{"id":277780,"date":"2023-04-07T15:53:23","date_gmt":"2023-04-07T14:53:23","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=277780"},"modified":"2023-04-07T16:18:07","modified_gmt":"2023-04-07T15:18:07","slug":"homilia-na-missa-vespertina-da-ceia-do-senhor-cardeal-patriarca-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-na-missa-vespertina-da-ceia-do-senhor-cardeal-patriarca-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Homilia na Missa Vespertina da Ceia do Senhor \u2013 cardeal-patriarca de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Amou-os at\u00e9 ao fim<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s<\/p>\n<p>Iniciando o sagrado Tr\u00edduo Pascal celebramos a Ceia do Senhor, como Paulo a lembrou na primeira narra\u00e7\u00e3o que temos dela. Parece t\u00e3o simples e preenche a hist\u00f3ria inteira \u2013 nossa, da Igreja e mesmo de quem n\u00e3o a conhe\u00e7a ainda: \u00abO Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o p\u00e3o e, dando gra\u00e7as, partiu-o e disse: \u201cisto \u00e9 o meu Corpo, entregue por v\u00f3s. Fazei isto em mem\u00f3ria de Mim.\u201d Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o c\u00e1lice e disse: \u201cEste c\u00e1lice \u00e9 a nova alian\u00e7a no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em mem\u00f3ria de Mim.\u00bb E prosseguia: \u00abNa verdade, todas as vezes que comerdes deste p\u00e3o e beberdes deste c\u00e1lice, anunciareis a morte do Senhor, at\u00e9 que Ele venha.\u00bb<\/p>\n<p>Somos crist\u00e3os como mem\u00f3ria viva do Senhor Jesus e unicamente assim. Mem\u00f3ria viva, celebrada e comungada, para que tamb\u00e9m por n\u00f3s repasse o que nos cerca. Por isso mesmo, cada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica conclui com um \u201cIde!\u201d, de Cristo em n\u00f3s, para chegar a todos.<\/p>\n<p>E \u00e9 an\u00fancio da morte do Senhor, porque a sua morte foi do tamanho da sua entrega, por n\u00f3s e para n\u00f3s. Entrega que, sendo total, como s\u00f3 uma humanidade divinamente preenchida poderia s\u00ea-lo, venceu a limita\u00e7\u00e3o que a morte nos traz, para ressuscitar na vida que nos d\u00e1. Lembremos a prop\u00f3sito esta exclama\u00e7\u00e3o de Paulo, noutra das suas cartas, t\u00e3o viva e contagiante como \u00e9: \u00abJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na f\u00e9 do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim\u00bb (Gl 2, 20).<\/p>\n<p>E assim ser\u00e1, at\u00e9 que Ele venha, ou seja, at\u00e9 que a vida crucificada e ressuscitada de Jesus seja universal e patente em toda a largueza do mundo, na quantidade e qualidade que tem, como cria\u00e7\u00e3o, humanidade, civiliza\u00e7\u00e3o e cultura. Podemos concluir que uma vida verdadeiramente eucar\u00edstica \u00e9 a comunh\u00e3o e expans\u00e3o da vida oferecida e ressuscitada do Senhor Jesus. Cabe-nos a n\u00f3s lev\u00e1-la a toda a parte, sobretudo a tantas situa\u00e7\u00f5es em que a morte parece sepultar os corpos ou as almas.<\/p>\n<p>O trecho evang\u00e9lico que escut\u00e1mos diz-nos que \u00abantes da festa da P\u00e1scoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim.\u00bb<\/p>\n<p>At\u00e9 ao fim\u2026 Ao fim do seu percurso terreno, certamente, como depois terminaria na Cruz, com a oferta total da sua vida, por n\u00f3s e para n\u00f3s. Essa mesma que lembramos e celebramos, n\u00e3o como quem a repete mas como quem a aprofunda e assimila sempre mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos dizer que celebramos ou participamos em muitas Missas, porque existe apenas aquela que o Senhor assinalou na Ceia e realizou na Cruz. Devemos dizer, isso sim, que n\u00e3o deixamos de celebrar e participar na \u00fanica Missa de sempre, porque como os antigos m\u00e1rtires e os que agora arriscam a vida para participar nela, n\u00e3o podemos viver sem a Eucaristia.<\/p>\n<p>Mas demos \u00e0 express\u00e3o um sentido mais do que temporal, porque a narrativa prossegue com o lava-p\u00e9s aos disc\u00edpulos e a ordem de o fazermos igualmente uns aos outros. Significar\u00e1 que o fim \u00e9 tamb\u00e9m aprendermos com Jesus a servirmos com humildade e prontid\u00e3o os nossos irm\u00e3os e a fazermos disto mesmo a finalidade e a eterniza\u00e7\u00e3o das nossas vidas, porque \u00abo amor jamais passar\u00e1\u00bb (1 Cor 13, 8).<\/p>\n<p>Assim insiste o evangelista mais adiante, no mesmo \u201cdiscurso de despedida\u201d: \u00ab\u00c9 este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. Ningu\u00e9m tem maior amor do que quem d\u00e1 a vida pelos seus amigos\u00bb (Jo 15, 12-13).