{"id":277814,"date":"2023-04-07T19:05:38","date_gmt":"2023-04-07T18:05:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=277814"},"modified":"2023-04-07T19:05:38","modified_gmt":"2023-04-07T18:05:38","slug":"homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-de-d-manuel-clemente-na-se-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-de-d-manuel-clemente-na-se-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Homilia na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor de D. Manuel Clemente, na S\u00e9 de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Pelas suas chagas fomos curados<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s<\/p>\n<p>Em Sexta-feira Santa, quando tudo nos encaminha para a Cruz do Senhor, detenhamo-nos no trecho de Isa\u00edas que serviu aos primeiros crist\u00e3os para aceitarem a morte de Jesus e o seu significado. Ouvimo-lo h\u00e1 pouco: \u00abEle suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas n\u00f3s v\u00edamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o foi nada f\u00e1cil aos que tinham seguido Jesus desde a Galileia e visto os seus milagres assistirem ao que ouvimos na narra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o. Esperavam a realiza\u00e7\u00e3o das profecias messi\u00e2nicas, mas em triunfo e gl\u00f3ria e n\u00e3o com tanta humilha\u00e7\u00e3o e dor.<\/p>\n<p>Tudo parecia desmentir o que esperavam dele e s\u00f3 o foram compreendendo a partir do t\u00famulo vazio que lembraremos depois. Tamb\u00e9m \u00e0 luz de textos como o que ouvimos, que a tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica guardara, mas tinham permanecido algo enigm\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Era realmente muito estranho, um Messias assim. Ainda hoje o \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 para a grande maioria do seu pr\u00f3prio povo, como para a hist\u00f3ria religiosa da humanidade, que n\u00e3o integra outro Deus igual.<\/p>\n<p>No entanto, foi precisamente desse modo e daqui n\u00e3o podemos desviar o olhar nem o cora\u00e7\u00e3o. Jesus salvou-nos bem por dentro do nosso drama, compartilhando-o inteiramente e fazendo-nos companhia onde mais precisamos de a ter, mesmo na injusti\u00e7a mais sofrida e na dor mais atroz. Tudo isto fez seu, para o entregar nas m\u00e3os de Deus Pai e nos remir \u00e0 sua custa.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Cruz tardou algum tempo em impor-se como sinal crist\u00e3o. S\u00e3o Paulo, ao escrever que se gloriava na Cruz do Senhor foi um precursor desse caminho, que ainda assim encontraria resist\u00eancias, pois era considerado maldito o que morresse num madeiro.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a coincid\u00eancia da profecia de Isa\u00edas com aquilo que a nossa exist\u00eancia tem de mais dram\u00e1tico e direta ou indiretamente nos toca a todos acabou por convencer as primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s de que a reden\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia acontecer deste modo, quando em Cristo a dor humana e o amor divino acabassem por ser uma coisa s\u00f3.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o portuguesa, temos as chagas de Cristo por bras\u00e3o e posso acrescentar que com elas muitos de n\u00f3s temos encontrado ao longo dos s\u00e9culos algum sentido para a dor que sofremos, pessoal ou coletivamente. Creio mesmo que o sentido redentor que o sofrimento pode alcan\u00e7ar, quando unido ao de Cristo, para a salva\u00e7\u00e3o dos outros, \u00e9 a marca mais profunda que a evangeliza\u00e7\u00e3o deixou entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Assim o tenho ouvido da boca de muitos, que, unidos \u00e0 paix\u00e3o de Cristo, encontram sentido para o que padecem e n\u00e3o teria outra solu\u00e7\u00e3o. Ainda recentemente o testamento espiritual do nosso saudoso D. Daniel \u00e9 um exemplo magn\u00edfico disto mesmo. E posso acrescentar que algo semelhante ouvi a cl\u00e9rigos e leigos atingidos por doen\u00e7a mortal ou muito grave. Trata-se do realismo crist\u00e3o mais essencial e de amor desinteressado e em estado puro.