{"id":277959,"date":"2023-04-09T09:31:14","date_gmt":"2023-04-09T08:31:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=277959"},"modified":"2023-04-08T23:49:17","modified_gmt":"2023-04-08T22:49:17","slug":"pascoa-ha-e-tem-de-haver-espaco-para-a-alegria-jose-veiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pascoa-ha-e-tem-de-haver-espaco-para-a-alegria-jose-veiga\/","title":{"rendered":"P\u00e1scoa: \u00abH\u00e1 e tem de haver\u00bb espa\u00e7o para a alegria \u2013 Jos\u00e9 Veiga"},"content":{"rendered":"<p>Neste Domingo de P\u00e1scoa, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o diretor-adjunto da Pastoral Universit\u00e1ria da Diocese do Porto e volunt\u00e1rio na Bagos d\u2019Ouro, uma Institui\u00e7\u00e3o Particular de Solidariedade Social que apoia a educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_277957\" aria-describedby=\"caption-attachment-277957\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-277957 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1081\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115450-1536x865.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-277957\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Vamos come\u00e7ar pela situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica das fam\u00edlias, muito preocupadas com os n\u00edveis da infla\u00e7\u00e3o. No \u00e2mbito da sua atividade volunt\u00e1ria tem sido confrontado com muitas situa\u00e7\u00f5es de car\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Boa P\u00e1scoa para quem nos est\u00e1 a ouvir, obrigado por me receberem. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o de um pequeno sonho, estou aqui na postura de um contador de hist\u00f3rias, atrav\u00e9s da voz. Hoje, se calhar, n\u00e3o vou contar a hist\u00f3ria com os melhores factos, mas espero que o final seja bonito.<\/p>\n<p>A Bagos d&#8217;Ouro atua na regi\u00e3o do Alto Douro vinhateiro est\u00e1 presente em 6 concelhos da regi\u00e3o, vai agora passar para o s\u00e9timo concelho, que \u00e9 Mes\u00e3o Frio. Nas situa\u00e7\u00f5es de maior crise, quem passa por dificuldades sofre de imediato e as pessoas que n\u00e3o passam, mas que est\u00e3o ali naquela situa\u00e7\u00e3o um pouco mais vulner\u00e1vel, s\u00e3o logo as pessoas que v\u00eam a seguir e que passam por dificuldades.<\/p>\n<p>O aumento dos pre\u00e7os prejudica o dia a dia da gest\u00e3o familiar, n\u00e3o s\u00f3 em termos de alimenta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m &#8211; quando passamos por invernos mais rigorosos &#8211; o aquecimento, as despesas da luz, o g\u00e1s. Tudo isso afeta, obviamente, a realidade familiar. A Bagos d&#8217;Ouro desenvolve um projeto educativo, acompanhando crian\u00e7as desde o primeiro ano de escolaridade at\u00e9 \u00e0 sua integra\u00e7\u00e3o a n\u00edvel profissional. O nosso trabalho \u00e9 garantir que tenham percursos escolares de sucesso e que as suas condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas n\u00e3o os v\u00e3o condicionar, que possam sonhar e seguir para sua profiss\u00e3o de sonho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, imaginemos, no inverno rigoroso, uma casa que, propriamente, n\u00e3o tem a melhor estrutura, com os isolamentos que s\u00e3o expect\u00e1veis. Vamos pedir ao Jo\u00e3o, digamos assim, que chegue a casa e que estude duas horas? Numa casa em que, se calhar, n\u00e3o h\u00e1 energia para aquecimento, como \u00e9 que uma pessoa se consegue concentrar e estudar, com frio?