{"id":277801,"date":"2023-04-07T18:22:29","date_gmt":"2023-04-07T17:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=277801"},"modified":"2023-04-07T18:36:46","modified_gmt":"2023-04-07T17:36:46","slug":"homilia-de-d-manuel-felicio-bispo-da-guarda-na-celebracao-de-sexta-feira-santa-paixao-e-morte-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-felicio-bispo-da-guarda-na-celebracao-de-sexta-feira-santa-paixao-e-morte-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Fel\u00edcio, bispo da Guarda, na celebra\u00e7\u00e3o de Sexta-Feira Santa, Paix\u00e3o e Morte do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>1.Celebramos a Paix\u00e3o e Morte de Jesus.<\/p>\n<p>Diante do Senhor, morto e ressuscitado, contemplamos o mist\u00e9rio da morte e a realidade do sofrimento que s\u00e3o de todos e n\u00e3o t\u00eam justifica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Olhamos para o mal que faz sofrer, sobretudo tantos inocentes; para os erros cometidos\u00a0 por todos, mas principalmente pelos que t\u00eam especiais responsabilidades na condu\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica, em diferentes n\u00edveis.<\/p>\n<p>Olhamos para as culpas derivadas dos erros cometidos, umas vezes assumidas por quem os praticou e outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhamos para os inocentes que sofrem e pagam por erros que n\u00e3o cometeram, v\u00edtimas de cal\u00fanias e persegui\u00e7\u00f5es, quantas vezes a coberto das leis e sujeitos aos interesses de quem tem o poder.<\/p>\n<p>E perguntamo-nos naturalmente sobre quem deve pagar pelos preju\u00edzos causados em consequ\u00eancia dos erros praticados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de guerra que, h\u00e1 mais de um ano, atinge neste momento n\u00e3o s\u00f3 os dois pa\u00edses mais diretamente envolvidos, mas tamb\u00e9m toda a Europa e o mundo obriga-nos a parar e a considerar a gravidade dos erros e pecados a partir das suas consequ\u00eancias na vida das pessoas e dos povos. E perguntamo-nos: quem e como deve pagar as consequ\u00eancias desastrosas desses erros, mesmo sem se poderem identificar por inteiro as culpas e os culpados?<\/p>\n<p>Estamos a constatar\u00a0 realidades que fazem parte da exist\u00eancia di\u00e1ria\u00a0 dos cidad\u00e3os e com consequ\u00eancias desastrosas para a vida das pessoas, das comunidades e da pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta hora de crise por que passa o mundo e a Igreja que faz parte deste mundo, reconhecemos os muitos erros praticados que est\u00e3o a provoc\u00e1-la e estamos dispostos a reparar as suas consequ\u00eancias, quanto de n\u00f3s depende, onde quer que elas se verifiquem.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos resignar-nos e baixar os bra\u00e7os, impedindo que tanto bem que tem passado por pessoas e institui\u00e7\u00f5es, agora questionadas em algum ou alguns dos seus procedimentos errados, inutilizem esse mesmo bem e fiquem impedidas de o continuar a oferecer \u00e0 sociedade de hoje e do futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2.A Paix\u00e3o e Morte de Cristo projeta luz sobre todas estas realidades e ajuda-nos a encontrar caminhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, ao escutarmos a passagem de Isa\u00edas sobre a figura simb\u00f3lica do Servo de Javeh, que antecipa a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio Cristo, n\u00f3s sentimos a proximidade e a solidariedade de algu\u00e9m que vive os mesmos dramas que se repetem na hist\u00f3ria e nos d\u00e1 indica\u00e7\u00f5es sobre como hoje os havemos de viver em forma positiva para n\u00f3s e para os outros.<\/p>\n<p>Assim, esse algu\u00e9m, sem ter cometido erros e sem culpas,\u00a0 suporta as nossas enfermidades e toma sobre si as nossas dores. Mais ainda, carrega sobre os seus ombros o castigo devido \u00e0s nossas faltas, erros e pecados.<\/p>\n<p>Foi injustamente condenado \u00e0 morte, por uma senten\u00e7a in\u00edqua, mas n\u00e3o se revoltou, antes, humilhou-se voluntariamente\u00a0 e ofereceu a sua vida como sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o. Carrega sobre si as culpas da multid\u00e3o e intercede junto de Deus pelos pecadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta descri\u00e7\u00e3o do Profeta, n\u00f3s estamos a ver representada a pessoa de Jesus, esse Sumo sacerdote de que nos fala a Carta aos Hebreus. Ele, como Sumo Sacerdote, penetrou no c\u00e9u, sem deixar de se solidarizar com a nossa condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Carregou os nossos erros, pecados e culpas e respetivos castigos, sem qualquer atitude de revolta.<\/p>\n<p>E o caminho que nos aponta \u00e9 o de n\u00e3o responder \u00e0 viol\u00eancia com viol\u00eancia, mas sim o da obedi\u00eancia no sofrimento, o que implica sofrer com todos os que sofrem e carregar com as consequ\u00eancias dos pecados e outros males praticados, mesmo sem culpa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas \u00e9 sobretudo o drama da Paix\u00e3o e Morte do Senhor, cujo relato acab\u00e1mos de escutar, na vers\u00e3o do Evangelista S. Jo\u00e3o, que vem esclarecer as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis da nossa vida e propor-nos os caminhos que devemos seguir, principalmente quando a dor, o sofrimento injusto ou a pr\u00f3pria morte nos\u00a0 atingem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vejamos, ent\u00e3o, o que nos diz a Paix\u00e3o e Morte de Cristo sobre tudo isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 resultado de uma entrega pessoal, sem limites e livre, que ele faz da sua vida por uma causa superior. Podia ter fugido, enquanto Judas e os soldados que o procuravam prender ca\u00edram por terra. N\u00e3o o fez e seguiu em frente.