<\/p>\n<p>\u00c9 demasiado f\u00e1cil sentir-se \u201csalvo\u201d quando tudo corre bem, ou quando nos alheamos da vida como ela \u00e9, em n\u00f3s e nos outros. Tamb\u00e9m n\u00e3o chega pedir com compreens\u00edvel interesse que as coisas nos corram sempre bem, com alguma intercess\u00e3o celeste. Mais tarde ou mais cedo, a realidade imp\u00f5e-se a cada um, como sempre se imp\u00f5e a quem esteja atento \u00e0 infelicidade alheia.<\/p>\n<p>Mas Jesus \u00e9 Emanuel, que quer dizer \u201cDeus connosco\u201d, e precisamente a\u00ed onde precisamos de ser recriados com o mesmo amor divino que nos trouxe \u00e0 vida. Aconteceu na Cruz, que n\u00e3o rejeitou para salvar a pr\u00f3pria cruz do mundo, feitas uma coisa s\u00f3 nele mesmo, unido inteiramente a n\u00f3s e unido absolutamente a Deus Pai, eterna fonte de vida.<\/p>\n<p>Essa mesma vida que lhe jorrou do peito aberto em inextingu\u00edvel sangue e \u00e1gua, que sacramentalmente recebemos. Esse mesmo amor com que \u201cexpirou\u201d e agora nos renova no Esp\u00edrito divino.<\/p>\n<p>Nos dias que correm e nas tristezas que nos tocam, na Igreja, no mundo ou na vida que n\u00f3s e os outros levamos, n\u00e3o percamos nunca de vista a Cruz que nos congrega. Essa mesma da qual esteve pendente a salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Foi o sinal que recebemos no Batismo, \u00e9 o sinal com que nos benzemos e persignamos tantas vezes, \u00e9 a marca da salva\u00e7\u00e3o que ganh\u00e1mos e repartimos. Uma vida autenticamente crist\u00e3 \u00e9 uma vida em forma de cruz, como Jesus nela se entregou a Deus Pai e como nela se expandiu para todos. Sim, para todos, tanto para o bom ladr\u00e3o que o ladeava como para a sua M\u00e3e e quem mais ali estava. E eram apenas o princ\u00edpio da multid\u00e3o que se acrescentou at\u00e9 hoje, neste imenso G\u00f3lgota do mundo.<\/p>\n<p>Quando algum laicismo tenta apagar os s\u00edmbolos religiosos dos lugares p\u00fablicos, atingindo com isso a pr\u00f3pria Cruz, n\u00e3o sabe o que faz nem se apercebe do que priva tanta gente, que ganharia em conhec\u00ea-la e ao seu verdadeiro significado.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00f3s, quando nos afastamos da Cruz e n\u00e3o lhe damos o devido relevo, quer na vida quer nos espa\u00e7os de culto, ou quando n\u00e3o fazemos do seu an\u00fancio o ponto central da catequese ou do discurso, privamos os outros do que temos de mais essencial como reden\u00e7\u00e3o propriamente dita.<\/p>\n<p>Nada conseguir\u00e1 apagar o drama humano e nada o redime como a Cruz do Senhor, donde brota a vida. Estejamos com Jesus onde ele nos salva, estejamos com Ele mais pr\u00f3ximos de todos, sobretudo dos que mais sofrem no corpo ou no esp\u00edrito. \u00abAbracemos a cruz da vida \u00e0 luz pura do seu rosto\u00bb. N\u00e3o fujamos dela, salvemo-nos com ela, onde Jesus nos redime.<\/p>\n<p>Como nalguns crucifixos, a Cruz tem um resplendor que anuncia a salva\u00e7\u00e3o que nos oferece. E deslumbra-nos ver como a Cruz da JMJ, t\u00e3o simples e despojada como \u00e9, vem congregando tantos jovens de diocese em diocese, sem precisar de mais nada sen\u00e3o dela mesma e da atra\u00e7\u00e3o que exerce. \u00c9 um exemplo por demais eloquente da vida que irradia.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m um \u201csinal dos tempos\u201d, que bem precisam dela para se renovarem agora. As pr\u00f3prias chagas que o Ressuscitado mostrou a Tom\u00e9, essas mesmas com que O cravaram no madeiro, recordam que a ressurrei\u00e7\u00e3o passa pela Cruz, como a vida que se ganha quando se oferece. Porque \u00abpelas suas chagas fomos curados\u00bb!<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 7 de abril de 2023<\/p>\n<p>+ Manuel, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":9,"featured_media":220095,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343,275],"class_list":["post-277814","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=277814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277814\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/220095"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=277814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=277814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=277814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}