<\/p>\n<p>Lembro-me de ter entrado numa dessas casas e ter visto l\u00e1 uma salamandra daquelas antigas, que se calhar, hoje em dia vamos a um museu e achamos muito bonita, porque recorda a que t\u00ednhamos em casa dos nossos av\u00f3s &#8211; em casa da minha av\u00f3 tinha uma parecida, que era uma pe\u00e7a de decora\u00e7\u00e3o. Ali, a pe\u00e7a era utilizada para aquecer a casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 volunt\u00e1rio numa institui\u00e7\u00e3o de uma das regi\u00f5es mais deprimidas do Continente &#8211; o Douro. \u00c9 tamb\u00e9m uma regi\u00e3o onde se acentuam os problemas relacionados com o despovoamento. Faltam pessoas e tamb\u00e9m quem ajude?<\/em><\/p>\n<p>Sim, acho que h\u00e1 uma certa descren\u00e7a, um pouco uma esp\u00e9cie de nevoeiro que paira em Portugal &#8211; somos bons a identificar os nevoeiros que existe em Portugal, desde o Dom Sebasti\u00e3o &#8211; muitos mitos de que o Interior n\u00e3o d\u00e1, que no Interior n\u00e3o vou conseguir singrar. Eu sou suspeito, porque sou uma pessoa de litoral, que sempre cresceu na cidade do Porto, e olho para o Interior como um leque de oportunidades. Est\u00e3o a ser formadas as primeiras gera\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a sair da universidade, a n\u00edvel de licenciatura e de mestrado. Olho para eles como os potenciais agentes para inverter este ciclo, para chegar a esta zona e criar. Claro que sozinhos n\u00e3o v\u00e3o conseguir\u2026<\/p>\n<p>Numa conversa h\u00e1 uns tempos, com um universit\u00e1rio da associa\u00e7\u00e3o, eu perguntava lhe, porque \u00e9 que n\u00e3o regressava ao seu concelho? E a pergunta dele foi muito simples e ret\u00f3rica: O que \u00e9 que h\u00e1 l\u00e1 para mim? O que \u00e9 que uma pessoa formada em engenharia tem l\u00e1 para ele?<\/p>\n<p>E acho que isto responde tudo. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 sair e sair do Interior para o litoral. E hoje em dia a solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 sair do litoral\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No meio desse nevoeiro todo, e utilizando a imagem, ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar na regi\u00e3o algum \u2018Dom Sebasti\u00e3o\u2019?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida: s\u00e3o estes universit\u00e1rios, s\u00e3o eles. \u00c0s vezes h\u00e1 esta descren\u00e7a de confiar na gera\u00e7\u00e3o mais nova, porque ainda n\u00e3o tem experi\u00eancia de vida, porque ainda n\u00e3o maturaram. Acho que temos de ultrapassar um bocadinho e confiar: se as pessoas n\u00e3o experienciam e n\u00e3o s\u00e3o desafiadas &#8211; especialmente estes universit\u00e1rios t\u00eam de ser desafiados, ser colocados na regi\u00e3o e serem eles as pr\u00f3ximas pessoas a investir na regi\u00e3o -, se n\u00e3o dermos esta hip\u00f3tese, esta oportunidade, qual vai ser? O que \u00e9 que vamos esperar da regi\u00e3o? Que p\u00e1gina vamos virar?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_277954\" aria-describedby=\"caption-attachment-277954\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-277954\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408-400x225.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408-1536x865.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115408.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-277954\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ainda relativamente \u00e0s dificuldades econ\u00f3micas, elas tamb\u00e9m se refletem nos apoios?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim. Em primeiro lugar, as v\u00e1rias dificuldades que existem na regi\u00e3o s\u00e3o d\u00edspares. As v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es locais articulam-se em rede, trabalham em rede, mas a necessidade de resposta que temos de dar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito exigente, para aquilo que s\u00e3o os recursos.