<\/p>\n<p>O amor aos irm\u00e3os n\u00e3o era novidade na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Novidade sim era atingir este extremo e tocar tal fim, de amar como Jesus nos ama e dar a vida por quem se ama. Como de novo Jo\u00e3o lembrar\u00e1 na sua primeira carta: \u00abFoi com isto que fic\u00e1mos a conhecer o amor: Ele, Jesus, deu a sua vida por n\u00f3s; assim tamb\u00e9m n\u00f3s devemos dar a vida pelos nossos irm\u00e3os\u00bb (1 Jo3, 16).<\/p>\n<p>Amar at\u00e9 ao fim\u2026 Nada menos do que isto significa e nos exige a Ceia do Senhor, anunciando o seu corpo entregue e o seu sangue derramado, como aconteceria na Cruz, \u00faltimo sinal do amor de Deus por n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 comunh\u00e3o ocasional ou desatenta num momento chamativo duma cerim\u00f3nia entre outras. \u00c9 express\u00e3o aut\u00eantica do compromisso em atingir o mesmo fim de salvar-se salvando os outros, pela gra\u00e7a de Quem desse modo nos amou e salvou primeiro.<\/p>\n<p>Assim compreendemos como tantos crist\u00e3os e crist\u00e3s que hoje veneramos nos altares foram profundamente eucar\u00edsticos, para desse modo ganharem de Cristo a gra\u00e7a dum amor maior do que todas as dificuldades que surgissem. Foram at\u00e9 ao fim e agora est\u00e3o com Cristo a ajudarem-nos na mesma senda que trilharam. Mesmo que estreita seja a senda, como nos avisou tamb\u00e9m Jesus: \u00abQu\u00e3o apertado \u00e9 o caminho que conduz \u00e0 vida\u2026\u00bb (Mt 7, 14).<\/p>\n<p>Levemos a advert\u00eancia muito a s\u00e9rio. At\u00e9 com a seriedade que as circunst\u00e2ncias atuais nos imp\u00f5em, na vida do mundo mais pr\u00f3ximo ou mais afastado e mesmo da Igreja como deve ser.<\/p>\n<p>Na verdade, quando assistimos a esta \u201cguerra mundial em peda\u00e7os\u201d, como o Papa Francisco designa a soma de conflitos que n\u00e3o se resolvem e v\u00e3o em crescendo, martirizando tantas pessoas e pa\u00edses inteiros; quando encontramos tanta dificuldade em resolver problemas b\u00e1sicos de habita\u00e7\u00e3o garantida, alimenta\u00e7\u00e3o suficiente, educa\u00e7\u00e3o bastante, sal\u00e1rio digno, ou sa\u00fade para todos; ou mesmo quando na nossa vida de Igreja, pessoal ou comunit\u00e1ria, deparamos com problemas que nunca deveriam existir ou ter existido\u2026 Quando tudo isto e muito mais se acumula de negativo e contradit\u00f3rio com boas vontades e boas a\u00e7\u00f5es, que felizmente n\u00e3o faltam, conclu\u00edmos que nos amamos pouco ou n\u00e3o o fazemos at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Porque amar at\u00e9 ao fim, mesmo na Cruz que nos abre \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o das vidas, significa um interesse permanente e efetivo pelo bem dos outros e uma compreens\u00e3o da exist\u00eancia como d\u00e1diva, que s\u00f3 assim se realiza plenamente, quando faz do bem dos outros o seu pr\u00f3prio bem.<\/p>\n<p>Porque amar at\u00e9 ao fim \u00e9 nunca deixar de o fazer, sem desist\u00eancia nem cansa\u00e7o, como Cristo foi e nos permite ser, advertindo tamb\u00e9m: \u00abQuem permanece em mim e Eu nele, esse dar\u00e1 muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer\u00bb (Jo 15, 5).<\/p>\n<p>Uma vida eucar\u00edstica, em suma, n\u00e3o epis\u00f3dica mas constantemente levada e aprofundada, recebendo e partilhando o corpo e sangue de Jesus, tornados nossos para chegarem a todos. \u2013 Seja este o maior fruto do Tr\u00edduo que come\u00e7amos, para nunca desistirmos no caminho do bem!<\/p>\n<p>De seguida, o rito do lava-p\u00e9s dirige-se hoje a volunt\u00e1rios internacionais que trabalham generosamente na prepara\u00e7\u00e3o da Jornada Mundial da Juventude. Vieram dos cinco continentes, para tamb\u00e9m chegarem a este confim ocidental da Europa e fazer dele um lugar para os jovens do mundo inteiro. Tamb\u00e9m deste modo ir\u00e3o at\u00e9 ao fim. \u2013 Gra\u00e7as a Deus por eles, gra\u00e7as pelo que nos d\u00e3o a n\u00f3s!<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 6 de abril de 2023<\/p>\n<p>+ Manuel, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":9,"featured_media":277790,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343,275],"class_list":["post-277780","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277780","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=277780"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277780\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/277790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=277780"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=277780"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=277780"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}