<\/p>\n<p>Jesus diz-nos, assim, o que \u00e9 viver; porque viver nunca \u00e9 guardar a vida s\u00f3 para si, para seu bem individual, mas sim para bem de todos e com a vontade decidida de partilhar as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele suportou trai\u00e7\u00e3o de Judas assim como a dor indiz\u00edvel da nega\u00e7\u00e3o de Pedro. Suportou a flagela\u00e7\u00e3o, a coroa\u00e7\u00e3o de espinhos e os maus tratos do Pret\u00f3rio de Pilatos e no caminho para o Calv\u00e1rio, com. a cruz \u00e0s costas. N\u00e3o respondeu \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es injustas e caluniosas dos respons\u00e1veis judeus.<\/p>\n<p>Com clarivid\u00eancia e dignidade impressionantes, apresentou-se diante do Sumo sacerdote e depois diante de Pilatos, a cuja senten\u00e7a injusta se sujeitou. Da boca dele ouviu por tr\u00eas vezes o reconhecimento da sua inoc\u00eancia sem a consequente coragem para o libertar.<\/p>\n<p>E suportou com invulgar serenidade o \u00f3dio dos respons\u00e1veis judeus que pediam a sua morte e amea\u00e7avam Pilatos, se n\u00e3o atendesse este seu pedido in\u00edquo. Pilatos n\u00e3o teve coragem para cortar a direito e respeitar a verdade e a justi\u00e7a,\u00a0 mas cedeu \u00e0 press\u00e3o in\u00edqua da multid\u00e3o manipulada, entregando-o para ser crucificado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E Jesus, carregando com a cruz para o Calv\u00e1rio, encaminhou-se para a consuma\u00e7\u00e3o do mandato que recebera do Pai, como no-lo dizem as \u00faltimas palavras que pronunciou, antes de expirar: \u201cTudo est\u00e1 consumado\u201d.<\/p>\n<p>Mas,\u00a0 antes disso, ainda teve for\u00e7a para nos entregar, atrav\u00e9s do disc\u00edpulo amado, a sua M\u00e3e para ser a nossa M\u00e3e.<\/p>\n<p>E deixou-nos o seu lado aberto, de onde corre sangue e \u00e1gua, segundo atesta quem foi testemunha direta, o disc\u00edpulo amado S. Jo\u00e3o. Este Sangue e esta \u00c1gua, de facto, representam, por um lado, o conforto da Igreja e do seus sacramentos oferecido a to\u00addos; e, por outro, a for\u00e7a que nos impele sempre para vivermos a nossa vida como Jesus a viveu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3.Voltando \u00e0s realidades muito humanas e transversais a todos de onde partimos e colocando-nos diante do drama da Paix\u00e3o e Morte de Cristo, sentimos a urg\u00eancia de enfrentar com respon\u00adsabilidade os nossos erros e pecados e os dos outros, como\u00a0 tamb\u00e9m todas as suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>As culpas temos de as levar sempre a s\u00e9rio, em todas a situa\u00e7\u00f5es, principalmente quando geram consequ\u00eancias de sofrimento, sobretudo para os inocentes.<\/p>\n<p>Para bem de todos a culpa n\u00e3o pode nunca morrer solteira, porque as consequ\u00eancias dos erros e males praticados pedem repara\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao limite do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que pedimos tamb\u00e9m aos tribunais, cujas senten\u00e7as t\u00eam de pretender, mais do que aplicar castigos, recuperar as pessoas para o caminho do bem, no que t\u00eam de ser completados pelos estabelecimentos de reclus\u00e3o.<\/p>\n<p>De facto, identificar um criminoso, julg\u00e1-lo e conden\u00e1-lo \u00e9, sem d\u00favida, um ato muito positivo para toda a sociedade.<\/p>\n<p>Mas recuper\u00e1-lo, na sua dignidade inalien\u00e1vel de pessoa humana, passando a ter condi\u00e7\u00f5es para assumir responsabilidades na constru\u00e7\u00e3o do bem de todos \u00e9 ainda muit\u00edssimo mais importante e louv\u00e1vel. E \u00e9 isso o que todos temos de pretender, em vez de colocar no seu rosto a o estigma da condena\u00e7\u00e3o sem mais, que pode trazer a morte antes do tempo.<\/p>\n<p>Foi o que Jesus fez, ao carregar com as culpas da multid\u00e3o e suas consequ\u00eancias, sob o madeiro da cruz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Finalmente, sabemos que o perd\u00e3o dos inimigos e a vontade de perdoar sempre e em todas as circunst\u00e2ncias, como o fez Jesus ao dizer \u2013 \u201cPai perdoai-lhes porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d &#8211; s\u00e3o o \u00fanico caminho que leva \u00e0 paz, um bem essencial de que todos precisamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Paix\u00e3o e a Morte do Senhor s\u00e3o mist\u00e9rio que nunca \u00e9 demais meditar. \u00c9 o que n\u00f3s vamos continuar a fazer durante o sil\u00eancio desta Sexta-Feira Santa e tamb\u00e9m no sil\u00eancio do dia de amanh\u00e3, S\u00e1bado Santo, onde a pr\u00f3pria Liturgia fica calada, at\u00e9 \u00e0 Vig\u00edlia Pascal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>+Manuel R. Fel\u00edcio, Bispo da Guarda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":9,"featured_media":277500,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,275],"class_list":["post-277801","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277801","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=277801"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277801\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/277500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=277801"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=277801"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=277801"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}