<\/p>\n<p>Compreendo que num pa\u00eds que, neste momento de crise, est\u00e1 a passar por grandes dificuldades, distribuir estes apoios torna-se extremamente exigente e dif\u00edcil. Tamb\u00e9m porque h\u00e1 apoios que t\u00eam de ser cont\u00ednuos no tempo: n\u00e3o podemos esperar em que se apoie uma fam\u00edlia durante um ano e que, no ano a seguir, essa fam\u00edlia, de repente, j\u00e1 esteja numa situa\u00e7\u00e3o equilibrada a n\u00edvel familiar, social ou financeiro. H\u00e1 problemas que, para serem resolvidos, t\u00eam de se enfrentar a m\u00e9dio e longo prazo. Atualmente, quando ajudamos, achamos que tem de ser a curto prazo\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa quest\u00e3o da estrat\u00e9gia tem falhado tamb\u00e9m, em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que, em primeiro lugar falta uma estrat\u00e9gia mais articulada. Sinto que h\u00e1 muita vontade de ajudar e surgem projetos, grupos de amigos, depois associa\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es que v\u00e3o crescendo nesse sentido. \u00c0s vezes falta criar um bocadinho mais de articula\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o entre todas estas entidades que est\u00e3o a dar resposta.<\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 uma pergunta muito dif\u00edcil para quem \u00e9 um jovem e se pergunta como \u00e9 que vai gerir, como \u00e9 que vai gerir um or\u00e7amento de um pa\u00eds ou um or\u00e7amento de fundos europeus para canalizar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem, sobretudo, a ver com a experi\u00eancia da Bagos d&#8217;Ouro, institui\u00e7\u00e3o que tem como grande objetivo permitir a educa\u00e7\u00e3o a crian\u00e7as e jovens desfavorecidos. Isso \u00e9 uma forma de quebrar ciclos de pobreza\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas depois h\u00e1 uma expectativa com o apoio. Atualmente usa-se muito a express\u00e3o do impacto dos resultados, do multiplicar, do impactar o m\u00e1ximo poss\u00edvel: querem ver-se resultados conseguidos em n\u00fameros. E a verdade \u00e9 que \u00e9 muito dif\u00edcil conseguir certos resultados em n\u00fameros. Quando investimos na educa\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que vou medir a mudan\u00e7a de atitude de um mi\u00fado que n\u00e3o queria estudar e passou a estudar? Eu s\u00f3 vou medir quando o mi\u00fado quiser continuar a estudar no Ensino Superior, tirar o mestrado, quando for integrado no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No final do caminho, portanto\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Ou, por exemplo, como \u00e9 que eu me\u00e7o o apoio a uma fam\u00edlia que est\u00e1 desestruturada a n\u00edvel social, porque existem problemas relacionados com alcoolismo, etc. Qual \u00e9 o momento em que eu identifico que criei impacto e o assunto ficou resolvido?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos um pouco de como atua a Bagos d&#8217;Ouro\u2026<\/em><\/p>\n<p>Nestes sete concelhos, atua com uma equipa de oito psic\u00f3logos, distribu\u00eddos por esses territ\u00f3rios, onde atua semanalmente. Por exemplo, a Carla que \u00e9 psic\u00f3loga do Concelho de Sabrosa, est\u00e1 de segunda a sexta-feira no munic\u00edpio e acompanha as crian\u00e7as e jovens que s\u00e3o sinalizadas pela Bagos d\u2019Ouro. Tem sess\u00f5es com essa com essas crian\u00e7as e jovens, em que trabalha a autorregula\u00e7\u00e3o das aprendizagens, comportamental, emocional, explora\u00e7\u00e3o vocacional e integra\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 um acompanhamento a longo prazo e de proximidade. Todas as semanas estamos com as nossas crian\u00e7as e jovens, e isto em cada um dos concelhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que a Bagos d\u2019Ouro arranja financiamento para acudir a essas situa\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>O financiamento parte muito do apoio de fundos europeus, tamb\u00e9m por donativos, como uma IPSS; por parceiros que confiam na nossa miss\u00e3o, que se identificam com os nossos valores e nos apoiam naquilo que tamb\u00e9m s\u00e3o os v\u00e1rios projetos que a Bagos d\u2019Ouro vai desenvolvendo.