ordem moral e social t\u00e3o barbaramente violada. A convic\u00e7\u00e3o a que cheguei, raciocinando e confrontando com a Revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, \u00e9 que n\u00e3o se restabelece cabalmente a ordem violada, sen\u00e3o conjugando mutuamente justi\u00e7a e perd\u00e3o. As colunas da verdadeira paz s\u00e3o a justi\u00e7a e aquela forma particular de amor que \u00e9 o perd\u00e3o. (&#8230;) Por isso, a verdadeira paz \u00e9 fruto da justi\u00e7a, virtude moral e garantia legal que vale sobre o pleno respeito de direitos e deveres e a equitativa distribui\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios e encargos. Mas, como a justi\u00e7a humana \u00e9 sempre fr\u00e1gil e imperfeita, porque exposta como tal \u00e0s limita\u00e7\u00f5es e aos ego\u00edsmos pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de certa maneira completada com o perd\u00e3o que cura as feridas e restabelece em profundidade as rela\u00e7\u00f5es humanas transformadas. (\u2026) O perd\u00e3o n\u00e3o se op\u00f5e de modo algum \u00e0 justi\u00e7a, porque n\u00e3o consiste em diferir as leg\u00edtimas exig\u00eancias de repara\u00e7\u00e3o da ordem violada, mas visa sobretudo aquela plenitude de justi\u00e7a que gera a tranquilidade da ordem, a qual \u00e9 bem mais do que uma fr\u00e1gil e provis\u00f3ria cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades, porque consiste na cura em profundidade das feridas que sangram nos cora\u00e7\u00f5es. Para tal, justi\u00e7a e perd\u00e3o s\u00e3o essenciais (n. 2-3)\u00bb.<\/p>\n<p>Este tema da rela\u00e7\u00e3o entre a justi\u00e7a e o perd\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m abordado na enc\u00edclica do Papa Francisco Fratelli tutti.<\/p>\n<p>Esta enc\u00edclica diz-nos que \u00aba verdade, a miseric\u00f3rdia e a justi\u00e7a s\u00e3o essenciais para construir a paz e cada uma delas impede que as restantes sejam adulteradas\u00bb (n. 227). \u00abAmar a todos significa amar tamb\u00e9m o opressor, mas tal n\u00e3o significa consentir que este continue a oprimir ou lev\u00e1-lo a pensar que \u00e9 aceit\u00e1vel o que faz; amar corretamente \u00e9 procurar que ele deixe de oprimir, tirar-lhe o poder que n\u00e3o sabe usar e que o desfigura como ser humano; a justi\u00e7a \u00e9 guardar a dignidade da v\u00edtima, uma dignidade que lhe foi dada por Deus; o perd\u00e3o n\u00e3o anula as necessidades da justi\u00e7a, reclama-as\u00bb (n. 241). Por isso, o perd\u00e3o n\u00e3o conduz \u00e0 impunidade: \u00aba justi\u00e7a procura-se de modo adequado s\u00f3 por amor \u00e0 pr\u00f3pria justi\u00e7a, por respeito das v\u00edtimas, para evitar novos crimes e visando preservar o bem comum, n\u00e3o como a suposta descarga do pr\u00f3prio rancor. O perd\u00e3o \u00e9 precisamente o que permite buscar a justi\u00e7a sem cair no c\u00edrculo vicioso da vingan\u00e7a nem da injusti\u00e7a do esquecimento\u00bb (n. 252).<\/p>\n<p>Relembra tamb\u00e9m esta enc\u00edclica que o perd\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser imposto \u00e0s v\u00edtimas. Na esfera pessoal, algu\u00e9m pode renunciar a exigir um castigo, mesmo que a sociedade e a justi\u00e7a o busquem legitimamente. Mas ningu\u00e9m pode arrogar-se o direito de perdoar em nome dos outros. \u00ab\u00c9 comovente ver a capacidade de perd\u00e3o de algumas pessoas que souberam ultrapassar o dano sofrido, mas tamb\u00e9m \u00e9 humano compreender aqueles que n\u00e3o o podem fazer. Em todo o caso, o que nunca se deve propor \u00e9 o esquecimento\u00bb (n. 246). Mas o perd\u00e3o \u00e9 sempre poss\u00edvel: \u00abMesmo que haja algo que jamais pode ser tolerado, justificado ou desculpado, todavia podemos perdoar\u00bb (n. 250). E, se o perd\u00e3o \u00e9 gratuito, \u00abent\u00e3o, pode-se perdoar at\u00e9 a quem resiste ao arrependimento e \u00e9 incapaz de pedir perd\u00e3o\u00bb (n. 250).<\/p>\n<p>Estes princ\u00edpios valem para todos os pecados e crimes, tamb\u00e9m para os de abuso sexual de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 que respeitar, antes de mais, as exig\u00eancias de justi\u00e7a, as exig\u00eancias de \u00abrepara\u00e7\u00e3o da ordem violada\u00bb: reconhecer a v\u00edtima como tal; reparar e compensar, na medida do poss\u00edvel, os danos que esta sofreu; cumprir uma pena (no \u00e2mbito civil e can\u00f3nico) adequada \u00e0 gravidade do crime cometido.<\/p>\n<p>De modo especial nos crimes de abusos sexual, as v\u00edtimas podem ter dificuldade em perdoar e isso deve ser respeitado, porque o perd\u00e3o n\u00e3o pode ser imposto.<\/p>\n<p>Mas o perd\u00e3o tem sempre um efeito libertador, tamb\u00e9m para a v\u00edtima. Permite \u00aba cura em profundidade das feridas que sangram nos cora\u00e7\u00f5es\u00bb, permite o restabelecimento de la\u00e7os que se quebraram (tamb\u00e9m os la\u00e7os com a Igreja quando os crimes ocorreram no seu interior), um recome\u00e7o, uma nova vida.<\/p>\n<p>Neste sentido pode ser invocado o nosso sistema penal, que rejeita penas de dura\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua para quaisquer crimes e acredita na reabilita\u00e7\u00e3o de qualquer delinquente. E podem ser invocados muitos epis\u00f3dios do Evangelho: do filho pr\u00f3digo, da convers\u00e3o de Zaqueu, da mulher ad\u00faltera ou do bom ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro Vaz Patto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Vaz Patto, Diocese de Lisboa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":194923,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-278528","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278528"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278528\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/194923"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}