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana tivemos uma atividade, que \u00e9 o projeto \u2018Take Action\u2019 1 e 2, em que pegamos nos nossos Bagos d\u2019Ouro do 8.\u00ba, 9.\u00ba, 10.\u00ba e 11.\u00ba anos para passaram quatro dias em contato com v\u00e1rias profiss\u00f5es, foram conhecer empresas. Tudo isto no \u00e2mbito do processo de explora\u00e7\u00e3o vocacional. Quem tinha interesse em conhecer a profiss\u00e3o de m\u00e9dico veterin\u00e1rio, por exemplo, foi para uma cl\u00ednica veterin\u00e1ria e acompanhou um profissional durante esse dia.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Tem ideia de quantas crian\u00e7as e jovens est\u00e3o a apoiar nesta altura?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o ao todo, 204 crian\u00e7as e jovens que acompanhamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 trabalha tamb\u00e9m com jovens universit\u00e1rios que sentem a crise financeira e as dificuldades no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Tem sido um dos temas mais falados dos \u00faltimos tempos. J\u00e1 se cruzou com jovens obrigados a suspender a matr\u00edcula por causa dos custos de habita\u00e7\u00e3o por exemplo?<\/em><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o me cruzei, mas acho que me vou cruzar, n\u00f3s na Pastoral Universit\u00e1ria do Porto, acabamos por ter um pequeno fundo de apoio; muito pequenino que n\u00f3s procuramos tentar ter dispon\u00edvel para os pedidos que nos chegam. N\u00e3o \u00e9 um fundo muito grande, mas os pedidos t\u00eam aumentado cada vez mais; ponto n\u00famero 1. Ponto n\u00famero 2, os pedidos que s\u00e3o extremamente exigentes. Estamos a falar de pessoas que tiveram de sair da casa que tinham arrendada, porque n\u00e3o conseguiram lugar numa resid\u00eancia, porque de repente o seu panorama de vida mudou e em casa j\u00e1 n\u00e3o conseguem tamb\u00e9m dar apoio para continuarem os estudos. E come\u00e7a a haver muitos pedidos de apoios para tratar das despesas com a faculdade, porque come\u00e7am a n\u00e3o ter capacidade tamb\u00e9m para pagar as propinas. E tamb\u00e9m em termos alimentares, porque n\u00e3o t\u00eam dinheiro para conseguir alimentar-se durante a semana. Os pedidos de apoio que recebemos mais s\u00e3o a estes 3 n\u00edveis: propinas, alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois \u00e9 tudo um efeito domin\u00f3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Esses jovens, apesar das dificuldades que est\u00e1 a relatar, continuam a sentir solidariedade para com quem sofre a sua volta. Compromisso social e voluntariado? <\/em><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma pergunta muito pertinente e um grande teste para quem passa por<\/p>\n<p>dificuldades, e eu fico sempre reticente a responder, porque acho que s\u00f3 quem passa por dificuldades \u00e9 que sabe o que \u00e9 passar por dificuldades e parece que isto \u00e9 um chav\u00e3o, mas isto \u00e9 um teste muito grande \u00e0quilo que s\u00e3o os objetivos da nossa vida, o que tra\u00e7amos para a nossa vida. Como \u00e9 que vamos viver a nossa vida?<\/p>\n<p>Eu acho que sim, e que n\u00e3o. Acho que depende muito da personalidade da pessoa, da sensibilidade da pessoa e como \u00e9 que a pessoa encara as suas dificuldades.<\/p>\n<p>Encontro-me com universit\u00e1rios que est\u00e3o desesperados e que olham muito centrados em si,<\/p>\n<p>porque sentem que t\u00eam de sobreviver, tem de se desenrascar, t\u00eam que descobrir a forma. Mas tenho outros que a sensibilidade \u00e9 despertada pelo facto de terem sido ajudados. Ou seja, ajudaram-me a mim e agora tamb\u00e9m tenho a responsabilidade de retribuir.<\/p>\n<p>Por isso acho que acaba por ser um processo, com duas fases. Uma primeira em que se calhar eu sinto as dificuldades e estou mais preocupado com a minha, e faz todo o sentido. E uma segunda em que reflito e sinto que tenho de retribuir porque percebo que h\u00e1 pessoas que est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o que eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 aqueles que perante o conforto n\u00e3o t\u00eam essa vis\u00e3o solid\u00e1ria para apoiar?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Outra realidade aqui em Portugal, que que vai chamando muita aten\u00e7\u00e3o dos jovens, sobretudo os jovens cat\u00f3licos, \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o para a Jornada Mundial da Juventude. Como \u00e9 que se sente esta mobiliza\u00e7\u00e3o para participa\u00e7\u00e3o no encontro de agosto?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que um jovem que estiver integrado numa par\u00f3quia, acho que facilmente vai ser mobilizado atrav\u00e9s dos seus grupos de jovens. Facilmente vai -se mobilizar e vai-se inscrever para participar nas jornadas. Acho que a grande quest\u00e3o s\u00e3o os jovens que n\u00e3o t\u00eam par\u00f3quias. H\u00e1 muitos jovens que eu noto por a\u00ed que n\u00e3o est\u00e3o inseridos numa par\u00f3quia, ou afastaram-se com o tempo e aproximaram-se da Faculdade atrav\u00e9s de experi\u00eancias de voluntariado cat\u00f3lico, mas que n\u00e3o est\u00e3o inseridos numa par\u00f3quia. Ent\u00e3o para eles, a realidade de ir \u00e0s Jornadas Mundiais da Juventude torna-se um pouco distante, porque se interrogam, com quem \u00e9 que eu vou?\u00a0Com que grupo \u00e9 que \u00e9 suposto eu ir? Inscrevo-me tamb\u00e9m sozinho? Mas o objetivo disto \u00e9 tamb\u00e9m o viver em Comunidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 um desconforto um pouco grande de darem o passo para avan\u00e7arem e integrarem-se<\/p>\n<p>nesta grande aventura que acho que vai ser esta Jornada e que est\u00e3o a ser n\u00e3o s\u00f3 sua prepara\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o que vai ser esta semana.\u00a0Mas depois acho que falta tamb\u00e9m um empurr\u00e3o e acho que compete um pouco \u00e0 pastoral universit\u00e1ria, atrav\u00e9s das suas entidades, seus representantes de dar este empurr\u00e3o, de espica\u00e7ar, de dizer, olha, vem connosco; podes ir por aqui, podes ir por este grupo, podes ir por este conjunto de pessoas, por a\u00ed fora. Porque de facto n\u00e3o faltam locais, onde n\u00f3s nos podemos inscrever. E depois acho que tamb\u00e9m \u00e9 um desafio, pela situa\u00e7\u00e3o que a Igreja est\u00e1 a passar. E isso tamb\u00e9m n\u00e3o facilita a conjuntura de querer ir \u00e0 Jornada. S\u00f3 as jornada em si, j\u00e1 foi um tema bastante discutido pela quest\u00e3o das infraestruturas por a\u00ed fora, e agora esta situa\u00e7\u00e3o que estamos a passar tamb\u00e9m acho que de todo tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda aqueles jovens que se calhar podiam viver as Jornadas e ser uma experi\u00eancia transformadora, um desafio de se aproximarem daquilo que \u00e9 a experi\u00eancia de f\u00e9.<\/p>\n<p>Se calhar todo este contexto faz com que tenham medo de dar o passo ou ficam mais hesitantes ou mudem a sua opini\u00e3o e de facto, n\u00e3o queiram ir \u00e0 Jornada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_277956\" aria-describedby=\"caption-attachment-277956\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-277956\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414-400x225.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414-1536x865.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20230403_115414.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-277956\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A crise e a pol\u00e9mica relacionada com os abusos t\u00eam motivado debate ao n\u00edvel da pastoral universit\u00e1ria? <\/em><\/p>\n<p>Em termos de atividade da pastoral universit\u00e1ria ainda n\u00e3o foi uma quest\u00e3o suscitada entre n\u00f3s para discutirmos com a comunidade estudantil.\u00a0Em termos de pastoral universit\u00e1ria sinto que ainda estamos a digerir.\u00a0Ainda estamos a compreender, por um lado, quais v\u00e3o ser as implica\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9, eu acredito que vai haver muito mais implica\u00e7\u00f5es. As pessoas que n\u00e3o se enganem que este assunto vai durar muito mais no tempo. Acho que isto \u00e9 dos maiores desafios que a Igreja vai passar neste s\u00e9culo XXI. Agora acho que ainda estamos a digerir, a perceber. O Relat\u00f3rio e as suas conclus\u00f5es ainda s\u00e3o recentes, o que faz com que ainda estejamos a digerir e a compreend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a &#8220;bombardeamento \u201cde informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m permite perceber o que \u00e9, e o que n\u00e3o \u00e9. E tamb\u00e9m o que \u00e9 que aconteceu. E por outro lado, a pr\u00f3pria pessoa que tenha uma experi\u00eancia<\/p>\n<p>de f\u00e9, precisa de tempo para digerir isso na institui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a igreja onde se insere como leigo. Neste caso eu como leigo, tento tamb\u00e9m interiorizar e tento conseguir compreender tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas nota-se grande preocupa\u00e7\u00e3o pelo assunto pelo tema e pela pol\u00e9mica. Esse \u00e9 um assunto sobretudo externo \u00e0 pastoral universit\u00e1ria. \u00c9 assunto de conversa frequente apenas com as pessoas com quem habitualmente est\u00e1? <\/em><\/p>\n<p>Na equipa \u00e9 uma coisa que n\u00f3s temos falado constantemente. A implica\u00e7\u00e3o de<\/p>\n<p>que esta situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a ter nas nossas atividades&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E j\u00e1 est\u00e1 a ter\u2026.<\/em><\/p>\n<p>Acho que sim. Acho que h\u00e1 um descr\u00e9dito muito maior naquilo que \u00e9 a Igreja institui\u00e7\u00e3o. E depois n\u00e3o s\u00f3. Tamb\u00e9m h\u00e1 as implica\u00e7\u00f5es da crise na Igreja na crise de f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma quest\u00e3o que fizemos a semana passada e que me parece pertinente repetir<\/em><\/p>\n<p><em>agora e que tem a ver com os caminhos. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o digerir e entender e dar um sentido a tudo o que est\u00e1 a acontecer. Haver\u00e1 a necessidade de uma resposta. Essa resposta tem de ser participada? Na semana passada fal\u00e1vamos na necessidade de integrar este debate no processo sinodal que est\u00e1 em curso&#8230; Os caminhos de solu\u00e7\u00e3o que forem encontrados t\u00eam de ser frutos de uma consulta mais alargada e de uma confian\u00e7a maior em quem est\u00e1 no terreno? <\/em><\/p>\n<p>Sim. Falando um bocadinho disto dos caminhos, eu acho que o caminho come\u00e7a em<\/p>\n<p>primeiro lugar, por cada cat\u00f3lico.\u00a0 Se n\u00f3s acreditamos, se n\u00f3s temos f\u00e9 e se h\u00e1 aqui um conjunto de valores que n\u00f3s encarnamos atrav\u00e9s da nossa vida \u00e9 preciso p\u00f4r em pr\u00e1tica esses valores. E acho que come\u00e7a por cada um de n\u00f3s. E esse caminho come\u00e7a por cada um de n\u00f3s. Eu costumo dizer, \u00e0s vezes, que o ser cat\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ir \u00e0 missa ao domingo. Ir \u00e0 missa \u00e9 important\u00edssimo, mas s\u00f3 ir \u00e0 missa ao domingo, n\u00e3o \u00e9 nada. \u00c9 verdade, porque o ir \u00e0 missa \u00e9 o in\u00edcio para aquilo que vamos fazer na semana a seguir. E come\u00e7a atrav\u00e9s da nossa atitude como cat\u00f3licos e sermos cat\u00f3licos, atentos, conscientes, ativos e sempre com um olhar de servi\u00e7o para o outro, porque, acima de tudo, eu partilho isto com os jovens universit\u00e1rios. E pensar que a grande<\/p>\n<p>responsabilidade que agora est\u00e1 a recair sobre a igreja \u00e9 uma responsabilidade que tamb\u00e9m vai recair sobre os jovens cat\u00f3licos atrav\u00e9s da nossa forma de estar, na forma de falar, na nossa atitude, que tamb\u00e9m deve ser n\u00e3o s\u00f3 articulada como uma igreja sinodal &#8211; na medida em que a Igreja, se n\u00f3s formos ver, se calhar acaba por ser uma salada de frutas.\u00a0Isto \u00e9, tem se calhar os ananases que s\u00e3o os leigos jovens; tem se calhar os kiwis que s\u00e3o os leigos mais velhos; tem as ordens religiosas e por a\u00ed fora.\u00a0Ent\u00e3o, esta sala de frutas tem de estar no ponto para uma pessoa conseguir<\/p>\n<p>desfrutar dessa mesma salada de frutas.\u00a0 \u00c9 um exemplo um bocado peculiar, sem d\u00favida, mas foi o exemplo que me ocorreu porque a salada de frutas quando n\u00e3o est\u00e1 bem conjugada sabe sempre mal. Por isso, eu acho que temos que nos coordenador muito bem, e temos de ficar todos na mesma p\u00e1gina, para todos tamb\u00e9m encontrarmos a forma coerente de como vamos agir. Eu aqui digo que ainda estamos a digerir porque eu ainda n\u00e3o percebi muito bem, como Pastoral Universit\u00e1ria, como um secretariado, qual \u00e9 a minha a\u00e7\u00e3o perante isto que est\u00e1 a acontecer com a Igreja. O que \u00e9 que me vai ser pedido, concretamente? O que \u00e9 eu posso fazer? quais s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es concretas? quais s\u00e3o os objetivos? Isso eu sinto que ainda n\u00e3o aconteceu. E \u00e9 por isso que eu sinto que ainda estou a digerir para compreender, e para tamb\u00e9m n\u00e3o dar aqui um passo em falso, porque o assunto \u00e9 de uma sensibilidade enorme.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos terminar com a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa, que se assinala hoje. H\u00e1 espa\u00e7o para a alegria, apesar de todas estas dificuldades? <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 e tem de haver. Ou vemos o copo meio cheio, ou vemos o copo meio vazio e acho que \u00e0s vezes podemos ver os dois. N\u00e3o podemos ignorar aquilo que est\u00e1 a acontecer, mas n\u00e3o \u00e9 porque aconteceram coisas m\u00e1s que deixam de acontecer coisas boas. E n\u00e3o \u00e9 porque est\u00e1 a acontecer isto na Igreja que tem de afetar aquilo que \u00e9 a experi\u00eancia de f\u00e9 que todos n\u00f3s vivemos. Acima de tudo, n\u00e3o pode ser motivo para que deixe de haver alegrias, deixe de haver a\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o, deixe de haver a Igreja em sa\u00edda que o Papa Francisco tanto defende.\u00a0Ali\u00e1s, acho que tem de ser exatamente o contr\u00e1rio. Isto tem de ser motivo para sermos mais ativos, ser uma igreja mais em sa\u00edda para mostrar que de facto; pese embora isto que aconteceu &#8211; sem esquecer, sem desrespeitar, sem desvalorizar -isto n\u00e3o \u00e9 tudo e que tamb\u00e9m h\u00e1 espa\u00e7o para esta alegria para trazer, pelo menos, uma mensagem esperan\u00e7osa de bonan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste Domingo de P\u00e1scoa, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o diretor-adjunto da Pastoral Universit\u00e1ria da Diocese do Porto e volunt\u00e1rio na Bagos d\u2019Ouro, uma Institui\u00e7\u00e3o Particular de Solidariedade Social que apoia a educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e 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